Folha Informativa 30-04-2023

Domingo IV da Páscoa (PDF)

A voz do Bom Pastor

Cornelis Engebrechtsz, Cristo Bom Pastor

A voz de Deus e a do tentador falam em diferentes “ambientes”: o inimigo prefere a escuridão, a falsidade, os mexericos; o Senhor ama a luz do sol, a verdade, a transparência sincera.

O inimigo dir-nos-á: “Fecha-te em ti, porque ninguém te entende nem te ouve, não confies!”.

Ao contrário, o bem convida-nos a abrir-nos, a ser claros e a confiar em Deus e nos outros.

Prestemos atenção às vozes que chegam aos nossos corações. Perguntemo-nos de onde vêm. Peçamos a graça de reconhecer e seguir a voz do Bom Pastor, que nos faz sair do espaço do egoísmo e nos conduz aos pastos da verdadeira liberdade.

Que Nossa Senhora, Mãe do Bom Conselho, guie e acompanhe o nosso discernimento.

Papa Francisco, Maio 2020

 

Um breve exame de consciência

Papa Francisco, Abril 2023

Como os discípulos de Emaús, somos chamados a estar com Ele para que, quando a noite chegar, Ele permaneça connosco.

Há uma bela maneira de o fazer, que gostaria de vos propor: consiste em dedicar um tempo cada noite a um breve exame de consciência.
O que aconteceu hoje dentro de mim?
Esta é a pergunta.

Trata-se de reler o dia com Jesus, reler o meu dia: de Lhe abrir o coração, de levar a Ele as pessoas, as escolhas, os receios, as quedas e as esperanças, todas as coisas que aconteceram; para aprender gradualmente a olhar para tudo com olhos diferentes, com os seus olhos e não só com os nossos.
Podemos assim reviver a experiência daqueles dois discípulos.

Face ao amor de Cristo, até o que parece fadigoso e fracassado pode emergir sob uma luz diferente: uma cruz difícil de abraçar, a escolha do perdão face a uma ofensa, uma vingança falhada, o cansaço do trabalho, a sinceridade que custa, as provações da vida familiar podem surgir sob uma nova luz, a luz do Crucificado Ressuscitado, que sabe fazer de cada queda um passo em frente.

Mas para isso, é importante eliminar as defesas: deixar tempo e espaço para Jesus, não lhe esconder nada, mostrar-lhe as misérias, fazer-se ferir pela sua verdade, deixar que o coração vibre ao sopro da sua Palavra.

Podemos começar hoje, dedicar um momento de oração esta noite, durante o qual nos perguntamos: como foi o meu dia?
Quais alegrias, tristezas, tédios…
Como foi, o que aconteceu?
Quais foram as suas pérolas, talvez escondidas, pelas quais dar graças?
Havia um pouco de amor no que eu fiz?
E quais foram as quedas, as tristezas, as dúvidas e os temores a mostrar a Jesus para que Ele me abra novos caminhos, me levante e me encoraje?

Maria, Virgem da Sabedoria, nos ajude a reconhecer Jesus que caminha connosco e a reler – eis a palavra: reler – perante Ele todos os dias da nossa vida.
O episódio dos dois discípulos de Emaús é uma história que começa e acaba a caminho.

 

 

As minhas ovelhas escutam a minha voz

Ermes Ronchi, 2019

Cristo Bom Pastor, Escola Alemã, 1917

Não as ordens, a voz. A voz que atravessa as distâncias, inconfundível; que narra uma relação, revela uma intimidade, faz emergir em ti uma presença.

A voz chega ao ouvido do coração antes das coisas que diz. É a experiência com que o bebé, quando ouve a voz da mãe, a reconhece, emociona-se, estende os braços e o coração para ela, e já está feliz bem antes de chegar a compreender o significado das palavras.

A voz é o canto amoroso do ser: «Uma voz! O meu amado! Ei-lo, chega correndo pelos montes, saltando pelas colinas» (Cântico dos Cânticos 2,8). E ainda antes de chegar, o amado pede o canto da amada: «Deixa-me ouvir a tua voz» (2, 14)… Quando Maria, ao entrar na casa de Zacarias, saudou Isabel, a sua voz fez dançar o ventre: «Mal a tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino sobressaltou de alegria no meu ventre» (Lucas 1,44).

Entre a voz do Bom Pastor e dos seus cordeiros corre esta relação confiante, amorosa, fecunda. Com efeito, porque é que as ovelhas devem escutar a sua voz? Dois géneros de pessoas disputam a nossa escuta: os sedutores, que nos prometem prazeres, e os verdadeiros mestres, que dão asas e fecundidade à vida. Jesus responde oferecendo a maior das motivações: porque Eu dou-vos a vida eterna.

Escutarei a sua voz não por obséquio ou obediência, não por sedução ou medo, mas porque como uma mãe, Ele faz-me viver. Eu dou-lhe a vida. O Bom Pastor coloca no centro da religião não aquilo que eu faço por Ele, mas aquilo que Ele faz por mim.

No coração do cristianismo não é colocado o meu comportamento, ou a minha ética, mas a acção de Deus. A vida cristã não se funda no dever, mas no dom: vida autêntica, vida para sempre, vida de Deus derramada dentro de mim, antes que eu faça o que quer que seja.

Ainda que eu diga sim, Ele semeou gérmenes vitais, sementes de luz que possam guiar-me a mim, desorientado na vida, à terra da vida. A minha fé cristã é incremento, acrescento, intensificação do humano e de coisas que merecem não morrer.

Jesus di-lo com uma imagem de luta, de combativa ternura: ninguém arrancará as minhas ovelhas da minha mão. Uma palavra absoluta: «Ninguém». Dita duas vezes, como se tivéssemos dúvidas: ninguém as pode arrancar da mão do Pai.

Eu sou vida indissolúvel das mãos de Deus, laço que não se rasga, nó que não se desata. A eternidade é um lugar entre as mãos de Deus. Somos passarinhos que temos o ninho nas suas mãos.

E na sua voz, que aquece o gelo da solidão

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

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