Folha Informativa 31-05-2026

Solenidade da Santíssima Trindade (PDF)

Andrei Rublev, Santíssima Trindade

Jesus revelou-nos que Deus é amor: é Criador e Pai misericordioso; é Filho Unigénito, eterna Sabedoria encarnada, morto e ressuscitado por nós; é Espírito Santo que tudo move, cosmos e história, rumo à plena recapitulação final.

Deus é tudo e somente amor, puríssimo, infinito e eterno. Não vive numa solidão maravilhosa, mas é sobretudo fonte inesgotável de vida que Se doa e Se comunica incessantemente. Podemos intuí-lO, observando o macro-universo: a terra,
os planetas, estrelas e galáxias; e o micro-universo: as células, átomos e partículas elementares. Em tudo o que existe está num certo sentido gravado o “nome” da Santíssima Trindade, porque todo o ser, até às últimas partículas, é um ser em relação.

Tudo deriva, tende e se move impelido pelo amor, com diferentes graus de consciência e de liberdade. A prova mais forte de que fomos criados à imagem da Trindade é esta: só o amor nos torna felizes, porque vivemos em relação, e vivemos para amar e ser amados.

Joseph Ratzinger, 2009

 

Santíssima Trindade

Cardeal Tolentino Mendonça, 2014

Deus não é uma solidão, não é apenas a unicidade, mas Deus também é a multiplicidade.
É comunidade, espaço onde o dom circula, a relação de paternidade, de filiação, de envio, de dádiva permanente de amor. Então, só olhando para Deus na relação podemos colher o seu mistério.
O mistério da Santíssima Trindade é isso, um mistério. E, por isso não o podemos compreender completamente. Só na fé o podemos acolher, sondar, explorar.

Não é alguma coisa que nos afasta de Deus, o mistério de Deus é um tipo de conhecimento.
É um tipo de relação que nós próprios mantemos com Deus. O próprio Jesus promete aos Seus discípulos: “O Espírito Santo virá a vós e vos dará a compreensão do mistério de Deus.” Então, a vinda do Espírito ajuda-nos a compreender Deus.

Como é que compreendemos Deus?
A filosofia tem sido uma caixa de ferramentas ótima. Para nos compreendermos a nós próprios, o sentido da vida e o próprio Deus.
A teologia, desde o princípio, se aliou à filosofia para encontrar um discernimento, uma possibilidade de dizer o mistério de Deus.
É muito interessante lembrar aquilo que nos diz o livro dos Provérbios, que nos fala da sabedoria de Deus, uma emanação de Deus e que no fundo é o próprio Deus, uma figura de Deus, tinha o seu prazer, tinha sua delícia não em estar, mas em brincar com os filhos dos homens.

Uma coisa que nos aproxima de Deus, e que nos ajuda a perceber o seu mistério, é a experiência da alegria, do jogo, da poesia da nossa existência.
A nossa relação com Deus não é apenas com a coisa mais séria, com a pessoa mais grave da nossa existência. Tem de ser um momento de pura gratuidade, abandono, graça, imaginação, invenção. Dá-se um brinquedo a uma criança e ela esquece-se, ela passa para dentro de uma história, ela é capaz de dialogar, é capaz de perceber e nós dizemos: “Bem, ela está a criar uma ficção.”
Não, ela está a criar, está a ser, ponto final. Porque nós também somos todas essas dimensões. Para pensarmos e compreendermos Deus, temos de integrar outras dimensões e perceber que nós tocamos a essência de Deus de muitas maneiras.

E uma delas é através daquilo que na vida, funciona até ao fim como uma espécie de brinquedo para nós. Nós não chegamos a Deus apenas por uma caminhada árida, ascética, de pensamento, de encadeamento de conceitos. Nós chegamos a Deus por nada, por um sorriso, por uma graça, por uma coisa que floresce, pelo inesperado, pelo surpreendente. E é necessário tornarmo-nos sensíveis a estes modos de chegar a Deus.

Um outro modo é a contemplação, o espanto. Para sentirmos Deus, nós não podemos viver uma vida de aviário, com os vidros fechados, insonorizada, fechada nas sua rotinas, nos seus ritmos. Para sentir Deus nós temos de tirar os sapatos, desatar a gravata, abrir as desculpas e passear. Ir ao jardim, olhar para o ar, ver as árvores, ouvir os pássaros, sentir o ar que corre. Ligarmo-nos, em admiração, em contemplação a este mistério.

Deus é transparente, está muito mais perto de nós do que julgamos e o que precisamos é de abrir as mãos, os olhos, os ouvidos e Deus vem, e Deus chega.
Um outro modo é aquele que Jesus nos revela a partir da experiência da relação. Jesus sente-Se sempre em relação com o Pai. “Tudo o que o Pai tem é Meu.” Mas Ele também diz o contrário: “Eu estou aqui para fazer a vontade de Meu Pai, em Mim está tudo aquilo que é de Deus.” E Jesus fala continuamente do Espírito: “Eu ainda não vos digo todas as coisas, é o Espírito que vos dirá.”

Quando Jesus diz “Deus é Pai” quer dizer que nós vivemos numa relação com Deus – a nossa experiência de paternidade, essa relação fundante, essa arquitetura íntima, decisiva daquilo que somos. Descobrimos o nosso pai dentro de nós. Existe aquela pessoa durante um tempo da nossa vida, mas é sobretudo dentro de nós que essa figura se perpetua, que nos estrutura.

Andrei Rublev pintou a Santíssima Trindade usando a narrativa do livro do Génesis, do anjo e depois dos três anjos que Abraão acolheu em sua casa e que lhe vêm anunciar que ele vai ter um filho. E ele coloca esses três anjos sentados à volta de uma mesa e à volta da mesa está um cálice. O segredo daquela imagem é que a posição dos três, um a meio e um de cada lado, o espaço vazio entre as imagens desenha também um cálice. Quer dizer, eles não estão sentados à volta de um cálice, eles são o cálice. Deus o que é que é? Deus é o cálice, o dom, a oferta de Si, o amor. Deus é essa dádiva permanente, esse ser em relação.

É este Deus que nós queremos seguir, que nós queremos louvar e que nós queremos imitar na nossa vida, tornando-nos nós próprios também esse cálice, também esse dom. Sentindo que o que é divino não é a solidão, o que é divino é a relação. E aprender isto profundamente. Sou divino quando entro em relação e quando percebo e me descubro em relação, nessa torrente eterna de vida.

A Bíblia também há de dizer que nós próprios somos divinos, nós próprios somos divinos. Não no sentido que nos confundirmos com Deus, mas no sentido de que Deus habita em nós, de que há uma centelha de Deus dentro de nós. O sopro de Deus, o Espírito de Deus habita-nos. Sabemos que somos divinos pela relação, pelo encontro, pelo dom. E, de facto, o amor é o grande espelho de Deus, é a grande gramática, a grande linguagem que dá a ver Deus.

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