Folha Informativa 08-03-2026

Domingo III da Quaresma (PDF)

Anjelika Kaufmann, Jesus e a Samaritana

A pena do mundo, a dor dos inocentes, a doença, a violência, a guerra, a morte, porquê tudo isto?

Porquê, Senhor, se morreste em oferta, se atravessaste aquela passagem de escuridão, se sofreste o ultraje, se padeceste como inocente, se estás morto… porque, Senhor, não nos poupaste este caminho?

Porquê a dor e a morte de pessoas queridas? Porquê a minha morte?

Devo permitir à cruz que sacuda a minha fé.
Porque se acredito, quero acreditar em profundidade. Não me satisfaço com frases feitas, com discursos frios que são apenas outros pregos na carne, com explicações superficiais. Se acredito, quero acreditar com todo o meu ser. Interrogar-me e interrogar-Te.

Procurar um sentido. Tentar sempre. É o que também Tu fizeste: levantaste um grito. Nisto recordo que cada grito ao Céu pelo malo mundo é não só lícito, mas também divino.

Sergio di Benedetto, 2023

Elogio da Sede


Tolentino de Mendonça, 1ª Meditação dos Exercícios Espirituais da Quaresma, 2018

“Espanta-te ainda”, “espanta-te mais uma vez” — é isso que o texto do Evangelho de São João sugere.

Nós que, a dada altura da vida, parece que já vimos tudo, já vivemos e sabemos tudo, e olhamos para a realidade protegidos por aquilo que julgamos ser uma distância ou um acumulado saber, somos aqui literalmente desarmados (e desarrumados) pelo espanto.
Jesus dirige-Se a uma anónima mulher samaritana e faz-lhe um pedido extravagante.
Diz-lhe três palavras: “dós moi peîn” (“dá-me de beber”).
Ela vinha para tirar água e regressar ao povoado, vinha pensando na sua casa,  nos seus afazeres, na satisfação das suas necessidades.
Tinha os seus passos mais ou menos calculados, o ir e o vir bem previstos, e é surpreendida por aquele pedido e aquele interlocutor.

Tinha de atravessar a Samaria. Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Ficava ali o poço de Jacó. Então Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta da hora sexta. Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus: “Dá-me de beber” (João 4,5-24).

Mike Moyers, Jesus e a Samaritana

Por muito que isso nos desconcerte são estas as palavras que Jesus nos dirige, na borda do poço que representa este momento das nossas vidas: “Dá-Me do que trazes. Abre o teu coração. Dá-Me do que és”.
Ele quebra o emaranhado de rotinas, cálculos e interditos, mais visíveis ou mais submersos, que atiram a nossa vida para um impasse, ainda que sob uma aparência de normalidade.
Rompe com a previsibilidade sonâmbula dos nossos trajetos, das nossas idas e vindas cegas entre a casa e o poço e diz-nos: “Dá-Me de beber”.

Talvez ainda não tenhamos descoberto que o nosso poço possa servir para isso.

Sendo de condição divina, como explica São Paulo, Jesus não Se valeu da forma de Deus, mas esvaziou-Se dela para fazer-Se servo último e radical da nossa humanidade.
E tendo a possibilidade de dispensar o contributo que Lhe possamos oferecer, o Senhor diz-nos: “Não te dispenso; eu preciso de ti; dá-Me de beber”.

Em qualquer estação da vida, e porventura nesta em concreto que vivemos, esse pedido provoca perplexidade e assombro.
Invade-nos como um arrepio.
Porque nós é que viemos beber; viemos até aqui, rumamos até o poço para dessedentar-nos.

A sede, sabemos o que é.
Fadiga e necessidade, conhecemos bem.
Nós é que, como diz o profeta, ziguezagueamos de mar a mar, erramos de extremo a extremo, buscando por toda a parte e não encontramos (Amós 8,12).
E agora, vem Jesus dizer-nos: “Dá-Me tu de beber”.

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

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