Folha Informativa 30-11-2025

Domingo I do Advento (PDF)

Botticelli, Anunciação

Advento, tempo de espera. Não apenas de um dia, mas daquilo que os dias, de forma silenciosa, transportam: a Vida, o mistério apaixonante da Vida que em Jesus de Nazaré principiou.
Tempo de redescobrir a novidade escondida em palavras tão frágeis como “nascimento”, “criança”, “rebento”.
Tempo de escutar a esperança dos profetas de todos os tempos.
Isaías e Bento XVI. Miqueias e Teresa de Calcutá.
Tempo de preparar, mais do que consumir.
Tempo de repartir a vida, mais do que distribuir embrulhos.
Tempo de procura, de inconformismo, até de imaginação para que o amor, o bem, a beleza possam ser realidades
e não apenas desejos para escrever num cartão.
Tempo de dar tempo a coisas, talvez, esquecidas: acender uma vela; sorrir a um anjo; dizer o quanto precisamos
dos outros, sem vergonha de parecermos piegas.
Tempo de se perguntar: “há quantos anos, há quantos longos meses desisti de renascer?”
Tempo de rezarmos à maneira de um regato que, em vez de correr, escorre limpidamente.
Tempo de abrir janelas na noite do sofrimento, da solidão,
das dificuldades e sentir-se prometido às estrelas, não ao escuro.
Tempo para contemplar o infinito na história, o inesperado no rotineiro, o divino no humano, porque o rosto de um Homem nos devolveu o rosto de Deus.

Tolentino de Mendonça

Advento em São Francisco Xavier
Domingo I do Advento

 

Iniciamos, neste domingo, o novo ano litúrgico e com ele o grande mistério da espera de Cristo. Ao começar qualquer assunto, esperamos que venham a entender, ao começar um qualquer empreendimento, esperamos que se venha a concretizar, ao esperarmos por alguém, esperamos que venha ao nosso encontro, e por isso ao iniciarmos o ano litúrgico, esperamos a Cristo, esperamos vê-lO presente, não só no fim do ano como algo que nos aconteceu, mas esperamos que nos aconteça vê-lO em cada um destes dias que nos são oferecidos, desde já.

Esperar o Natal de Jesus é a manifestação de um desejo, que é fruto de uma promessa feita pelo próprio Deus. Nós esperamos, porque Ele deu e dá notícia de querer fazer-Se presente, vindo ao nosso encontro. Para preparar o Natal de Jesus é necessário encarnar esta espera, promover um lugar onde Ele possa vir a estar, onde Ele possa querer ficar.

A grande aprendizagem de cada Natal está sempre relacionada com a redescoberta desse lugar, pois no fim de tudo, chegamos sempre à conclusão que esse lugar não está fora de nós. Passaremos o tempo a preparar as casas com as luzes e as
decorações, a comprar os presentes, a abastecer as despensas para que nada Lhe falte, quando vier a visitar a nossa casa, mas no fundo de cada gesto bem sabemos, que mais do que a tudo, Ele nos quer a nós.

Para preparar esse lugar que somos, é preciso aprender a voltar a casa, a voltar a Deus e a esse lugar que é a Igreja, no qual somos gerados, pela palavra, pelos sacramentos e pela companhia que nos fazemos, como comunidade cristã.

Lembremo-nos que tudo isto nos é dado da parte de Deus, para que o nosso coração reaprenda a estar presente aqui e agora, pois não será possível esperar Jesus, se não permitirmos a Deus que eduque o nosso coração pela dinâmica do encontro.
Esperemo-lO, e desejemos preparar esse lugar que somos, onde Jesus, ao encarnar, desejou ter morada.

Padre Miguel

 

Olhando para ele com misericórdia, escolheu-o

Papa Francisco, 21 set 2017

Caravaggio, Chamamento de Mateus

A raiz da missão de Jorge Bergoglio está na meditação do dia de São Mateus. O mote que escolheu para si é tirado da homilia de São Beda.

No trecho que narra a conversão de Mateus há três excertos: o encontro, a festa e o escândalo.

Encontro: Jesus tinha acabado de curar um paralítico e quando estava para ir embora encontrou Mateus, sentado no banco dos impostos. Mateus era dos que faziam pagar os impostos ao povo de Israel para os dar aos romanos. Estes eram considerados traidores e desprezados.
O que convenceu Mateus a seguir o Senhor?
A força do olhar de Jesus que olhou para ele com muito amor, muita misericórdia: olhar que significava: «Segue-Me, vem». E Mateus, por sua vez, tinha um olhar desanimado, com um olho em Deus e o outro no dinheiro, com um semblante carrancudo, mal-humorado. Ao contrário, o olhar de Jesus, é amoroso, misericordioso.
Mateus levantou-se e seguiu-O.
Como entrou o amor de Jesus no coração daquele homem? Ele sabia que era pecador, que não era amado por ninguém, e até era desprezado. Aquela consciência abriu a porta à misericórdia de Jesus: deixou tudo e foi embora.
A primeira condição para ser salvo é sentir-se em perigo; para ser curado é sentir-se doente. Sentir-se pecador é a primeira condição para receber este olhar de misericórdia. Pensemos no olhar de Jesus: tão belo, tão bom, tão misericordioso, também nós, quando rezamos, sintamos este olhar sobre nós: que nos sugere não ter medo.

Mateus sentiu-se muito feliz e certamente convidou Jesus para almoçar em sua casa, como fizera também Zaqueu. É o momento da festa. Chamou os amigos pecadores, publicanos e fizeram perguntas ao Senhor e Ele respondeu sentado à mesa naquela casa, junto com os pecadores. Esta é a festa do encontro do Pai.

Mas enquanto o Senhor estava sentado à mesa eis que se apresenta o escândalo. Ao ver isto, os fariseus diziam aos seus discípulos: “Mas como? Por que come o vosso mestre juntamente com os publicanos e com os pecadores? é um impuro, porque saudar esta gente contagia”. Para eles é a doença, a impureza de não seguir a lei, e a lei diz que não se pode estar com eles. Aliás, são pessoas que repetem que «a lei diz, a doutrina diz…: eles conheciam bem a doutrina, sabiam-na muito bem, sabiam como se devia andar pelo caminho do reino de Deus, conheciam melhor do que ninguém como se devia fazer. Mas tinham esquecido o primeiro mandamento do amor e ficaram fechados nesta gaiola dos sacrifícios. Mas não, porque é Deus quem nos salva, é Jesus Cristo quem nos salva e estes não tinham compreendido, sentiam-se seguros, pensavam que a salvação vinha deles.

Jesus é claro: “Ide aprender”… o que significa misericórdia, aquilo que eu quero não são sacrifícios, eu não vim chamar os justos mas os pecadores.
Há quem possa dizer: “Padre, mas é uma graça sentir-se pecador, a sério? Sim, porque significa sentir a verdade. Mas não um pecador abstrato: pecador por isto e por aquilo. Pecados concretos! E todos nós temos tantos!

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