Domingo XXVII do Tempo Comum (PDF)

Este modo justo de servir torna humilde o agente.
Este não assume uma posição de superioridade face ao outro, por mais miserável que possa ser de momento a sua situação.
Cristo ocupou o último lugar no mundo – a cruz – e, precisamente com esta humildade radical, redimiu-nos e ajuda-nos sem cessar.
Quem se acha em condições de ajudar há-de reconhecer que, precisamente deste modo, é também ele próprio ajudado; não é mérito seu nem título de glória o facto de poder ajudar. Esta tarefa é graça. Quanto mais alguém trabalhar pelos outros, tanto melhor compreenderá e assumirá como própria esta palavra de Cristo: «Somos inúteis servos».
Na realidade, essa pessoa reconhece que não age em virtude de uma superioridade ou de uma maior eficiência pessoal, mas porque o Senhor lhe concedeu este dom. Às vezes, a excessiva vastidão das necessidades e as limitações do próprio agir poderão expô-lo à tentação do desânimo. Mas é precisamente então que lhe serve de ajuda saber que, em última instância, não passa de um instrumento nas mãos do Senhor; libertar-se-á assim da presunção de ter de realizar, pessoalmente e sozinho, o necessário melhoramento do mundo.
Com humildade, fará o que lhe for possível realizar e, com humildade, confiará o resto ao Senhor. É Deus quem governa o mundo, não nós.
Bento XVI,Papa de 2005 a 2013
O caminho da Fé
Cardeal D. José Tolentino Mendonça

A fé é um caminho feito de expectativa e confiança. E o nosso modo de caminhar na fé é tateando, como se víssemos o invisível, segundo a bela formulação da Carta aos Hebreus (11,7).
Somos habitados pela possibilidade de Deus, por uma questão inesgotável.
Mas a proximidade de Deus com a nossa história não anula a dimensão purgativa, a experiência da existência como tal feita de perguntas e agonias, de dúvidas, de desertos, de noites escuras.
Nem mesmo a fé nos permite entrar num estado de imunidade a tudo isto, numa cápsula de neutralidade. A fé expõe-nos abertamente ao silêncio, ao ir e voltar do túmulo vazio sem compreender nada, ao fazer e refazer.
A dificuldade de acreditar não distorce a fé. Pelo contrário, é um elemento fundamental do mesmo. A fé chega até nós como um presente. De nossa parte, o que podemos insistir é na súplica incessante a Deus para que nos ajude a ver.
Vem-me à mente uma pequena história contada pelo escritor Eduardo Galeano no seu O Livro dos Abraços. Fala de uma criança, Diego, que viaja para o sul com o pai para ver o mar pela primeira vez. Quando, depois de uma longa caminhada, chegam à praia, o mar está ali, diante dos seus olhos. Era um azul e uma imensidão ininterrupta e sem palavras. E o filho, agarrado ao pai, pediu-lhe em voz baixa: “Ajuda-me a olhar!”. Acredito que é isso que precisamos pedir a Deus.
5 meditações sobre a beleza
François Cheng

Nestes tempos de misérias onipresentes, de violências cegas, de catástrofes naturais ou ecológicas, falar de beleza
poderá parecer incoerente, inconveniente, até mesmo provocador. Quase um escândalo.
Mas justamente por isso, vê-se que, do lado oposto ao mal, a beleza se situa bem na outra ponta de uma realidade que devemos encarar. Estou convencido de que temos por tarefa urgente, e permanente, encarar estes dois mistérios que constituem as extremidades do universo vivo: de um lado, o mal; do outro, a beleza.
O mal, sabemos o que é, sobretudo aquele que o homem inflige ao homem.
Por causa de sua inteligência e de sua liberdade, quando o homem cai no ódio e na crueldade, ele pode cavar, por assim dizer, abismos sem fundo, o que nenhum animal, mesmo o mais feroz, não chega a fazer.
Temos aqui um mistério que atormenta a nossa consciência, nela causando uma ferida aparentemente incurável.
A beleza nós também sabemos o que ela é.
Mesmo que nela pouco pensemos, não deixamos, contudo, de ser tomados de estupor: o universo não é obrigado a ser belo e, todavia, ele o é.
À luz desta constatação, a beleza do mundo, apesar das calamidades, aparece-nos, igualmente, como um enigma.
Que significa a existência da beleza para a nossa própria existência?
Perante o mal, o que significa a frase de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”?
O mal, a beleza, eis dois desafios que devemos encarar. Não nos escapa o fato de que o mal e a beleza não se situam somente em antípodas: por vezes, eles estão imbricados.
Afinal, o mal pode disfarçar-se de beleza, tornando-se instrumento de engano, de dominação e de morte.
Mas, uma beleza que não estivesse fundada sobre o bem, seria ainda “bela”?
A verdadeira beleza não seria também um bem? Intuitivamente, sabemos que distinguir a verdadeira beleza da falsa faz parte de nossa tarefa. O que está em jogo é nada menos que a verdade do destino humano, um destino que implica os dados fundamentais da nossa liberdade.
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