Folha Informativa 30-06-2019

Domingo XIII do Tempo Comum (PDF)     TEXTO

Joaquin Sorolla, Concha en Javea

Vamos a Jesus, demos-Lhe o nosso tempo,  encontremo-nos com Ele todos os dias, na oração,
num diálogo de confiança e pessoal.

Enquanto nos meses de Verão procuraremos um pouco de descanso do que cansa o corpo, não nos esqueçamos de encontrar o verdadeiro alívio no Senhor.

Papa Francisco

 

Seguir-Te-ei, mas….

Ir. Antonella , In “Monastero di Bose”

Vincent van Gogh, O Semeador

Jesus toma a decisão de enfrentar até ao fim o seu caminho para Jerusalém.

Sabe para onde vai e concentra todas as suas energias para permanecer firme e não Se perder. A sua coragem apoiada pela fé e pela vontade, e alimentada pela sua paixão por Deus e pelos homens, torna-se força para não Se dobrar perante os sofrimentos que Lhe serão infligidos pelos seus adversários.

A mesma resolução é pedida ao discípulo no difícil seguimento. Ao longo da estrada Jesus encontra pessoas que querem segui-Lo, fascinadas pela promessa de um outro lugar que rompe com os formalismos e as estruturas que secam uma religião.

Mas quando alguém aceita, na liberdade e por amor, empreender essa viagem, não pode cultivar hesitações e incertezas querendo voltar atrás, prisioneiro dos hábitos de um tempo passado.

As respostas de Jesus são de uma dureza desconcertante. Com uma linguagem particularmente forte talvez queira colocar à luz a nossa fragilidade e os nossos desvios: conhece as fortalezas em que nos escondemos e as armas de que dispomos para nos defendermos da sua ternura.

Os potenciais companheiros de Jesus parecem, em certa medida, hesitantes, como que travados pela radicalidade das suas palavras. Querem seguir Jesus, mas antes pretendem resolver alguns assuntos considerados urgentes e irrenunciáveis. Nós, humanos, somos feitos assim: temos grandes impulsos («seguir-Te-ei para onde quer que fores»), mas ao primeiro obstáculo facilmente retrocedemos.

Jesus quer tornar-nos pessoas livres: livres da possessão das coisas e das pessoas, livres enquanto não aprisionadas em ninhos seguros feitos de imobilismo, porque «o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».

Diante da proposta de Jesus de O seguir, o anónimo pede para poder sepultar primeiro o pai. A resposta de Jesus não é, decerto, um convite à desumanidade, mas reivindica de maneira clara a exigência de colocar ordem nos afectos. Não se trata de verificar a nossa boa vontade, mas de reconhecer e deixar-se guiar pela verdadeira atracção pelo Pai.

Não vale a pena continuar a voltar o olhar para o nosso passado, dobrados sobre nós mesmos: é-nos pedido sair de toda a forma de controlo sobre a vida e de olhar fixamente para Cristo, Ele que é caminho, verdade e vida.

Cada um de nós é aquilo em que se torna, não o que foi. Aprendamos a reconhecer e ousar o nosso mais profundo desejo, que tem a ver com o futuro do nosso rosto. E se tivermos coragem, ainda que com fadiga, não fugiremos ao amor e saberemos fazer nossa a Palavra: «Senhor, para quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna»

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

 

Folha Informativa 23-06-2019

Domingo XII do Tempo Comum (PDF)     TEXTO

Giotto di Bondone, Crucificação

Todos são convidados a seguir Jesus, isto é, a tomar – como Ele – a cruz do amor e da entrega, a derrubar os muros do egoísmo e do orgulho, a renunciar a si mesmo e a fazer da vida um dom.

Isto não deve acontecer em circunstâncias excepcionais, mas na vida quotidiana.

Dehonianos

 

O caminho do Amor

Papa Francisco, Set 2018

Hans Memling, Jesus

Jesus quer ouvir o que pensam as pessoas sobre Ele — e sabe bem que os discípulos são muito sensíveis à popularidade do Mestre! Jesus é considerado pelo povo um grande profeta.

Mas, na realidade, não Lhe interessam as sondagens e as bisbilhotices do povo. Ele não aceita sequer que os seus discípulos respondam às suas perguntas com fórmulas já preparadas, citando personagens famosos da Sagrada Escritura, porque uma fé que se reduz às fórmulas é uma fé míope.

O Senhor quer que os seus discípulos de ontem e de hoje estabeleçam com Ele uma relação pessoal, e assim O acolham no centro da sua vida. Por esta razão, incentiva-os a colocar-se em toda a verdade diante de si mesmos, e pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».

Jesus, hoje, faz este pedido tão directo e confidencial a cada um de nós: “Tu, quem dizes que Eu sou? Quem sou Eu para ti?”. Cada um é chamado a responder, no próprio coração, deixando-se iluminar pela luz que o Pai nos dá a fim de conhecer o seu Filho Jesus.

E pode acontecer também que nós, assim como Pedro, afirmemos com entusiasmo: «Tu és o Cristo». Contudo, quando Jesus nos comunica claramente o que disse aos discípulos, ou seja, que a sua missão se cumpre não no amplo caminho do sucesso, mas na senda árdua do Servo sofredor, humilhado, rejeitado e crucificado, então pode acontecer também a nós como a Pedro, protestar e rebelar-nos porque isto contrasta com as nossas expectativas mundanas. Nestes momentos, também nós merecemos a repreensão saudável de Jesus.

A profissão de fé em Jesus Cristo não pode limitar-se às palavras, mas exige ser autenticada com escolhas e gestos concretos, com uma vida caracterizada pelo amor de Deus, com uma vida grande, cheia de amor pelo próximo.
Jesus diz-nos que para O seguir, para sermos seus discípulos, é preciso renegar-se a si mesmos, isto é, renegar as pretensões do próprio orgulho egoísta, e carregar a própria cruz.

Depois dá a todos uma regra fundamental.
«Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á». Muitas vezes na vida, por vários motivos, erramos o caminho, procurando a felicidade só nas coisas ou nas pessoas que tratamos como coisas. Mas a felicidade encontramo-la somente quando o amor, aquele verdadeiro, nos encontra, nos surpreende, nos muda. O amor transforma tudo! E o amor pode mudar também a nós, cada um de nós. Demonstram-no os testemunhos dos santos.

 

Em interrogações constantes

Nélio Pita, CM

Seguir Jesus

De tempos a tempos a pergunta ressuscita do estado catatónico, invade o espaço da consciência e torna-se pública: «Maria, por que é que estamos casados?», «Francisco, tu amas-me?», «a que propósito estou nesta faculdade?», «por que é que acordo tão cedo?», «por onde vou?» e por aí adiante.

Aqui e ali, em tempos e lugares inesperados, a pergunta bate à porta e expõe-se sem pedir autorização. Quando levada a sério, reacende a paixão primeira ou, pelo contrário, confronta-nos com uma dolorosa realidade que não pode ser camuflada por muito tempo: «já não faz sentido continuarmos assim», «não, não sei o que é o amor», «estou no curso errado», «trabalho inutilmente para…».

Depois das reformas do Concílio Vaticano II, houve alguma tribulação no seio das comunidades religiosas, provocada pelas novas orientações.
A febre também afectou a vida monástica, confessa o abade André Louf. Nos corredores dos antigos mosteiros, repetia-se a pergunta: «Afinal o que é um monge?». «Um monge, disse o velho sábio, é aquele que todos dos dias se interroga, o que é o monge?»
O que é um baptizado? O que é ser membro da Igreja? Que significa seguir Jesus? Em resumo, quem é Jesus para mim?

Se realmente temos amor a esta causa, estas perguntas surgem naturalmente, todos os dias, porque em cada amanhecer, podemos dizer «hoje começo de novo». Bem-aventurado aquele que se interroga constantemente porque um dia encontrará o Reino de Deus!

Todos os dias, enquanto cristãos, somos confrontados com a pergunta do Mestre da Galileia, a mesma que Ele fez a caminho de Cesareia de Filipe «Tu, que dizes de mim?». Há ainda as respectivas variações, como aquela de S. Tiago «De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras?» e, a mais antiga, de Isaías «Quem é o meu adversário?…».

A qualidade da resposta é determinada pela escala de valores subjacente às nossas opções. Se amo, se tenho devoção, direi também, ainda que tímida e secretamente, como Pedro, «Tu és para mim o Messias».
Aos olhos dos outros, tudo pode parecer igual, os dias e as actividades. Mas, para nós, há um novo vigor suscitado pela pergunta decisiva.

E estaremos dispostos a caminhar com Ele.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

 

Folha Informativa 16-06-2019

Santíssima Trindade (PDF)     TEXTO

Diego Velásquez, Coração da Virgem Maria

Na sua humildade dócil, a Virgem Maria fez-se serva do Amor divino: acolheu a vontade do Pai
e concebeu o Filho por obra do Espírito Santo.

Nela o Todo-Poderoso construiu para si um templo digno dele, fazendo do mesmo o modelo e a imagem da Igreja, mistério e casa de comunhão para todos os homens.

Papa Bento XVI, 2009

 

A Trindade, espelho do nosso coração profundo

Ermes Ronchi, Avvenire

Os termos que Jesus escolhe para falar da Trindade são nomes de família, de afecto: Pai e Filho, nomes que abraçam, que se abraçam.

Espírito é nome que diz respiração: cada vida volta a respirar quando se sabe acolhida, tomada de cuidado, abraçada.

No princípio de tudo é colocada uma relação, um laço. E se nós somos feitos à sua imagem e semelhança, então a narrativa de Deus é ao mesmo tempo narrativa do ser humano, e o dogma não permanece uma doutrina fria, mas traz-me toda uma sabedoria do viver.

Coração de Deus e do ser humano é a relação: é por isso que a solidão me pesa e atemoriza, porque é contra a minha natureza.
É por isso que quando amo ou encontro amizade fico bem, porque sou de novo à imagem da Trindade.

Na Trindade é colocado o espelho do nosso coração profundo e do sentido último do universo. No princípio e no fim, origem e cume do humano e do divino, está o laço de comunhão.

Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho…
Nestas palavras João encerra o porquê último da incarnação, da cruz, da salvação: assegura-nos que Deus na eternidade não faz outra coisa senão considerar cada homem e cada mulher mais importante que Ele próprio.

No Evangelho o verbo amar traduz-se sempre com um outro verbo concreto, prático, forte, o verbo dar (não há maior amor do que dar a própria vida).
Amar não é um facto sentimental, não equivale e emocionar-se ou a enternecer-se, mas a dar, um verbo de mãos e de gestos.
Deus não enviou o Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo.

Salvo do único grande pecado: o desamor. Jesus é o curador do desamor (V. Fasser). O que explica toda a história de Jesus, o que justifica a cruz e a Páscoa não é o pecado do homem, mas o amor pelo homem; não algo a tirar à nossa vida, mas algo a acrescentar: porque quem quer que acredite tenha mais vida.

Deus amou tanto o mundo… E não apenas os seres humanos, mas o mundo inteiro, terra e colheitas, plantas e animais. (…)
Diante da Trindade sinto-me pequeno mas abraçado, como um bebé: abraçado dentro de um vento em que navega toda a criação e que tem por nome amor.

 

O Espírito Santo: dois textos

D. José Tolentino de Mendonça

Na tradição cristã, há a consciência que o discurso sobre a Trindade nos obriga a trocar as palavras por balbucios. Agostinho de Hipona, por exemplo, demorou dezasseis anos a concluir o seu Tratado “De Trinitate”, e ele próprio confessa, com algum humor: «Ainda jovem, dei início à escrita destes livros: só na velhice dei-os a público».

Em todos os «segundos nascimentos», sempre que a vida nos impele a um recomeço, seja a partir de feridas e perdas, seja a partir de encontros e esperanças, o «esquema trinitário» é-nos imprescindível. «A nossa solidão só pode ser curada quando expressa criativamente e quando ajudada por alguma outra pessoa, que cria assim uma situação triangular. Somos dois, conversamos: o terceiro é a palavra. A palavra, que vem sempre de outro, prova que somos três».

Não se entende o mistério da Santíssima Trindade, nem o da nossa Humanidade, sem pensarmos no que é a amizade. Simone Weil (cujo lastro é tão patente neste texto de Ronchi) explicita-o assim: «A amizade pura é uma imagem da amizade original e perfeita que é a da Trindade e que é a própria essência de Deus.

É impossível que dois seres humanos sejam um e, não obstante, respeitem escrupulosamente a distância que os separa, se Deus não estiver presente em cada um deles. O ponto de encontro das paralelas está no infinito.»

Um amigo, por definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilómetros ou por dezenas de anos. O longe e a distância são completamente relativizados pela prática da amizade. De igual maneira, o silêncio e a palavra. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento.

A amizade cimenta-se na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. A amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar.

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

 

Folha Informativa 09-06-2019

Pentecostes (PDF)     TEXTO

Istvan Dorfmeister, Pentecostes

O Espírito é a respiração de Deus.

Naquela sala fechada, entre a respiração ampla e profunda de Deus, o oxigénio do Céu.

E como no princípio o Criador soprou o seu hálito de vida sobre Adão, assim Jesus sopra agora vida, transmite aos seus aquilo que os faz viver.

Ermes Ronchi, Avvenire

Deus abraça-nos quando nos confessamos

Papa Francisco, 2014

O sacramento da Reconciliação (confissão) é um abraço de Deus a quem o recebe.

A Reconciliação, à semelhança da Unção dos Doentes, é um sacramento de cura. Quando vou confessar-me, é para me curar: curar-me a alma, curar-me o coração por alguma coisa que fiz que não está bem.
Celebrar o sacramento da Reconciliação significa ser envolvido num abraço caloroso: é o abraço da infinita misericórdia do Pai.

A Reconciliação brota das palavras que Jesus, depois de ressuscitado, dirigiu aos apóstolos: «A paz esteja convosco. (…) Recebei o Espírito Santo. Àqueles a que perdoardes os pecados, serão perdoados».

Há uma dimensão comunitária da Reconciliação, contrapondo os argumentos de quem defende que o perdão de Deus obtém-se numa relação directa, sem mediações.

O perdão vem de fora. O perdão dos nossos pecados não é algo que possamos darmo-nos; eu não posso dizer “eu perdoo-me os pecados”.

O perdão pede-se, pede-se a um outro, e na Confissão pedimos o perdão a Jesus. O perdão não é fruto dos nossos esforços, mas é um presente, é um dom do Espírito Santo.

Só se nos deixarmos reconciliar no Senhor Jesus com o Pai e com os irmãos podemos estar verdadeiramente na paz.
Alguém pode dizer: “Eu confesso-me apenas a Deus”. Sim, podes dizer a Deus: “Perdoa-me”, e dizer os teus pecados. Mas os nossos pecados são também contra os irmãos, contra a Igreja, e por isto é necessário pedir perdão à Igreja e aos irmãos, na pessoa do sacerdote.

A vergonha que se pode ter na confissão é boa e saudável porque torna as pessoas mais humildes, e acaba por ser um sentimento que dá lugar à serenidade. Alguém que esteja na fila para se confessar sente todas estas coisas – também a vergonha – mas depois, quando termina a confissão, sai livre, grande, belo, perdoado, branco, feliz. E isto é o belo da Confissão.

Cada um responda a si mesmo no seu coração: quando foi a última vez que te confessaste? Cada um pense. Dois dias, duas semanas, dois anos, vinte anos, quarenta anos?

E se passou tanto tempo, não perder mais um dia: vai em frente, que o sacerdote será bom. E Jesus, Ele, é o melhor dos padres, e Jesus recebe-te. Recebe-te com muito amor. Sê corajoso e avança para a Confissão.

O Filho pródigo tanta culpa tinha no seu coração, e tanta vergonha. E a surpresa aconteceu quando, ao começar a falar e a pedir perdão, o pai não o deixou falar: abraçou-o, beijou-o e fez festa. Eu digo-vos: de cada vez que nós nos confessamos, Deus abraça-nos.

 

Os dons do Espírito Santo

Papa Francisco, 2017

Ciência. Faz que o cristão penetre na realidade deste mundo sob a luz de Deus; vê cada criatura como reflexo da sabedoria do Criador e como caminho a Deus. Leva o homem a compreender o vestígio de Deus que há em cada ser criado. Por este dom o cristão reconhece o sentido do sofrimento e das humilhações no plano de Deus, que liberta e purifica o homem

Entendimento / Inteligência. Ajuda a penetrar no íntimo das verdades reveladas por Deus e entendê-las. Por ele o cristão contempla os mistérios da fé. É um entendimento diferente daquele que o teólogo obtém pelo estudo; o que é penoso e lento. O dom da inteligência é eficaz mesmo sem estudo; é dado aos pequeninos e ignorantes, desde que tenham grande amor a Deus. Por esse dom conhecemos os nossos pecados e a nossa miséria. Os santos, quanto mais se aproximaram de Deus, mais tiveram consciência do seu pecado ou da sua distância de Deus.

Sabedoria. Dá um conhecimento da verdade revelada por Deus. Abrange todos os conhecimentos do cristão e põe-nos sob a luz de Deus, mostra a grandeza do plano do Criador e a sua omnipotência.

Conselho. Permite ao cristão tomar as decisões oportunas nas horas difíceis da vida, para que se comporte como verdadeiro filho de Deus. Isso, às vezes, exige coragem. Por ele o Espírito Santo inspira-nos a maneira correcta de agir no momento oportuno. “Todas as coisas têm o seu tempo” (Ecl 3); fora desse momento preciso, o que é oportuno pode tornar-se inoportuno; nem sempre é fácil discernir se é oportuno falar ou calar, ficar ou partir, dizer “sim” ou dizer “não”.

Piedade. Orienta-nos em todas as relações com Deus e com o próximo. Como filhos adoptivos de Deus, faz-nos reconhecer Deus como Pai. E, pelo fato de reconhecermos Deus como Pai, consideramos as criaturas com olhar novo. Este dom leva-nos a considerar o facto de que Deus é sumamente santo e sábio: Este dom leva os santos a desejar, acima de tudo, a honra e a glória de Deus. É também o que desperta no cristão a inabalável confiança em Deus Pai

Fortaleza. Dá-nos força para a fidelidade à vida cristã, cheia de dificuldades. Por este dom, o Espírito Santo dá-nos a coragem necessária para a luta diária contra nós mesmos, nossas paixões e problemas, com paciência, perseverança, coragem e silêncio. Dá-nos forças além das naturais. Esta força divina transforma os obstáculos em meios e dá-nos a paz mesmo nas horas mais difíceis.

Dom do Temor. Não é o temor do mercenário ou o do castigo (do escravo); mas é o temor do amor do filho. É a rejeição que o cristão experimenta diante da possibilidade de ofender a Deus; brota das entranhas do amor. Não há verdadeiro amor sem este tipo de temor. Medo de ofender o Amado. Pelo dom do temor de Deus a vitória é rápida e perfeita, pois é o Espírito que move o cristão a dizer “não” à tentação. O dom do temor de Deus está ligado à virtude da humildade, que nos faz conhecer a nossa miséria, impede a presunção e a vã glória, e assim, nos torna conscientes de que podemos ofender a Deus; daí surge o santo temor de Deus. Ele liga-se também à virtude da temperança; combate a concupiscência e os impulsos desordenados do coração, para não ofender e magoar a Deus.

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

 

Folha Informativa 02-06-2019

Solenidade da Ascensão (PDF)     TEXTO

Fra Angelico, O Último Julgamento

Com os três gestos últimos de Jesus – envia, bendiz, desaparece – inicia-se naquele momento a «Igreja em saída».

Uma Igreja que perscruta o que de bom há no mundo, que quer captar, colher e fazer emergir as forças mais belas.

Convertei: cultivai e protegei as sementes divinas de cada pessoa.

Ermes Ronchi, Avvenire

Topografia do espírito

Papa Francisco, 2017

Há três lugares referenciais na vida de cada cristão: a Galileia, o céu e o mundo. A eles correspondem outras três palavras: memória, oração e missão, que identificam o nosso caminho.

Jesus, durante os quarenta dias transcorridos da ressurreição até à Ascensão, entretinha-Se com os discípulos: ensinava-lhes, acompanhava-os, preparava-os para receber o Espírito Santo… animava-os. E são precisamente as Escrituras que indicam os três lugares referenciais do nosso caminho cristão, três palavras que revelam sempre como deve ser o nosso caminho.

“Galileia” foi dita à primeira apóstola, Madalena: «Vai e diz aos discípulos que vão à Galileia». Trata-se de uma palavra “referencial” densa de significados para os discípulos.
De facto, na Galileia ocorreu o primeiro encontro com Jesus, é o lugar onde Jesus Se encontrou com eles, escolheu-os, ensinou-lhes desde o início, convidou-os a segui-L’O.

Um lugar que se reapresenta na vida de cada cristão: cada um de nós tem a própria Galileia. É o momento no qual nos encontrámos com Jesus, em que Ele Se manifestou, em que o conhecemos, também nós sentimos esta alegria, este entusiasmo de o seguir. A Galileia indica para cada um a graça da memória, porque para ser um bom cristão é necessário ter sempre a recordação do primeiro encontro com Jesus ou dos encontros sucessivos. Será ela no momento da provação a dar a “certeza”.

“Céu” encontra-se no trecho em que se narra a Ascensão do Senhor: de facto, os apóstolos mantinham os olhos fixos no céu a tal ponto que alguns anjos lhes disseram: «Mas, por que estais a olhar para o céu… Ele partiu. Está lá. Voltará, mas está lá». O Céu é onde agora está Jesus, mas não separado de nós; fisicamente sim, mas sempre a interceder por nós. Lá, Jesus mostra ao Pai o preço que pagou por nós. Assim como era necessário recordar o primeiro encontro com a graça da memória, devemos pedir a graça de contemplar o Céu, a graça da prece, a relação com Jesus na oração, neste momento ouve-nos, está connosco.

“O mundo”. Jesus diz aos discípulos: «Ide e fazei discípulos em todas as nações». O lugar do cristão é o mundo, para anunciar a Palavra de Jesus, para anunciar que fomos salvos, que Ele veio para nos dar a graça, para nos levar todos com Ele diante do Pai. Ir em missão é viver e dar testemunho do Evangelho, é anunciar às pessoas como é Jesus. Isto faz-se com o testemunho e com a Palavra, porque se eu disser como Jesus é, como é a vida cristã e viver como pagão, não funciona. A missão não é eficaz.

 

A força da gravidade que nos impele para o alto

Ermes Ronchi, in Avvenire

A ascensão é a navegação do coração, que te conduz do fechamento em ti ao amor que abraça o universo (Bento XVI). A esta navegação do coração, Jesus chama os onze, um grupinho de homens amedrontados e confusos, um núcleo de mulheres corajosas e fiéis. Desafia-os a pensar em grande, a olhar longe, a ser a narrativa de Deus «a todos os povos».

Depois condu-los para fora, rumo a Betânia, e, erguendo as mãos, abençoa-os (Lucas 24,46-53). No momento do adeus, Jesus acolhe nos braços os seus discípulos, congrega-os e aperta-os a Si, antes de os enviar.
A ascensão é um acto de enorme confiança de Jesus naqueles homens e mulheres que o seguiram durante três anos, que não entenderam muito, mas que muito O amaram: confia à sua fragilidade o mundo e o Evangelho, e abençoa-os.

É o seu gesto definitivo, a última imagem que nos resta de Jesus, uma bênção sem palavras, suspensa para sempre entre Céu e Terra.
Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi levado para o Céu. Jesus não foi para longe ou para o alto, para qualquer canto remoto do cosmo. Elevou-Se para a profundidade das coisas, para o íntimo da criação e das criaturas, e de dentro preme como bênção, força ascensional para uma vida mais luminosa.

Não existe no mundo só a força de gravidade para baixo, mas também uma força de gravidade para o alto, que nos faz erguidos, que faz verticais as árvores, as flores, a chama, que levanta a água das marés e a lava dos vulcões. Como uma nostalgia de céu.

Com a ascensão, Jesus sobe à profundeza das criaturas, inicia uma navegação no coração do universo, o mundo é baptizado, isto é, imergido em Deus. Se apenas fosse capaz de me dar conta disto e de disto me alegrar, descobriria a sua presença em todo o lado, caminharia pela Terra como dentro de um único sacrário, num baptismo infinito.

Lucas conclui, de surpresa, o seu Evangelho, dizendo: os discípulos voltaram a Jerusalém com grande júbilo. Em vez disso, deviam estar tristes, acabava uma presença, foi-se embora o seu amor, o seu amigo, o seu mestre. Mas a partir daquele momento, sentem dentro de si um amor que abraça o universo, capaz de dar e receber amor – amei cada coisa com o adeus (Marina Cvetaeva).

Os discípulos veem em Jesus que o homem não acaba com o seu corpo, que a nossa vida é mais forte que as suas feridas. Veem que um outro mundo é possível, que a realidade não é só isto que se vê, mas abre-se sobre um “além”; que em cada sofrimento, Deus inseriu centelhas de ressurreição, clarões de luz no escuro, fissuras nos muros das prisões. Também nós vemos que fica comigo «o meu Deus, perito em evasões» (M. Marcolini).

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

 

Folha Informativa 26-05-2019

Domingo VI da Páscoa (PDF)     TEXTO

Virgem Maria e Jesus, Master of Blinking Eye

Neste mês de Maria, peço a Jesus que me deixe sentar no outro braço da sua e nossa Mãe do Céu.

E, a Nossa Senhora, supliquei que me concedesse  a graça do seu colo, para que,
junto ao seu Coração Imaculado, aprenda a amar Jesus e, em Cristo, todos os meus irmãos..

Gonçalo de Portocarrera, Ao colo da melhor mãe do mundo

 

 

A morada de Deus em nós

Armindo dos Santos Vaz

O filho pródigo (pormenor), Rembrandt

Santa Teresa é mestra na experiência de Deus, partilhada com os leitores, convidados a darem sentido à vida.

Num mundo cada vez mais focado em ambições de poder e em omnipotências de ter e de prazer – que, ao fim e ao cabo, nos deixam talvez de coração vazio mas certamente reduzidos às imprevisíveis irrupções e aos inevitáveis embates da radical fragilidade humana –, o alerta de Teresa soa assim: não estamos ocos; somos habitados por Aquele que quer dar sentido último à nossa existência.

O ser humano de hoje tem dificuldade em encontrar Deus, talvez porque tem dificuldade em encontrar-se a si mesmo. Anda perdido ou distraído com o barulho mediático e informático à sua volta.

Santa Teresa propõe que entremos na zona mais nobre da nossa intimidade para aí reconhecermos o Deus que está à nossa espera. Enquanto Ele for «um estranho na nossa morada» ou nela for considerado uma presença irrelevante, estamos a ignorar algo determinante na vida: desperdiçamos a intimidade da morada de Deus em nós.

Para Santa Teresa, o ser humano é no seu interior “outro céu, onde só Sua Majestade mora”. É um ser «capaz de Deus», capaz de amar como Deus o ama: quando orienta a sua vida para Deus, seguindo o Jesus do evangelho, é mais fiel à sua verdade de humano.

Santa Teresa partilhou com os perdidos num mundo distraído o que ela, tão atenta, encontrou: um caminho e uma morada, precisamente os títulos de seus dois grandes livros. São as duas perspectivas fundamentais que qualquer vida precisa de ter para singrar orientada e com um objectivo que lhe dê felicidade autêntica. Ela percebeu que o que orienta e ilumina o “caminho” é o ardente desejo de habitar a rica e esplêndida “morada” definitiva. Percebeu o evangelho. Viu-se a si própria como morada do amor de Deus: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o “amará” e viremos a ele e estabeleceremos “morada” nele». Mas também viu Deus como morada para ela: Na casa de meu Pai há muitas moradas».
Quanto mais densa vida interior na oração, mais real será a entrega às causas humanas.

A experiência do Espírito remete sempre para o amor concreto. E a espiritualização autêntica redunda sempre em humanização. “E quando as obras activas saem desta raiz que é o interior, são admiráveis e muito cheirosas flores. Procedem desta árvore do amor de Deus; e só por ele, sem nenhum interesse próprio, espalha-se o odor destas flores para proveito de muitos; e é perfume que dura”.

Abertos às surpresas

Papa Francisco, 28.04.2015

Deus é o Deus das novidades: “Renovo todas as coisas”, disse-nos»; não compreendiam que o Espírito Santo veio precisamente para nos renovar e age continuamente para isso. Aliás, isto é assustador.

Na história da Igreja podemos ver desde então até hoje quantos temores suscitaram as surpresas do Espírito Santo. E a quem quisesse objectar: «Mas, padre, há novidades e novidades! Algumas, vê-se que são de Deus, outras não», respondo com as palavras de Pedro aos irmãos de Jerusalém, quando foi repreendido por ter entrado na casa de Cornélio: «Quando vi que a eles foi dado o que tínhamos recebido, quem era eu para negar o baptismo?».

Esta ideia está também presente no trecho da liturgia do dia sobre Barnabé, definido «homem virtuoso» e «cheio do Espírito Santo». Nos dois há o Espírito Santo, que faz ver a verdade.
O que, ao contrário, sozinhos não podemos fazer. Com a nossa inteligência não podemos, Podemos estudar toda a história da salvação, a teologia inteira, mas sem o Espírito nada podemos entender.

É precisamente Ele que nos faz compreender a verdade ou – utilizando as palavras de Jesus – é o Espírito que nos faz conhecer a voz de Jesus: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, conheço-as, e elas seguem-me”».
A Igreja vai em frente graças à obra do Espírito Santo. É ele que age. O próprio Jesus disse aos apóstolos: “Enviar-vos-ei o dom do Pai, que vos fará recordar e vos ensinará”. Como?

Por isso, nos primeiros discursos, inclusive no de Estêvão, há uma releitura de todas as profecias. É obra do Espírito Santo, que faz recordar a história na óptica de Jesus ressuscitado: “e ele ensinar-vos-á o caminho”.

Como fazer para ter a certeza de que a voz que ouvimos é a de Jesus e o que temos vontade de fazer é obra do Espírito Santo? É preciso rezar. Sem oração, não há espaço para o Espírito; é necessário pedir a Deus que nos envie este dom: “Senhor, dá-nos o Espírito Santo para que possamos discernir em cada tempo o que devemos fazer”. Isto não significa repetir sempre a mesma coisa. A mensagem é a mesma: mas a Igreja vai em frente com estas surpresas, com estas novidades do Espírito Santo.

Estou ciente das objecções que poderiam ser feitas a este raciocínio: «Mas, padre, por que levantar tantos problemas? Façamos tudo como sempre fizemos, assim estamos certos». Esta hipótese poderia ser uma alternativa mas seria estéril; de “morte”. Mas é muito melhor arriscar, com a oração, a humildade, aceitar o que o Espírito nos pede para mudar de acordo com o tempo no qual vivemos: este é o caminho.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018