
Há um espaço de mistério em torno de Jesus crucificado e ressuscitado. Os discípulos encontraram um Ser divino transformado, não um cadáver ressuscitado. Reconheceram o seu amigo e mestre, Jesus de Nazaré, mas Ele era agora o seu Senhor na glória, o Filho de Deus.
Todas as narrativas de aparições nos Evangelhos são mais do que comprovação de factos; são encontros que mudam a vida com um mistério que transcende tempo e espaço.
Atravessar o limiar do conhecimento para a crença é mais do que apenas um feito intelectual. O grande S. Tomás de Aquino descreveu a busca de Deus como a fé que busca o entendimento, em vez de o entendimento em busca da fé. O dom da fé vem primeiro, porque nenhuma percentagem de razão pode revelar a face do Cristo vivo, o Jesus crucificado e ressuscitado como o nosso encontro pessoal com Deus.
A nossa fé é um relacionamento vivo com Jesus, e não um problema a ser resolvido. A vida cristã não é um programa a ser dominado, mas um mistério sem fim que nos guiará através desta vida para uma eternidade de descoberta e alegria.
Pat Marrin, In National Catholic Reporter, 2023
Ouvir, Acreditar e Persistir
Dehonianos

Jesus não anda hoje, em pessoa, pelas ruas das nossas aldeias, vilas e cidades, a propor-nos o Reino de Deus e a dizer-nos, com palavras e com gestos concretos, como devemos viver para que a nossa vida faça sentido. No entanto, antes de voltar para o Pai, Ele encarregou os seus discípulos de serem suas testemunhas no mundo.
A sua proposta tem de continuar hoje a chegar aos homens. Sentimos que isso nos diz respeito? Nós que encontramos Jesus, que acolhemos a sua mensagem, que decidimos segui-l’O, que aceitamos viver ao seu estilo, damos testemunho dessa Boa Notícia que Ele nos deixou? A nossa vida é um anúncio dessa vida nova que Deus quer oferecer a todos os seus filhos e filhas?
É na escuta e na partilha da Palavra que o plano salvador de Deus ganha sentido; e que só através da Palavra de Deus – explicada, meditada e acolhida – o crente pode perceber que o amor até às últimas consequências e o dom de si próprio não levam ao fracasso, mas geram vida nova e definitiva.
Quando Lucas escreve o seu Evangelho (década de 80 do primeiro século), a comunidade cristã defrontava-se com algumas dificuldades. Tinham decorrido cerca de cinquenta anos depois da morte de Jesus, em Jerusalém. A catequese dizia que Ele estava vivo; mas no dia a dia de uma vida monótona, cansativa e cheia de dificuldades, era difícil fazer essa experiência. As testemunhas oculares de Jesus tinham já desaparecido e os acontecimentos da paixão, morte e ressurreição pareciam demasiado distantes, ilógicos e irreais. “Se Jesus ressuscitou e está vivo, como posso encontrá-l’O? Onde e como posso fazer uma verdadeira experiência de encontro real com esse Jesus que a morte não conseguiu vencer? Porque é que Ele não aparece de forma gloriosa e não instaura um reino de glória e de poder, que nos faça triunfar definitivamente sobre os nossos adversários e detratores?”
Aquele quadro de desencanto e de desânimo em que se movem os dois discípulos que caminham de Jerusalém para Emaús não nos é completamente estranho. Experimentamo-lo nós, diante das crises que a vida traz, do carácter transitório das nossas conquistas, da debilidade que nos habita, da falência dos nossos projetos mais queridos, dos sonhos que se evaporam e nos deixam de mãos vazias, das nossas certezas derrubadas, das nossas seguranças com pés de barro… Abalados e magoados sentimos a tentação de baixar os braços, de abandonar a luta, de nos demitirmos das nossas responsabilidades, de nos fecharmos em nós próprios, de “aguentarmos” a vida sem arriscar, de vivermos para o trivial que não encanta mas também não fere excessivamente. Talvez pensemos até, muitas vezes, que Deus nos virou as costas e nos deixou “sem rede”, abandonados à nossa sorte; e damos por nós a arrastar-nos pela vida sem rumo nem horizontes.
Lucas diz-lhes: Sim, Jesus está vivo e caminha ao nosso lado nos caminhos do mundo. Às vezes, não conseguimos reconhecê-l’O, pois os nossos corações estão ocupados com as nossas preocupações pessoais, com os nossos interesses egoístas, com os nossos preconceitos enraizados, com as nossas visões estreitas… Ficamos amarrados aos nossos limites, incapazes de olhar mais longe e de compreender o projeto de Deus. Apesar de tudo isso, Jesus faz-Se nosso companheiro de viagem, caminha connosco passo a passo, alimenta a nossa caminhada com a esperança que brota da sua Palavra, faz-Se encontrar sempre que nos sentamos à mesa da comunidade para partilhar o pão eucarístico.
A narração sugere o esquema litúrgico da celebração eucarística: a liturgia da Palavra (a “explicação das Escrituras”, que permite aos discípulos entenderem a lógica do plano de Deus em relação a Jesus) e o “partir do pão” (que faz com que os discípulos entrem em comunhão com Jesus, recebam d’Ele vida, O reconheçam nesses gestos que são o “memorial” da sua entrega até ao extremo por amor).
Depois de fazer a experiência do encontro com Cristo vivo e ressuscitado na celebração eucarística, cada crente é, implicitamente, convidado a voltar à estrada, a dirigir-se ao encontro dos irmãos e a testemunhar que Jesus está vivo e presente na história e na caminhada dos homens.

Como é que podemos escutar Jesus e receber d’Ele esse suplemento de esperança que nos permite continuar? Através da Palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada, acolhida. Ajuda-nos a colocar a vida em perspetiva e a definir o sentido correto da nossa existência; incendeia-nos o coração, faz-nos vencer o desânimo e o pessimismo, leva-nos ao compromisso com a transformação do mundo e da história; mostra-nos perspetivas novas e renova a nossa esperança; diz-nos como chegar à vida verdadeira e eterna…
Os dois discípulos de Emaús, dececionados com um projeto que parecia ter falido, abandonaram a comunidade e fugiram para Emaús. Aquela comunidade triste e amedrontada, fechada numa casa de Jerusalém, afundada na inércia e no pessimismo, já não lhes dizia nada. Hoje há muitos irmãos que veem a Igreja nascida de Jesus como uma comunidade imóvel e estacionada no passado, com um discurso pomposo mas pouco
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