Mensagem do Sr. Prior sobre o novo Ano Pastoral

O primado da pessoa

Cónego José Manuel dos Santos Ferreira

Na primeira leitura do passado domingo, lemos uma passagem do livro de Ezequiel, que começava assim: “Eis o que diz o Senhor: «Filho do homem, coloquei-te como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires a palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte»” (Ez 33, 7). Este versículo apresenta o profeta como “sentinela” da casa de Israel: deve escutar a palavra de Deus e advertir o povo em nome do Senhor.

Na teologia dos Padres da Igreja (bispos e mestres dos primeiros séculos), “sentinela” é o homem instituído por Deus para estar vigilante e proteger espiritualmente o povo, discernir os perigos e transmitir-lhe fielmente a Palavra divina. Em Orígenes, (autor do séc. III), por exemplo, essa figura designa sobretudo o bispo, o sacerdote ou o mestre cristão encarregado de conduzir outros à salvação.

Como exerce hoje esta missão o Sucessor de Pedro, o Papa Leão XIV?
No dia seguinte à sua eleição, Leão XIV definiu a sua missão antes de mais como ouvinte da voz de Deus, o que lhe permitirá “educar” e “acompanhar” todos os fiéis: “Cabe a cada um de nós tornarmo-nos ouvintes dóceis da sua voz e ministros fiéis dos seus desígnios de salvação (…). Este é o encontro importante, a que não se pode faltar, e para o qual devemos educar e acompanhar todo o santo Povo de Deus que nos está confiado” (Discurso do Santo Padre ao Colégio de Cardeais, 10 de maio de 2025).

E depois apresentou as razões pelas quais escolheu o nome de Leão XIV: “Na verdade, são várias as razões, mas a principal é porque o Papa Leão XIII, com a histórica Encíclica Rerum Novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza da sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho” (ibid.).

Cerca de um ano depois, Leão XIV ofereceu-nos a sua primeira Encíclica. Magnifica Humanitas, a encíclica inaugural do Papa Leão XIV, foi publicada no dia 25 de maio de 2026. A visão do público em geral é que, à semelhança do que Leão XIII fez há 135 anos na Rerum Novarum, o Papa Leão XIV pretende abordar as “coisas novas” do século XXI, entre as quais se destaca a inteligência artificial (IA). Por isso, a Magnifica Humanitas é considerada como sendo essencialmente um texto sobre a inteligência artificial. Mas será mesmo?

O próprio Leão XIV esclarece em que medida e em que termos a IA é (ou não) o assunto da sua Encíclica:
“Não tenho a intenção de apresentar aqui um tratado sobre a inteligência artificial, nem revisitar uma bibliografia já vastíssima, pois existem contributos autorizados – também no âmbito eclesial – aos quais é possível fazer referência. Limito-me a recordar alguns elementos essenciais para um discernimento moral e social que salvaguarde o primado da pessoa, para que seja sempre a inteligência humana, com a sua consciência e liberdade, a orientar as inovações técnicas e a estabelecer com responsabilidade o seu uso e limites” (n. 97).

E aqui está o ponto essencial: o primado da pessoa. Por isso, é justo dizer que “o ponto mais central de Magnifica Humanitas é uma verdade antropológica ainda mais fundamental: a pessoa humana não pode ser substituída. A pessoa humana é insubstituível. Como nos recordou o Vaticano II, a pessoa humana é a única criatura na terra que Deus amou por si mesma. (Gaudium et spes, 24)”.

“Uma verdade crucial de Magnifica Humanitas é a centralidade e a impossibilidade de a pessoa humana ser substituída. O homem não é apenas um pensador que uma máquina possa substituir. O homem não é apenas um trabalhador que um robô deva substituir. A encíclica levanta a pergunta: será que uma pessoa é algo mais que uma simples engrenagem no grande projeto de alguém?” (John M. Grondelski, “The Anthropological Unity of Magnifica Humanitas”, https://www.thecatholicthing.org/, 14.06.2026).

Além destas, há certamente outras perguntas sobre as quais valerá a pena continuar a pensar.
Por isso, para o novo ano pastoral que está a começar, tenciono convidar os paroquianos de São Francisco Xavier a participar (online ou presencialmente) num ciclo de encontros sobre a Encíclica Magnifica Humanitas, em que, de livro na mão, ponto por ponto, a possamos ler e comentar, captando a mensagem sobre o homem, e sobre o seu direito ao trabalho, e, antes de mais, sobre o seu direito à vida, que o Papa Leão XIV nela nos quis transmitir.

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