Domingo XXVIII do Tempo Comum (PDF)
A herança dos Santos
Leão XIV, Estádio de França, 2026
Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada.
Sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto.
Onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que «o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente».
Em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude.
Como falar de Deus hoje?
Bento XVI

Podemos falar de Deus porque Ele falou connosco. A primeira condição do falar de Deus é por isso a escuta! Deus interessa-Se por nós, ama-nos, entrou pessoalmente na realidade da nossa história, autocomunicou-Se até Se incarnar. Em Jesus de Nazaré encontramos o rosto de Deus, que desceu do céu para penetrar no mundo dos homens, no nosso mundo, e ensinar a «arte de viver», a estrada da felicidade.
Falar de Deus quer dizer antes de tudo ter claro o que devemos levar aos homens e às mulheres do nosso tempo: não um Deus abstrato, uma hipótese, mas um Deus concreto, que existe, que entrou e está presente na história; o Deus de Jesus Cristo como resposta à pergunta fundamental do porquê e do como viver.
Não somos nós a poder ganhar os outros para Deus, mas devemos esperá-lo do próprio Deus, pedir-Lho. O falar de Deus nasce de uma escuta, da nossa consciência de Deus que se realiza na familiaridade com Ele, na vida de oração e segundo os Mandamentos.
Jesus mostra que no mundo e na criação transparece o rosto de Deus e mostra-nos como na história quotidiana da nossa vida Deus é presente e se estivermos atentos podemos encontrá-l’O. A fé não é um peso mas uma fonte de alegria profunda, é perceber a ação de Deus, reconhecer a presença do bem que não faz rumor; e oferece orientações preciosas para viver bem a própria existência.
Parar de fugir de Deus
P. Nelson Faria, sj
Ter dois “bater de coração” num coração é viver em arritmia. Só um bater de coração é bom: o de Cristo. E é nesse que fomos criados. É nesse que somos santos. Temos de parar de fugir de Deus.
Quando foi a última vez que deixámos Deus tocar onde realmente dói? Quando demos licença ao nosso Deus para habitar aquele lugar interior que sabemos não caber dentro duma oração bonita? Precisamos de regressar ao Coração. Não por nostalgia, mas por necessidade.
O Coração de Jesus não está interessado na versão ‘filtrada’ de cada um de nós, cem vezes editada.
O Coração de Jesus deseja encontrar-Se com a versão crua, frágil, desnuda, vulnerável, de cada um de nós. Aquela que até nós evitamos.
Um dos maiores obstáculos à nossa conversão não é a distração, mas o desejo de controlar o encontro com o Senhor. Rapidamente fugimos quando Ele ameaça entrar onde nós não queremos ir sozinhos.
E, por vergonha, ainda menos com Ele.
Precisamos de reaprender a habitar o coração, esse lugar interior onde deixamos cair as máscaras e de ‘atuar’ para a multidão. Aquele lugar onde deixamos de ser avatares de nós mesmos.
Porque é que o nosso Deus ferido não pode entrar no nosso coração ferido? Donde vem esta falta de confiança? Vem de algo maior que o receio de ferir a imagem que temos de nós mesmos: brota do medo de que o nosso Deus nos peça aquilo que não queremos dar.
O Coração de Jesus não nos vai deixar ficar onde estamos: Ele vai-nos pedir seguimento. Vai dizer “Vem coMigo, vive coMigo, ao meu estilo”. E isso implicará perdoar, mesmo quando temos razão; confiar, mesmo quando tudo ameaça colapsar; entregar, quando desejamos controlar; amar, principalmente quando só nos apetecer fugir.
O nosso Deus, ainda que console, é acima de tudo um provocador. Daí Santo Inácio procurar homens para a Companhia de Jesus inteiramente livres para a maior glória de Deus, para a sua santíssima vontade. Homens que se deixem trabalhar por Ele, que acolham este Deus-trolha no seu coração, um Deus que derruba cada um dos muros que teimosamente erigimos com a misericórdia que habita as feridas das Suas mãos.
No Coração trespassado de Cristo vemos um Deus que não Se protege do sofrimento humano, mas que o atravessa connosco. Um Deus que não Se impõe, mas Se oferece. Um Deus que continua a dizer, no silêncio, “bem-vindo a casa”. O coração de Jesus pede-nos que habitemos o mundo. Que, com Ele e n’Ele, reencontremos o centro. E é fácil rezar com Ele. Basta parar, colocar a mão no peito e dizer-Lhe aquilo que temos evitado dizer em voz alta. Uma só coisa. Aquela coisa, a mais difícil. E ficar em silêncio, aguardando que o seu coração Se encoste ao nosso. Sem explicações, nem justificações. Permanecer aí, sem fugir. E deixar-se fazer por Deus.
A oração é feita de pequenos regressos ao coração. E, em cada regresso, cair na conta de que cada vez que procuramos o seu coração, Ele cura o nosso. Discretamente, pequenos milagres ocorrerão: a dureza é aplainada; o gelo é quebrado e torna-se neve; a ferida respira; a pressa perde prioridade; o amor ganha densidade.
Queremos arrumar o coração para que Cristo chegue, mas do que precisamos é de ir até Ele com o nosso coração nas mãos. E aí encontrar morada. No coração d’Ele há sempre espaço. Espaço para o cansaço. Para a dúvida. Para a gratidão. Para aquilo que ainda não sabemos dizer.
Antes do fazer, deixar-nos fazer. Antes do gesto grandioso de bondade, deixar-nos amar. É assim que nasce o apóstolo. É assim que vivem os discípulos. É assim que os amados de Deus dão vida.
O Coração de Jesus não é adorno kitsch, nem piedade oca. É disrupção. Se o deixarmos aproximar-Se de nós, Ele mudará os nossos ritmos, derrubará as nossas defesas e entrará, como graça, nas feridas que fingimos não ter.
Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018
