Domingo de Ramos na Paixão do Senhor (PDF) TEXTO

Um burrinho foi o meu trono

Hyppolyte Flondrin, Jesus montado num burro

A vida cristã jamais se reduziu a um entrançado aflitivo de obrigações, que deixa a alma submetida a uma tensão exasperante.

Amolda-se às circunstâncias individuais como uma luva à mão, e pede que no exercício das nossas tarefas habituais, nas grandes e nas pequenas, com a oração e a mortificação, não percamos jamais o “ponto de mira” sobrenatural.

Pensai que Deus ama apaixonadamente as suas criaturas…

O teu corpo é como um burrico – um burrico foi o trono de Deus em Jerusalém – que te leva ao lombo pelas veredas divinas da terra: é preciso dominá-lo para que não se afaste das sendas de Deus, e animá-lo para que o seu trote seja tão alegre e brioso quanto é possível esperar de um jumento.

Josemaria Escrivá, Amigos de Deus

Sou da Páscoa pela Paixão

Eunice Lourenço, 2022

Sou da Páscoa.
Mas o meu dia litúrgico preferido é Sexta-feira Santa, o dia da igreja despida, nua, sem toalhas nem flores, o dia sem Missa, o dia da Cruz, o dia da Paixão. O dia sem o qual não há Páscoa.

Talvez porque compreendo o Tríduo Pascal como uma só celebração, talvez porque sei que, como Madalena, verei o Senhor no jardim do sepulcro e, como Tomé, irei exclamar “Meu Senhor e meu Deus” ou, simplesmente, porque conheço o fim da história e sei que a cruz é sempre gloriosa, este é o meu dia e é sempre para a cruz que se viram os meus olhos.

Foi numa Sexta-feira Santa que ouvi do padre Ricardo o que já sabia, mas precisava que alguém dissesse: “Isso só se resolve com alguma forma de consagração.” Isso era a minha inquietação e o meu desejo de maior intimidade com Deus.

É a olhar para a cruz que me encontro plenamente amada. É a contemplá-la que, várias vezes, O escolhi enquanto outras mãos estavam nas minhas. E foi também a olhar para ela que por vezes O traí. E a beijá-la, com os meus lábios nos pregos dos pés do meu Senhor, me reconciliei e chorei com a gratuitidade do perdão. E é sempre a permanecer junto dela que sei onde devo estar e a quem pertenço. É nela – a árvore fecunda e refulgente que é tálamo, trono e altar – que aprendi e me sustento para servir e amar.

Celebrar a Paixão é entrar no mistério pascal.
É ler o Servo de Deus de Isaías e perceber que servir é participar na missão redentora de Jesus; ainda que a obediência implique dor e sofrimento, o Servo conhece o seu Amor.
É ouvir o salmo 30 e entregar-me, com Jesus, sem reservas no abandono ao Pai.
É escutar a Epístola aos Hebreus e compreender que o Servo de Deus é também o Sumo Sacerdote, Aquele que, pelo seu sacrifício, nos salva.
É chegar à Paixão segundo João e acompanhar todo o sofrimento do Cordeiro de Deus que, na cruz, cumpre a sua missão, não como um derrotado, mas como Aquele que, assim, nos mostra a Glória do Pai e de sermos Filhos de Deus.

É ainda chegar à ‘mãe’ de todas as orações universais e pedir por todos. Ninguém fica de fora daquelas dez preces. Rezamos pelos que creem e pelos que não creem, pelos cristãos, pelos judeus, pelos atribulados … E pelos governantes de todas as nações, para que busquem sempre “a verdadeira paz e a liberdade de todos os povos”.

Celebrar a Paixão é adorar a Cruz.
É beijá-la e querer ficar ali, permanecer como as Marias, ajudá-l’O a descer da cruz como José, segurá-l’O nos braços como a Mãe. É encontrarmo-nos com tudo o que é humano e saber que pode ser transformado pelo Amor, tocado pelo divino.
E é, depois, entrar no grande silêncio. O silêncio daqueles que sabem que Jesus morreu, mas vai ressuscitar, o silêncio que prepara o coração para a alegria da vida nova.

Vivemos tempos em que não nos podemos dar ao luxo de sermos optimistas.
Mas, digo eu, nesta Sexta-feira da Paixão em que vivem tantos nossos irmãos, devemo-nos dar à nudez do silêncio. Do silêncio habitado pela esperança, essa filha mais nova de Deus, como lhe chamou Charles Péguy, que até ao Pai surpreende. Essa menina que vê aquilo que será. No Tempo e na Eternidade.

Abramo-nos à surpresa

Papa Francisco, Março de 2021

Ary Sheffer, As Santas Mulheres no Sepulcro

Todos os anos, esta liturgia cria em nós uma atitude de espanto, de surpresa: passamos da alegria de acolher Jesus, que entra em Jerusalém, à tristeza de O ver condenado à morte e crucificado. É uma atitude interior que nos acompanhará ao longo da Semana Santa. Abramo-nos, pois, a esta surpresa.

O seu povo acolhe-O solenemente, mas Ele entra em Jerusalém num jumentinho. Pela Páscoa, o seu povo espera o poderoso libertador, mas Jesus vem cumprir a Páscoa com o seu sacrifício. O seu povo espera celebrar a vitória sobre os romanos com a espada, mas Jesus vem celebrar a vitória de Deus com a cruz.

Que aconteceu àquele povo que, em poucos dias, passou dos «hossanas» a Jesus ao grito «crucifica-O»? Que sucedeu?

Aquelas pessoas seguiam uma imagem de Messias, e não o Messias. Admiravam Jesus, mas não estavam prontas para se deixar surpreender por Ele. A surpresa é diferente da admiração. A admiração pode ser mundana, porque busca os próprios gostos e anseios; a surpresa, ao contrário, permanece aberta ao outro, à sua novidade.

Também hoje há muitos que admiram Jesus: falou bem, amou e perdoou, o seu exemplo mudou a história, e coisas do género. Admiram-n’O, mas a vida deles não muda. Porque não basta admirar Jesus; é preciso segui-l’O no seu caminho, deixar-se interpelar por Ele: passar da admiração à surpresa.

E qual é o aspecto do Senhor e da sua Páscoa que mais nos surpreende? O facto de Ele chegar à glória pelo caminho da humilhação. Triunfa acolhendo a dor e a morte, que nós evitaríamos.

Isto surpreende: ver o Omnipotente reduzido a nada; vê-l’O, a Ele Palavra que sabe tudo, ensinar-nos em silêncio na cátedra da cruz; ver o Rei dos reis que, por trono, tem um patíbulo; ver o Deus do universo despojado de tudo; vê-l’O coroado de espinhos em vez de glória; vê-l’O, a Ele bondade em pessoa, ser insultado e vexado. Porquê toda esta humilhação? Por que permitistes, Senhor, que Vos fizessem tudo aquilo?

Jesus sobe à cruz para descer ao nosso sofrimento. Prova os nossos piores estados de ânimo.
Agora sabemos que não estamos sozinhos! Deus vence, mas a palma da vitória passa pelo madeiro da cruz. Por isso, os ramos e a cruz estão juntos.

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