
Não nascemos cristãos; tornamo-nos cristãos quando somos tocados pela graça de Deus.
No entanto, esse “toque” expressa-se por meio de nossa escolha consciente e da nossa jornada pessoal. Sem essas verdadeiras exigências, carregaremos o rótulo de cristãos, mas seremos cristãos por conveniência, hábito ou conforto.
Em vez disso, tornamo-nos cristãos autênticos quando nos permitimos ser pessoalmente tocados, na nossa vida diária, pela Palavra e pelo testemunho de Jesus.
No meio das tribulações, dos momentos de solidão e aridez, nas incompreensões e nas dificuldades, que os vossos corações se enraízem n’Aquele que é o caminho, a verdade e a vida, a fonte de toda paz, alegria e amor.
Papa Leão XIV, julho 2025
Morrer para si e viver do Espírito
Enzo Bianchi, 2018

João mergulha Jesus no Jordão, é como que imergido na morte, afogado e depois erguido, arrancado ao vórtice que submerge. É assim que Jesus desce, alcança o mais baixo do que é baixo, o último lugar que nunca Lhe será tirado.
Esta primeira manifestação pública de Jesus surgiu como escandalosa para os primeiros cristãos, que, aclamando-O na fé como Senhor, temiam que neste acontecimento fosse percecionado como inferior ao Batista. Deste modo, progressivamente, deixar-se-á de recordar o facto de que foi João a imergir Jesus.
Não é por acaso que, no Evangelho segundo Mateus, Jesus é apresentado como aquele que tem de convencer o Batista a mergulhá-lo, vencendo a sua hesitação: «Deixa fazer por agora, porque convém que cumpramos toda a justiça». É precisamente nesta condição “baixa” que acontece para Jesus uma manifestação de Deus, uma teofania. Enquanto sobe da água, vê os céus rasgados e o Espírito descer sobre Ele como uma pomba. Vê o que os outros não veem, recebe uma revelação que aos outros permanece oculta. Os céus rasgaram-se sobre Ele, Jesus tem plena comunhão com Deus, a Terra e o Céu estão em comunicação.
A invocação tantas vezes elevada a Deus pelos crentes de Israel – «se Tu rasgasses os céus e descesses» – é finalmente respondida, e aqui essa resposta é-nos narrada em primeiro lugar através da imagem do voo doce e pacífico de uma pomba. O Espírito que desce sobre Ele é o mesmo Sopro que pairava sobre as águas da primeira criação, e desce agora sobre Jesus, que se torna a Morada de Deus.
A ação de Deus, mediante a imagem da pomba, é acompanhada pela palavra pronunciada pela voz que chega do céu: «Tu és o Filho meu, o amado; em Ti pus o meu comprazimento». Depois de ter visto, Jesus escuta uma voz que Lhe diz antes de tudo: «Tu és o Filho meu, o amado». É a palavra que revela Jesus na sua identidade mais profunda, palavra que Jesus deverá interiorizar na sua vida humana para responder plenamente à sua vocação, à sua missão, mas antes de tudo à sua verdade.
Esta voz implica a paternidade de Deus sobre Jesus e especifica que Ele é o único Filho, o Filho amado, como era Isaac para o seu pai Abraão. Um Filho que, diferentemente de Isaac, não será poupado ao sacrifício porque – como dirá Jesus – os vinhateiros pérfidos, ao verem o Filho amado, não O pouparão, como desejava o Pai, mas matá-l’O-ão e lançá-l’O-ão para fora da vinha. Eis portanto o Filho amado de quem o Pai se compraz, porque é como o Servo no qual Ele pôs o seu Espírito, o Servo eleito, escolhido, e no entanto rejeitado…
Esta primeira cena da vida de Jesus segundo Marcos está situada significativamente em ligação com o batismo último e definitivo, que Jesus conhecerá como cumprimento da sua missão.
Não é por acaso que Ele interrogará os discípulos Tiago e João, perguntando-lhes: «Podereis ser imergidos nas imersões nas quais Eu estou imerso?». A imersão nas águas da morte, da rejeição e da traição, Jesus vivê-la-á na sua paixão, que será a sua epifania sobre a cruz: Jesus crucificado entre dois pecadores, em plena solidariedade connosco, humanos, tal como começou o seu ministério.
Então, quando os céus parecem fechados, ao seu expirar rasga-se o véu do templo, porque o Santo dos santos, o lugar da presença na Terra, do diálogo definitivo entre Terra e Céu, é precisamente Ele, Jesus.
O véu rasgado é o sinal de que todo o ser humano poder ter comunhão com Deus através do corpo de Jesus, corpo dador de Espírito e de vida.
Nesta festa do batismo nós, discípulos e discípulas de Jesus, somos conduzidos a considerar o nosso Batismo não só como acontecimento que marca o início da vida cristã, mas como dinâmica quotidiana que nos pede, no seguimento de Jesus, que morramos para nós próprios e vivamos do seu Espírito.
Deus tem uma só e única palavra em resposta à nossa invocação: «Tu és amado, amada».
É esta palavra que nos sustém e nos faz andar com esperança para a imersão da morte.
Tempo Comum
Na maior parte do Ano Litúrgico, a Igreja vive o que se designa por Tempo Comum, não por ser um período menos importante na vida e na liturgia da Igreja, mas por decorrer fora dos dois pontos centrais: Advento-Natal e Quaresma-Páscoa.
O Tempo Comum é considerado um tempo de vigilância, de espera, de esperança, pelo que a cor litúrgica é o verde, patente nos paramentos envergados pelo sacerdote na celebração da Missa.
Sendo um período longo, de 33 ou 34 semanas, o Tempo Comum é subdividido em duas partes:
A primeira parte começa no dia seguinte à festa do Batismo de Jesus (neste ano de 2026 a 11 de janeiro) e vai até 17 de fevereiro, a terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas, quando tem início a Quaresma.
A segunda parte do Tempo Comum deste Ano A recomeça na segunda-feira depois de Pentecostes (25 de maio de 2026) e estende-se até 28 de novembro, o sábado que antecede o primeiro domingo do Advento, quando tem início um novo Ano Litúrgico, o Ano B, em que seguiremos o Evangelho de São Marcos.
O 34º Domingo do Tempo Comum, que assinala o fim deste período, é substituído pela Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo.
Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018
