Folha Informativa 22-02-2026

Domingo I da Quaresma (PDF)

Duccio di Boninsegna, Tentação de Jesus

Eis porque a Palavra de Deus invocada por Jesus como mandamento radical e definitivo é: «Adorarás o Senhor Deus teu, e a Ele só prestarás serviço».

Desta forma Jesus deixa-nos um rasto a seguir quando somos tentados.

Ao surgir a tentação não se deve entrar em diálogo com Satanás, não se deve hesitar na escuta das seduções, mesmo confiando na própria força.

É preciso somente recorrer à Palavra de Deus, invocar o Senhor, não ceder a nenhum diálogo com o mal, mas afastar o tentador com a força de Deus.

Como se lê na vida de Santo Antão, o pai dos monges: exaurido pela luta vitoriosa contra as tentações, ele vê o Senhor num raio de luz e pergunta-Lhe: «Onde estavas? Porque não apareceste desde o início para pôr fim aos meus sofrimentos?». E d’Ele ouve a resposta: «António, estava aqui a lutar contigo».

Enzo Bianchi, 2017

Resistir à tentação

Papa Francisco, 2019

Paul Gustave Doré, Tentação

Depois de ter jejuado durante 40 dias, Jesus é tentado três vezes pelo diabo.
O caminho da avidez da posse. O diabo parte da natural e legítima necessidade de alimentar-se, de viver, de realizar-se, de se ser feliz, para nos impelir a acreditar que tudo isso é possível sem Deus, aliás, até contra Ele. Mas Jesus opõe-Se, afirma que quer abandonar-Se com plena confiança à providência do Pai, que cuida dos seus filhos.

O caminho da glória humana. Pode perder-se toda a dignidade pessoal se nos deixamos corromper pelos ídolos do dinheiro, do sucesso e do poder, apesar de conseguir a autoafirmação. E saboreia-se a ebriedade de uma alegria vazia, que depressa se desvanece.

Instrumentalizar Deus para vantagem pessoal. Ao diabo que, citando as Escrituras, O convida a procurar de Deus um milagre extraordinário, Jesus opõe de novo a firme decisão de permanecer humilde e confiante diante do Pai. Assim Jesus rejeita aquela que é talvez a tentação mais subtil: querer “arrastar Deus para o nosso lado”, pedindo-Lhe graças que na realidade servem para satisfazer o nosso orgulho.

São estes os caminhos que nos são postos à frente, com a ilusão de poder obter o sucesso e a felicidade. Mas, na realidade, eles são totalmente estranhos à maneira de agir de Deus.

Jesus, enfrentando em primeira pessoa estas provações, vence por três vezes a tentação, para aderir plenamente ao projeto do Pai.

E indica-nos os remédios: a vida interior, a fé em Deus, a certeza do seu amor, a certeza de que Deus nos ama, que é Pai, e com esta certeza venceremos qualquer tentação.

 

A importância da adoração

Ir. Jean-Hilaire Ardillier

Sei bem que as vossas vidas são tomadas num turbilhão indiferente, por vezes inclusive hostil, à Quaresma e às suas exigências. Mas gostaria de vos conduzir ao deserto para aí adorar Deus.

Colocar-se na presença de Deus
Começar assim o tempo de oração: «Coloquemo-nos na presença do Senhor e adoremo-l’O». Segue-se um tempo de silêncio, de onde brota uma oração vocal. Trata-se, primeiro, de fechar os olhos e de fazer silêncio em nós, para O adorar. É ao adorá-l’O que o nosso coração de quaresma se separa de tudo aquilo que é exterior a Ele, e que entramos nesta solidão repleta da presença de Deus.

Reconhecer que devo tudo a Deus: a adoração como atitude interior
Através dela coloco-me na presença de Deus, reconhecendo, com a minha inteligência, que Ele é absolutamente primeiro, e que tudo o que sou depende radicalmente d’Ele. «Senhor, a minha vida depende inteiramente de Ti. É de Ti que eu a tenho com tudo o que sou. Para além de todas as riquezas que possuo, sei e proclamo que não seria nada sem Ti.».
Viver esta oração de Quaresma é exprimi-la interiormente é colocar-me na relação mais fundamental e mais verdadeira a respeito de Deus. É a atitude interior que me volta a colocar “no diapasão” do mistério de Deus, e que recoloca a minha vida na sua verdadeira perspectiva.

Da adoração ao abandono
Ao adorar Deus, reconheço que Ele me criou em toda a liberdade, sem ser obrigado, para me comunicar o seu amor. A dependência que tenho dÉle, Ele que possui sobre mim todos os direitos, não produz em mim nem angústia nem alienação. Ao contrário, é fonte de uma imensa confiança e de um abandono. Só nos podemos abandonar a quem cuida de nós e que nos é benevolente.
«Senhor, entrego-me inteiramente entre as tuas mãos. Eu sei que Tu me amaste primeiro, e que tudo o que sou é um dom do teu amor. Tu tiraste-me do nada para fazer de mim o teu filho bem-amado. Tenho confiança em Ti e coloco toda a minha vida entre as tuas mãos, porque Te amo».

Rezar para nos aproximarmos do mistério
A adoração não considera Deus sob um “ângulo” particular: ela vê-O naquilo que Ele é n’Ele mesmo. Ela faz-me perceber que só Ele é absolutamente primeiro, e que tudo o resto, mesmo o que me é mais querido, mesmo a minha própria vida, mesmo os meus maiores desejos, Lhe são relativos. Esta primazia de Deus na minha vida, que coloca tudo no lugar certo, introduz a paz.
Quando adoro, entro no deserto, porquanto me separo interiormente de tudo o que não é Deus. A minha imaginação continua a divagar e o mundo exterior não é modificado. Mas a minha inteligência e o meu coração estão como que enclausurados em Deus. Através da adoração, torno-me terra sagrada que nada pode pisar, a não ser unicamente Deus, a quem a ofereço.

Adorar para lutar contra o orgulho e ganhar a paz
Quando deixo de adorar, esqueço progressivamente o gosto de Deus. As minhas obras podem ser belas, mas a sua raiz está deteriorada, e aos poucos perco a sensibilidade para as coisas divinas, a sensibilidade dos santos. Depressa volto a cair na agitação. Deixo de saber bem para onde vou: torno-me um errante. Tendo perdido a minha finalidade, arrisco-me a adorar ídolo: os bens terrestres, a aparência, a minha inteligência, a minha superioridade em certos domínios, etc.
O orgulho é a atitude oposta à da adoração, faz com que me considere como o primeiro.

É raro que eu o exprima tão claramente a mim mesmo, mas na prática, Deus só vem depois dos meus próprios desejos. Enquanto a adoração me coloca na paz ao restabelecer a ordem da minha vida a partir de Deus, o orgulho mergulha-me na agitação e na desordem, instalando uma ordem pervertida, onde Deus deixa de estar no primeiro lugar. Ao deixar de adorar, perco o sentido da minha finalidade.

 

 

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