Folha Informativa 17-05-2026

Domingo VII da Páscoa (PDF)

Robert Zund, o caminho para Emaús

«Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos».
Que Ele está, não há dúvida; mas onde é que O escondemos?
Se Jesus Se põe a caminho com o jovem e lhe fala ao coração, este seguramente abrasa-se.

Infelizmente o pensamento dominante atual, que vê o ser humano como aprendiz-criador de si mesmo e totalmente embriagado de liberdade, tem dificuldade em aceitar o conceito de vocação, no sentido alto de um chamamento que chega à pessoa vindo do Criador do seu próprio ser e vida.

A verdade é que Deus, ao criar-nos, sem dúvida livres na existência, predispôs de certo modo a nossa essência ao pensá-la e dotá-la das capacidades requeridas para uma missão concreta ao serviço desta humanidade que Ele ama. E ama-nos demais, para nos abandonar ao acaso e à míngua de bem.

Papa Francisco, 2016

Ver com o coração

Cardeal Tolentino Mendonça

Robert Zund, o caminho para Emaús

Como se lê no livro dos Atos dos Apóstolos, chega o momento em que Jesus nos é subtraído ao olhar, e uma espécie de nuvem oculta agora a sua visão.

Os discípulos terão de aprender uma coisa que até então não sabiam, e que consiste em viver a presença de Jesus na sua ausência. Viver em Jesus sem O ver, sem O encontrar no espaço físico e quotidiano do mundo.

Isto não significa que perderam Jesus.
A Igreja com a Páscoa não perdeu Jesus.
Reencontrámo-l’O numa outra forma, e podemos reconhecer as novas modalidades da sua presença no meio de nós.

Por isso é tão importante aquilo que S. Paulo diz: «Deus ilumine os olhos do vosso coração, para voz fazer compreender a que esperança vos chamou» (Efésios 1,18). Precisamos dos olhos do coração para compreender a qualidade e a extensão da presença de Cristo na história.

Mas penso também naquele detalhe que o Evangelho de Mateus regista: no momento final da ascensão, alguns discípulos ainda duvidaram.
Todavia, é curioso que essa dúvida não constitua um problema para Jesus. Ele investe os discípulos na missão, mesmo da dúvida.
Jesus não disse que aquela missão era apenas para aqueles que acreditaram solidamente.
Jesus confia a missão a todos.
As dúvidas e as dificuldades do caminho fazem parte da condição crente.

 

Preservar vozes e rostos humanos

Papa Leão XIV, Dia das Comunicações Sociais 2026

 

O rosto e a voz são traços únicos, distintivos, de cada pessoa; manifestam a própria identidade irrepetível e são o elemento constitutivo de cada encontro. O rosto e a voz são sagrados. Foram-nos doados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele próprio nos dirigiu. Preservar rostos e vozes humanas significa preservar o reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos, definidos antecipadamente. Cada um de nós tem uma vocação insubstituível e inimitável que emerge da vida e que se manifesta precisamente na comunicação com os outros.

Ecossistemas informativos e relações pessoais
A tecnologia digital corre o risco de modificar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como IA interferem nos ecossistemas informativos, e invadem o nível mais profundo da comunicação: a relação entre pessoas humanas.

Desafio antropológico
O desafio não é tecnológico, mas antropológico. Preservar rostos e vozes é auto-preservação. Acolher com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela IA, não significa esconder os pontos críticos, as opacidades e os riscos.

Não renunciar ao próprio pensamento
Algoritmos concebidos para maximizar o envolvimento nas redes sociais – lucrativo para as plataformas – recompensam as emoções rápidas, penalizam as expressões humanas, que necessitam de mais tempo, como o esforço de compreensão e a reflexão. Ao fechar grupos de pessoas em bolhas de consenso e indignação fáceis, enfraquecem a capacidade de escuta e de pensamento crítico, aumentando a polarização social. Nalguns contextos, há uma confiança ingenuamente acrítica em relação à IA percebida como uma espécie de ‘amiga’ omnisciente, dispensadora de todas as informações, arquivo de memórias, ‘oráculo’ de conselhos. Isso enfraquece a capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de compreender significados e distinguir entre sintaxe e semântica.

Não ceder às máquinas
A questão fundamental é o que podemos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com um uso inteligente de ferramentas tão poderosas a nosso serviço. Renunciar ao processo criativo e ceder às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos que recebemos com o fim de crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz.

Simulação das relações e da realidade
Temos dificuldade em identificar se estamos interagindo com outros seres humanos ou com ‘bots’ ou ‘influencers virtuais’. Os chatbots, com sua estrutura dialógica e adaptativa, mimética, são capazes de imitar os sentimentos humanos e simular uma relação. Essa antropomorfização, que pode soar até mesmo divertida, é enganosa, especialmente para os mais vulneráveis. Tornados excessivamente ‘afetuosos’, além de sempre presentes e disponíveis, podem tornar-se arquitetos ocultos dos nossos estados emocionais e invadir e ocupar a esfera da intimidade das pessoas.
A tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamento pode ter consequências dolorosas no destino dos indivíduos, e ferir o tecido social, cultural e político das sociedades.

Imersos na multidimensionalidade
As distorções presentes nos sistemas emergentes, chamadas BIAS, podem reforçar tendências existentes e ampliar a discriminação, o preconceito e os estereótipos. Estamos imersos numa multidimensionalidade onde é cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção. Sistemas que vendem uma probabilidade estatística como conhecimento estão a oferecer, no máximo, aproximações da verdade que, às vezes, são verdadeiras ‘alucinações’.
Desafios
O desafio que nos espera não está em travar a inovação digital, mas em orientá-la, em sermos conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas humanas, para que estas ferramentas possam ser verdadeiramente integradas por nós como aliadas. Esta aliança é possível, mas precisa fundamentar-se em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.

Responsabilidade. Pode ser articulada, dependendo dos papéis, como honestidade, transparência, coragem, capacidade de visão, dever de compartilhar o conhecimento e direito a ser informado.
Para os que estão no comando das plataformas on-line; criadores e desenvolvedores de modelos de IA; aos legisladores nacionais e reguladores supranacionais. Deve-se tutelar a paternidade e a propriedade soberana do trabalho dos jornalistas e dos outros criadores de conteúdo.
A informação é um bem público. Um serviço público construtivo e significativo não se baseia na opacidade, mas na transparência das fontes, na inclusão dos sujeitos envolvidos e em um padrão elevado de qualidade.

 Cooperação. Todos somos chamados a cooperar. Nenhum setor pode enfrentar sozinho o desafio de guiar a inovação digital e a governança da IA. Precisamos de criar mecanismos de salvaguarda. Todas as partes interessadas – da indústria tecnológica aos legisladores, das empresas criativas ao mundo académico, dos artistas aos jornalistas e educadores – devem estar envolvidas na construção e na efetivação de uma cidadania digital consciente e responsável.

Educação. Precisamos de aumentar as nossas capacidades pessoais de refletir criticamente, a avaliar a fiabilidade das fontes e os interesses por trás da seleção das informações que chegam até nós e elaborar critérios práticos para uma cultura da comunicação mais saudável e responsável.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

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