Solenidade da Santíssima Trindade (PDF)

A visão da Igreja como comunhão dos crentes, animada pelo Espírito Santo, permite-nos entrar na perfeita comunhão e harmonia da Santíssima Trindade.
É na Trindade que todas as coisas encontram a sua unidade. Esta dimensão da nossa vida e missão cristãs é-me muito cara e reflete-se nas palavras de Santo Agostinho que escolhi para o meu ministério pontifício: “In Illo uno unum”.
Cristo é o nosso Salvador e n’Ele somos um só, uma família de Deus, para além da rica variedade das nossas línguas, culturas e experiências.
A apreciação da nossa comunhão como membros do Corpo de Cristo abre-nos naturalmente à dimensão universal da missão evangelizadora da Igreja e inspira-nos a transcender os limites das nossas paróquias, dioceses e nações, para partilhar com todas as nações e povos a insondável riqueza do conhecimento de Jesus Cristo.
Papa Leão XIV, maio 2025
A fé e os sacramentos
Comissão Teológica Internacional, 2020
Como criatura trinitária, este é “o povo unido ‘pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo’”, a Igreja não apenas mantém uma íntima relação com o Verbo Encarnado, até a ponto de poder afirmá-la verdadeiramente como Corpo de Cristo (Lumen Gentium, 7), mas também com o Espírito Santo.
E isso não apenas porque o Espírito, o grande dom do Ressuscitado, atua na sua constituição (Lumen Gentium, 4), habita nela e nos fiéis como num templo, unifica-a e gera o dinamismo missionário que lhe é inerente.
Mas também, porque a Igreja é um povo espiritual, pneumático (Lumen Gentium, 12), enriquecido com os diversos dons que o Espírito doa aos fiéis para o bem do conjunto da comunidade. Esses dons carismáticos conduzem a uma apropriação particular da riqueza da Palavra de Deus e da graça sacramental, fortalecendo a comunidade, impulsionando a sua missão (Apostolicam Actuositatem, 3), enfim, fortalecendo a sacramentalidade da Igreja.
Pela fé, o Espírito leva-nos ao conhecimento da verdade completa (Jo 16,12-13). Ninguém pode confessar a Jesus como o Senhor, senão no Espírito.
Assim, o Espírito habita o fiel e o capacita a caminhar no Espírito em direção a Deus, para testemunhar a sua fé, para desenvolver a caridade cristã, para viver em esperança, para chegar a alcançar a maturidade da plenitude crente, a medida de Cristo.
Portanto, o Espírito age no fiel tanto no próprio ato subjetivo de crer, quanto nos conteúdos acreditados e, é claro, no dinamismo vital que imprime no fiel. Esse dinamismo implica uma apropriação mais profunda das bem-aventuranças, retrato do coração de Cristo e, portanto, do discípulo.
Com os seus dons, o Espírito fortalece o fiel individual e a Igreja.
Pela fé, confessamos a Jesus Cristo como o Senhor, o Filho do Deus vivo, nos tornamos seus discípulos, caminhando em direção à conformação com Ele.
Pela fé, e graças à mediação do Filho e do Espírito, conhecemos o desígnio de Deus Pai, entramos em relação com Ele, louvamos, bendizemos e obedecemos como filhos amados. Colocamo-nos a caminho para cumprir sua vontade sobre nós, a história e a criação.
De onde podemos esperar a alegria?
Paulo VI, Gaudete in Domino
Não se poderia exaltar convenientemente a alegria cristã permanecendo insensível ao testemunho exterior e interior que Deus Criador dá de Si mesmo no seio da criação: «E Deus viu que era bom» (Génesis 1,10.12.18.21.25.31).
Colocando o homem no meio do universo, que é obra do seu poder, da sua sabedoria, do seu amor, Deus dispõe a inteligência e o coração da sua criatura – ainda antes de Se manifestar pessoalmente mediante a revelação – ao encontro da alegria e da verdade. Por isso é preciso estar atento ao chamamento que brota do coração humano, desde a infância à velhice, como um pressentimento do mistério divino.
Ao dirigir o seu olhar para o mundo, não experimenta o homem um desejo natural de compreendê-lo e dominá-lo com a sua inteligência, ao mesmo tempo tempo que aspira a alcançar a sua realização e felicidade?
Como é sabido, há vários graus nesta “felicidade”. A sua expressão mais nobre é a alegria ou “felicidade” em sentido estrito, quando o homem, ao nível das suas faculdades superiores, encontra a sua satisfação ao possuir um bem conhecido e amado. Desta forma o homem experimenta a alegria quando está em harmonia com a natureza e sobretudo quando a experimenta no encontro, na participação e comunhão com os demais.
Com maior razão conhece a alegria e felicidade espirituais quando o seu espírito entra em posse de Deus, conhecido e amado como bem supremo e imutável. Poetas, artistas, pensadores, homens e mulheres simplesmente disponíveis a alguma certa luz interior puderam, antes da vinda de Cristo, e podem nos nossos dias, experimentar de alguma maneira a alegria de Deus.

Mas como não ver ao mesmo tempo que a alegria é sempre imperfeita, frágil, quebradiça?
Por um estranho paradoxo, a mesma consciência do que constitui a verdadeira felicidade, para além de todos os prazeres transitórios. compreende também a certeza de que não há felicidade perfeita. A experiência da finitude, que cada geração vive, obriga a constatar e a sondar a distância imensa que separa a realidade do desejo de infinito.
Este paradoxo e esta dificuldade de alcançar a alegria parece-nos especialmente prementes nos nossos dias. (…) A sociedade tecnológica conseguiu multiplicar as ocasiões de prazer, mas considera muito difícil conceber a alegria. Porque a alegria tem outra origem. É espiritual.
Com frequência não faltam o dinheiro, o conforto, a higiene, a segurança; contudo o tédio, a aflição, a tristeza fazem parte, infelizmente, da vida de muitos. Esta realidade chega por vezes à angústia e ao desespero que nem a aparente despreocupação nem o frenesim do gozo presente ou os paraísos artificiais conseguem evitar.
Será que nos sentimos impotentes para dominar o progresso industrial e planear a sociedade de uma maneira humana? Será que o futuro aparece demasiado incerto e a vida humana demasiado ameaçada? Ou não se trata antes de solidão, de sede de amor e de companhia não satisfeita, de um vazio mal definido?
Em muitas regiões, e por vezes bem perto de nós, o cúmulo de sofrimentos físicos e morais torna-se opressor: tantos famintos, tantas vítimas de combates estéreis, tantos deslocados.
Estas misérias não são talvez mais graves do que as do passado mas tomam uma dimensão planetária; são melhor conhecidas ao ser difundidas pelos media, pelo menos tanto quanto as experiências de felicidade; elas oprimem as consciências sem que muitas vezes se consiga ver uma solução humana adequada.
No entanto estas situações não deveria impedir-nos de falar da alegria, esperar a alegria.
É precisamente entre as suas dificuldades que os nossos contemporâneos têm necessidade de conhecer a alegria, de escutar o seu canto.
Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018
