Domingo XXIX do Tempo Comum (PDF)
Há dias que nos trazem o deserto à porta. Dias que nos fazem interrogar sobre o sentido de tudo o que temos vivido, sobre o que há de mais sagrado na nossa existência, sobre o que é realmente importante.
Dias que nos mostram, com a sua violência, as nossas fraquezas, as nossas inseguranças, as nossas incapacidades. Dias que nos fazem chorar, que nos deixam sem energia, que nos apontam o abismo, que nos roubam a fé. Dias em que a presença dos outros parece insuficiente, em que a vida parece futilidade. Dias em que o coração se fecha, em que Deus parece não estar. Dias em que tudo é noite.
Não. Não podemos evitar os dias maus, mas podemos escolher a nossa atitude perante eles.
Podemos escolher acreditar que há uma razão para tudo o que acontece e que tudo vai acabar por se resolver. Podemos escolher encontrar a beleza nas pequenas coisas e nas pessoas à nossa volta.
Podemos escolher ser gratos pelo que temos, em vez de nos focarmos no que nos falta. E, acima de tudo, podemos escolher confiar em Deus e no seu plano para nós, mesmo quando
não o entendemos.
Cardeal D. José Tolentino Mendonça
Dilexi te, a primeira exortação apostólica de Leão XIV
António Salvado Morgado
O Papa Francisco publicou a sua primeira encíclica – Lumen fidei [Luz da fé] em junho de 2013 e com ela completava uma trilogia de encíclicas sobre as virtudes teologais que Bento XVI desenvolveu. O texto desta encíclica já se encontrava em amplo desenvolvimento quando se verificou a renúncia papal. O Papa Francisco completa-o e publica-o.
Não é nesta encíclica sobre a Fé que encontramos as linhas programáticas de Francisco. Elas hão-de aparecer com clareza meridiana cinco meses mais tarde na Exortação Apostólica Evangelium Gaudium [Alegria do Evangelho].
A 4 de outubro passado, Leão XIV assinou em Roma a sua primeira Exortação Apostólica, Dilexi te [Eu te amei], Sobre o Amor para com os pobres.
O título evoca a Encíclica Dilexit nos [Amou-nos] do Papa Francisco (out.2024), sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus Cristo.
Podemos vislumbrar a intenção de Leão XIV dar seguimento a uma linha de pensamento e ação do Papa que o precedeu, até pela utilização de muitos conceitos que fazem parte do campo linguístico do anterior Papa (“causas estruturais da pobreza”, “periferias”, “estruturas de pecado”, “ditadura da economia que mata” ou “estruturas de injustiça”).
Leão XIV escreve no início do texto: o Papa Francisco, nos últimos meses da sua vida, estava a preparar uma Exortação Apostólica sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, intitulada “Dilexi te”, imaginando Cristo a dirigir-se a cada um deles dizendo: Tens pouca força, pouco poder, mas «Eu te amei» (Ap 3, 9). Ao receber como herança este projeto, sinto-me feliz ao assumi-lo como meu – acrescentando algumas reflexões – e ao apresentá-lo no início do meu pontificado, partilhando o desejo do meu amado Predecessor de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres.
Esta Exortação Apostólica não traz novidades na sua substância. Passando pelos fundamentos bíblicos, pela História da Igreja com os seus Santos e Congregações Religiosas ao serviço e cuidado dos pobres e dos mais necessitados, bem como pelo século e meio de Doutrina Social da Igreja, esta Exortação Apostólica aproxima-se depois dos pobres da situação presente que continuam a constituir um permanente desafio para a sociedade e, particularmente, para a Igreja.
Às antigas acrescentam-se outras formas novas de pobreza por vezes mais subtis e perigosas. Leão XIV escreve: Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação: o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história. Nos pobres, Ele ainda tem algo a dizer-nos.
Para nós, cristãos, a questão dos pobres remete-nos à essência da nossa fé. A realidade é que, para os cristãos, os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo. Com efeito, não basta limitar-se a enunciar de modo genérico a doutrina da encarnação de Deus. Para entrar verdadeiramente neste mistério, é preciso especificar que o Senhor Se faz carne que tem fome e sede, que está doente e na prisão.
Os pobres, que são família e que são ‘sujeitos’ de vida e não tanto ‘objetos’ de benemerência, são também eles que nos evangelizam porque, no silêncio da sua condição, eles colocam-nos diante da nossa fraqueza, revelam a nossa precariedade e o vazio de uma vida aparentemente protegida e segura.
O cuidado da Igreja pelos pobres é também uma Igreja com os pobres.
“Pelos pobres” e “com os pobres”, duas expressões preposicionais que são também uma proposta inadiável, quer no trabalho, quer no empenho em mudar estruturas injustas, quer através de um gesto simples e pessoal de proximidade, importa sempre que o pobre sinta serem para ele, os pobres de todas as formas de pobreza, as palavras de Jesus: «Eu te amei».
Assim termina a Exortação Apostólica “Dilexi te” de Leão XIV, para ser lida de papel na mão e com os olhos postos na Cruz da Fé e no mundo dos humanos.
A oração, alento de vida
Rui Jorge Martins (sobre livro de Papa Francisco, A Oração)
Se a fé se apaga, apaga-se a oração, e nós caminhamos no escuro, perdemo-nos no caminho da vida.
Aprendamos com a viúva do Evangelho, a rezar sempre, sem nos cansarmos. Era valente, esta viúva! Sabia lutar pelos seus filhos!
Faz-me pensar em tantas mulheres que lutam pela sua família, que rezam, que nunca se cansam. Recordemos hoje, todos nós, estas mulheres que, com a sua atitude, nos dão um verdadeiro testemunho de fé, de coragem, um modelo de oração. Recordemo-las! Rezai sempre, mas não para convencer o Senhor à força de palavras! Ele sabe melhor do que nós aquilo de que nós temos necessidade! A oração perseverante, pelo contrário, é expressão da fé num Deus que nos chama a combater com Ele, em cada dia, a cada momento, para vencer o mal com o bem.
A Igreja convida-nos à oração contínua pelos que nos são queridos e que foram atingidos pelo mal. Ou antes, devemos rezar mais por eles, tanto pessoalmente como em comunidade. Pensemos no episódio da mulher cananeia (Mt 15,21-28), pagã, não pertence ao povo de Israel, mas implora a Jesus a cura da sua filha.
Para pôr à prova à fé desta mulher, Jesus começa por lhe responder duramente: «Não posso, primeiro tenho de pensar nas ovelhas de Israel.» A mulher não desiste – quando uma mãe pede ajuda para os seus filhos, nunca cede; todos nós sabemos que as mães lutam pelos seus filhos. E Jesus: «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas».
Frente à doença, até na família surgem dificuldades devido à debilidade humana.
De um modo geral, o tempo da doença faz crescer a força dos laços familiares. Penso como é importante educar os filhos desde pequenos para a solidariedade no tempo da doença.
A proximidade cristã, de família a família, é um verdadeiro tesouro para a paróquia; um tesouro de sabedoria, que ajuda as famílias nos momentos difíceis e que faz entender melhor o Reino de Deus do que muitos discursos! São carícias de Deus.
Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018
