Folha Informativa 05-01-2025

Epifania do Senhor (PDF)

Epifania, festa dos buscadores de Deus, dos que estão longe, que se puseram a caminho atrás de um seu profeta interior, atrás de palavras como as de Isaías: ergue a cabeça e vê.

Dois verbos belíssimos, ergue, eleva os olhos, olha para o alto e à tua volta, abre as janelas de casa ao grande respiro do mundo.

E olha, procura uma fissura, um espaço de céu, uma estrela polar, e de lá interpreta a vida, a partir de uma perspectiva elevada.

Continua à procura, cuidadosamente, na história, nos livros, no coração das coisas, no Evangelho e nas pessoas; continua a procurar atentamente, fixando os abismos do céu e os abismos do coração, e depois conta-mo como se conta uma história de amor.

Ermes Ronchi, 2019

Perdão da dívida dos países pobres

Papa Francisco, 2024, Mensagem para o Dia Mundial da Paz (resumo adaptado)

I. Na escuta do grito da humanidade ameaçada
1. Votos de paz, especialmente aos que se sentem prostrados pela sua condição existencial, condenados pelos seus próprios erros, esmagados pelo julgamento dos outros e que já não veem qualquer perspectiva para a sua vida.

2. No jubileu, antiga tradição judaica, a cada 49 anos, o toque da trombeta (hebraico: yobel) anunciava um tempo de clemência. Este apelo deveria ecoar por todo o mundo, para restabelecer a justiça de Deus no uso da terra, na posse dos bens, na relação com o próximo, sobretudo os mais pobres e caídos em desgraça.

3. Hoje, no Jubileu gostaríamos de estar atentos ao “desesperado grito de ajuda” de muitas partes da terra e que Deus nunca deixa de escutar.(…) A voz que denuncia situações de exploração da terra e de opressão do próximo. Estas injustiças (“estruturas de pecado”) devem-se à iniquidade de alguns, mas estão enraizadas e contam com a cumplicidade generalizada.

4. Cada um deve sentir-se responsável pela devastação da casa comum, pelas ações que alimentam os conflitos. Fomentam-se e entrelaçam-se os desafios sistémicos que afligem o nosso planeta – desigualdades, tratamento desumano dos migrantes, degradação ambiental, confusão gerada pela desinformação, rejeição de diálogo e financiamento da indústria militar.
Atos esporádicos de filantropia não são suficientes. São necessárias transformações culturais e estruturais para uma mudança duradoura.

II. Uma mudança cultural: somos todos devedores
5. Os bens da terra destinam-se a todos. Quando não há gratidão, o homem deixa de reconhecer os dons de Deus. Mas o Senhor não abandona os homens que pecam contra Ele. Ensinando-nos o Pai Nosso, Jesus convida-nos a pedir: “Perdoa-nos as nossas ofensas”.

6. Quando uma pessoa ignora a ligação ao Pai, acha que as relações com os outros podem ser regidas por uma lógica de exploração, com o mais forte a querer prevalecer sobre o mais fraco. Hoje, na aldeia global, o sistema internacional, se não for alimentado numa lógica de solidariedade e interdependência, gera injustiças que, com a corrupção, aprisionam os países pobres.

7. A dívida externa tornou-se um instrumento de controle. Várias populações vêem-se obrigadas a suportar também o peso da dívida ecológica dos países mais desenvolvidos. Convido a comunidade internacional a perdoar a dívida externa, reconhecendo a existência de uma dívida ecológica entre o Norte e o Sul do mundo.

8. A mudança cultural e estrutural para superar esta crise ocorrerá quando finalmente reconhecermos que somos todos filhos do mesmo Pai e, perante Ele, confessarmos que somos todos devedores, mas também todos necessários uns aos outros, segundo uma lógica de responsabilidade partilhada e diversificada.

III. Um caminho de esperança: 3 ações possíveis
9. Deus continua a conceder graça e misericórdia a todos, ouve o grito dos pobres e da terra.

10. Para perdoar uma dívida aos outros e dar-lhes esperança, é preciso que a própria vida esteja cheia dessa esperança que vem da misericórdia de Deus. A esperança é generosa, não é calculista, não se preocupa com o seu lucro, mas tem um único objetivo: levantar os caídos, curar os quebrantados de coração, libertar de todas as formas de escravidão.

11. Reconhecendo a dívida ecológica, os países mais ricos farão tudo o que estiver ao seu alcance para perdoar as dívidas dos países que não estão em condições de pagar o que devem. Para não ser um ato isolado de beneficência, desencadeando um novo ciclo vicioso de financiamento-dívida, é necessária uma arquitetura financeira para um acordo global baseado na solidariedade e harmonia entre os povos.
Apelo a um compromisso de respeito pela dignidade da vida humana, da concepção à morte, para que cada pessoa possa amar a sua vida e olhar para o futuro com esperança, desejando o desenvolvimento e a felicidade para si e seus filhos. Sem esperança, é difícil que surja no coração dos jovens o desejo de gerar outras vidas.
Convido a um gesto concreto que favoreça a cultura da vida: eliminar a pena de morte em todas as nações. Esta punição, além de comprometer a inviolabilidade da vida, aniquila toda a esperança humana de perdão e de renovação.
E apelo: usemos uma percentagem fixa do dinheiro gasto em armamento na criação de um fundo mundial que elimine a fome e facilite a educação nos países mais pobres, que promova o desenvolvimento sustentável, lutando contra as alterações climáticas. O futuro é um dom que permite ultrapassar os erros do passado e construir novos caminhos de paz.

IV. A meta da paz
12. Os que empreenderem, através dos gestos propostos, o caminho da esperança, poderão ver cada vez mais próximo a tão desejada meta da paz.

13. Que 2025 seja um ano em que a paz verdadeira e duradoura, que não se detém nas querelas dos contratos, cresça. Procuremos a verdadeira paz, que é dada por Deus a um coração desarmado: um coração que não se esforça por calcular o que é meu e o que é teu; que dissolve o egoísmo para se dispor a ir ao encontro dos outros; que não hesita em reconhecer-se devedor de Deus e que está pronto para perdoar as dívidas que oprimem o próximo; que supera o desânimo em relação ao futuro com a esperança de que cada pessoa é um bem deste mundo.

14. Desarmar o coração é um gesto que compromete a todos. Por vezes, é suficiente algo simples – “um sorriso, um gesto de amizade, um olhar fraterno, uma escuta sincera, um serviço gratuito”.
Com estes gestos, aproximamo-nos da meta da paz; esta não vem apenas com o fim da guerra, mas com o início de um mundo novo, no qual nos descobrimos diferentes, mais unidos e mais irmãos do que poderíamos imaginar.

15. Concede-nos, Senhor, a tua paz!

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

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