Uma esperança que não engana
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira, Prior de São Francisco Xavier

Nesta Mensagem de Páscoa quero referir-me a um recente acontecimento trágico, amplamente noticiado: uma família espanhola, a família Escobar Camprubí, com vários membros a bordo de um helicóptero turístico que sobrevoava o Rio Hudson, em Nova Iorque, teve uma morte abrupta e trágica, quando o helicóptero se despenhou nas águas do rio.
O aparelho caiu inesperadamente, e com ele se extinguiram seis vidas, incluindo três crianças.
E, no entanto, neste abismo de tristeza, não faltou a oração. Não faltou quem, entre lágrimas, se agarrou a Deus como fazem as crianças aos pais numa noite escura.
Foi esta a oração enviada pelos familiares da família falecida. Encontrei-a num meio de informação espanhol, e senti o desejo de a divulgar a todos.
Como se lê no texto da notícia, “não é uma declaração teológica. Não é um texto destinado a debates nem pregações. É só uma oração. Sincera, desarmada, belíssima”.
Aqui está a oração:
“Senhor,
hoje não entendemos nada.
O dia foi interrompido por notícias grandes demais,
tristes demais,
e ficámos com um silêncio frio nos nossos corações,
como um quarto vazio.
Custa-nos, Senhor.
Custa-nos dizer “seja feita a Tua vontade”,
quando esta nos faz chorar tanto.
Custa-nos a acreditar que, no meio de uma perda
tão grande,
possa haver luz, significado e vida.
Mas nós agarramo-nos a Ti, Senhor,
como uma criança se agarra ao pai ou à mãe
no meio da noite.
Não entendemos, mas confiamos.
Não vemos, mas deixamo-nos guiar.
Não temos forças,
mas sabemos que as Tuas mãos nos sustentam.
Tu és o Deus da Vida, sabemos isso desde crianças,
e esta frase só pode significar
que aqueles que amamos não desaparecem,
mas vivem em Ti,
numa paz eterna que aqui só conseguimos pressentir.
Acolhe, Senhor, esta amada família,
como quem acolhe um presente desejado, precioso e único.
Dá-lhe um lugar na Tua casa,
aí onde já não há medo nem dor nem separação.
E a nós, Senhor, deixa-nos chorar.
Deixa-nos fazer perguntas, não para perder a fé,
mas para torná-la mais sincera.
Dá-nos o dom da consolação
e um dom ainda maior: a confiança.
Que não caiamos no desespero,
nem no isolamento,
nem na tristeza amarga.
Faz-nos capazes de recordar com gratidão,
de amar com mais profundidade
e de cuidarmos uns dos outros como Tu cuidas de nós.
E quando a luz voltar
— porque voltará —
que encontremos nela os rostos daqueles que perdemos,
transformados para sempre na Tua ternura eterna”.
Porque cito esta oração?
Porque tem tudo a ver com a Páscoa, que estamos a celebrar com grande alegria espiritual.
Sem a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, esta oração seria impossível. Diante desta e de outras terríveis tragédias, como a recente morte de mais de 35 pessoas, incluindo crianças, que se preparavam para celebrar o Domingo de Ramos, na cidade ucraniana de Sumy, vítimas de um ignóbil ataque russo, só seria possível a revolta, o desespero ou a indiferença.
Mas, com a morte redentora de Jesus e a sua ressurreição, é possível ter esperança. Uma esperança que não engana.
Desejo a todos uma Santa Páscoa, na alegria de Cristo ressuscitado.
Cónego José Manuel dos Santos Ferreira
