Folha Informativa 20-04-2025

Domingo da Páscoa da Ressurreição do Senhor (PDF)

Uma esperança que não engana

Cón. José Manuel dos Santos Ferreira, Prior de São Francisco Xavier

Peter Farago, Ressurreição

Nesta Mensagem de Páscoa quero referir-me a um recente acontecimento trágico, amplamente noticiado: uma família espanhola, a família Escobar Camprubí, com vários membros a bordo de um helicóptero turístico que sobrevoava o Rio Hudson, em Nova Iorque, teve uma morte abrupta e trágica, quando o helicóptero se despenhou nas águas do rio.
O aparelho caiu inesperadamente, e com ele se extinguiram seis vidas, incluindo três crianças.
E, no entanto, neste abismo de tristeza, não faltou a oração. Não faltou quem, entre lágrimas, se agarrou a Deus como fazem as crianças aos pais numa noite escura.
Foi esta a oração enviada pelos familiares da família falecida. Encontrei-a num meio de informação espanhol, e senti o desejo de a divulgar a todos.
Como se lê no texto da notícia, “não é uma declaração teológica. Não é um texto destinado a debates nem pregações. É só uma oração. Sincera, desarmada, belíssima”.
Aqui está a oração:

“Senhor,
hoje não entendemos nada.
O dia foi interrompido por notícias grandes demais,
tristes demais,
e ficámos com um silêncio frio nos nossos corações,
como um quarto vazio.
Custa-nos, Senhor.
Custa-nos dizer “seja feita a Tua vontade”,
quando esta nos faz chorar tanto.
Custa-nos a acreditar que, no meio de uma perda
tão grande,
possa haver luz, significado e vida.
Mas nós agarramo-nos a Ti, Senhor,
como uma criança se agarra ao pai ou à mãe
no meio da noite.
Não entendemos, mas confiamos.
Não vemos, mas deixamo-nos guiar.
Não temos forças,
mas sabemos que as Tuas mãos nos sustentam.
Tu és o Deus da Vida, sabemos isso desde crianças,
e esta frase só pode significar
que aqueles que amamos não desaparecem,
mas vivem em Ti,
numa paz eterna que aqui só conseguimos pressentir.
Acolhe, Senhor, esta amada família,
como quem acolhe um presente desejado, precioso e único.
Dá-lhe um lugar na Tua casa,
aí onde já não há medo nem dor nem separação.
E a nós, Senhor, deixa-nos chorar.
Deixa-nos fazer perguntas, não para perder a fé,
mas para torná-la mais sincera.
Dá-nos o dom da consolação
e um dom ainda maior: a confiança.
Que não caiamos no desespero,
nem no isolamento,
nem na tristeza amarga.
Faz-nos capazes de recordar com gratidão,
de amar com mais profundidade
e de cuidarmos uns dos outros como Tu cuidas de nós.
E quando a luz voltar
— porque voltará —
que encontremos nela os rostos daqueles que perdemos,
transformados para sempre na Tua ternura eterna”.

Porque cito esta oração?
Porque tem tudo a ver com a Páscoa, que estamos a celebrar com grande alegria espiritual.
Sem a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, esta oração seria impossível. Diante desta e de outras terríveis tragédias, como a recente morte de mais de 35 pessoas, incluindo crianças, que se preparavam para celebrar o Domingo de Ramos, na cidade ucraniana de Sumy, vítimas de um ignóbil ataque russo, só seria possível a revolta, o desespero ou a indiferença.
Mas, com a morte redentora de Jesus e a sua ressurreição, é possível ter esperança. Uma esperança que não engana.

Desejo a todos uma Santa Páscoa, na alegria de Cristo ressuscitado.

Cónego José Manuel dos Santos Ferreira

 

 

A alegria do encontro com o Ressuscitado

Robert Anning Bell, As mulheres na ida ao Sepulcro

As mulheres deixaram o sepulcro com grande alegria e correram para dar a notícia aos discípulos.
Essa alegria, que surge do encontro vivo com o Ressuscitado, é uma emoção transbordante que as impulsiona a espalhar e contar o que testemunharam.
A ressurreição de Jesus não é apenas uma notícia maravilhosa ou o final feliz de uma história, mas algo que muda a nossa vida completamente e para sempre!

É a vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre o desânimo. Jesus rompeu a escuridão do sepulcro e vive para sempre: a sua presença pode iluminar qualquer coisa. Com Ele, cada dia torna-se uma etapa de um caminho eterno, cada ‘hoje’ pode esperar um ‘amanhã’, cada fim um novo começo, cada instante é projetado para além dos limites do tempo, em direção à eternidade.

Papa Francisco, 2022

 

Páscoa: festa do amor sem fim

Ermes Ronchi, 2023

Wiiliam Adolphe Bouguereau, As mulheres no Sepulcro

Três mulheres, pela manhãzinha, quase clandestinamente, naquela hora em que se passa da escuridão à luz, vão cuidar do corpo de Jesus, como sabem, com o pouco que têm.
Amam o seu mestre mesmo estando morto, e descobrem que o tempo do amor é maior que o tempo da vida, à medida que passam de surpresa em surpresa.
A Páscoa é a festa dos rochedos rolados para fora, das pedras reviradas da entrada do coração.
Espanto, desorientação, medo, ainda assim entram, frágeis e indómitas, de encontro a uma surpresa ainda maior: um mensageiro jovem (todo o mundo é novo, fresco, juvenil, naquela manhã) com um anúncio que parece ser a bela notícia tão esperada: «Jesus, que vistes crucificado, ressuscitou».
Deviam ter rejubilado, em vez disso emudecem.
O jovem insta, «não está aqui».
Que bela esta palavra, «não está aqui», Ele está, vive, mas não aqui. Ele é o vivente, um Deus que surpreende na vida. Está, mas deve ser procurado fora do território dos túmulos, antes pelas estradas, pelas casas, em todo o lado, exceto entre as coisas mortas.
E depois, ainda, nova surpresa: a confiança imensa do Senhor, que confia precisamente a elas, tão desorientadas, o grande anúncio: «Ide e dizei», com os dois imperativos próprios da missão. De discípulas sem palavras a missionárias dos discípulos sem coragem. «Preceder-vos-ei na Galileia».
E surge um Deus migrante, que ama os espaços abertos, que abre caminhos, atravessa muros e escancara portas: uma semente de fogo que abre caminhos na História.
Precede-vos: avança à cabeça da longa caravana da humanidade encaminhada rumo à vida; caminha à frente, a abrir a imensa migração rumo à terra prometida.
O Evangelho da Páscoa narra-nos que na vida está oculto um segredo que Cristo veio sussurrar-nos amorosamente ao ouvido: há um movimento de amor dentro da vida que não permite que ela fique parada, que a remete em movimento após cada morte, que por cada ser humano que mata há centenas que cuidam das feridas, e mil cerejeiras que continuam obstinadamente a florir. Um movimento de amor que revela o nome último de Deus: Ressurreição.

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