Domingo XXVI do Tempo Comum (PDF)
Dizer não antes do sim
Cardeal D. Tolentino de Mendonça
Nós somos mulheres livres, homens livres?
Não sei.
E se somos até que ponto somos?
A liberdade interior e evangélica é uma coisa que se treina. Por exemplo: para podermos dizer sim temos que dizer não; muitos nãos são necessários para podermos dizer um sim que seja autêntico.
O nosso eu é uma coisa imensa e muitas vezes tirânica.
O nosso eu é um ditador prepotente e caprichoso e se não o contrariamos acabamos por viver uma vida absurdamente egoísta. Nós não somos o centro do mundo.
Temos que colocarmo-nos no nosso lugar e de uma forma consciente e crítica.
Transformar feridas em pérolas
Paolo Scquizzato
A pérola é esplêndida e preciosa. Nasce quando uma ostra é ferida.
Quando um corpo estranho – um grãozinho de areia – penetra no seu interior e a habita, a concha começa a produzir uma substância (a madrepérola) com que o cobre para proteger o seu corpo invadido.
No fim, ter-se-á formado uma bela pérola, brilhante e valiosa. Se não for ferida, a ostra nunca poderá produzir pérolas, porque a pérola é uma ferida cicatrizada.
Quantas feridas temos dentro de nós, e substâncias impuras que nos habitam? Limites, debilidades, pecados, incapacidades, inadequações, fragilidades psicofísicas… quantas feridas nas nossas relações interpessoais? Para nós, a questão fundamental será sempre esta: o que fazemos com elas? Como as vivemos?
A única via de saída é envolver as nossas feridas com aquela substância cicatrizante que é o amor.
A ideia que frequentemente trazemos em nós é que deveríamos ser de outro modo; que, para sermos aceites por nós próprios, pelos outros e por Deus, não deveríamos ter dentro de nós aquelas impurezas.
Quereríamos ser simples «ostras vazias», «puros», em suma. Mas isto é impossível, e, mesmo que nos considerássemos tais, isso não significaria que nunca fomos feridos, mas apenas que não o reconhecemos, que não soubemos perdoar-nos e perdoar, compreender e transformar a dor em amor; e seríamos simplesmente pobres e estaríamos terrivelmente vazios.
O caminho da Salvação
Mons. José Maria Pereira
Jesus, no trecho evangélico, insiste sobre um aspecto importante: sobre a concretude da resposta.
A adesão do homem a Deus é livre, mas deve ser concreta e eficiente.
Não é quem diz “Senhor, Senhor” que entra no Reino dos Céus, mas quem faz a vontade de Deus.
Não quem se contenta com pios sentimentos e veleidades, mas quem arregaça as mangas e traduz em gestos e factos de vida quotidiana a vontade de Deus.
Dos dois filhos da parábola, Jesus diz que prefere aquele que recusa por palavras, mas depois se arrepende e faz aquilo que o pai lhe pediu; prefere a este porque o outro diz sim ao pai, mas depois não faz nada e não vai para a lavoura trabalhar.
Se descuidarmos de procurar com mais diligência consolidar a nossa vocação e eleição (2Pd 1,10), mediante uma contínua conversão do coração, é contra nós que se dirige a Palavra de Jesus: Os publicanos e as meretrizes precedem-vos no Reino de Deus.
A salvação é coisa pessoal e decide-se na atitude que cada um assume diante de Deus e do seu anúncio. Cada um tem a possibilidade de se salvar, mas somente se o quiser; sinal disso é o perdão que Deus dá sempre e generosamente a quem decide deixar a vida do mal para converter–se a Ele de todo o coração.
Diz Santo Agostinho: “Aquele que te criou sem a tua vontade não te salva se tu não queres”.
Sinal dessa liberdade do homem é sua capacidade de se converter do mal para o bem, de mau tornar –se bom e, por outro lado, a capacidade de se perverter, passando de bom para réprobo.
Ninguém, portanto, está condicionado irremediavelmente na vida pelo seu passado.
Coerência. Não hipocrisia
O formal é uma expressão do real, devem caminhar juntos.
Mas quando o formal se separa do real, vivemos só de formalidades e aparências.
É isto que Deus condena: viver de aparências.
Uma vida para aparecer, sem verdade na realidade do coração das pessoas.
Aliás, o Senhor recomenda que sejamos muito simples nas aparências para não nos vangloriarmos das obras boas.
Parecer e não fazer: isto é hipocrisia.
A realidade deve estar unida à aparência.
Devo parecer o que sou.
E devemos ir em frente deste modo. “Mas, Padre, não consigo, sou frágil…”.
Bem, esta é a tua verdade, obrigado por a dizeres.
Pede ao Senhor a força e vai humildemente em frente, com o que puderes.
Mas não disfarces a alma, porque se disfarçares a alma, o Senhor não te reconhecerá.
Peçamos ao Senhor a graça de sermos coerentes, de não sermos vaidosos, de não parecermos mais dignos do que somos.
Peçamos esta graça: a coerência entre o formal e o real, entre a realidade e as aparências.
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