Domingo IV do Tempo Comum (PDF)

Ao longo do caminho até à cruz, a Mãe de Jesus tornou-se Mãe da Igreja. A sua peregrinação de fé e de consagração constitui o arquétipo para a peregrinação de cada batizado. Como é consolador saber que Maria está ao nosso lado, como Mãe e Mestra, no itinerário de nossa vida de batizados!
Além do plano afetivo, encontra-se ao nosso lado mais profundamente na eficácia sobrenatural demonstrada pelas Escrituras, pela Tradição e pelo testemunho dos Santos, muitos dos quais seguiram Cristo no caminho exigente dos conselhos evangélicos.
Cada ano, no Tempo Litúrgico do Natal, recorda a imensidão do amor de Deus por nós. É preciso acreditar e viver esse amor e a ele entregar-se sem reservas.
Assim como Simeão realizou a sua esperança, também nós podermos contar sempre com a presença redentora de Cristo.
Deixemos, pois, que Deus nos ame, para que sejamos, de facto, transformados, pois Ele continua amorosamente presente no meio de nós.
Canção Nova, 2025
Rezar cansa
Enzo Bianchi, In Perché pregare, come pregare, 2023

Rezar cansa, a oração é cansaço.
Na oração, o corpo impõe-se, faz sentir-se em toda a sua materialidade: entrar na oração exige, portanto, tomar consciência do corpo, até se chegar a uma atitude de profunda unidade diante do Senhor, até ao “habitare secum” [viver consigo mesmo sob o olhar de Deus], numa relação pacificada com o próprio corpo, percepcionado como lugar da inabitação de Deus e “templo do Espírito Santo”.
Se este cansaço físico é uma constante da oração de todos os tempos, hoje somos particularmente sensíveis ao facto de a oração comportar uma série de condições contraditas pelos atuais ritmos da vida diária. Nos nossos dias é árduo permanecer no silêncio, exigência necessária para voltar a dar unidade ao próprio ser, que arrisca a dissipação no excesso de palavras e de sons desarmoniosos; é difícil permanecer na solidão, parados durante um certo tempo e num mesmo lugar; aceitar a inatividade do tempo dedicado à oração.
Parece quase uma loucura, na civilização do burburinho e das imagens, viver a atitude de quem se abre a discernir uma Presença silenciosa e invisível, e todavia capaz de perscrutar os sentimentos e os pensamentos do coração.
Depois de ter decidido colocar-se nesta condição exterior, eis que se abre para o homem o exigente face a face com Deus, que provoca desorientação; quando nos colocamos seriamente nesta nudez diante de Deus, experimentamos medo, ficamos sem palavras, tornamo-nos inquietos…
Mas é precisamente deste abismo que pode começar o caminho de comunicação na fé com o Senhor.
Sem esquecer a dificuldade da luta contra as tentações, as quais pontualmente se desencadeiam quando nos colocamos em oração; assim como a fadiga requerida pela necessidade de assumir os pensamentos de Deus, muito diferentes dos nossos, divergentes daqueles com os quais empreendemos a oração.
Não tenho tempo
A dificuldade mais frequente com que se embate a propósito da oração é da presumida falta de tempo. Em parte, isto é verdade: a vida atual, sobretudo a urbana, é marcada pela velocidade, por ritmos laborais frenéticos e por compromissos múltiplos, que certamente já não são aqueles do antigo tempo bíblico, ou até de algumas gerações anteriores à nossa.
No entanto, é preciso denunciar que a falta de tempo é quase sempre um álibi: é sabido, por exemplo, que são muitas as horas passadas pelos crentes à frente da televisão ou na internet.
Por outro lado, também é verdade que encontramos sempre tempo para aquilo que realmente nos interessa: aquele que afirma que não tem tempo para orar, não é ele, com efeito, a determinar o seu tempo, a exercitar sobre ele um domínio, a ordená-lo, mas é o tempo a dominar sobre ele.
O cristão, se quer ser e dizer-se realmente tal, deve opor-se determinadamente à ideologia alienante do trabalho e da produtividade, deve empenhar-se em encontrar o tempo para escutar Deus e dialogar com Ele.
Não é por acaso que ordenar o tempo é o mandamento primário na fé judaico-cristã: reservar tempo para Deus, distinguir tempos em relação aos destinados ao trabalho, é o significado da articulação sabática, das festas, dos ritmos da oração.
A escuta de Deus é tão séria como o trabalho, e portanto não se podem dedicar à oração apenas retalhos de tempo; ela necessita de tempos fortes, de tempos precisos, que devem ter a precedência sobre o resto.
Um sacrifício inteiramente consumado por Deus e possível a todos é precisamente a oferta a Deus do tempo, o bem mais precioso possuído pelo homem sobre a Terra.
Santificar parte do seu tempo e destiná-lo à oração é já, de alguma forma, aceitar morrer, perder concretamente um pouco da sua vida para o Senhor; talvez dar tempo a Deus seja tão difícil porque significa fazer as contas com a própria morte.
Aliás, quem diz que acredita na vida eterna, na vida para além da morte, como faz para experimentar esta sua fé se não consagra tempo para entrar em comunhão com Deus aqui e agora?
O aspeto da disciplina do tempo não é, portanto, marginal, mas é central para a oração.
Sem a escolha de um ritmo e de tempos próprios não é possível orar: é preciso dar-se tempos pré-fixados e ser-lhes fiel, de modo a orar não só quando se tem vontade, quando emocionalmente se está disposto a fazê-lo; não, a oração é a fadiga de cada dia, é o alimento quotidiano para a vida no Espírito.
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