Folha Informativa 21-09-2025

Domingo XXV do Tempo Comum (PDF)

Giovanni Lanfranco, Alimentando a multidão

O dom inefável da caridade divina é aquilo para o qual devemos olhar se quisermos viver da melhor forma também a vida comunitária e a atividade apostólica, partilhando os nossos bens materiais, bem como os humanos e espirituais.

Lembremo-nos de quão eficaz é o que está escrito na nossa Regra: «Como sois nutridos por uma única despensa, assim vos vesti de um único guarda-roupa» (Regra, 30). Permaneçamos fiéis à pobreza evangélica e façamos com que ela se torne o critério para viver tudo o que somos e que temos, incluindo os meios e as estruturas, ao serviço da nossa missão apostólica.

Não nos esqueçamos da nossa vocação missionária. Desde a primeira missão em 1533, os Agostinianos anunciaram o Evangelho em muitas partes do mundo com paixão e generosidade, cuidando das comunidades cristãs locais, dedicando-se à educação e ao ensino, ocupando-se dos pobres e realizando obras sociais e caritativas. Este espírito missionário não deve extinguir-se, porque é ainda hoje muito necessário. A missão evangelizadora a que todos somos chamados exige o testemunho de uma alegria humilde e simples, a disponibilidade para o serviço, a partilha da vida do povo a que somos enviados.

Papa Leão XIV, Discurso aos Agostinianos, 15set2025

Servir ou servir-se?

Papa Francisco, 2015

Steward Marinus van Reymerswaele, Parábola do Administrador desonesto

A Igreja é chamada a servir e a dependência do dinheiro prejudica gravemente a comunidade católica.
São Paulo, o apóstolo dos gentios, nunca se detinha para ter a vantagem de um lugar, de uma autoridade, de ser servido. Era ministro, servo para servir, não para se servir.

Quanta alegria eu tenho, que me comove, quando nesta missa vêm alguns padres e me dizem: “Vim aqui para reencontrar os meus familiares, porque há 40 anos sou missionário na Amazónia”; ou uma irmã que diz: “Eu trabalho há 30 anos num hospital em África”. Ou quando encontro a irmãzinha que há 30, 40 anos está num hospital com os deficientes, sempre sorridente. Isto chama-se servir. Esta é a alegria da Igreja: ir além e dar a vida», acentuou.

O Evangelho de hoje, por seu lado, narra a «astúcia» de um administrador de bens que em vez de servir os outros, se serve dos outros.
À radicalidade do Evangelho, do chamamento de Jesus Cristo a servir, a estar ao serviço, de não se deter, de ir sempre mais além, esquecendo-se de si próprio, alguns respondem com a comodidade do estatuto: Eu atingi um estatuto e vivo comodamente, sem honestidade, como aqueles fariseus de que fala Jesus, que passeavam nas praças, fazendo-se ver pelos outros.

Os trechos bíblicos desta sexta-feira sugerem a contraposição entre duas imagens de cristãos, duas imagens de padres, duas imagens de irmãs, concretizadas nos exemplos de Paulo e do administrador desonesto.
Quando a Igreja é morna, fechada em si mesma, até negociante tantas vezes, não se pode dizer que seja uma Igreja que ministra, que está ao serviço, mas que se serve dos outros.

Que o Senhor nos dê a graça que deu a Paulo, esse ponto de honra de ir sempre em frente, renunciando tantas vezes às próprias comodidades, e nos salve das tentações, que, no fundo, são tentações de uma vida dupla: faço-me ver como ministro, isto é, como aquele que serve, mas no fundo sirvo-mo dos outros.

Cristianismo e Humor podem habitar na mesma frase?

P. José Miguel Cardoso, Dicastério para a Cultura e Educação, In “O Conquistador”, 29.11.2024

O provérbio popular sentencia: “graças a Deus, muitas; graças com Deus, nenhuma!”.
Se é verdade que, ao longo da história, cristianismo e humor foram duas palavras “antónimas”, a nova cultura humorística tornou-as mais próximas. A razão da cisão inicial era evidente: nos Evangelhos Jesus nunca ri expressamente (pelo contrário, riem-se d’Ele) e os Padres da Igreja (salvo algumas exceções) viam o divertimento provocado pelo humor como um atentado atómico à seriedade da vida espiritual.

O que é o humor? Proveniente da semântica medicinal grega, expressando um estado de saúde equilibrado (G. Minois), o humor prossegue a sua evolução conceptual, descrevendo-se atualmente por 3 elementos genéricos: capacidade de improviso e genialidade; criatividade de colocar em relação dialética elementos a priori diversos entre si; uma finalidade hilariante, que visa fazer rir/sorrir uma outra pessoa (G. Cucci). E deste efeito emerge a diferença (nem sempre consensual) entre riso e sorriso: se o riso (ridere) é uma reação mais instantânea e inconsciente, o sorriso (sub-ridere) é uma reação mais controlada e racional.

O humor, pela via da ironia/sarcasmo/malícia/sátira…, pode-se declinar ainda numa vertente mais subjetiva de teor negativo (mau humor: ridicularizar uma pessoa para a ofender) ou objetiva de teor mais positivo (bom humor: ridicularizar uma situação arbitrária).

Mas o humor serve apenas para nos divertir ou pode ter uma outra finalidade?
Nas palavras de Henri Bergson, o humor dispõe de uma função política: permite-nos questionar o estado das coisas, ver a realidade de um ângulo inédito, denunciar abusos de poder ou dizer as verdades mais inconvenientes. Torna-se útil
para a sociedade porque é um «meio de correção». E admite-se que o humor poder ser uma das vias para se curar a depressão.

Posto isto, uma pergunta teológica: Deus ri?
Se Deus ri/sorri, então podemos presumir que a eternidade será um tempo de alegria e sorrisos com Deus… Com base nesta convicção, isso muda o ângulo de visão sobre a nossa vida terrena: não tanto como se fosse um teste de avaliação para o julgamento final, mas como um ensaio geral para essa eternidade que nos espera (J. Martin). É Jesus quem o garante: «bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir». Obviamente que Deus também não ignora as nossas lágrimas, partilhando-as, mas é da certeza deste sorriso escatológico que advém a esperança das lágrimas enxugadas.

O humor é útil para a espiritualidade?
O bom humor revela em si várias caraterísticas espirituais, das quais: a humildade, pois saber rir-se de si mesmo e dos seus próprios erros/defeitos é a prova de uma pessoa que se aceita como é; a confiança, pois, diante das adversidades preocupantes, uma dose certa de bom-humor é a forma de se relativizar esse drama, fazendo-nos ver outros valores e verdades escondidos naquela situação. E aquele que é um dos ofícios mais paradoxais no mundo: um comediante que, num hospital de oncologia infantil, consegue fazer sorrir uma criança portadora de cancro.

O Papa Francisco sugere uma oração de Tomás More: «Dai-me, Senhor, o sentido do humor. Dai-me a graça de entender as piadas, para que conheça na vida um pouco de alegria e possa comunicá-la aos outros».

O humor de um cristão não é tanto a “arte de fazer rir os outros”, mas uma virtude: um modo alegre de encarar a própria vida, cuja alegria marca a nossa diferença cristã na trama do mundo. Transportamos um evangelho de alegria. É certo que a alegria não se reduz ao humor, mas o bom humor num cristão é sinal de que essa alegria habita nele.

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

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