Folha Informativa 23-06-2024

XII Domingo do Tempo Comum (PDF)

Simon de Vlieger, Acalmando a tempestade

Também nós navegamos num lago onde não faltam o vento nem as tempestades; as tentações quotidianas deste mundo quase submergem a nossa barca.

De onde vem tudo isso, senão do facto de Jesus estar a dormir? Se Jesus não estivesse adormecido dentro de ti, não sofrerias tais tempestades, mas fruirias de uma grande tranquilidade interior, porque Jesus velaria contigo.

Que farás para seres libertado? Acorda Jesus e diz-Lhe: «Mestre, não Te importas que pereçamos? As incertezas da travessia do lago atribulam-nos; estamos perdidos».

E Ele despertará, isto é, recuperarás a fé; e, com a ajuda de Jesus, refletirás Vira pois as costas àquilo que se desmorona e volta o teu rosto para o que permanece.

Quando Cristo acordar, a tempestade deixará de te abalar o coração, as ondas não afundarão a tua barca, porque o vento e as ondas ficarão sob o comando da tua fé, e o perigo desaparecerá.

Santo Agostinho

Deus não me livra da travessia mas acompanha-me na noite

Ermes Ronchi, 2015

Key West, Lançando a âncora

Uma noite de tempestade e medo no lago, e Jesus dorme. Também o nosso mundo está em plena tempestade, geme de dores com as veias abertas, e Deus parece dormir.

Nenhuma existência foge ao absurdo e ao sofrimento, e Deus não fala, permanece mudo. E na noite que nascem as grandes perguntas: não Te importa nada de nós? Porque dormes? Acorda e vem ajudar-nos!

Os salmos transbordam deste grito, enche a boca de Job, repetem-no profetas e apóstolos. Poucas coisas são tão bíblicas como este grito a contestar o silêncio de Deus, poucas experiências são tão humanas como este medo de morrer ou viver no abandono.

Porque tendes assim tanto medo? Deus não está noutro lugar e não dorme. Está já aqui, está nos braços dos homens, fortes a remar; está no timoneiro que se agarra ao leme; está nas mãos que lançam fora a água que alaga a barca; nos olhos que perscrutam a margem, na ânsia que antecipa a luz da aurora.

Deus está presente, mas ao seu modo; quer salvar-me, mas fá-lo pedindo-me que meta em jogo todas as minhas capacidades, todas as forças do coração e da inteligência. Não intervém no meu lugar, mas ao meu lado; não me livra da travessia, mas acompanha-me na escuridão. Não me guarda do medo, mas no medo. Assim como não salvou Jesus da cruz, mas na cruz.

Toda a nossa existência pode ser descrita como uma travessia perigosa, uma passagem para a outra margem, da vida adulta, responsável, boa. Uma travessia é iniciar um matrimónio; uma travessia é o futuro que se abre diante da criança; uma travessia tormentosa é tentar recompor feridas, reencontrar pessoas, vencer medos, acolher pobres e estrangeiros.

Há tanto medo ao longo da travessia, ainda que legítimo. Mas as barcas não foram construídas para ficar ancoradas na segurança dos portos.Gostaria que o Senhor gritasse já ao furacão: cala-te; e às ondas: acalmem-se; e à minha angústia repetisse: acabou. Gostaria de ficar livre da luta, mas Deus responde chamando-me à perseverança, multiplicando-me as energias; a sua resposta é força para a primeira remada. E a cada uma, Ele a renovará.

Não Te importa que morramos? A resposta, sem palavras, é dita pelos gestos: importo-Me de ti, importa-Me a tua vida, tu és importante. Importam-Me os pássaros do céu, e tu vales mais que muitos pássaros, importam-Me os lírios do campo, e tu és mais belo que eles.

Tu importas-Me ao ponto de ter contados os cabelos da tua cabeça e todo o medo que trazes no coração. E estou aqui. A fazer-Me baluarte e fronteira para o teu medo. Estou aqui no reflexo mais profundo das tuas lágrimas, como mão forte sobre a tua, entrada em porto seguro.

 

Sobre o ato de contrição de Santo Afonso Maria de Ligório

Papa Francisco, março de 2024 (excertos)

Arrependimento. Não é fruto de uma autoanálise nem de um sentimento psíquico de culpa, mas nasce da consciência da nossa miséria diante do amor infinito de Deus, da sua misericórdia sem limites. É esta experiência que leva a nossa alma a pedir o seu perdão, confiando na sua paternidade.

Na pessoa, o sentido do pecado é proporcional precisamente à noção do amor infinito de Deus: quanto mais sentimos a sua ternura, mais desejamos estar em plena comunhão com Ele, e mais a fealdade do mal na nossa vida se torna evidente para nós. E é esta consciência, descrita como “arrependimento” e “contrição”, que nos leva a refletir sobre nós próprios e sobre as nossas ações e a convertermo-nos.

Confiança. É bom ouvir, nos lábios de um penitente, o reconhecimento da bondade infinita de Deus e da primazia, na própria vida, do amor por Ele. Amar «acima de todas as coisas» significa colocar Deus no centro de tudo, como luz no caminho e fundamento de toda a ordem de valores, confiando-Lhe tudo. E trata-se de uma primazia que anima todos os outros amores: pelos homens e pela criação, porque quem ama a Deus ama o irmão e procura o seu bem, sempre, na justiça e na paz.

Propósito. Ele exprime a vontade do penitente de não recair novamente no pecado cometido, e permite a importante passagem do atrito à contrição, da dor imperfeita à dor perfeita.
Manifestamos esta atitude dizendo: «Proponho-me, com a tua santa ajuda, não voltar a ofender-Te». Estas palavras exprimem um objetivo, não uma promessa. Com efeito, nenhum de nós pode prometer a Deus que nunca mais voltará a pecar, e o que é necessário para receber o perdão não é uma garantia de impecabilidade, mas um propósito presente, feito com uma intenção justa no momento da confissão. Além disso, é um compromisso que assumimos sempre com humildade, como realçam as palavras «com a tua santa ajuda». São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, costumava repetir que «Deus perdoa-nos mesmo sabendo que voltaremos a pecar».

Em cada ato de misericórdia, em cada ato de amor, transparece o rosto de Deus.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

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