XXVII Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Jesus e o Apóstolo São João, obra do Séc. XVI

 

Acolher uma criança é acolher uma promessa. Uma criança cresce e desenvolve-se. É assim que o reino de Deus nunca é na terra uma realidade acabada, mas sim uma promessa, uma dinâmica e um crescimento inacabado.

É necessário acolher a presença de Deus quando ela se apresenta, quer seja numa boa quer seja numa má altura.

Uma criança confia sem reflectir.

Não pode viver sem confiar nos que estão à sua volta. A sua confiança não é uma virtude, é uma realidade vital.

Para encontrar Deus, o melhor de que dispomos é o nosso coração de criança,
que está aberto espontaneamente, ousa pedir com simplicidade, quer ser amado.

Carta de Taizé

A beleza do Matrimónio

Papa Francisco, RMOP, Julho 2021

Rafael, Casamento da Virgem

Quem acompanha os temas das intenções do Papa ao longo dos anos, dá-se conta que alguns são muito recorrentes; e o deste mês é um deles: a família. Porém, o Santo Padre, a cada ano, propõe-no a partir de diferentes pontos de vista.
O matrimónio aparece com este desafio: ser olhado como uma vocação a nascer, crescer e ser cuidada dentro da comunidade cristã.

 

Faz falta tomar uma maior consciência que o matrimónio é uma vocação, um chamamento, um apelo de Deus a uma vida plena e feliz.
Reduzir o tema da vocação à questão da consagração religiosa ou sacerdotal teve e continua a ter, no imaginário dos cristãos, uma tendência que leva a considerar o matrimónio como vocação “inferior”, menos “santa”, menos “ao serviço da Igreja”. Esta concepção acaba por ter consequências práticas muito evidentes, a começar pelos planos pastorais de preparação e acompanhamento do matrimónio.

Nas catequeses, o matrimónio é apresentado como vocação em sentido pleno? A preparação para o matrimónio, a vida em família, a educação dos filhos, o acompanhamento das crises das várias etapas da vida dos pais e dos filhos, o envelhecimento do casal… estes são temas presentes na preparação e na oração das comunidades?

Começa logo por ser óbvia a diferença que se vê entre a preparação para o sacramento do Matrimónio e a preparação para o sacramento da Ordem.
É verdade que o sacramento da Ordem tem uma função e ministério mais visível, mas a vocação entendida como caminho pleno e dom da vontade de Deus para a vida dos baptizados é igual.

Por isso, é tão importante que, como comunidades cristãs, especialmente os responsáveis pela formação, cresçam na consciência de preparar bem os seus membros para a beleza do matrimónio, vivido na doação de si, na fecundidade, no amor, com generosidade, fidelidade e paciência.
Desafios
• Valorizar a vocação matrimonial, nas homilias, catequeses, educação cristã, falar da beleza da vocação ao matrimónio como caminho pleno de vida cristã.

• Crescer com paciência no caminho do amor, abrindo-me com verdade ao outro, acolhendo a sua fragilidade e sonhando um projecto de vida centrado em Deus e na sua vontade.

• Ser fiel na dificuldade, sem me precipitar, mas procurando sempre o diálogo e a ajuda de outras pessoas, para que as crises me façam mais forte.

• Viver a alegria de partilhar a vida, encontrando momentos em família para partilhar o que vivo, sinto, desejo, o que me alegra e o que me preocupa, em ambiente de oração.

 

Não temos pensado um catolicismo que acompanhe as dúvidas ao longo da vida

José Tolentino Mendonça

Rembrandt, São Paulo na prisão

Vivemos um tempo de reconfiguração do religioso. Em grande medida, a crise que vivemos não é tanto de fé, do crer, quanto de pertença.

Isto obriga-nos a perguntar se as formas de pertença continuam a ser todas oportunas, eficazes. Penso, por exemplo, na organização territorial que vigorou durante séculos; a base da Igreja eram as paróquias, e estas comunidades estavam inscritas em determinado território.

Hoje, a noção de habitação, de territorialidade, tornou-se fluida, porque a modernidade, como explicou Bauman, é líquida. Já deixámos de estar num só lugar. Tudo é fluxo. Por isso, não podemos imaginar as comunidades com as tinas, com a arquitectura que serviu durante séculos. Isto obriga-nos a uma pergunta: o que é que hoje corporiza a identidade cristã? Como é que o sujeito se reconhece cristão? E como é que é reconhecido pela comunidade eclesial e pela sociedade onde está inscrito?

Hoje fala-se muito dos cristãos culturais, que são, talvez aqueles que não têm uma prática sacramental mas que continuam a manter uma ligação cultural, ou ética, de valores com o cristianismo. É muito importante não os descartar imediatamente, dizendo que não são cristãos, que o que vivem não é cristianismo.

Temos de perceber a complexidade da contemporaneidade e, ao mesmo tempo, valorizar, purificar, adensar, ir ao encontro. A evangelização não pode desconhecer este grande número de pessoas que se dizem crentes mas têm uma frágil pertença ao cristianismo institucional.

E um desafio muito grande, de escuta, de encontro, de criação e adopção de novas linguagens. É necessária uma criatividade pastoral grande para perceber que tipo de evangelização podemos fazer e quais são os seus destinatários.

Durante muitos séculos, como é que se chegava a ser cristão? Por transmissão geracional, familiar, por pertença a determinado território, e por iniciação num tempo determinado da vida, que muitas vezes era a infância.

Todos fomos baptizados quando éramos bebés, recebemos a catequese nos primeiros anos, com a escolaridade obrigatória. Depois… os cristãos são muitas vezes deixados à sua sorte, e não há mais formação, não há catequese de adultos, não há o pensar de um catolicismo que acompanha o questionamento das várias etapas da vida: a juventude, a primeira idade adulta, a segunda, a terceira. Isto são tudo desafios para pensar.

É muito importante ser sensível à complexidade e ter a sabedoria que Jesus fala na parábola: Tu plantaste trigo, mas também cresceu joio; queres que arranquemos tudo? E Ele diz: não, deixa crescer, e depois veremos.

Esta confiança em deixar maturar uma experiência, trabalhando e acompanhando esse amadurecimento – que hoje acontece de maneira muito heterogénea, diversificada, já não é como era – lembra a confiança que Deus deposita no ser humano. Como dizia o teólogo Urs von Balthazar,

Deus sabe esperar por todos.

 

 

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