
Santo Agostinho ensinava que em Maria «o criador do homem Se fez homem, para que, embora Ele fosse o criador das estrelas, se alimentasse do seio de uma mulher; embora Ele fosse o pão, pudesse ter fome; para nos libertar, embora nós fossemos indignos».
Deste modo, recordava uma das características fundamentais do rosto de Deus: o da total gratuidade do seu amor, pelo qual Ele Se nos apresenta, “desarmado e desarmante”, nu e indefeso, como um recém-nascido no berço. Tudo isto para nos ensinar que o mundo não se salva afiando espadas, julgando, oprimindo ou eliminando os irmãos, mas sim esforçando-se incansavelmente por compreender, perdoar, libertar e acolher todos, sem cálculos nem medos.
É este o rosto de Deus que Maria deixou que se formasse e crescesse no seu ventre, mudando completamente a sua vida e que ela anunciou através da luz alegre e delicada dos seus olhos de mãe expectante. Também ela depôs todas as defesas, renunciando a expectativas, pretensões e garantias, como as mães sabem fazer, consagrando sem reservas a sua vida ao Filho que por graça tinha recebido, para que ela, por sua vez,O doasse de novo ao mundo.
Papa Leão XIV, Solenidade de Maria Santíssima, 2026
Mesmo quando me esqueço
Cardeal Tolentino Mendonça
Às vezes, Senhor,
é do profundo do meu esquecer que Te grito.
Sei que sou eu a distanciar-me,
mesmo sem dar-me verdadeiramente conta;
sou eu a deixar transcorrer as horas
sem reconhecer a tua passagem;
a deixar-me isolar, quase como uma ilha;
a opor resistência à compreensão
de até que ponto o tempo pode ser templo,
uma tua morada.
Por isso, Senhor,
mais que as palavras,
mais que a minha presença provisória e frágil, mais que todas as minhas irrelevâncias,
entrego-Te hoje a oração do meu esquecer:
este rolo de tecido longo e branco que eu,
solitário, desenrolo diante de Ti,
este meu andar por diante às cegas no mundo, como se não Te visse,
estes meus ouvidos
que se tornaram surdos à tua Palavra,
este meu vazio
preenchido apressadamente por tantos afazeres, estes meus progressos e involuções
sem uma razão,
estes meus confusos passos de criança
que Tu, extremoso, apoias,
porque sabes melhor que eu que,
mesmo quando me disperso,
quando por erro me ponho a correr
para não sei onde, em não sei que fuga,
mesmo quando eu me esqueço,
estou a caminhar para Ti.
Três portas para a verdade e a vida
Papa Francisco, 16 Maio 2014
Rezar, celebrar, imitar Jesus: são as três «portas» que devem ser abertas para encontrar «o caminho, que leva à verdade e à vida».
É preciso perguntar-se continuamente como é na nossa vida a situação da oração, da celebração e da imitação de Cristo, sugerindo que se inicie com a leitura do livro do Evangelho.
A vida cristã é caminhar sempre mas nunca sozinhos», é o próprio Jesus quem nos diz que Ele é o caminho: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Tudo. Eu dou-te a vida, Eu manifesto-Me como verdade e se tu vens coMigo, sou a vida.
Eis então que para conhecer aquele que se apresenta «como caminho, verdade e vida» é necessário pôr-se a «caminho». Aliás, o conhecimento de Jesus é o trabalho mais importante da nossa vida. Também porque conhecendo-O se chega ao conhecimento do Pai.
Há quem tenha esta fantasia de que as ideias, só as ideias, nos levarão ao conhecimento de Jesus, mas as ideias não dão vida e, portanto, quem vai por este caminho acaba num labirinto do qual não volta a sair.
Eis então a indicação das três portas que devemos abrir para conhecer Jesus.
Deter-se na primeira — rezar: o estudo sem oração não serve. Os grandes teólogos fazem teologia de joelhos».
Quanto à segunda — celebrar: a oração sozinha também não é suficiente; é preciso a alegria da celebração: celebrar Jesus nos seus sacramentos, porque ali Ele dá-nos a vida, a força, o alimento, o conforto, a aliança, a missão.
Por fim, abrir a terceira porta — a da imitatio Christi, imitar a vida de Cristo.
Atravessar estas três portas significa entrar no mistério de Jesus.
E não se deve ter medo de o fazer.
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