Um mundo novo começou

Tudo aconteceu no “primeiro dia da semana”. No Credo dizemos que Jesus ressuscitou ao “terceiro dia”, a partir do dia da sua morte, o que também é verdade.

Morreu às três horas do dia 14 de nisan, Sexta-Feira Santa, e foi sepultado ao fim da tarde desse dia; no dia seguinte, sábado, 15 de nisan, foi a Páscoa dos judeus; e ao terceiro dia, 16 de nisan, Jesus ressuscitou dos mortos.

Mas este dia é verdadeiramente o “primeiro dia”, como escreve S. João. Já era o primeiro dia da semana, no calendário judaico, mas agora, com a ressurreição de Jesus, passa a sê-lo de um modo novo. A ressurreição de Jesus é a inauguração de um novo calendário, porque a morte foi vencida, e a eternidade entrou no tempo, apareceu um tempo novo, um mundo novo começou.

Para nós, seres humanos, o tempo passa muito depressa: os jovens não notam isso, mas as pessoas menos jovens notam bem o passar do tempo. Ainda há pouco foi Natal, hoje já é Páscoa, o tempo foge… Mas este dia, que “é o dia que o Senhor fez”, nunca passará.

O “primeiro dia” será sempre um dia novo, todo o resto do tempo está em função dele. Jesus ressuscitado recomeça a contagem do tempo e dá pleno sentido aos nossos dias. É importante, é muito bom para nós celebrar a ressurreição de Jesus, que iniciou um tempo novo, e celebrá-la, não só hoje, Domingo de Páscoa, mas também de hoje a oito dias, e de novo em cada novo domingo, e só assim não perderemos o tempo, só assim não nos perderemos a nós próprios no tempo, e começaremos, já neste tempo, a viver a eternidade, para a qual fomos criados por Deus.

A ressurreição de Jesus ultrapassa a nossa compreensão, mas compreendemos sem dificuldade a sua beleza, a sua grandeza, o seu luminoso e admirável sentido. S. João diz-nos que Maria Madalena “foi de manhã cedo ao sepulcro, estando ainda escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do sepulcro” (20, 1). Esta pedra era um obstáculo intransponível, mas foi retirada, e o que não tinha saída, o que parecia definitivamente fechado, agora transformou-se numa abertura para o infinito.

A morte como ponto final, como fim sem remédio, transformou-se em caminho para a vida. Maria Madalena diz a Simão Pedro e ao outro discípulo: “Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde O puseram”. Mas não O puseram em lado nenhum! Jesus está vivo e não morre mais, é soberanamente livre, é o Senhor da vida, já ninguém O pode reter, como Ele próprio dirá mais tarde a Maria Madalena (João 20, 17).

Por sua vez, S. Pedro e o outro discípulo correm ao sepulcro, e vêem, no sepulcro vazio, alguns sinais evidentes da ressurreição de Jesus. As ligaduras e o sudário estão literalmente vazios do seu conteúdo. Como se subitamente faltasse o que antes continham. Antes envolviam um corpo, ou cobriam um rosto sem vida. Mas agora estão no chão, e esse corpo sem vida já não se encontra lá.

E então faz-se luz no seu espírito. No exterior, ainda é escuro, mas nos seus corações já brilha a luz da fé.

Ainda não viram Jesus, mas já crêem. E assim tinha de ser, porque, se não acreditassem, nunca veriam Jesus! “Na verdade, explica S. João, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos”. Mas agora entenderam que toda a Escritura, toda a Antiga Aliança se cumpre em Jesus ressuscitado.

Também em Jesus ressuscitado se cumpre toda a esperança dos homens. Os sonhos e os desejos mais profundos do nosso coração realizam-se em Jesus Cristo ressuscitado. A ânsia de verdade e o desejo de vida, que procuramos em tantos lados, só n’Ele se realizam plenamente. Só n’Ele a vida tem pleno sentido, só n’Ele vencemos a morte.

Não tenhamos receio, como Pedro e João, de correr ao seu encontro. Jesus espera-nos sempre para nos acolher, para nos abraçar, para nos perdoar, para nos alimentar e fortalecer, e também para nos enviar como anunciadores da sua ressurreição, que é fonte de vida e de alegria para todos os homens.

A todos os paroquianos deseja uma Santa Páscoa, na alegria de Jesus Ressuscitado
O Prior de São Francisco Xavier
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira