Folha Informativa 22-03-2026

Domingo V da Quaresma (PDF)

Léon Bonnat, Ressurreição de Lázaro

A rebelião de Jesus contra a morte passa por três níveis:
1. Removei a pedra. Fazei rolar os penedos que estão à entrada do coração, os escombros sob os quais vos sepultastes com as vossas próprias mãos; afastai os sentimentos de culpa, a incapacidade de vos perdoardes a vós mesmos e aos outros; afastai a memória amarga do mal recebido, que vos crava às vossas prisões interiores.

2. Vem para fora! Para o sol, para a primavera, para fora da gruta negra dos arrependimentos e das desilusões, do olhares só para ti mesmo, do sentires-te o centro das coisas.

3. Libertem-no e deixem-no ir. Libertai-vos da ideia de que a morte é o fim de uma pessoa. E depois deem-lhe uma estrada, e amigos com quem caminhar, algumas lágrimas, e uma estrela polar.

Ermes Ronchi, 2023

Milagres de todos os dias

Tolentino Mendonça

A palavra fé, “fides” (confiança) é um ato de entrega, abertura e abandono à vontade de Deus, à possibilidade de Deus em nós. É disponibilidade para o mistério de Deus e torna-se a nossa maneira de ser e atuar.

Não posso ter fé em Deus e desconfiar continuamente dos irmãos… se tenho fé em Deus, é uma atitude de confiança fundamental, transversal, que está em todas as atitudes da minha vida!

Não aconteça que nós com mais facilidade acreditemos naquilo que não vemos do que acreditemos naquilo que vemos! A fé em Deus forma o nosso coração, a nossa alma para depois confiarmos nos nossos semelhantes… mesmo que a situação pareça difícil, mesmo que o ponto de partida seja muito frágil, precisamos de dar aos outros o nosso ato de confiança.

A vida e Deus através da vida mostra-nos isso: quando acreditamos e pomos fé, vemos milagres acontecer. Quando confiamos nos outros e fazemo-los sentirem-se investidos de uma confiança, de um amor incondicional, então percebemos que há muitos limites que se superam, fragilidades que se transcendem e pontos de partida frágeis que se tornam outra coisa.

O que é que é necessário? A fé. Às vezes o nosso olhar, o que damos uns aos outros não vê a obra-prima – vemos o tosco, o limite. Por isso a nossa relação fraqueja, perde qualidade humana, afetiva e espiritual, porque não vemos o outro como Deus o vê, mas de uma forma mesquinha, incompleta, ressentida, desacreditada.

Ora, é preciso uma fé na pessoa… não há casos perdidos, porque se há amor, se há quem acredite, aquele caso não é perdido, mas há uma energia de amor, há uma energia revitalizadora, há um milagre que pode acontecer em cada vida.
E esse milagre também depende da confiança que nós colocamos nos outros.

Às vezes a familiaridade, a relação que temos com os outros impede que aconteça um milagre. Porque não é de admiração, mas de posse. Não é de louvor, não é de fé, não é de confiança no bem que Deus pode fazer no outro, mas é no defeito, no problema que nós identificamos.

Purifica o teu olhar em relação aos irmãos e abre-te àquilo que Deus pode fazer neles, abre-te àquilo que só Deus pode conseguir – conspira, sê cúmplice do milagre, em vez de seres um obstáculo a que o milagre da vida humana possa acontecer.

Porque os milagres não são apenas de doenças físicas, eu diria até que os grandes milagres são de doenças espirituais. E temos de dar muito valor a isso: às pessoas que conseguem vencer um defeito, um problema, reconstruir-se depois de um desabamento, que são capazes de dar um passo na direção certa depois de ter dado muitos na direção errada…

Sabemos que em família isso é muito difícil de viver, porque antes que o outro abra a boca já sabemos todos os disparates que vai dizer, e custa-nos muito, e já não estamos para ouvir… e sem darmos conta, estamos a impedir que o milagre aconteça.

Temos de nos perguntar se somos favorecedores do milagre ou obstáculos do milagre?
É de facilitar, pela confiança, a que a transformação e o milagre aconteçam ou criamos um muro de ideias feitas, de preconceitos, juízos, e já não damos mais nenhuma hipótese?

É claro que é preciso um trabalho interior, não é fácil. Este discurso é exigente, pede uma morte espiritual para nós próprios, porque não é fácil acreditar sempre, perdoar setenta vezes sete, dar mais uma oportunidade!

E, contudo, não podemos fechar a porta, porque se fechamos a porta somos nós que morremos, se deixamos de acreditar somos nós que perdemos a nossa vida, somos nós que perdemos a nossa esperança…
“Basta-te a minha Graça”, porque é quando somos fracos que somos fortes…
Nós temos de aprender esta fraqueza, a abraçar a fraqueza, e nós não aprendemos isso senão no alto da cruz.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

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