
Ensina-nos, Senhor, a paz que não é pré-fabricada, mas se tece como um lento artesanato.
Essa paz que nasce da arte de colocar em relação fios muito diversos, respeitando a unicidade de cada um e, ao mesmo tempo, descobrindo o significado profundo da convivialidade e do encontro.
Ensina-nos a paz que não tem vencedores nem vencidos, mas é uma ronda de seres humanos que se dão as mãos e aprendem a aceitar-se na mútua fragilidade; seres que abraçam nos seus semelhantes a mesma solidão que trazem dentro de si, mesmo se em graus diferentes, e não desistem de valorizar o desejo, as razões e os sonhos que faz de cada pessoa um peregrino em direção a Ti, Senhor, Mestre da verdadeira paz.
Ensina-nos, Senhor, que é dentro de nós que a paz começa.
Tolentino Mendonça, 2023
É hora do amor!
Papa Leão XIV, homilia na missa de inauguração do pontificado
Fui escolhido sem nenhum mérito e, com temor e tremor, venho até vós como um irmão que deseja se tornar o servo da vossa fé e da vossa alegria, caminhando com vocês no caminho do amor de Deus, que quer que todos nós estejamos unidos numa só família.
É isso que nos conta o trecho do Evangelho que nos leva ao Lago de Tiberíades, onde Jesus começou a missão recebida do Pai: “pescá-lo” para salvar a humanidade das águas do mal e da morte. Ao passar pela costa desse lago, Ele chamou Pedro e os outros primeiros discípulos a serem, como Ele, “pescadores de homens” e, agora, após a ressurreição, cabe-lhes continuar essa missão, lançando a rede repetidas vezes para mergulhar nas águas do mundo a esperança do Evangelho, navegando no mar da vida para que todos possam encontrar-se no abraço de Deus.
Como pode Pedro cumprir essa tarefa?
O Evangelho diz que isso é possível apenas porque ele experimentou na sua própria vida o amor infinito e incondicional de Deus, mesmo no momento do fracasso e da negação. Por isso, quando Jesus Se dirige a Pedro, o Evangelho utiliza o verbo grego agapao, que se refere ao amor que Deus tem por nós, à sua oferta sem reservas e sem cálculos, diferente daquele usado na resposta de Pedro, que descreve mais o amor da amizade que temos entre nós.
Quando Jesus pergunta a Pedro: “Simão, filho de João, amas-Me?”, Ele faz referência ao amor do Pai. É como se Jesus lhe dissesse: só se conheceste e experimentaste esse amor de Deus, que nunca falha, poderás apascentar as minhas ovelhas; só no amor de Deus Pai poderás amar teus irmãos num “ainda mais”, isto é, oferecendo a tua vida por eles. A Pedro é confiada a tarefa de “amar ainda mais” e de dar sua vida pelo rebanho.
O ministério de Pedro é precisamente marcado por esse amor oblativo, pois a Igreja de Roma preside à caridade, e a sua verdadeira autoridade é a caridade de Cristo. Não se trata jamais de aprisionar os outros por meio da dominação, da propaganda religiosa ou dos meios do poder, mas de amar como Jesus fez.
Ele – afirma o próprio apóstolo Pedro – “é a pedra que foi desprezada por vocês, os construtores, mas que se tornou a pedra angular”. E se a pedra é Cristo, Pedro deve apascentar o rebanho sem nunca ceder à tentação de ser um líder solitário ou um chefe colocado acima dos outros, tornando-se mestre das pessoas que lhe foram confiadas. Pelo contrário, deve servir à fé dos seus irmãos, caminhando com eles: de facto, todos nós somos “pedras vivas”, chamados pelo nosso batismo a construir o edifício de Deus na comunhão fraterna, na harmonia do Espírito, na coexistência das diversidades.
Como afirma Santo Agostinho: “A Igreja é constituída por todos aqueles que estão de acordo com os seus irmãos e que amam o próximo”.
Esse, gostaria que fosse o nosso primeiro grande desejo: uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado.
Na nossa época, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, pela violência, pelos preconceitos, pelo medo do outro, por um paradigma económico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres. E queremos ser, no coração dessa realidade, um pequeno fermento de unidade, comunhão e fraternidade. Queremos dizer ao mundo, com humildade e alegria: olha para Cristo! Aproxima-te d’Ele! Aceita a sua Palavra que ilumina e consola! Ouve a sua proposta de amor para te tornares a sua única família: em Cristo único, somos um.
E esse é o caminho a ser percorrido juntos, entre nós, mas também com as Igrejas cristãs irmãs, com aqueles que seguem outros caminhos religiosos, com aqueles que cultivam a inquietude da busca por
O Espírito chega a todos
Ermes Ronchi, In “Avvenire”, 2016

O Espírito, o misterioso coração do mundo, o vento sobre os abismos da origem, o fogo da sarça-ardente, o amor em todo o amor, respiração sagrada do Pai e do Filho, o Espírito que é Senhor e dá a vida, é enviado para cumprir duas grandes obras: ensinar tudo e fazer-nos recordar tudo o que Jesus disse.
Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, confessa Jesus aos seus. E todavia parte. Penso na humildade de Jesus, que não tem a pretensão de ensinar tudo, de ter a última palavra, mas abre, diante dos discípulos e diante de nós, espaços de procura e de descoberta, com um ato de total confiança nos homens e mulheres que até agora não compreenderam muito, mas que estão dispostos a caminhar, sob o vento do Espírito que traça a rota e impele as velas.
Estas palavras de Jesus oferecem-me a alegria profética e vivificante de pertencer a uma Igreja que é um sistema aberto, e não um sistema bloqueado e fechado, onde já tudo está estabelecido e definido.
O Espírito gosta de ensinar, acompanhar para além, em direção a paisagens inexploradas, descobrir vértices de pensamento e conhecimento novos. Vento que impulsiona para a frente.
Segunda obra do Espírito: recordar-vos-á tudo o que vos disse. Mas não como um simples facto mnemónico ou mental, uma ajuda para não esquecer, mas como um verdadeiro “re-cordar”, isto é, um “reenvio para o coração”, voltar a implantar no coração, no lugar onde se decide e se escolhe, onde se ama e se rejubila.
Recordar quer dizer voltar a acender gestos e palavras de Jesus, de quando passava e curava a vida, de quando dizia palavras das quais não se via o fundo.
O Espírito chega a todos. Não atinge apenas os profetas de um tempo ou a hierarquia da Igreja, ou os grandes teólogos. Convoca-nos a todos, buscadores de tesouros, buscadores de pérolas, que nos sentimos tocados no coração por Cristo e não cessamos de seguir as suas pegadas; todo o cristão tem tanto Espírito Santo quanto os seus pastores.
Cada um tem todo o Espírito que lhe serve para colaborar numa terceira obra fundamental para compreender e ser Pentecostes: incarnar o Verbo, fazer de cada um o ventre, a casa, a tenda, uma mãe do Verbo de Deus.
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