Folha Informativa 16-02-2025

Domingo VI do Tempo Comum (PDF)

Cosimo Rosselli, Sermão da Montanha

A palavra felicidade nos Evangelhos é menos que um hápax (palavra que aparece apenas uma só vez numa obra), pois a ela não corresponde qualquer ocorrência. Estranho, quando se pensa que a felicidade na modernidade se tornou quase um direito de natureza e um imperativo moral.
Se se observar o campo semântico que esta palavra gera nos Evangelhos, pode procurar-se sob a voz «bem-aventurança» ou sob a voz «alegria». Mas em ambos os casos a mensagem que estes dois termos veiculam está muito distante daquilo que possa ser a atual ideia de felicidade.
As bem-aventuranças de Jesus não têm nada a ver com o instinto para o prazer e para a exaltação do eu que a «felicidade» postula: bem-aventurados os pobres em espírito, bem-aventurados aqueles que estão no pranto, bem-aventurados os mansos.
O mesmo pode dizer-se da palavra alegria. Jesus diz que há mais alegria no dar do que no receber.
O sentido que agrupa estas afirmações é o de cultivar a renúncia, reduzir as pretensões do eu, carregar as dificuldades e as cruzes próprias e dos outros.
Lucio Coco, In L’Osservatore Romano , 2023

Bem-aventuranças contêm o “bilhete de identidade” do cristão

Papa Francisco, 2020

Cosimo Rossellini, Sermão da Montanha (pormenor)

Este texto abre o “Sermão da Montanha” e iluminou a vida dos crentes, e também de muitos não-crentes. É difícil não se comover com estas palavras de Jesus, e é justo o desejo de as compreender e acolher cada vez mais plenamente. As Bem-aventuranças contêm o “bilhete de identidade” do cristão – este é o nosso bilhete de identidade – porque delineiam o rosto do próprio Jesus, o seu estilo de vida.
Jesus, vendo a multidão que o seguia, sobe à suave encosta que rodeia o lago da Galileia, senta-Se e, dirigindo-Se aos discípulos, anuncia as bem-aventuranças. Portanto, a mensagem é dirigida aos discípulos, mas no horizonte está a multidão, ou seja, toda a humanidade. É uma mensagem para toda a humanidade.
Além disso, a “montanha” faz recordar o Sinai, onde Deus entregou os Mandamentos a Moisés. Jesus começa a ensinar uma nova lei: ser pobre, ser manso, ser misericordioso…
Estes “novos mandamentos” são muito mais que normas. De facto, Jesus nada impõe, mas revela o caminho da felicidade ­– o seu caminho – repetindo a palavra “felizes” oito vezes.
Cada Bem-aventurança compõe-se de três partes. Inicia sempre com a palavra “felizes”; depois vem a situação na qual os felizes se encontram: pobreza de espírito, aflição, fome e sede de justiça, e assim por diante; por fim há o motivo da bem-aventurança, introduzido pela conjunção “porque”: “Felizes estes porque, felizes aqueles porque…”
Assim as Bem-aventuranças são oito e seria bom aprendê-las de cor para as repetir, a fim de ter na mente e no coração esta lei que Jesus nos deu.
Prestemos atenção a este facto: o motivo da bem-aventurança não é a situação atual, mas a nova condição que os bem-aventurados recebem como dom de Deus: “porque deles é o reino do céu”, “porque serão consolados”, “porque possuirão a terra”, e assim por diante.
No terceiro elemento, que é precisamente o motivo da felicidade, Jesus usa muitas vezes um futuro passivo: “serão consolados”, “possuirão a terra”, “serão saciados”, “alcançarão a misericórdia”, “serão chamados filhos de Deus”.
Mas o que significa a palavra “feliz”?
Por que começa cada uma das oito Bem-aventuranças com a palavra “feliz”?
O termo original não indica alguém que tem a barriga cheia ou está bem na vida, mas é uma pessoa que está em condição de graça, que progride na graça de Deus e no caminho de Deus: a paciência, a pobreza, o serviço aos outros, a consolação…
Quantos progridem nestes aspetos são felizes e serão bem-aventurados.
Deus, para Se doar a nós, escolhe muitas vezes caminhos impensáveis, talvez os dos nossos limites, das nossas lágrimas, das nossas derrotas. É a alegria pascal da qual falam os nossos irmãos orientais, aquela que tem os estigmas, mas está viva, atravessou a morte e experimentou o poder de Deus.
As Bem-aventuranças conduzem-nos à alegria, sempre; são o caminho para alcançar a alegria.

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