Domingo V da Páscoa (PDF) TEXTO

A visão de Deus

Ghirllandaio, Baptismo de Cristo

Para nos permitir conhecê-Lo, acolhê-Lo e segui-Lo, o Filho de Deus assumiu a nossa carne; e, assim, a sua visão do Pai deu-se também de forma humana, através de um caminho e um percurso no tempo.

A fé cristã é fé na encarnação do Verbo e na sua ressurreição na carne; é fé num Deus que Se fez tão próximo que entrou na nossa história.

A fé no Filho de Deus feito homem em Jesus de Nazaré não nos separa da realidade; antes permite-nos individuar o seu significado mais profundo, descobrir quanto Deus ama este mundo e o orienta sem cessar para Si; e isto leva o cristão a comprometer-se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho sobre a terra.

Papa Francisco, Lumen fidei

 

 

O caminho, a verdade e a vida

P. Ermes Ronchi

John Francis Murphy, O caminho para a aldeia

Tende fé em Mim, Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Três palavras imensas. Que nenhuma explicação pode esgotar.

Eu sou a vida: a estrada para chegar a casa, a Deus, ao coração, aos outros. Sou o caminho: diante de Mim não se ergue um muro ou uma barreira, mas horizontes abertos e uma meta. Sou a estrada que não se perde.

Shakespeare escreve que «a vida é uma fábula tola recitada por um idiota sobre o palco, plena de rumor e de furor, mas que não significa nada». Com Jesus, a fábula sem sentido torna-se a história mais ambiciosa do mundo, o sonho mais grandioso nunca sonhado, a conquista de amor e liberdade, de beleza e de comunhão: com Deus, com o como, com o homem.

Eu sou a verdade: não numa doutrina, num livro, numa lei melhor que outras, mas num “Eu” está a verdade, numa vida, na vida de Jesus, que veio para nos mostrar o verdadeiro rosto do homem e de Deus. O cristianismo não é um sistema de pensamento ou de ritos, mas uma história e uma vida (F. Mauriac).

Eu sou: verdade desarmada é o seu movimento livre, real e amoroso entre as criaturas. Nunca arrogante. Com ternura, essa irmã da verdade.
A verdade são olhos e mãos que ardem (Ch. Bobin). Assim é Jesus: acende olhos e mãos.

Eu sou a vida. Que tens a fazer comigo, Jesus de Nazaré? A resposta é uma pretensão não menos que excessiva, não menos que desconcertante: Eu faço viver. Palavras enormes, diante das quais experimento a vertigem. A minha vida explica-se com a vida de Deus. Na minha existência, mais Deus equivale a mais eu.

Quanto mais Evangelho entre na minha vida, mais vivo eu sou. No coração, na mente, no corpo. E opõe-se à pulsão de morte, à destrutividade que nutrimos dentro de nós com os nossos medos, à esterilidade de uma vida inútil.

Por fim intervém Filipe: «Mostra-nos o Pai, e isso nos basta». É belo que os apóstolos peçam, que queiram compreender, como nós. Filipe, quem Me viu, viu o Pai. Olha para Jesus, vê como vive, como ama, como acolhe, como morre, e entenderás Deus e a vida.

 

Deus chama-te

Irmão Alois, Taizé, 2007

Hendrick ter Brugghen, Chamamento de Mateus

No Evangelho, ouvimos o chamamento de Jesus: «Segue-Me!» Será possível responder-Lhe com um compromisso para toda a vida?
Em todos nós há o desejo de um futuro feliz.

Mas podemos ter a impressão de ser condicionados por muitos limites e por vezes ser surpreendidos pelo desânimo.

A presença de Deus torna-se perceptível quando assumimos as situações da nossa vida tal como elas são, de forma a criar a partir do que existe.
Ninguém gostaria de se atolar em sonhos de uma vida idealizada. Aceitemos aquilo que somos e também o que não somos.

Procurar um futuro feliz implica fazer escolhas.
Há pessoas que assumem opções corajosas para seguir Cristo na sua vida de família, na sociedade, num compromisso pelos outros.
Também há quem se interrogue: como seguir Cristo escolhendo o caminho do celibato?

Eu gostaria muito de encorajar aqueles que se deparam com a questão de uma escolha para sempre: Perante um compromisso destes, pode acontecer que hesites.
Mas, indo mais ao fundo, encontrarás a alegria de te entregar inteiramente.
Feliz aquele que não se abandona ao medo, mas sim à presença do Espírito Santo.

Talvez seja difícil acreditares que Deus te chama pessoalmente e que espera que tu O ames. A tua vida é preciosa para Ele. Chamando-te, Deus não te prescreve o que deves fazer. O seu chamamento é antes de mais um encontro. Deixa-te acolher por Cristo e descobrirás o caminho a seguir.

Deus chama-te à liberdade. Não faz de ti um ser passivo. Pelo seu Espírito Santo, Deus habita em ti, mas não Se substitui a ti. Pelo contrário, ele desperta energias insuspeitas.
Jovem, podes ter medo e ser tentado a não escolher, para guardar todas as possibilidades em aberto. Mas como poderias realizar-te se permaneceres na encruzilhada?

Aceita que haja em ti uma espera não realizada e mesmo questões que não estão resolvidas. Confia-te com um coração transparente.

Há na Igreja pessoas que te podem escutar. Ser escutado desta forma, ao longo do tempo, há-de ajudar-te a discernir como te podes entregar totalmente. Não estamos sozinhos a seguir Cristo. Somos levados por esse mistério de comunhão que é a Igreja. Nela, o nosso sim torna-se louvor. O louvor pode ser hesitante, pode surgir até da nossa miséria, mas há-de tornar-se pouco a pouco em fonte de alegria que jorra para toda a nossa vida.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018