Folha Informativa 17-01-2021

Domingo II do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Eugène Burnand, Pedro e João

O chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, que vem ao encontro do homem e o chama pelo nome.

Ao homem é pedido que se coloque numa atitude de total disponibilidade para escutar a voz e os desafios de Deus.

O discípulo é aquele que é capaz de reconhecer no Cristo que passa o Messias libertador, que está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e da entrega, que aceita o convite de Jesus para entrar na sua casa e para viver em comunhão com Ele, que é capaz de testemunhar Jesus e de anunciá-l’O aos outros irmãos.

Dehonianos

 

 

Que procurais?

Ermes Ronchi, in Avvenire

Sir John Millais, À procura da moeda perdida

Um vizinho encontrou o Sr. Simão de gatas, em plena rua, à procura de alguma coisa no chão.

«Que procuras, amigo?» Simão, erguendo o olhar como quem pede ajuda, respondeu: «A minha chave. Perdi-a». Por isso o bom vizinho ajoelhou-se ali mesmo e os dois puseram-se à procura da chave perdida. Passado largo tempo, o vizinho perguntou-lhe: «Onde a perdeste?».

Simão, quase como se se desculpasse, com uma voz que saía para dentro, respondeu: «Dentro de casa». «Santo Deus! Então porque é que andamos à procura no meio da rua?» «Porque aqui há mais luz» (tomado com alguma liberdade criativa de Anthony de Mello, “O canto do passáro”).

É uma verdade bastante óbvia, mas estou convencido de que não só é importante saber o que estamos à procura, como também ter claro onde o fazer; quando queremos aproximar-nos de Deus temos de clarificar primeiro o que é que procuramos, o que é que queremos d’Ele; por que O invocamos, o que Lhe pedimos… Mas isto não basta.

Também é importante definir muito bem onde O vamos procurar; porque pode ser que haja lugares aparentemente iluminados que nos parecem mais próprios para encontrar Deus; e, todavia, Ele pode estar à nossa espera noutro lugar menos luminoso, como a nossa vida normal e quotidiana.

Costumo começar a experiência dos Exercícios Espirituais perguntando às pessoas «o que procuram?», porque me parece fundamental que cada uma estabeleça o seu próprio encontro com o Senhor esclarecendo, para si mesma, o que a leva a procurá-l’O. As motivações que se desvelam diante de nós são muito variadas e, muitas vezes, contraditórias. O milagre que essa experiência realiza é muito simples: quando aclaramos o que procuramos, quando dizemos que procuramos Deus, então começa a concretizar-se o lugar onde O devemos procurar.

Uma pergunta como esta foi a que Jesus lançou um dia a dois dos discípulos de João Baptista, que o seguiam pelo caminho: «Que procurais?» Eles disseram: «Mestre, onde vives?». A resposta foi: «Venham e vejam». A Igreja propõe-nos este texto do Evangelho porque quer suscitar em nós a fome do encontro com Deus e o desejo de saber mais d’Ele.

Peçamos-Lhe, neste início do tempo comum litúrgico, que Ele nos mostre onde vive, para que O conheçamos cada vez mais, para que mais O amemos e O sigamos nas nossas vidas. O importante é não acabarmos como o protagonista da história, procurando onde Ele não está.

A cada qual o seu encontro

Papa Francisco, Abril 2015

Cada homem tem um encontro pessoal com o Senhor. Um encontro verdadeiro, concreto, que pode mudar radicalmente a vida. O segredo não consiste só em aperceber-se dele, mas também em nunca dele perder a memória, para preservar o seu vigor e beleza.

Duas sugestões práticas: rezar para pedir a graça de recordar e reler o Evangelho para se reconhecer nos tantos encontros de Jesus.

Saulo – Paulo estava convicto da sua doutrina, até zeloso. Este zelo levava-o a perseguir este novo caminho que tinha nascido ali, ou seja os cristãos. Depois, aconteceu o que ouvimos e que todos sabemos: aquela visão, e ele caiu do cavalo. Naquele ponto, o Senhor fala-lhe: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” – “Quem és Senhor?” – “Eu sou Jesus”.

Trata-se do encontro de Paulo com Jesus.
Até àquele momento Paulo pensava que tudo o que os cristãos diziam eram histórias. Mas eis que se encontra com Ele e nunca esquecerá esse encontro: muda a sua vida e fá-lo crescer no amor a este Senhor que antes perseguia e agora ama. Um encontro que leva Paulo a anunciar ao mundo como instrumento de salvação o nome de Jesus. Eis portanto o que aconteceu e o que significou o encontro de Paulo com Jesus.

Na Bíblia há tantos encontros. Também no Evangelho. E são todos diversos entre si. E assim deveras cada qual tem o próprio encontro com Jesus. Pensemos nos primeiros discípulos que seguiam Jesus e permaneceram com Ele toda a noite – João e André, o primeiro encontro – e sentiram-se felizes por isso.
A ponto que André vai ter com seu irmão Pedro – naquele tempo chamava-se Simão – e diz: “Encontrámos o Messias!”. É outro encontro entusiasta, feliz, e conduz Pedro até Jesus. Por conseguinte, segue-se o encontro de Pedro com Jesus que fitou nele o olhar. E Jesus diz-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Serás chamado Cefas», isto é, pedra.

Os encontros são deveras muitos. Por exemplo, há o de Nataniel, o céptico. Imediatamente com duas palavras o desmoraliza. A ponto que o intelectual admite: «Mas tu és o Messias!». Há depois o encontro da Samaritana que, num certo momento, se sente em dificuldade e tenta ser teóloga: “Mas este monte, o outro…”. E Jesus responde-lhe: «Mas teu marido, a tua verdade». A mulher no próprio pecado encontra Jesus e vai anunciá-lo à cidade: “Disse-me tudo o que fiz; será porventura o Messias?”.

O encontro daquele leproso, um dos dez curados, que volta para agradecer. E, ainda, o encontro daquela mulher doente havia dezoito anos que pensava: “Mas se conseguisse pelo menos tocar o manto curar-me-ia” e encontra Jesus. E por fim o encontro daquele endemoninhado o qual Jesus liberta de tantos demónios e depois quer segui-l’O e Jesus diz-lhe: “Não, permanece em tua casa, mas diz a todos o que te aconteceu”.

Assim, podemos ver tantos encontros na Bíblia, porque o Senhor nos procura para fazer um encontro connosco e cada um de nós tem o seu encontro com Jesus. Talvez, o esqueçamos, percamos a memória até ao ponto de nos perguntarmos: «Mas quando encontrei Jesus ou quando Jesus me encontrou?».

Todos nós tivemos na nossa vida algum encontro com Ele, um encontro verdadeiro no qual senti que Jesus olhava para mim. Não é uma experiência só para santos. E se não nos recordamos, seria bom recordar e pedir ao Senhor que nos conceda a memória, porque Ele recorda-Se do encontro.
Um bom dever para fazer em casa seria precisamente reconsiderar quando senti deveras o Senhor próximo de mim, em quando senti que tinha que mudar de vida ou ser melhor ou perdoar uma pessoa, em quando encontrei o Senhor.

E assim, se alguém diz a si mesmo “não me recordo do encontro com o Senhor”, é oportuno que peça a graça: «Senhor, quando Te encontrei em consciência? Quando me disseste algo que mudou a minha vida ou me convidaste a dar aquele passo em frente na vida?». Esta é uma bonita oração, fazei-a todos os dias. E depois quando te recordares, rejubila naquela recordação que é uma recordação de amor

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 10-01-2021

Baptismo do Senhor (PDF)  TEXTO

Giotto, Baptismo do Senhor

Jesus não se dissocia de nós, considera-nos irmãos.

E assim, juntamente com Ele, torna-nos filhos de Deus Pai. Esta é a revelação e a fonte do amor autêntico.

Não vos parece que neste nosso tempo há necessidade de um suplemento de partilha fraternal e amorosa? Que todos nós precisamos de um suplemento de caridade?

Não daquela que se contenta com a ajuda extemporânea, que não compromete, que não põe em jogo, mas daquela caridade que compartilha, que assume as dificuldades e o sofrimento do irmão.

Que sabor adquire a vida, quando nos deixamos inundar pelo amor de Deus!

Papa Francisco, Festa do Baptismo do Senhor, 2014 (excertos)

 

Cada um de nós é filho predilecto de Deus

Ermes Ronchi

Raphael, Jesus em oração no Getsmani

Jesus coloca-se na fila com os pecadores, ele que era o puro de Deus, na fila, como o último de todos. E entra no mundo desde o lugar mais raso, para que ninguém O sinta distante, para que ninguém se sinta excluído.

Jesus entre os pecadores está fora do seu lugar, como se a ordem normal das coisas tivesse sido transposta. João Baptista não compreende e retrai-se, mas Jesus responde-lhe que a ordem justa das coisas é mesmo essa: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça».

A nova justiça consiste nesta inversão que anula a distância entre o Puro e os impuros, entre Deus e o homem.
E eis que se abriram os céus e vê-se o Espírito de Deus – que é a plenitude do amor, da energia, da vida de Deus – descer como uma pomba sobre Ele. E uma voz dizia: «Este é o Filho meu, O amado: n’Ele pus toda a minha complacência».

Este acontecimento excepcional, que ocorre num lugar comum, e não no espaço do sagrado, o rasgar dos céus com a declaração de amor de Deus e o voo de asas abertas do Espírito, aconteceu também para nós; o que o Pai dá a Jesus, é dado a todos.
Garante-o uma expressão emocionante de Jesus: que eles saibam, Pai, «que os amaste a eles como a Mim» (João 17, 23). Deus ama-nos como amou Jesus, com a mesma intensidade, a mesma paixão, o mesmo arrebatamento.

Deus prefere cada um de nós, cada um é o seu filho predilecto. Para o Pai, eu como Jesus, a mesma declaração de amor, as mesmas três palavras: Filho, amado, minha complacência.
“Filho” é a primeira palavra. Um termo técnico na linguagem bíblica, de significado preciso: é aquele que realiza as mesmas obras do pai, que faz aquilo que o pai faz, que se lhe assemelha em tudo.

“Amado”: Antes que tu ajas, antes de todo o mérito, quer o saibas ou não, a cada acordar o teu nome para Deus é “amado”. Imerecido, prejudicial, imotivado amor.

“Minha complacência”. Termo fora do comum mas belíssimo, que deriva do verbo “agradar”: tu agradas-me, fazes-me feliz, é belo estar contigo. Mas pode o Pai tirar tal alegria, tal satisfação, desta cana frágil que sou eu, sempre pronta a quebrar-se, desta torcida fumegante?
Todavia, a sua delícia é estar junto dos seres humanos (cf. Provérbios 8, 31), estar comigo. No nosso Baptismo, exactamente como no rio Jordão, uma voz repetiu: Filho, Tu assemelhas-Te a Mim, eu amo-Te, Tu dás-Me alegria. Tens dentro de Ti a respiração do céu, o sopro de Deus que Te envolve, Te modela, transforma pensamentos, afetos, esperanças, Te faz semelhante a Mim.

A cada manhã, mesmo nas mais escuras, começa o teu dia ouvindo, antes de tudo, a voz do Pai: Filho, amor meu, minha alegria. E sentirás as trevas que se dissipam e o amor a estender as suas asas dentro de ti.

Pobreza espiritual, caminho de vida

Tolentino de Mendonça, Capela do Rato, 2014

Deus tem de ser um caminho para cada pessoa. Não vivemos encostados à experiência de ninguém. Somos autónomos também no caminho da fé. A nossa relação com Deus é comunitária, sem dúvida, mas antes de tudo é pessoal.

Deus não Se revelou primeiro a um povo, mas a uma pessoa: Abraão, Moisés,… Um por um. Deus sabe o nosso nome, sabe o que somos. Isto também tem a ver com a aceitação da pobreza. É na pobreza que está a riqueza enquanto ponto de partida.

A par da autonomia, temos de viver na consciência de que dependemos inteiramente do amor de Deus. «Não temas, pequenino rebanho, porque agradou a teu Pai dar-te o Reino.»

O que Maria canta e testemunha no seu “Magnificat” é a reviravolta de Deus, que pôs os olhos na pobreza da sua serva, que retira os poderosos dos tronos e neles faz sentar os humildes, que despede os ricos de mãos vazias e enche os pobres das suas riquezas.

Um coração pobre está disponível para viver a alternativa de Deus, a lógica nova de Deus, as transformações, o modo de ver e actuar de Deus na história.
Jesus também nos ensina o caminho da pobreza espiritual. Quando atravessa a Samaria, acompanhado pelos discípulos, sente fome. Por vezes a fome é um momento espiritual importante. Não só a fome biológica, mas também a necessidade de outra coisa.

Os discípulos vão à aldeia buscar comida e, ao regressar, Jesus fala-lhes de outro alimento: fazer a vontade do Pai.
O verdadeiro alimento é vivermos a partir da condição de sermos filhos, de sermos filhos amados por Deus.

Se vivemos a partir da convicção profunda de que é o amor de Deus que nos funda – o que o Pai diz a Jesus, «Tu és o meu filho muito amado, em Ti coloco o meu amor» -, a nossa existência será completamente diferente. Deixaremos de andar de equívoco em equívoco. Saberemos verdadeiramente qual é o nosso alimento, o que nos sacia, o que é decisivo para nós.

A pobreza espiritual também se expressa na aceitação de si. Não temos apenas mal-entendidos com os outros. Por vezes, o maior e o mais difícil mal-entendido é connosco próprios. Não nos aceitamos, não nos abraçamos, não nos acolhemos, não nos perdoamos. Aceitar-me no que sou e não sou, no que fui, no que não fui, no que não consegui, no que correu bem e no que correu mal, na fraqueza e na fragilidade.

Como é que se torna fecunda a vida pobre? Na aceitação confiante de si. Como diz S. Paulo na segunda carta aos Coríntios: «Trazemos em vasos de barro o nosso tesouro». E é sempre assim. Temos de aceitar o tesouro, mas também o barro, o barro que se quebra, o barro que se cola, o barro que não tem remédio, o barro que fica ferido.
O poeta Manoel de Barros é uma das grandes figuras espirituais do nosso tempo: «Prefiro as máquinas que servem para não funcionar». Isto exige uma conversão. Porque nós preferimos o que funciona. «Porque cheias de areia, de formigas e de musgo, elas podem um dia milagrar flores».

Há um milagre que só nos chega pela pobreza.
Esta pobreza espiritual é chamada a expressar-se num estilo de vida essencial. É importante que cada pessoa se pergunte o que quer testemunhar. Porque nós estamos sempre a testemunhar.

O que possuímos, possuí-nos.
Queremos viver para dar testemunho do amor e do acolhimento, ou queremo-nos protegidos através do conforto e da segurança?

Rezemos a nossa vida. Perguntemo-nos o que nos alimenta, o que nos toca, perguntemos se só vemos a meta ou se aceitamos a nossa vida pobre e vazia. Perguntemos se em cada dia franqueamos as muralhas do nosso coração.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 03-01-2021

Epifania do Senhor (PDF)  TEXTO

Pacino da Buonaguida, Adoração dos Magos

Sonhar um sonho impossível
carregar a dor das partidas
arder de uma qualquer febre
partir para onde ninguém parte
amar até à laceração
amar, mesmo em excesso, mesmo mal
tentar, sem força nem armadura,
alcançar a inacessível estrela.
Esta é a minha demanda:
seguir a estrela

JACQUES BREL

 

O inédito de Deus

Cardeal Tolentino de Mendonça

Sano di Pietro, Adoração dos magos

Nós celebramos o Natal do Senhor, fazemos do Natal o encontro da família.

E é muito belo. Mesmo quando é doloroso, é muito belo. A família encontrar-se, reunir-se, fazer um esforço para estar juntos, sentar-se à volta da mesa, sentir que é família, e todas as tradições nos fazem viver o aconchego daqueles que estão mais próximos de nós. Sentimos, de facto, que o Natal é uma festa, é um momento de alegria, é um dos pontos culminantes do nosso ano.

Porque, na comunhão fraterna, nós aproximamo-nos de Deus, avizinhamo-nos de Deus, damos glória a Deus. E, contudo, a Carta aos Efésios hoje lembra-nos, tal como a Festa da Epifania, a grande novidade de Jesus. Jesus não veio apenas para a nossa família, Jesus não veio apenas para o nosso círculo de conhecidos, Jesus não veio apenas para a minha paróquia, para a minha comunidade.

O nascimento de Jesus é uma verdade muito mais extensa, muito maior, muito mais transbordante. Porque Jesus veio para todos! E por isso é tão belo no presépio termos aqueles que não deviam estar, que não são da nossa família – os Reis Magos. São “outros”, são estranhos, são gentios, são pagãos; vêm sabe-se lá de onde, vêm à procura de estrelas, a tactear na noite escura. E, contudo, para nós a representação do presépio é também contar com eles, com a viagem que eles fazem até ao encontro de Jesus.

O que distingue o Cristianismo não é a crença no Deus único, porque nós partilhamos essa crença com outras tradições religiosas; não é apenas uma moral, não é apenas uma ética, porque nós encontramos em tantas outras tradições espirituais e humanas pessoas com uma elevação ética extraordinária. O que distingue o Cristianismo é o nosso centramento na pessoa de Jesus. E na revelação que Ele é para nós do amor de Deus, da Salvação de Deus. E Jesus faz escancarando as portas, derrubando as fronteiras, abrindo os corações à universalidade.

Então, o Natal para nós é também este desafio – nós, que vivemos o Natal na nossa família, não nos esqueçamos que pertencemos à grande família humana. Nós, que vivemos o particular, não nos esqueçamos do universal. Porque Jesus vem colocar no centro da nossa vida Deus – o olhar de Deus, o sorriso de Deus, a compaixão de Deus. Mas Deus não é monopólio de ninguém. Nem de nós. Deus não é uma verdade que tenhamos no bolso. Nós, que estamos aqui, nós somos buscadores, somos enamorados, somos peregrinos.

Nós não temos Deus! Nós andamos à sua procura, nós estamos de coração aberto. Também nós tacteamos, também nós duvidamos, também nós perguntamos. Mas nós estamos aqui sentindo-nos um povo que procura, um povo que busca. Porque Deus só tem filhos, só tem exploradores, só tem questionadores. Gente que procura. Não tem donos. E isto para nós é muito importante porque muitas vezes nós somos obstáculo ao encontro de Deus.

E temos de fazer sempre um mea culpa, porque muitas vezes nós privatizamos Deus. Deus é uma questão nossa, tem a ver connosco, faz muito sentido, mas não pensamos nessa experiência que nós fazemos e que é um grande dom – a fé é o maior dom. E esse dom que nos foi dado é uma responsabilidade muito grande. E essa responsabilidade começa por percebermos que aqueles que não têm fé também nos ensinam alguma coisa acerca de Deus. Os ateus, os não crentes, também têm uma palavra a dizer acerca de Deus.

E, se calhar nós, crentes, e não crentes, devíamo-nos sentar mais vezes a conversar sobre Deus. E conversar sobre Deus é conversar sobre isto que somos, este mistério que somos.

Em nós há uma sede, em nós há uma fome, em nós há um desejo, em nós há uma procura. Que não se consuma no imediato, no visível, no que podemos tocar. Nós somos seres carecidos de infinito, feridos pelo infinito. Com essa saudade, com esse desejo de Deus. Mas não apenas nós, que estamos aqui. Nós e aqueles que não estão aqui. E aqueles que nunca colocarão os pés numa igreja. E aqueles que olham com desconfiança para os nossos ritos e práticas. Deus também é um património deles! E nós precisamos aprender, ouvir, escutar, conversar com ele acerca de Deus.

Por outro caminho

Papa Francisco 2020

Mary Kenny, Adoração dos Magos

No final da narração evangélica, diz-se que os Magos «avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho».

Estes sábios, vindos de regiões distantes, após terem viajado muito, encontram Aquele que queriam conhecer, depois de O terem procurado durante muito tempo, certamente até com fadigas e vicissitudes. E quando finalmente chegam ao seu destino, prostram-se diante do Menino, adoram-n’O, oferecem-Lhe os seus preciosos dons. Depois disso, partem novamente sem demora para voltar à sua terra. Mas aquele encontro com o Menino mudou-os.

O encontro com Jesus não retém os Magos, pelo contrário, infunde neles um novo impulso para regressar ao seu país, para contar o que viram e a alegria que sentiram. Nisto há uma demonstração do estilo de Deus, da sua maneira de se manifestar na história.

A experiência de Deus não nos bloqueia, mas liberta-nos; não nos aprisiona, mas põe-nos de novo a caminho, devolve-nos aos lugares habituais da nossa existência. Os lugares são e serão os mesmos, mas nós, depois do encontro com Jesus, não somos os mesmos de antes. O encontro com Jesus muda-nos, transforma-nos. O evangelista Mateus frisa que os Magos regressaram «por outro caminho» (v. 12). Eles são levados a mudar o caminho pela advertência do anjo, para não se depararem com Herodes e com os seus enredos de poder. Cada experiência de encontro com Jesus leva-nos a empreender caminhos diferentes, porque d’Ele provém uma força boa que cura o coração e nos restabelece do mal.

Há uma dinâmica sábia entre continuidade e novidade: voltamos «ao nosso país», mas «por outro caminho». Isto indica que somos nós que temos de mudar, de transformar o nosso modo de viver, ainda que seja no ambiente de sempre, de modificar os critérios de julgamento sobre a realidade que nos rodeia. Eis a diferença entre o verdadeiro Deus e os ídolos traidores, como o dinheiro, o poder, o sucesso…; entre Deus e aqueles que prometem dar-vos estes ídolos, como os magos, os cartomantes, os feiticeiros. A diferença é que os ídolos nos atraem, tornam-nos dependentes deles, e nós apoderamo-nos deles.

O verdadeiro Deus não nos prende, nem Se deixa prender por nós: abre-nos caminhos de novidade e liberdade, porque é Pai que está sempre connosco para nos fazer crescer. Se encontrardes Jesus, se tiverdes um encontro espiritual com Jesus, lembrai-vos: deveis voltar aos mesmos lugares de sempre, mas por outro caminho, com outro estilo.

É assim, é o Espírito Santo, que Jesus nos dá, que muda os nossos corações.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 27-12-2020

Domingo dentro da Oitava do Natal (PDF)  TEXTO

UM SANTO NATAL

Cardeal Tolentino de Mendonça

Matthias Stomer, Natividade

 

As nossas sociedades não podem esquecer que o valor primeiro é a vida, estarmos vivos é o primado.

Em volta da vida, nós devemos ajoelhar-nos, oferecer os nossos dons, sentir a grande alegria.

Porque se deixamos de sentir alegria, quer dizer que um apagamento aconteceu dentro de nós, que deixamos de ter a capacidade de espanto, de fraternidade e de acolhimento.

 

Guardadores do espanto

Ermes Ronchi in Avvenire

Pintor bizantino desconhecido, Apresentação

Maria e José levaram o Menino a Jerusalém, para o apresentar ao Senhor. Um casal jovem, com a sua primeira criança, chega levando a pobre oferta dos pobres, duas rolas, e o mais precioso dom do mundo: uma criança.

No limiar, dois anciãos à espera, Simeão e Ana. Que aguardavam, diz Lucas, «porque as coisas mais importantes do mundo não são para procurar, mas para esperar» (Simone Weil). Porque quando o discípulo está pronto, o mestre chega.

Não são os sacerdotes a acolher o Menino, mas dois leigos, que não desempenham qualquer papel oficial, mas são dois enamorados de Deus, olhos velados pela velhice, mas ainda acesos de desejo.

Ela, Ana, é a terceira profetiza do Novo Testamento, depois de Isabel e Maria. Porque Jesus não pertence à instituição, não é dos sacerdotes, mas da humanidade. É Deus que se encarna nas criaturas, na vida que acaba e naquela que floresce.

Jesus «é nosso, de todos os homens e de todas as mulheres. Pertence aos sedentos, aos sonhadores, como Simeão; àqueles sabem ver para além, como Ana; àqueles capazes de se encantar diante de um recém-nascido, porque sentem Deus como futuro e como vida» (M. Marcolini).

Simeão pronuncia uma profecia de palavras imensas sobre Maria, três palavras que atravessam os séculos e chegam a cada um de nós: o Menino está aqui como queda e ressurreição, como sinal de contradição para que sejam desvelados os corações.

Queda é a primeira palavra. Cristo, que arruínas não o homem mas as suas sombras, a vida insuficiente, a vida moribunda, o meu mundo de máscaras e mentiras, que arruínas a vida iludida.

Sinal de contradição, a palavra segunda. Ele que contradiz as nossas vidas com a sua vida, os nossos pensamentos com os seus pensamentos, a falsa imagem que alimentamos de Deus como rosto inédito de um paizinho de braços grandes e coração de luz, contradição de tudo aquilo que contradiz o amor.

Ele está aqui para a ressurreição, é a terceira palavra: para Ele ninguém é dado por perdido, ninguém está acabado para sempre, é possível recomeçar e ser novo. Será uma mão que te tomará pela mão, que repetirá a cada aurora aquilo que disse à filha de Jairo: menina, levanta-te! Jovem vida, levanta-te, ergue-te, aparece, resplandece, retoma a estrada e a luta.

Três palavras que dão respiração à vida. Festa da Apresentação. O Menino Jesus é levado ao templo, perante Deus, porque não é simplesmente o filho de José e Maria: «Os filhos não são nossos» (Kalil Gibran), pertencem a Deus, ao mundo, ao futuro, à sua vocação e aos seus sonhos, são a frescura de uma profecia “biológica”.

A nós cabe proteger, como Simeão e Ana, pelo menos o espanto.

 

Guias guiados

Papa Francisco

Códice medieval, Apresentação

Com os olhos da mente, fixemos o ícone da Virgem Mãe, Maria, que caminha com o Menino Jesus nos braços. Introdu-Lo no templo, introdu-Lo no povo, leva-O para encontrar o seu povo. Os braços da Mãe são como que a escada pela qual o Filho de Deus desce até nós, a escada da condescendência de Deus. É duplo o caminho de Jesus: desceu, fez-Se como nós, para subir ao Pai juntamente connosco, fazendo-nos como Ele.

Podemos contemplar o âmago deste movimento, imaginando a cena evangélica de Maria que entra no templo com o Menino nos braços. Nossa Senhora caminha, mas o Filho caminha antes d’Ela. Ela leva-O, mas é Ele que A leva neste caminho de Deus que vem a nós para podermos ir até Ele.

Jesus percorreu a nossa própria estrada para nos indicar a via nova, um «caminho novo e vivo» que é Ele próprio. E, para nós consagrados, esta é a única estrada, sem alternativa, que, em concreto, devemos percorrer com alegria e perseverança.

O Evangelho alude cinco vezes à obediência de Maria e José à «Lei do Senhor». Jesus não veio para fazer a sua vontade, mas a vontade do Pai; e isso – disse Ele – era o seu «alimento». De igual modo, quem segue Jesus, abraça a via da obediência, imitando a «condescendência» do Senhor, abaixando-se e assumindo a vontade do Pai até ao aniquilamento e à humilhação de si mesmo. Para um religioso, progredir significa abaixar-se no serviço, isto é, fazer o mesmo caminho de Jesus, que «não considerou como uma usurpação ser igual a Deus».

O Espírito Santo, na sua criatividade infinita, exprime-o também nas várias regras de vida consagrada que nascem, todas, da «sequela Christi», isto é, deste caminho de abaixar-se servindo. Através desta «lei», os consagrados podem alcançar a sabedoria, que não é uma aptidão abstracta mas é obra e dom do Espírito Santo. Um sinal evidente de tal sabedoria é a alegria.

Na narração da Apresentação de Jesus no Templo, a sabedoria é representada por dois anciãos, Simeão e Ana: pessoas dóceis ao Espírito Santo, conduzidas por Ele, animadas por Ele. O Senhor concedeu-lhes a sabedoria através dum longo caminho pela via da obediência à sua lei; obediência, que, por um lado, humilha e aniquila, mas, por outro, acende e guarda a esperança, fazendo-os criativos, porque estavam cheios de Espírito Santo. Os dois celebram uma espécie de liturgia à volta do Menino que entra no Templo: Simeão louva o Senhor e Ana «prega» a salvação. Como no caso de Maria, também o velho Simeão toma o Menino nos seus braços, mas, na realidade, é o Menino que o agarra e conduz.

É curioso notar que neste caso, criativos, não são os jovens mas os anciãos. Os jovens, como Maria e José, seguem a lei do Senhor pela via da obediência; os anciãos, como Simeão e Ana, vêem no Menino o cumprimento da Lei e das promessas de Deus. E são capazes de fazer festa: são criativos na alegria, na sabedoria. Mas é o Senhor que transforma a obediência em sabedoria, por acção do Espírito Santo.

Às vezes, Deus pode conceder o dom da sabedoria mesmo a um jovem inexperiente; basta que esteja disponível para percorrer a via da obediência e da docilidade ao Espírito.

Hoje também nós queremos, como Maria e como Simeão, tomar Jesus nos braços para que Ele Se encontre com o seu povo; mas de certeza só o conseguiremos, se nos deixarmos arrebatar pelo mistério de Cristo.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 20-12-2020

Domingo IV do Advento (PDF)  TEXTO

ADVENTO : sim ao projecto de Deus

Henry Ossawa Tanner, Anunciação

 

A resposta de Maria começa com uma objecção…

A objecção faz sempre parte dos relatos de vocação do Antigo Testamento.

É uma reacção natural de um “chamado”, assustado com a perspectiva do compromisso com algo que o ultrapassa; mas é, sobretudo, uma forma de mostrar a grandeza e o poder de Deus que, apesar da fragilidade e das limitações dos “chamados”, faz deles instrumentos da sua salvação no meio dos homens e do mundo.

Dehonianos

A força eloquente do silêncio

Emanuela Campanile

Francisco Camilo, São José a dormir com o Menino nos braços

O silêncio de S. José, que se opõe à palavra gritada, brutal, agressiva, como agora estamos habituados a ver, continua a ser exemplo e advertência constante.
Numa sociedade como a nossa, onde a palavra conta muito, e onde quanto mais se fala, mais se grita, o que é que S. José pode dizer?
Diz uma coisa fundamental porque, diferentemente de muitos outros personagens dos Evangelhos, dele não temos uma só palavra. Para Maria temos cinco frases e um canto, o “Magnificat”.
Para José temos, ao contrário, o silêncio absoluto.

Mas eu diria que esta é uma lição constante do interior dos Evangelhos: a de preferir, como Jesus prefere os últimos, como dizia um poeta francês, Paul Valéry, sempre a palavra “moindre”, menor, a mais delicada, em comparação com aquela que é gritada, brutal, agressiva, como estamos agora habituados a ver, quer a nível político, quer, sobretudo, dentro dos canais informáticos, onde domina não apenas a agressividade, mas também a vulgaridade. A palavra que se acende até ficar incandescente, e nós sabemos bem que a palavra é uma “criatura viva”, como dizia outro poeta francês, Victor Hugo, e como tal pode ferir, para não dizer, em alguns casos, matar.

O papa Francisco é muito devoto de S. José, tanto que tem uma pequena estátua sempre consigo: a estátua de um S. José adormecido.
Bassano representou um José adormecido que, de alguma maneira, recebe esta anunciação, ou recebe os sonhos, que, na linguagem bíblica, são um modo para representar uma comunicação de tipo transcendente, espiritual: não é necessariamente tudo quanto nós concebemos através da visão psicoanalítica, a leitura onírica com uma interpretação “científica”.
Para a tradição bíblica, e para toda a tradição antiga oriental, é uma maneira para exprimir a experiência religiosa profunda, e portanto uma experiência de tipo espiritual, ascético, místico.
Esta figura de S. José é significativa porque ele é por excelência o homem que recebe estas mensagens na noite, nos momentos dramáticos da existência deste seu filho oficial, um seu filho legal. E é por este motivo que podemos dizer que é, mais uma vez, uma figura sugestiva, porque tem a capacidade de entrar em profundidade, sem muito tagarelar.
Os Evangelhos apócrifos acrescentam muitos detalhes, mas sobretudo há um, dito de “José, o carpinteiro”, que representa a sua morte, mais uma vez deitado, quase numa espécie de névoa do fim de vida, e tem junto de si Cristo, e ele diz as últimas palavras quanto a Maria: «Eu amei esta mulher com ternura»; e depois extingue-se.

 

O “Eis-me!” que muda a história

Ermes Ronchi, 2019

Carlo Crivelli, Anunciação

O anjo Gabriel, o mesmo que «estava de pé à direita do altar do incenso», voou para fora da incredulidade de Zacarias, para fora da imensa esplanada do templo, para um indistinto casebre, um aposento de gente pobre. Extraordinária e surpreendente viagem: do sacerdote idoso para uma jovem, da Cidade de Deus para um vilarejo sem história da mestiça Galileia, do sagrado para o profano. O cristianismo não começa no templo, mas numa casa.

A primeira palavra do anjo, o primeiro “Evangelho” que abre o Evangelho é: alegra-te, rejubila, sê feliz. Abre-te à alegria, como uma porta se abre ao sol: Deus está aqui, aperta-te num abraço, numa promessa de felicidade.

As palavras que se seguem desvelam o porquê da alegria: és plena de graça. Maria não é plena de graça porque respondeu “sim” a Deus, mas porque Deus, primeiro, disse “sim” a ela, sem condições. E diz “sim” a cada um de nós, antes de qualquer resposta nossa.

Que eu seja amado depende de Deus, não depende de mim. Aquele seu nome, “Amada-para-sempre”, é também o nosso nome: bons e menos bons, cada um amado para sempre. Pequenos ou grandes, todos continuamente repletos de Céu.

O Senhor é contigo. Quando, na Bíblia, Deus diz a alguém «Eu estou contigo», está a entregar-lhe um futuro belíssimo e árduo (R. Virgili). Convoca-o a tornar-se parceiro da história maior. Darás à luz um Menino, que será Filho da Terra e filho do Céu, filho teu e filho do Altíssimo, e sentar-se-á no trono de David para sempre.

A primeira palavra de Maria não é o «sim” que esperaríamos, mas a suspensão de uma pergunta: como acontecerá isto? Madura e inteligente, quer compreender por que caminhos se colmatará a distância entre ela e o fresco que o anjo desenha, com palavras nunca escutadas… Pôr perguntas a Deus não é falta de fé, antes é querer crescer na consciencialização.

A resposta do anjo tem os tons do livro do Êxodo, de uma nuvem ao mesmo tempo obscura e luminosa, que cobre a tenda, enchendo-a de presença. Na voz do mensageiro ressoa também a voz querida do livro da vida e dos afectos: é o sexto mês da prima Isabel.
Maria é tomada por aquele turbilhão de vida, é envolvida nela: eis a serva do Senhor. Na Bíblia, a serva não é a empregada doméstica, a mulher-a-dias. A serva do rei é a rainha, a segunda depois do rei: o teu projecto será o meu, a tua história a minha história, Tu és o Deus da aliança, e eu tua aliada. Sou a serva, sou a aliada do Senhor das alianças.

Como o de Maria, também o nosso «eis-me!» pode mudar a história. Com o «sim» ou o «não» ao projecto de Deus, todos podemos gravar nascimentos e alianças no calendário da vida.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 13-12-2020

Domingo III do Advento (PDF)  TEXTO

ADVENTO : Alegria

Pregação de S. João Baptista, Domenico Ghirlandaio

O “homem chamado João”, enviado por Deus “para dar testemunho da luz”, convida-nos a pensar sobre a forma de Deus actuar na história humana e sobre as responsabilidades que Deus nos atribui na recriação do mundo…

Deus não utiliza métodos espectaculares e assombrosos para intervir na nossa história e para recriar o mundo; mas Ele vem ao encontro dos homens e do mundo para os envolver no seu amor através de pessoas concretas, com um nome e uma história, pessoas “normais” a quem Deus chama e a quem confia determinada missão.

A todos nós, seus filhos, Deus confia uma missão no mundo – a missão de dar testemunho da “luz” e de tornar presente, para os nossos irmãos, a proposta libertadora de Jesus..

Dehonianos

 

É sempre possível recomeçar

Papa Francisco, 2013

Senhora do Parto, Piero della Francesca

Hoje é o terceiro Domingo do Advento, chamado também domingo Gaudete, isto é, Domingo da alegria. Na liturgia ressoa muitas vezes o convite ao júbilo, a alegrar-se; porquê? Porque o Senhor está próximo. O Natal está próximo.
A mensagem cristã chama-se “Evangelho”, isto é, “boa notícia”, um anúncio de alegria para todo o povo; a Igreja não é um refúgio para gente triste, a Igreja é a casa da alegria!
E aqueles que estão tristes encontram nela a alegria, encontram nela a verdadeira alegria.

Mas a alegria do Evangelho não é uma qualquer.
Encontra a sua razão no saber-se acolhido e amado por Deus. Como nos recorda o profeta Isaías, Deus é quem vem salvar-nos, e presta socorro especialmente aos errantes do coração. A sua vinda entre nós robustece, torna firme, dá coragem, faz exultar e florir o deserto e a estepe, isto é, a nossa vida quando se torna árida. E quando é que a nossa vida se torna árida? Quando está sem a água da Palavra de Deus e do seu Espírito de amor.

Por muito grandes que sejam os nossos limites e a nossa desorientação, não nos é consentido ser fracos e vacilantes diante das dificuldades e das nossas próprias fragilidades. Pelo contrário, somos convidados a robustecer as mãos, a tornar firmes os joelhos, a ter coragem a não temer, porque o nosso Deus mostra-nos sempre a grandeza da sua misericórdia. Ele dá-nos a força para avançar. Ele está sempre connosco para nos ajudar a avançar. É um Deus que nos quer muito bem, que nos ama, e por isso está connosco, para nos ajudar, para nos fortalecer e fazer andar para a frente. Coragem! Sempre para a frente!
Graças à sua ajuda, podemos sempre recomeçar do princípio.

Como? Recomeçar do princípio?
Alguém me pode dizer: «Não, padre, não posso fazer tanto… Sou um grande pecador, uma grande pecadora… Não posso recomeçar do princípio!». É um engano! Tu podes recomeçar do princípio! Porquê? Porque Ele te espera, Ele está próximo de ti, Ele ama-te, Ele é misericordioso, Ele perdoa-te, Ele dá-te força para recomeçar do princípio! A todos!
Então somos capazes de reabrir os olhos, de superar tristeza e pranto e entoar um cântico novo.
E esta alegria verdadeira permanece também na provação, também no sofrimento, porque não é uma alegria superficial, mas radica no profundo da pessoa que se confia a Deus e confia n´Ele.

A alegria cristã, como a esperança, tem o seu fundamento na fidelidade de Deus, na certeza que Ele mantém sempre a sua promessa.
Aqueles que encontraram Jesus ao longo do caminho experimentam no coração uma serenidade e uma alegria de que nada nem ninguém os poderá privar. A nossa alegria é Jesus Cristo, o seu amor fiel é inesgotável. Por isso, quando um cristão se torna triste, quer dizer que se distanciou de Jesus. Mas não é necessário deixá-lo só. Devemos rezar por ele e fazer-lhe sentir o calor da comunidade.

A Virgem Maria nos ajude a apressar o passo para Belém, para encontrar o Menino que nasceu para nós, para a salvação e a alegria de todos os homens.
A ela o anjo disse: «Alegra-te, cheia de graça: o Senhor é contigo». Ela nos conceda viver a alegria do Evangelho na família, no trabalho, na paróquia e em todos os ambientes. Uma alegria íntima, feita de deslumbramento e de ternura. Aquela que experimenta uma mãe quando olha o seu bebé recém-nascido e sente que é um dom de Deus, um milagre de que só há a agradecer.

João, a humilde testemunha da Luz

Enzo Bianchi, in Monastero di Bose

Ministério difícil, cansativo, que custou o preço da vida gasta e dada, o de João: na consciência de não ter luz própria, ele apenas ofereceu o rosto à luz, contemplou a luz, permaneceu sempre voltado para a luz, de maneira tão convincente e autorizada que quem olhava para ele sentia-se obrigado a voltar o olhar para a luz, para Aquele de quem João era apenas testemunha.
E o que faz, como se comporta uma verdadeira testemunha de Jesus Cristo, isto é, da «luz verdadeira, aquele que ilumina todo o homem»)?

Em primeiro lugar, descentra-se e dedica todas as suas forças ao serviço desse descentramento, dizendo constantemente: «Não eu, mas Ele; não a mim, mas a Ele vão o olhar e a escuta».
Esta é uma atitude de espoliação, de resistência a toda a tentação de olhar para si próprio, é verdadeiramente viver a adoração daquele que «é maior», que «é mais forte», que passa à frente.

João vive em si o ministério da percepção da presença de Deus, ao qual o tinha habituado o deserto em que tinha crescido, e agora percepciona esta presença de Deus em Jesus, que por agora é um homem entre os outros, está entre aqueles que vão até ele para se fazerem baptizar, é seu discípulo.

Perguntam então a João Baptista: «Quem és? Que coisas dizes de ti mesmo? Qual é a tua identidade?».
E ele responde: «Sou apenas uma voz, uma voz emprestada a um outro, eco de uma palavra que não é minha». Mesmo este ser voz é fruto da obediência completa deste homem à palavra de Deus anunciada pelo profeta Isaías. Apenas voz, que se sente, se escuta, mas não se pode ver, nem contemplar, nem deter.

Há quem está no centro e nós não O conhecemos, quem é Palavra a nós dirigida; é Jesus Cristo, sempre “in incognito”, sempre a procurar, mas nós não O procuramos e não O reconhecemos.

Talvez só no juízo final saberemos que quem está junto a nós, que quem está próximo… é Jesus Cristo – e então reconhecê-l’O-emos. Até lá, temos necessidade de João, de ouvir a sua voz, de ver o seu dedo que aponta para Jesus como aquele que nos imerge no Espírito Santo.

 

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018