Folha Informativa 26-10-2025

Domingo XXX do Tempo Comum (PDF)

Lucas Cranach, O fariseu e o publicano

É muito importante repensar como muitas vezes reduzimos a vida a uma competição; como mudamos quem somos para obter algum reconhecimento; como nos comparamos inutilmente uns aos outros.

Parar para refletir, deixar-nos abalar por uma Palavra que questiona as prioridades que ocupam o nosso coração, é uma experiência libertadora. E Jesus chama-nos à liberdade.

A humildade é, em verdade, a liberdade de si mesmo. Nasce quando o Reino de Deus e a sua justiça realmente despertam o nosso interesse e podemos permitir-nos olhar para longe: não para a ponta dos nossos pés, mas para longe!

Quem se exalta, em geral, parece não ter encontrado nada mais interessante do que si mesmo e, no fundo, é muito inseguro. Mas quem compreendeu ser tão precioso aos olhos de Deus, quem sente profundamente ser filho ou filha de Deus, tem coisas maiores pelas quais se exaltar e tem uma dignidade que brilha por si mesma.

Ela vem em primeiro plano, está em primeiro lugar, sem esforço e sem estratégias, cada vez que aprendemos a servir, em vez de nos servirmos das situações.

Papa Leão XIV agosto 2025

Rezar até à impossibilidade de rezar

José Tolentino Mendonça

 

Podemos rezar como o fariseu.
O vocativo inicial, «Ó Deus», confere às suas palavras uma cadência solene e retórica.
A sua é uma oração autorreferenciada: ouve-se o «eu», «eu», «eu» por toda a parte.
O motivo de louvor que encontra é a diferenciação face aos outros, que são isto e aquilo: ladrões, adúlteros, injustos, que são sobretudo como aquele publicano que está atrás dele no templo. Ele é um bom praticante, que se contempla a si mesmo, deslumbrado com as suas obras que, na oração dele, não têm um caráter penitencial ou de súplica.

Enquanto o fariseu faz um uso do espaço sem grandes preocupações nem pruridos (ele está simplesmente de pé e fala, fala muito), o publicano distingue o próximo e o distante, o alto e o baixo, o corpo e a palavra: ele sente-se «longe», não ousa erguer o olhar e bate no peito enquanto profere algumas escassas palavras.
Tem consciência daquilo que o afasta. Desloca-se não no eixo horizontal, mas no vertical.
Ele não finge uma proximidade que não existe. Mas mostra-se assim, tal qual, a Deus.

Quando, na oração, ele se identificar como «o pecador», isso não será um mero artifício do discurso, mas corresponderá a uma verdade existencial que a intensidade simbólica da sua atitude corporal vibrantemente corrobora.

Diversos autores consideram que o gesto do publicano bater no peito deve ser interpretado como um sinal da sua contrição.
O significado mais frequente deste gesto, no mundo daquela época, é o de uma emoção intensa, provocada por um desgosto ou por uma situação desesperada, associando-se também à ideia de lamento.
A sua angústia, porém, não é total: do fundo áspero da sua noite ele clama a Deus. E reza: «Ó Deus, tem misericórdia de mim, o pecador.»

Esta passagem é a única do Evangelho em que a «pecador» se junta o artigo (o pecador). Isto não quer dizer que o publicano seja o maior pecador à face da terra, mas é assim que ele se sente e se coloca diante de Deus.

O ponto espiritual de viragem na parábola é esta atitude de verdade do publicano, em significativo contraste com a do fariseu. Ele faz convergir para Deus toda a sua vida, o seu bloqueio, as suas lágrimas, o seu desespero. Ele coloca-se completamente na dependência de Deus. Que Deus faça. Que Deus tenha misericórdia.

Rezar, outra coisa não é que expor-se a Deus, sem máscaras, nem véus, nem falsas virtudes, nem diferenciações.
É expor tudo. Expor até a nossa impossibilidade de rezar.

 

Conselhos para a oração

Martine de Sauto

Jesus condenou a repetição mas também deu como exemplo a viúva que não teve receio de importunar o juiz com um pedido insistente.
A tradição cristã oferece muitas orações.
O Pai-nosso, ensinado por Jesus aos seus discípulos, tem lugar privilegiado. Outras encerram uma referência evangélica, como a Avé Maria e o Magnificat, ou têm um lugar importante na tradição da Igreja, como o Símbolo dos Apóstolos (Credo) ou o Glória.
É também possível meditar nos mistérios do Rosário ou dizer a prece do coração Senhor Jesus, Filho de Deus, tem piedade de mim, que sou pecador.
A prece do coração foi concebida pelos padres orientais para afastar o fluxo dos pensamentos, abrir o vazio e criar um espaço de silêncio interior, para que Cristo habite sempre e cada vez mais a nossa personalidade.
Um conselho: rezar uma ou algumas destas orações em grupo atenua o risco da recitação mecânica. A oração em grupo é um apoio e uma experiência de comunhão.

Purificar a oração é purificar o desejo, até que ele se conforme à vontade de Deus.
Na época moderna o desagrado e a falta de gosto provêm muitas vezes do aspeto regulamentar e obrigatório da oração, de um sentimentalismo ambíguo, de um dogmatismo que se torna estéril. Alguns prosseguem custe o que custar. É talvez a oração mais pura, dado que é a aceitação de que a relação seja nua, sem nada que satisfaça.
Mas este querer crer não deve transformar-se numa obstinação vazia de sentido.

Orar é ser com Deus, numa relação viva onde Deus é Deus. Onde Deus é dom e ama verdadeiramente o homem.
Dado que se trata de ser com Deus, posso perguntar-me que oração me dá mais gosto:
ler o comentário de um texto bíblico com um forte desejo de verdade? Ouvir a Paixão de Bach? Em tudo posso voltar-me para aquele que me é inatingível.

 

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