Deus não nos criou para o túmulo

Deus é vida e doa vida, mas assume o drama da morte. Jesus poderia ter evitado a morte do amigo Lázaro, mas quis assumir para Si a nossa dor pela morte das pessoas queridas, e sobretudo quis mostrar o domínio de Deus sobre a morte.
A resposta de Deus ao problema da morte é Jesus:
Eu sou a ressurreição e a vida… Tenham fé! No meio do choro continuem a ter fé, ainda que pareça que a morte tenha vencido. Removam a pedra dos vossos corações! Deixem que a Palavra de Deus leve de novo a vida onde há morte.
Deus não nos criou para o túmulo, criou-nos para a vida, bela, boa, alegre.
Somos chamados a remover as pedras de tudo aquilo que fala de morte: a hipocrisia com que a fé é vivida; a crítica destrutiva contra os outros; a ofensa, a calúnia; a marginalização do pobre.
O Senhor pede para removermos estas pedras do coração, e a vida então voltará a florescer ao nosso redor.
Papa Francisco, 2020
O espírito de Deus em nós
D. Manuel Clemente, 2012
O mundo é este, grande e contraditório, em que vivemos. Grande pela potencialidade humana que mantém; contraditório pelos atrasos e desvios que infelizmente consente, nos conflitos que surgem ou não se resolvem, nas tragédias que sobrevêm ou agravamos por descaso ou incúria.
Um cristão tem em todas essas situações, de maior ou menor recorte, uma única tarefa e missão: fazer a paz, reconciliar sempre. Oiçamos de novo: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados…”. A reconciliação sacramental é feita pela Igreja através dos ministros ordenados, na sucessão do ministério apostólico. Mas o Espírito de Cristo, que todos recebemos, conta convosco para a obra de reconciliação universal que, de algum modo, a todos incumbe.
Tereis pela frente, da família à escola, da escola ao trabalho e à sociedade em geral, muitas rupturas a sarar, muitas desavenças a superar, muitas reconciliações a promover. Começareis porventura por vós mesmos e pela profunda reconciliação que cada um tem de fazer consigo, ou melhor com o Espírito de Cristo que em si actua.
Deixai-O trabalhar então, realizando em vós aquela absoluta unidade de inteligência e vontade, sensibilidade e propósito que havia em Cristo, Filho de Deus e homem perfeito. E acontecerá em vós como aconteceu em tantos homens e mulheres que o Espírito fez santos, a mais linda e urgente aventura: gente reconciliada para reconciliar o mundo. Gente de perdão, para retomar as vidas, primavera final dum recomeço sem retorno. (…)
Contrariamente ao que se diga, todos somos insubstituíveis, e o que cada um não fizer, por fazer ficará, nesse modo e ocasião. Deixai-me pedir-vos: Acolhei o que o Espírito vos pedir, no fundo da consciência e na interpelação da Igreja.
Na vida laical ou na vida religiosa, no sacerdócio ou na missão, para cada um de vós o Espírito tem um segredo e um apelo. Escutai-O hoje, que para tal O recebereis de seguida. Aí encontrareis a felicidade, que só reside na vontade de Deus. Aí a encontrarão tantos outros, que esperam o vosso sim. O Espírito em vós, para a salvação do mundo. Nada menos do que isso e precisamente assim.
E este mundo que nos toca, caríssimos irmãos, este mundo que hoje nos toca a todos, precisa tanto de ser recriado pelo Espírito de Deus!
Em Cristo, Deus reabilita a humanidade, esta mesma que cada um transporta e concretiza, tão magnífica de potencialidades e tão tragicamente desmentida por tantas contradições íntimas e sociais. Em Cristo, a nossa vida é vivida de forma novamente bela e finalmente refeita, segundo o desígnio de Deus.
Só por isso seremos plenamente cristãos. Reconhecemos em Cristo o que profundamente desejamos ser. Desde o baptismo, o seu Espírito atesta em nós que tal é possível.
Prosseguirá através de vós a obra de Cristo no mundo, na força recriadora do Espírito divino. Precisamente assim é que a Igreja de Cristo responde actualmente à expectativa de todos, nas difíceis circunstâncias da sociedade que integramos e onde havemos ser “sal” de conservação e sabor, assim como “luz” de esclarecimento e ânimo.
Deixai lavar-vos os pés
Papa Francisco, Quinta-feira Santa de 2020

Ainda em plena pandemia, o Papa Francisco, na Missa Vespertina da Ceia do Senhor, na Quinta-Feira Santa de 2020, fez a seguinte homilia, em que, sem deixar de referir as graves faltas alegadamente praticadas por sacerdotes, salienta o serviço que tantos outros realizam, dando a vida pelos que lhes estão confiados.
A Eucaristia, o serviço, a unção: eis a realidade que vivemos hoje, nesta celebração.
O Senhor quer ficar connosco na Eucaristia, e nós tornamo-nos tabernáculos permanentes do Senhor. Trazemos connosco o Senhor, a ponto de Ele próprio nos dizer que, se não comermos o seu Corpo e não bebermos o seu Sangue, não entraremos no Reino dos Céus. Este é o mistério do Pão e do Vinho, do Senhor connosco, em nós, dentro de nós.
O serviço: um procedimento que é condição para entrar no Reino dos Céus. Servir, sim; servir a todos. Mas o Senhor, na troca de palavras que teve com Pedro, faz-lhe compreender que, para entrar no Reino dos Céus, devemos deixar que o Senhor nos sirva, que o Servo de Deus seja nosso servo.
E isto é difícil de compreender. Se não deixo que o Senhor seja o meu servo, que o Senhor me lave, me faça crescer, me perdoe, não entrarei no Reino dos Céus.
E o sacerdócio. Hoje quero estreitar a mim os sacerdotes, todos os sacerdotes, desde o último ordenado até ao Papa. Todos somos sacerdotes. Os bispos, todos… Fomos ungidos, ungidos pelo Senhor; ungidos para fazer a Eucaristia, para servir.
(…)não posso deixar passar esta Missa sem recordar os sacerdotes, que oferecem a vida pelo Senhor; que são servos. (…) São «os santos de ao pé da porta», sacerdotes que, servindo, deram a vida.
(…) Sacerdotes que vão levar o Evangelho lá longe; e lá morrem. Dizia um bispo que a primeira coisa que fazia, quando chegava a estes lugares de missão, era ir ao cemitério, ao túmulo dos sacerdotes que lá deixaram a vida, ainda jovens, pela insalubridade local: não estavam preparados, não tinham os anticorpos. Ninguém sabe o seu nome: os sacerdotes anónimos. Os párocos de aldeia, que são párocos de quatro, cinco, sete paróquias, na montanha, e se deslocam duma para a outra, que conhecem o povo… Uma vez dizia-me um que sabia o nome de todas as pessoas das paróquias. «A sério?» – perguntei-lhe. Retorquiu-me: «Até o nome dos cães»! Conhecem a todos… A proximidade sacerdotal. Bons, bons sacerdotes!
Hoje tenho-vos muito presente no meu coração, e levo-vos ao altar. Sacerdotes caluniados. Nos nossos dias sucede, com frequência, não poderem caminhar pela estrada sem ter de ouvir coisas ruins que lhes dizem, relativas ao drama vivido com a descoberta dos sacerdotes que fizeram coisas ruins. Diziam-me alguns que não podem sair de casa com o cabeção, porque os insultam; e eles continuam. Sacerdotes pecadores, que, juntamente com os bispos pecadores e o Papa pecador, não se esquecem de pedir perdão e aprendem a perdoar, porque sabem que precisam de pedir perdão e de perdoar. Todos somos pecadores. Sacerdotes que sofrem crises, que não sabem como fazer, estão na escuridão…
Hoje todos vós, irmãos sacerdotes, estais comigo no altar. Digo-vos apenas uma coisa: não sejais obstinados como Pedro; deixai lavar-vos os pés.
O Senhor é o vosso servo; Ele está junto de vós para vos dar força, para vos lavar os pés.
E assim, com esta consciência da necessidade de ser lavados, sede grandes perdoadores! Perdoai! Coração com grande generosidade no perdão.
É a medida com que seremos medidos: como tu perdoares, serás perdoado. Será a mesma medida. Não tenhas medo de perdoar.
Às vezes surgem-nos dúvidas… Olha para Cristo [contempla o Crucificado]. N’Ele, temos o perdão de todos. Sede corajosos… mesmo no arriscar, no perdoar, para consolar. E se, naquele momento, não puderdes dar um perdão sacramental, pelo menos dai a consolação dum irmão que acompanha e deixa a porta aberta para que [aquela pessoa] volte.
Agradeço a Deus pela graça do sacerdócio; todos nós [agradecemos].
Agradeço a Deus por vós, sacerdotes. Jesus ama-vos!
Pede apenas que deixeis lavar-vos os pés.
Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018
