Domingo da Páscoa da Ressurreição do Senhor (PDF) TEXTO

Que expluda a alegria da Ressurreição

Giovanni Francesco Romanelli, Ressurreição

O Sábado Santo. é o dia do silêncio de Deus.

Por que é que Deus não respondeu imediatamente ao grito de Jesus na cruz, ressuscitando-O no próprio dia da sua morte? Jesus, como muitos homens, mulheres e crianças, teve de conhecer o silêncio de Deus para ser completamente solidário connosco.

É surpreendente e muito profundo que a liturgia nos dê um dia de silêncio. Corresponde à nossa realidade, à espera de um alívio, uma libertação, e podemos ter a impressão de que Deus se encontra longe.

Ousemos deixar explodir a alegria da ressurreição, a alegria de Cristo nas nossas vidas.
Longe de nos afastar dos que sofrem, esta alegria concede-nos, pelo contrário, a coragem de fazer face ao nosso próprio sofrimento e ao dos outros.

TAIZÉ

 

Um mundo novo começou

Mensagem de Páscoa do nosso Prior

William-Adolphe Bouguereau, As três Marias no túmulo

Tudo aconteceu no “primeiro dia da semana”. No Credo dizemos que Jesus ressuscitou ao “terceiro dia”, a partir do dia da sua morte, o que também é verdade. Morreu às três horas do dia 14 de nisan, Sexta-Feira Santa, e foi sepultado ao fim da tarde desse dia; no dia seguinte, sábado, 15 de nisan, foi a Páscoa dos judeus; e ao terceiro dia, 16 de nisan, Jesus ressuscitou dos mortos.

Mas este dia é verdadeiramente o “primeiro dia”, como escreve S. João. Já era o primeiro dia da semana, no calendário judaico, mas agora, com a ressurreição de Jesus, passa a sê-lo de um modo novo.

A ressurreição de Jesus é a inauguração de um novo calendário, porque a morte foi vencida, e a eternidade entrou no tempo, apareceu um tempo novo, um mundo novo começou.

Para nós, seres humanos, o tempo passa muito depressa: os jovens não notam isso, mas as pessoas menos jovens notam bem o passar do tempo. Ainda há pouco foi Natal, hoje já é Páscoa, o tempo foge…

Mas este dia, que “é o dia que o Senhor fez”, nunca passará. O “primeiro dia” será sempre um dia novo, todo o resto do tempo está em função dele.
Jesus ressuscitado recomeça a contagem do tempo e dá pleno sentido aos nossos dias.

É importante, é muito bom para nós celebrar a ressurreição de Jesus, que iniciou um tempo novo, e celebrá-la, não só hoje, Domingo de Páscoa, mas também de hoje a oito dias, e de novo em cada novo domingo, e só assim não perderemos o tempo, só assim não nos perderemos a nós próprios no tempo, e começaremos, já neste tempo, a viver a eternidade, para a qual fomos criados por Deus.

A ressurreição de Jesus ultrapassa a nossa compreensão, mas compreendemos sem dificuldade a sua beleza, a sua grandeza, o seu luminoso e admirável sentido.
S. João diz-nos que Maria Madalena “foi de manhã cedo ao sepulcro, estando ainda escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do sepulcro” (20, 1). Esta pedra era um obstáculo intransponível, mas foi retirada, e o que não tinha saída, o que parecia definitivamente fechado, agora transformou-se numa abertura para o infinito.

A morte como ponto final, como fim sem remédio, transformou-se em caminho para a vida.

Maria Madalena diz a Simão Pedro e ao outro discípulo: “Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde O puseram”.
Mas não O puseram em lado nenhum!

Jesus está vivo e não morre mais, é soberanamente livre, é o Senhor da vida, já ninguém O pode reter, como Ele próprio dirá mais tarde a Maria Madalena (João 20, 17).

Por sua vez, S. Pedro e o outro discípulo correm ao sepulcro, e vêem, no sepulcro vazio, alguns sinais evidentes da ressurreição de Jesus. As ligaduras e o sudário estão literalmente vazios do seu conteúdo. Como se subitamente faltasse o que antes continham. Antes envolviam um corpo, ou cobriam um rosto sem vida. Mas agora estão no chão, e esse corpo sem vida já não se encontra lá.

E então faz-se luz no seu espírito.
No exterior, ainda é escuro, mas nos seus corações já brilha a luz da fé. Ainda não viram Jesus, mas já crêem. E assim tinha de ser, porque, se não acreditassem, nunca veriam Jesus!

“Na verdade, explica S. João, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos”. Mas agora entenderam que toda a Escritura, toda a Antiga Aliança se cumpre em Jesus ressuscitado.

Também em Jesus ressuscitado se cumpre toda a esperança dos homens. Os sonhos e os desejos mais profundos do nosso coração realizam-se em Jesus Cristo ressuscitado.
A ânsia de verdade e o desejo de vida, que procuramos em tantos lados, só n’Ele se realizam plenamente. Só n’Ele a vida tem pleno sentido, só n’Ele vencemos a morte.

Não tenhamos receio, como Pedro e João, de correr ao seu encontro. Jesus espera-nos sempre para nos acolher, para nos abraçar, para nos perdoar, para nos alimentar e fortalecer, e também para nos enviar como anunciadores da sua ressurreição, que é fonte de vida e de alegria para todos os homens.

A todos os paroquianos deseja uma Santa Páscoa, na alegria de Jesus Ressuscitado,
O Prior de São Francisco Xavier
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Terminado o Sábado

Papa Francisco, Março de 2020

Sábado é o dia do Tríduo Pascal que mais descuramos, ansiosos de passar da cruz de sexta-feira à aleluia de domingo. O dia do grande silêncio.

Podemos rever-nos nos sentimentos que tinham as mulheres naquele dia. Tinham nos olhos o drama do sofrimento, duma tragédia inesperada, que se verificou demasiado rapidamente. Viram a morte e tinham a morte no coração. À amargura, juntou-se o medo: acabariam, também elas, como o Mestre? E depois os receios pelo futuro, carecido todo ele de ser reconstruído. A memória ferida, a esperança sufocada.

Contudo, nesta situação, as mulheres não se deixam paralisar. Não cedem às forças obscuras da lamentação e da lamúria, não se fecham no pessimismo, nem fogem da realidade. Realizam algo simples e extraordinário: nas suas casas, preparam os perfumes para o corpo de Jesus. Não renunciam ao amor: na escuridão do coração, acendem a misericórdia. Nossa Senhora, no sábado – dia que Lhe será dedicado –, reza e espera. No desafio da tristeza, confia no Senhor. Sem o saber, estas mulheres preparavam na escuridão daquele sábado «o romper do primeiro dia da semana», o dia que havia de mudar a história.

Jesus, como semente na terra, estava para fazer germinar no mundo uma vida nova; e as mulheres, com a oração e o amor, ajudavam a esperança a desabrochar. Quantas pessoas, nos dias tristes que vivemos, fizeram e fazem como aquelas mulheres, disseminando rebentos de esperança com pequenos gestos de solicitude, de carinho, de oração!

Nesta noite, conquistamos um direito fundamental, que não nos será tirado: o direito à esperança. É uma esperança nova, viva, que vem de Deus. Não é mero optimismo, não é uma palmadinha nas costas nem um encorajamento de circunstância, com o aflorar dum sorriso. Não. É um dom do Céu, que não podíamos obter por nós mesmos.

A esperança de Jesus é diferente. Coloca no coração a certeza de que Deus sabe transformar tudo em bem, pois até do túmulo faz sair a vida.
O túmulo é o lugar donde, quem entra, não sai. Mas Jesus saiu para nós, ressuscitou para nós, para trazer vida onde havia morte, para começar uma história nova no ponto onde fora colocada uma pedra em cima. Ele, que derrubou a pedra da entrada do túmulo, pode remover as rochas que fecham o coração. Por isso, não cedamos à resignação, não coloquemos uma pedra sobre a esperança. Podemos e devemos esperar, porque Deus é fiel.

Coragem: é uma palavra que, nos Evangelhos, sai sempre da boca de Jesus. Só uma vez é pronunciada por outros, quando dizem a um mendigo: «Coragem, levanta-te que [Jesus] chama-te». É Ele, o Ressuscitado, que nos levanta a nós, mendigos. Se te sentes fraco e frágil no caminho, se cais, não tenhas medo; Deus estende-te a mão dizendo: «Coragem!»

A coragem não a podes dar a ti mesmo, mas podes recebê-la, como um presente. Basta abrir o coração na oração, basta levantar um pouco aquela pedra colocada à boca do coração, para deixar entrar a luz de Jesus. Basta convidá-l’O: Vinde, Jesus, aos meus medos e dizei também a mim:
“coragem!”

Convosco, Senhor, seremos provados; mas não turvados. E, seja qual for a tristeza que habite em nós, sentiremos o dever de esperar, porque convosco a cruz desagua na ressurreição, porque Vós estais connosco na escuridão das nossas noites: sois certeza nas nossas incertezas, Palavra nos nossos silêncios e nada poderá jamais roubar-nos o amor que nutris por nós.

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