Em 1300, apareceram em Roma muitos peregrinos procurando o perdão das suas faltas e a indulgência para as respetivas penas. Espalhara-se a notícia de que tal seria possível nesse ano centenário, visitando os túmulos de São Pedro e São Paulo. O Papa Bonifácio VIII correspondeu ao pedido, mediante a confissão dos pecados e a visita às basílicas dos dois apóstolos.
Tal movimento acontecia num tempo que o propiciava. Circulavam ideias, provindas do monge Joaquim de Flora, falecido em 1202, de que se estaria prestes a entrar numa nova idade do mundo, própria de homens mais espirituais. Mais diretamente, a mudança que se verificava na vida social e cultural daquele tempo, própria dos finais do que chamamos Idade Média, era sentida por muitos como prenúncio do fim do mundo, a exigir penitência e salvação. Aliás, a indulgência também é aplicável aos irmãos que já partiram e se purificam diante de Deus, as “almas do Purgatório”.
Assim começou a série de jubileus ou anos santos, com o segundo celebrado logo em 1350, ainda que Clemente VI estivesse em Avinhão. A palavra jubileu vem do nome hebraico para chifre de carneiro, em que se soprava para anunciar um ano de libertação dos escravos e restituição das terras aos seus antigos proprietários (cf. Lv 25, 8 ss).
Em 1400, Bonifácio IX continuou a tradição jubilar, mesmo com a Cristandade dividida entre os que lhe obedeciam e os que se ligavam antes ao Papa de Avinhão (Cisma do Ocidente). Já o jubileu de 1450, com Nicolau V, celebrou-se com a Igreja latina de novo reunida e teve grande afluência de peregrinos.
Na passagem da Idade Média para a Moderna, os jubileus de 1475 (Sisto IV) e 1500 (Alexandre VI) também levaram a Roma grande número de peregrinos, realizando-se no último a abertura da Porta Santa na basílica de São Pedro e nas outras maiores. Mas o seguinte, de 1525 (Clemente VII), já se celebrou em plena crise luterana, onde a crítica às indulgências – ou aos abusos que por vezes se verificavam na sua concessão – se fazia sentir.
Por seu lado, os jubileus de 1550 (Júlio III) e 1575 (Gregório XIII) manifestaram o espírito da reforma católica, impulsionada pelo Concílio de Trento (1545-1563). No último esteve presente São Carlos Borromeu, representante máximo dos “bons pastores” que então surgiram na Igreja. No mesmo espírito se celebraram os que se seguiram (1600, Clemente VIII; 1625, Urbano VIII; 1650, Inocêncio X; 1675, Clemente X; 1700, Inocêncio XII – Clemente XI; 1725, Bento XIII; 1750, Bento XIV; 1755, Pio VI), numa série interrompida em 1800, quando o Papa Pio VI falecera prisioneiro em França e o seu sucessor ainda não chegara a Roma.
No conturbado século XIX, o Papa Leão XII ainda celebrou o jubileu de 1825, mas Pio IX já não conseguiu fazer o mesmo nem em 1850 nem em 1875 – neste ano já não existia Estado Pontifício.
Em 1900, Leão XIII pôde celebrá-lo, num ambiente político mais distendido, e o mesmo sucedeu com Pio XI em 1925, quando terá chegado a Roma meio milhão de peregrinos. Em 1950 Pio XII celebrou o jubileu no pós-segunda guerra mundial, com grande afluência também e mais universal nas proveniências. Em 1975 foi a vez de São Paulo VI celebrar o jubileu em plena renovação pós-conciliar. O jubileu de 2000 foi preparado e celebrado por São João Paulo II como estímulo e apelo para um novo milénio cristão, mais coincidente com a proposta evangélica e as aspirações da humanidade.
Tema que o Papa Francisco retoma para o jubileu de 2025, sob o signo de uma esperança mais forte do que as atuais circunstâncias mundiais contrariam. Importa ler o que nos diz na bula de proclamação do jubileu, Spes non confundit (A esperança não engana), concretizando tudo quanto ela propõe, para que os sinais do nosso tempo, tão exigentes como são, sejam entendidos como apelos à nossa resposta comprometida e solidária. Acrescente-se que, além da cadência normal de 25 anos, vários Papas marcaram jubileus extraordinários noutros anos, como aconteceu com o da Misericórdia (2015-2016) e certamente sucederá em 2033, para assinalar os dois milénios da Páscoa de Cristo.
Os jubileus são sobretudo a manifestação duma vontade forte de conversão e acesso à graça divina, que restaure os corações. Na sua bula (nº 23), o Papa Francisco esclarece-nos assim: «A Reconciliação sacramental não é apenas uma estupenda oportunidade espiritual, mas representa um passo decisivo, essencial e indispensável no caminho da fé de cada um. Ali permitimos ao Senhor que destrua os nossos pecados, sare o nosso coração, nos levante e abrace, nos faça conhecer o seu rosto terno e compassivo. […] Todavia o pecado, como sabemos por experiência pessoal, “deixa a sua marca”, traz consigo consequências: não só exteriores, mas também interiores, pois “todo o pecado, mesmo venial, traz consigo um apego desordenado às criaturas, o qual precisa de ser purificado, quer nesta vida quer depois da morte, no estado que se chama Purgatório” (Catecismo da Igreja Católica, 1472). Assim, na nossa débil humanidade atraída pelo mal, permanecem “efeitos residuais do pecado”. São tirados pela indulgência, sempre por graça de Cristo, o Qual, como escreveu São Paulo VI, é “a nossa indulgência”».
Lisboa, 6 de outubro de 2024
Cardeal Manuel Clemente, Patriarca Emérito de Lisboa
