Folha Informativa 23-03-2025

Domingo III da Quaresma (PDF)

Ludovico Mazzolino, A maldição da figueira seca

A possibilidade da conversão não é ilimitada; por conseguinte é necessário colhê-la imediatamente; caso contrário perder-se-ia para sempre.

Podemos pensar nesta Quaresma: o que devo fazer para me aproximar mais ao Senhor, para me converter, e “cortar” o que não está bem? “Não, esperarei a próxima Quaresma”. Mas estarei vivo na próxima Quaresma?

Pensemos hoje, cada um de nós: o que devo fazer face a esta misericórdia de Deus que me espera e perdoa sempre? O que devo fazer? Podemos confiar infinitamente na misericórdia de Deus, mas sem abusar dela.

Não devemos justificar a preguiça espiritual, mas aumentar o nosso esforço para corresponder prontamente a esta misericórdia com sinceridade de coração.

No tempo de Quaresma, o Senhor convida-nos à conversão. Cada um de nós deve sentir-se interpelado por esta chamada, corrigindo algo na própria vida, no modo de pensar, de agir e viver as relações com o próximo.

Papa Francisco, 2019

 

O fruto possível de amanhã mais do que a minha inutilidade de hoje

Ermes Ronchi, 2023

Ludovico Mazzolino, A maldição da figueira seca

Não há relação alguma entre culpa e desgraça, entre pecado e doença. A mão de Deus não semeia morte, não desperdiça o seu poder em castigos. Mas se não vos converterdes, perecereis todos.
É toda uma sociedade que se deve salvar.

Não serve fazer a conta dos bons e dos maus, é preciso reconhecer que é todo um mundo que não avança se a convivência não se edificar sobre outro fundamento, e não a desonestidade elevada a sistema, a violência do mais forte, a prepotência do mais rico.

Nunca como hoje compreendemos que tudo no mundo está em estreita ligação: se há milhões de pobres sem dignidade nem instrução, será todo o mundo a ser privado do seu contributo, da sua inteligência; se a natureza está em sofrimento, sofre e morre também o homem.
Sobre todos desce o apelo caloroso e total de Jesus: amai-vos, de outra forma destruir-vos-eis.
O Evangelho está todo aqui. Sem isto não haverá futuro.

A seriedade destas palavras tem como contraponto a confiança no futuro na parábola da figueira: há três anos que o proprietário espera em vão por frutos, e então fará cortar a árvore. Mas o agricultor sábio diz: «Mais um ano de trabalho e degustaremos o fruto».

Parábola da figueira, na Igreja de St Mary Abott, Londres

Deus é assim: mais um ano, mais um dia, mais sol e chuva porque esta árvore é boa; esta árvore, que sou eu, dará fruto.
Deus agricultor inclinou-Se sobre mim, sobre este meu pequeno campo, em que tanto semeou para tão pouco colher. E todavia dá um outro ano aos meus três anos de inutilidade; e envia gérmenes vitais, sol, chuva, confiança. Para Ele o fruto possível de amanhã conta mais do que a minha inutilidade de hoje.
«Veremos, talvez no próximo ano dê fruto.»

Talvez resida nisto o milagre da fé de Deus em nós. Ele acredita em mim antes ainda que eu diga sim. O tempo de Deus é a antecipação, o seu amor é preveniente, a sua misericórdia antecipa o arrependimento, a ovelha perdida é encontrada e recolhida quando ainda está longe e não está a voltar, o pai abraça o filho pródigo e perdoa-o ainda antes de abrir a boca.
Deus ama primeiro, ama em perda, ama sem condições. Amor que conforta e persegue: «Ama-te de tal forma que te obriga a tornares-te o melhor daquilo que te podes tornar» (R.M.Rilke).

A sua confiança para mim é como uma vela que me impele em frente, rumo à profecia de um verão feliz de frutos: se demora, aguarda, porque o que tarda decerto virá (cf. Habacuc 2, 3).

 

A esperança da vida eterna

Roberto Pasolini

Já estamos mortos, mas não nos damos conta disso. A morte não é apenas o evento final da vida, mas também uma realidade que já experimentamos, por meio de um fechamento em nós mesmos que nos impede de perceber a vida como algo eterno que Deus quer nos dar.

O Genesis relata essa perda de sensibilidade por meio do que a tradição chamou de “pecado original”: o homem, em vez de acolher a vida como um dom, procura controlá-la, ultrapassando o limite imposto por Deus.

Essa primeira “morte interior” manifesta-se na tentativa contínua de cobrir as nossas fragilidades com imagens, cargos e sucessos, sem enfrentar o profundo vazio que habita em nosso interior.

A nossa “primeira morte” não é um destino inevitável, mas uma oportunidade de redescobrir a vida eterna como uma realidade presente, não apenas futura.

O próprio Jesus nos convida a ler as tragédias da vida como oportunidades de conversão, não como sinais de condenação.
O verdadeiro obstáculo à vida eterna não é a morte biológica, mas nossa incapacidade de reconhecer que já estamos imersos em uma realidade que vai além do tempo, se somente escolhermos vivê-la com confiança e abertura para Deus.

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

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