Domingo XII do Tempo Comum (PDF) TEXTO

Uma vida nova

Nicholas Poussin, Jesus entrega as chaves a S.Pedro

Às vezes notamos o peso de levar por diante a vida quotidiana, cansados de arriscar pessoalmente contra uma espécie de muro de borracha dum mundo onde parecem prevalecer sempre as leis do mais astuto e do mais forte.

Outras vezes sentimo-nos impotentes e desanimados perante o poder do mal, os conflitos que dilaceram as relações, as lógicas feitas de cálculo e indiferença que parecem governar a sociedade, o cancro da corrupção, a propagação da injustiça, os ventos gélidos da guerra.

Talvez nos tenhamos defrontado com a morte, ou roçado por um triz na doença ou nas calamidades, e facilmente caímos vítimas da desilusão.

Ao sair da clausura do Cenáculo partindo para a região habitada pelos gentios, ao sair do escondimento para se abrir à missão, ao escapar do medo para caminhar rumo ao futuro, ressurgimos para uma vida nova!

Papa Francisco, 2023 (adaptado)

 

Recebestes de graça, dai de graça

Rita Brito e Faro, Ponto SJ, 2021

“Sê a mudança que queres ver no mundo”.
Já todos nos sentimos inspirados por esta frase de Mahatma Gandhi. Lembra-nos que todos temos o poder para mudar o mundo. No entanto, às vezes somos tão assoberbados com catástrofes a nível global, que nos sentimos paralisados e desacreditados que uma pessoa sozinha pode fazer a diferença.

Ao mesmo tempo, o ser humano pergunta-se qual o propósito da vida e como o cumprir. São questões existenciais que parecem fazer parte da natureza humana, mas às quais poucos conseguimos responder. Vivemos o presente na ansiedade da busca de um propósito que havemos de alcançar, não hoje, mas no futuro.

Enquanto isso, não vemos que a oportunidade de pôr os nossos talentos a render esteve sempre lá. Sejam cinco, dois ou um, são suficientes e representam a riqueza que somos, da qual geralmente conhecemos apenas uma mínima parte. Não dependem do mérito, nem de recompensas. São-nos postos à disposição de forma livre e gratuita.

Jesus pede-nos que conheçamos profundamente os talentos que nos são oferecidos para que possamos multiplicá-los e pô-los ao serviço do outro.

Ao procurar compreender o conjunto de talentos que tenho nas minhas mãos ao dia de hoje, fui confrontada com a sua unicidade. São únicos no seu conjunto, porque são fruto da minha herança genética e contextual, de como estas foram influenciadas por mim e pelo meu ambiente, de forma premeditada ou não, desde que nasci até aos dias de hoje.

Cada um de nós, na sua posição particular, com as suas características e no meio onde se insere, é a única pessoa capaz de influenciar a mudança que quer ver no mundo.

Assumir o compromisso de pôr os meus talentos ao serviço da humanidade pressupõe que os conheça, o que pode ser um exercício difícil, especialmente quando estes nos colocam numa posição privilegiada. Na verdade, o ser humano tem mais facilidade em identificar as suas dimensões que o colocam na margem, do que as que o colocam no centro. Por natureza, definimos o ‘normal’ a partir da nossa própria realidade e dos nossos círculos de proximidade, resultando num preconceito inconsciente em relação a qualquer outro que aí não se insira. Julgamos e exigimos com base na nossa própria medida. Somos cegados pelo nosso próprio contexto e não somos capazes de reconhecer os nossos privilégios. Por vezes nem queremos – ter de atribuir as minhas conquistas, sejam pessoais ou profissionais, não só ao meu trabalho, mas ao contexto em que cresci, requer alguma dose de humildade.

Embora gostasse de pensar em mim como consciente dos meus privilégios, sem dúvida que tomo muitos como certos.
Ainda assim, sei que a minha lotaria social me colocou muito à frente na “corrida”. Só que isto não é uma corrida. Não há competição quando todos corremos percursos diferentes. A boa notícia é que há uma componente da lotaria social que é manipulável e cabe-nos a nós fazer o que está ao nosso alcance para facilitar os percursos daqueles com quem nos cruzamos. Cabe-nos tirar o melhor da nossa combinação única de talentos: não os enterrar, não ter medo de os perder, mas multiplicá-los.

Um primeiro passo para usarmos os nossos talentos da maneira certa passa por vivermos gratos, rompendo as nossas barreiras de méritos e de “dignidade”, e dando lugar à compreensão, empatia e compaixão. Isto significa reconhecer que não chegámos aqui sozinhos, significa reconhecer que recebemos de graça.

A questão sobre qual o propósito da vida vai continuar a ser colocada. Mas esta atitude de gratuidade, de reconhecer mais o que me põe no centro, do que aquilo que me põe na margem e de procurar pô-lo ao serviço dos outros é essencial na procura desse propósito. Não se trata de descobrir o significado da vida numa epifania, mas de o construir diariamente, pondo sentido e intenção em tudo o que fazemos.

 

Desafios para a Igreja

Cardeal Tolentino de Mendonça, 2021

Fra Angelico, Coroação da Virgem

Há uma auto-representação da Igreja para a qual o papa Francisco, desde o início do seu pontificado, nos tem mobilizado. Imagens como a Igreja em saída, como uma Igreja de portas abertas, como uma Igreja hospital de campanha, como uma Igreja acidentada, suja, por ter saído pelas estradas do mundo, pelas periferias da humanidade, mas ao mesmo tempo continua a ser aquela comunidade de discípulos de Jesus capazes de viverem em fidelidade o espírito do Evangelho, assumindo o serviço da vida humana como sua missão primordial.

Na visão que o papa Francisco tem da Igreja, não se trata apenas de ocupar um espaço, mas de ter um olhar para o tempo, perceber que começamos caminhos, e que esse gesto inaugural é porventura mais importante do que querer já montar uma tenda num lugar específico.

Aquilo que nos une é sempre mais importante do que tudo aquilo que nos diferencia e separa.

É muito importante para um olhar de pastor, e para nós que vivemos em Igreja, a auscultação da realidade, e perceber que a capacidade de abraçar a vida como ela é, mesmo nas suas contradições, é superior às idealizações que podemos fazer.

Francisco escolhe falar não para os de sempre, não para aqueles que já pertencem ao rebanho, não para aqueles que já estão convencidos, mas é um discurso verdadeiramente para todos, em grande medida para a humanidade.

Um dos problemas da Igreja actual é a sua auto-referencialidade: arriscarmos viver dentro de uma bolha, dentro de uma zona de conforto, estamos bem nas nossas realidades, nas nossas missões, nas nossas actividades, mas perdemos a capacidade de um discurso relevante para o mundo.

O papa Francisco pensa as coisas não apenas individualmente, mas é capaz de perceber que tudo está ligado.

Francisco teve de fazer um caminho de conversão interior para perceber que a ecologia, o pensamento do mundo, da casa comum, nos obriga a um novo paradigma, em que, por um lado, não temos o antropocentrismo radical que ainda vigora – no centro está o ser humano e todas as coisas devem ser explicadas em função dele –, antes há uma dimensão sistémica na Criação, que depois podemos usar como método para analisar todas as realidades. A palavra-chave é “conexão”.

A grande imagem da Igreja deste milénio é uma igreja sinodal. O papa diz que uma Igreja sinodal é uma Igreja que escuta, e que escutar não é apenas ouvir; escutar é ser capaz de acolher, de praticar uma hospitalidade, de entender a complementaridade que existe entre todos os carismas, entre todos os serviços dentro da Igreja.

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