Folha Informativa 05-02-2023

Domingo V do Tempo Comum (PDF) TEXTO

E se o sal perde o sabor?

Joseph Israel, o sal e a luz

Às vezes esquecemos que a fé é um tesouro que nos foi transmitido não só por escritos, mas pelo testemunho existencial de homens e mulheres que nos passaram o testemunho.

Agora cabe-nos enriquecê-lo e voltar a traduzi-lo com a nossa inteligência para o mundo de hoje.

Cada pessoa é sal e luz de maneira diferente, mas para todos vale que não somos cristãos para nós mesmos.

Na vida experimentamos momentos de não-sabor, em que a nossa luz não resplandece (não a luz mundana da visibilidade que todos procuram, mas a do coração, que pode iluminar e dar a paz em quem está à volta).

Mas há os irmãos e as irmãs para nos ajudarem e iluminarem com a sua luz. Uma luz que vem da sua vida interior, do coração habitado pela Palavra.
Não se é cristão sozinho. Somos responsáveis uns pelos outros, mas também e em primeiro lugar por nós próprios.

Ir. Laura, In “Monastero di Bose, 2016

Evitemos uma vida insípida e desligada

Ermes Ronchi, In “Avvenire” 2020

Willem van Herp, Santo António distribui pão

Vós sois sal, vós sois luz (cf. Mateus 5, 13-16). Sal que conserva as coisas, mínima eternidade dissolvida no alimento. Luz que acaricia as coisas de alegria, nelas desperta cores e beleza.

Tu és luz. Jesus anuncia-a à minha alma criança, àquela parte de mim que sabe ainda encantar-se, ainda acender-se. Tu és sal, não para ti mesmo, mas para a terra. A tarefa é séria, porque ser sal e luz do mundo quer dizer que do bom sucesso da minha aventura, humana e espiritual, depende a qualidade do resto do mundo.

Como fazer para viver esta responsabilidade séria, que é de todos? Menos palavras e mais gestos. Que o profeta Isaías elenca (cf. 58,7-10): «Reparte o teu pão», verbo seco, concreto, factível.

«Reparte o teu pão», e depois é todo um seguimento de outros gestos: dá abrigo, veste o nu, não vires a cara. «Então a tua luz surgirá como a aurora, a tua ferida não tardará em sarar». E sente a impaciência de Deus, a impaciência da Adão, e da aurora que se levanta e da fome que grita; a urgência do corpo do homem que tem dores e feridas, tem pressa de pão e de saúde.

A luz vem através do meu pão quando se torna pão nosso, partilhado e não ciosamente possuído. O gesto do pão vem antes de tudo: porque sobre a terra há criaturas que têm tanta fome, que para eles Deus só pode ter a forma de um pão.

Cura os outros e curar-se-á a tua ferida, cuida de alguém e Deus cuidará de ti; produz amor, e Ele envolver-te-á o coração, quando está ferido. Ilumina outros e iluminar-te-ás, porque quem olha só para si próprio nunca se ilumina. Quem não procura, mesmo às apalpadelas, o rosto que da escuridão pede ajuda, nunca se acenderá. É da noite partilhada que se ergue o sol de todos.

«Se me fecho no meu eu, ainda que adornado de todas as virtudes, rico de sal e de luz, e não participo na existência dos outros, se não me abro aos outros, posso estar privado de pecados, e todavia vivo numa situação de pecado» (G. Vannucci).

Mas se o sal perde sabor, com que coisa se pode salgar? Conhecemos bem o risco de nos afundarmos numa vida insípida e gasta. Acontece quando não comunico amor a quem me encontra, não sou generoso de mim, não sei querer bem: «Não somos chamados a fazer o bem, mas a querer bem» (Ir. Maria de Campello).

Eu sou luz apagada quando não evidencio beleza e bondade nos outros, não me inebrio dos seus defeitos: então estou a extinguir a chama das coisas, sou um címbalo que tintila, um trombone de lata. Quando amo três verbos obscuros: agarrar, subir, comandar; em vez de seguir os três do sal e da luz: dar, acender, servir.

Doença pode tornar-se desumana

Papa Francisco, Dia Mundial do Doente 2023

Rembrandt, O Bom Samaritano

As experiências de estarmos perdidos, doentes ou frágeis fazem parte do nosso caminho: não nos excluem do povo de Deus. Pelo contrário, colocam-nos no centro da solicitude do Senhor que é Pai e não quer perder pelo caminho nem sequer um dos seus filhos. Trata-se, pois, de aprender com Ele a ser verdadeiramente uma comunidade que caminha em conjunto, capaz de não se deixar contagiar pela cultura do descarte.

A Igreja Católica celebra o Dia Mundial do Doente a 11 de Fevereiro, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, com o tema da mensagem do Papa “«Trata bem dele!» – A compaixão como exercício sinodal de cura” e o Santo Padre convida a reflectir sobre o que se pode aprender, através da experiência da fragilidade e da doença, caminhando juntos segundo o estilo de Deus, que é proximidade, compaixão e ternura.

Não há espaço para a fragilidade na sociedade e para a solidão que pode começar nestes contextos, as pessoas “nunca” estão preparadas para a doença, e, muitas vezes, nem sequer para admitir a idade avançada: Tememos a vulnerabilidade e a difusa cultura do mercado leva-nos a negá-la.

A doença faz parte da experiência humana, mas pode tornar-se desumana, se for vivida no isolamento e no abandono, se não for acompanhada pelo cuidado e pela compaixão.

É mesmo importante, relativamente também à doença, que toda a Igreja se confronte com o exemplo evangélico do bom samaritano, para se tornar um hospital de campanha válido: a sua missão, com efeito, especialmente nas circunstâncias históricas que atravessamos, exprime-se no exercício do cuidado.

Todos somos frágeis e vulneráveis; todos temos necessidade daquela atenção compassiva que sabe deter-se e aproximar-se, que sabe cuidar e levantar. A condição dos enfermos é, assim, um apelo que quebra a indiferença e abranda o passo de quem avança como se não tivesse irmãs e irmãos.

Nos anos da pandemia Covid-19 aumentou o sentimento de gratidão por quem trabalha diariamente pela saúde e na investigação médica, mas não é suficiente louvar os heróis quando se sai de uma tragédia colectiva tão grande.

Essa gratidão deve ser acompanhada, em cada país, pela procura activa de estratégias e recursos para ser garantido a todas as pessoas o acesso aos cuidados médicos e o direito fundamental à saúde.

Sobre a citação bíblica do tema da mensagem para o Dia Mundial do Doente 2023, “«Trata bem dele!» – A compaixão como exercício sinodal de cura” é a recomendação do samaritano ao estalajadeiro, mas Jesus repete-a a cada um na exortação conclusiva “vai e faz tu também o mesmo”.

O Dia Mundial do Doente não convida apenas à oração e à proximidade com aqueles que sofrem, mas, ao mesmo tempo, visa sensibilizar o povo de Deus, as instituições de saúde e a sociedade civil para uma nova forma de avançarmos juntos.

A Palavra de Deus – não só na denúncia, mas também na proposta – é sempre capaz de iluminar, é sempre actual.

 

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Folha Informativa 29-01-2023

Domingo IV do Tempo Comum (PDF) TEXTO

Bem-aventurados

Fra Angelico, Discurso da Montanha

Este texto abre o “Sermão da Montanha” e iluminou a vida dos crentes, e também de muitos não-crentes.

É difícil não se comover com estas palavras de Jesus, e é justo o desejo de as compreender e acolher cada vez mais plenamente.

As Bem-aventuranças contêm o “bilhete de identidade” do cristão porque delineiam o rosto do próprio Jesus, o seu estilo de vida.

Jesus, vendo a multidão que o seguia, sobe à encosta que rodeia o lago da Galileia, senta-Se e, dirigindo-Se aos discípulos, anuncia as bem-aventuranças.

A mensagem é dirigida aos discípulos, mas no horizonte está a multidão, ou seja, toda a humanidade.

Estes “novos mandamentos” são muito mais que normas. De facto, Jesus nada impõe, mas revela o caminho da felicidade – o seu caminho – repetindo a palavra “felizes” oito vezes.

Papa Francisco, 2020

O vínculo entre a família e a comunidade cristã

Papa Francisco, 2015

Joseph Matar, Bem-aventuranças

O vínculo entre a família e a comunidade cristã é, por assim dizer, «natural» porque a Igreja é uma família espiritual e a família é uma pequena Igreja.

A comunidade cristã é a casa daqueles que acreditam em Jesus como a fonte da fraternidade entre todos os homens. A Igreja caminha no meio dos povos, na história dos homens e das mulheres, dos pais e das mães, dos filhos e das filhas: esta é a história que conta para o Senhor.

Os grandes acontecimentos dos poderes mundanos escrevem-se nos livros de história, e ali permanecem. Mas a história dos afectos humanos inscreve-se directamente no Coração de Deus; e é a história que permanece para sempre. Este é o lugar da vida e da fé.

A família é o lugar da nossa iniciação – insubstituível, indelével – nesta história. Nesta história de vida plena, que acabará na contemplação de Deus por toda a eternidade no Céu, mas começa na família! Por isso a família é tão importante.

O Filho de Deus aprendeu a história humana nesta via, e percorreu-a até ao fim. É bom voltar a contemplar Jesus e os sinais deste vínculo!
Ele nasceu numa família e ali «aprendeu o mundo»: uma oficina, quatro casas, uma aldeia insignificante. No entanto, vivendo por trinta anos esta experiência, Jesus assimilou a condição humana, acolhendo-a na sua comunhão com o Pai e na sua própria missão apostólica.
Depois, quando deixou Nazaré e começou a vida pública, Jesus formou ao seu redor uma comunidade, uma «assembleia», uma com-vocação de pessoas. Eis o significado da palavra «igreja».

Nos Evangelhos, a assembleia de Jesus tem a forma de uma família, e de uma família hospitaleira, não de uma seita exclusiva, fechada: nela encontramos Pedro e João, mas também o faminto e o sedento, o estrangeiro e o perseguido, a pecadora e o publicano, os fariseus e as multidões.
E Jesus não cessa de acolher e falar com todos, até com quantos já não esperam encontrar Deus na sua vida. É uma lição forte para a Igreja!
Os próprios discípulos são eleitos para cuidar desta assembleia, desta família dos hóspedes de Deus.

Para que seja viva no hoje desta realidade da assembleia de Jesus, é indispensável reavivar a aliança entre a família e a comunidade cristã.
Poderíamos dizer que a família e a paróquia são os dois lugares onde se realiza aquela comunhão de amor que encontra a sua derradeira fonte no próprio Deus.

Uma Igreja verdadeiramente segundo o Evangelho não pode deixar de ter a forma de uma casa hospitaleira, sempre de portas abertas. As igrejas, as paróquias e as instituições, com as portas fechadas, não devem chamar-se igrejas, mas museus!

E hoje esta é uma aliança crucial.
“Contra os centros de poder ideológicos, financeiros e políticos, voltemos a pôr as nossas esperanças nestes centros do amor evangelizador, ricos de calor humano, assentes na solidariedade, na participação” (Pont. Cons. para a Família, Papa Francesco), e também no perdão entre nós.

Hoje é indispensável e urgente fortalecer o vínculo entre família e comunidade cristã.
Sem dúvida, é necessária uma fé generosa para ter a inteligência e a coragem de renovar esta aliança. Às vezes, as famílias hesitam, dizendo que não estão à altura. Isto é verdade. Mas ninguém é digno, ninguém está à altura, ninguém tem força! Sem a graça de Deus, nada poderíamos fazer. Tudo nos é dado gratuitamente! E o Senhor nunca chega a uma nova família sem fazer algum milagre.
Sim, quando nos pomos nas suas mãos, o Senhor leva-nos a fazer milagres todos os dias!

Naturalmente, também a comunidade cristã deve fazer a sua parte. Por exemplo, procurar superar atitudes demasiado directivas e funcionais, favorecendo o diálogo interpessoal, o conhecimento e a estima recíproca.

As famílias tomem a iniciativa e sintam a responsabilidade de oferecer os seus dons preciosos em prol da comunidade.
Todos nós devemos estar conscientes de que a fé cristã se vive no campo aberto da vida partilhada com todos; a família e a paróquia devem realizar o milagre de uma vida mais comunitária para a sociedade inteira.

Felicidade é um dos nomes de Deus

Ermes Ronchi, In “Avvenire” 2015

Johann Koenig, Todos os Santos

Os santos são os homens das Bem-aventuranças.

Estas palavras são o coração do Evangelho, a narrativa de como o homem Jesus passou pelo mundo, e por isso são o rosto alto e puro de cada ser humano, as novas hipóteses de humanidade. São o desejo de um totalmente outro modo de ser homens, o sonho de um mundo feito de paz, de sinceridade, de justiça, de corações límpidos.

Na narração do Evangelho surge nove vezes a palavra “Bem-aventurados” [“Felizes” noutras traduções], revelando um Deus que toma a seu cuidado a alegria do ser humano, traçando-lhe os caminhos. Como habitualmente, inesperados, contracorrente. E ficamos como que sem respiração diante da ternura e do esplendor destas palavras.

As Bem-aventuranças recapitulam a boa notícia, o anúncio jubiloso de que Deus oferece a vida a quem produz amor, que se alguém se encarrega da felicidade de alguém, o Pai Se encarregará da sua felicidade.

Quando são proclamadas, continuam a saber fascinar-nos, mas depois saímos da igreja e damo-nos conta de que para habitar a Terra, este mundo agressivo e duro, escolhemos o manifesto mais difícil, incrível, revolucionário e em contramão que o ser humano pode pensar.

A primeira diz: felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino, já, não na outra vida. Felizes porque há mais Deus em vós, mais liberdade, mais futuro. Felizes porque guardais a esperança de todos.

Neste mundo onde se está diante do desperdício e da miséria, um exército silencioso de homens e mulheres preparam um futuro bom: constroem paz, no trabalho, na família, nas instituições; são obstinados a propor a justiça, honestos mesmo nas pequenas coisas, não conhecem a duplicidade. Os homens das Bem-aventuranças, desconhecidos do mundo, aqueles que não aparecem nos jornais, são os secretos legisladores da história.

A terceira Bem-aventurança é a mais paradoxal: felizes aqueles que choram. Erguei-vos, vós que comeis um pão de lágrimas, diz o salmo. Deus está do lado de quem chora, mas não do lado da dor. Um anjo misterioso anuncia a cada um que chora: o Senhor está contigo. Deus não ama a dor, está contigo no reflexo mais profundo das tuas lágrimas, para multiplicar a coragem, para envolver o coração ferido, na tempestade está ao teu lado, força da tua força.

A palavra-chave das Bem-aventuranças é felicidade. Santo Agostinho, que redige uma obra inteira sobre a vida feliz, escreve: falámos da felicidade, e não conheço valor maior que se possa dizer dom de Deus. Deus não só é amor, não só é misericórdia, Deus é também felicidade.

Felicidade é um dos nomes de Deus.

 

 

 

 

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Folha Informativa 22-01-2023

Domingo III do Tempo Comum (PDF) TEXTO

Gebhart Fugel, Chamamento dos discípulos

Queres uma Igreja profética?

Começa a servir, e não digas nada. Não teoria, mas testemunho. Precisamos não de ser ricos, mas de amar os pobres; não de ganhar para nós, mas de nos gastarmos pelos outros; não do consenso do mundo, do estar de bem com todos, não! Isto não é profecia.

Mas precisamos da alegria pelo mundo que virá; precisamos de pastores que ofereçam a vida: de enamorados de Deus.

Foi assim, como enamorados, que Pedro e Paulo anunciaram Jesus. Pedro, antes de ser colocado na cruz, não pensa em si mesmo, mas no seu Senhor e, considerando-se indigno de morrer como Ele, pede para ser crucificado de cabeça para baixo. Paulo está para ser decapitado e pensa só em dar a vida, escrevendo que quer ser «oferecido como sacrifício».

Isto é profecia …e não palavras. Isto é profecia, a profecia que muda a história.

Papa Francisco, 2020

Responder com alegria à chamada de Jesus

Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, Janeiro de 2017

A página evangélica (Mt 4, 12-23) narra o início da pregação de Jesus na Galileia.

Ele deixa Nazaré, uma aldeia situada nos montes, e estabelece-se em Cafarnaum, importante centro nas margens do lago, habitado essencialmente por pagãos, ponto de cruzamento entre o Mediterrâneo e o interior da Mesopotâmia.

Esta escolha indica que os destinatários da sua pregação não são apenas os seus conterrâneos, mas quantos desembarcam na cosmopolita «Galileia das gentes»: assim se chamava.

Vista da capital Jerusalém, aquela terra é geograficamente periférica e religiosamente impura, porque estava cheia de pagãos, por causa da mistura com os que não pertenciam a Israel.

Da Galileia não se esperavam certamente grandes coisas para a história da salvação.

No entanto, precisamente dali – exactamente dali – se espalha aquela “luz” sobre a qual meditámos nos domingos passados: a luz de Cristo.
difunde-se precisamente da periferia.

A mensagem de Jesus imita a do Baptista, anunciando o «reino dos céus».
Este reino não comporta a instauração de um novo poder político, mas o cumprimento da aliança entre Deus e o seu povo que inaugurará uma época de paz e de justiça.

Para realizar este pacto de aliança com Deus, cada um está chamado a converter-se, transformando a sua maneira de pensar e de viver.
Isto é importante: converter-se não significa só mudar o modo de viver, mas também a forma de pensar.

É uma transformação do pensamento.
Não se trata de mudar de roupa, mas de costumes.

O que diferencia Jesus de João Baptista é o estilo e o método.
Jesus escolhe ser um profeta itinerante. Não fica à espera das pessoas, mas vai ao seu encontro.
Jesus está sempre na rua! As suas primeiras saídas missionárias dão-se ao longo das margens do lago de Galileia, em contacto com a multidão, sobretudo com os pescadores. Ali Jesus não só proclama a vinda do reino de Deus, mas procura companheiros para a sua missão de salvação.

Neste mesmo lugar encontra dois pares de irmãos: Simão e André, Tiago e João; chama-os dizendo: «Segui-me, e far-vos-ei pescadores de homens».
A chamada alcança-os no auge das suas actividades diárias: o Senhor revela-Se a nós não de forma extraordinária ou sensacional, mas na quotidianidade das nossas vidas.

Ali devemos encontrar o Senhor; e ali Ele revela-Se, faz sentir ao nosso coração o seu amor; e ali ­– com este diálogo com Ele no dia-a-dia da vida – muda o nosso coração.

A resposta dos quatro pescadores é imediata e pronta: «No mesmo instante eles deixaram as suas redes e O seguiram».
Com efeito, sabemos que tinham sido discípulos do Baptista e que, graças ao seu testemunho, já tinham iniciado a acreditar em Jesus como Messias.

Nós, cristãos de hoje, temos a alegria de proclamar e testemunhar a nossa fé porque houve aquele primeiro anúncio, porque houve aqueles homens humildes e corajosos que responderam generosamente à chamada de Jesus.

Nas margens do lago, numa terra inimaginável, nasceu a primeira comunidade dos discípulos de Cristo.
A consciência destes primórdios suscite em nós o desejo de levar a palavra, o amor e a ternura de Jesus a todos os contextos, inclusive ao mais inacessível e relutante.

Levar a Palavra a todas as periferias! Todos os espaços de vivência humana são terreno no qual lançar a semente do Evangelho, a fim de que traga frutos de salvação.

 

 

 

 

 

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Folha Informativa 15-01-2023

Domingo II do Tempo Comum (PDF) TEXTO

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!

Peugino, Baptismo de Cristo

Esta cena é determinante para a nossa fé; e é crucial também para a missão da Igreja.

A Igreja, em todas as épocas, é chamada a fazer aquilo que fez João Baptista, indicar Jesus ao povo dizendo: «Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo!». Ele é o único Salvador, é o Senhor, humilde, no meio dos pecadores, mas é Ele, não é outro, poderoso, que vem; é Ele!

E estas são as palavras que nós sacerdotes repetimos todos os dias, durante a Missa, quando apresentamos ao povo o pão e o vinho que se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo.

Este gesto litúrgico representa toda a missão da Igreja, a qual não se anuncia a si mesma. Ai da Igreja quando se anuncia a si mesma; perde a bússola, não sabe para onde vai! A Igreja anuncia Cristo; não se traz a si mesma, mas Cristo. Pois, é só Ele e unicamente Ele que salva o seu povo do pecado, que o liberta e o guia para a terra da verdadeira liberdade.

Papa Francisco, 2017

A tarefa das religiões e da cultura é desenterrar a esperança debaixo dos escombros

Cardeal Ravasi, In Corriere della Sera, 2019

O poeta Mario Luzi falava dos “bolbos de esperança” ocultados debaixo do cúmulo dos escombros do tempo sombrio que estamos a atravessar.

A tarefa da poesia, das religiões e da cultura é precisamente a de descobrir os bolbos escondidos por baixo.

Pense-se na atmosfera tão inquinada, inclusive do ponto de vista físico, e sobretudo do ponto de vista social, espiritual e cultural. Trata-se da destruição dos mitos, a destruição da boa educação, a destruição das elites – ou seja, da nobreza espiritual e do pensamento –, a destruição das relações tornadas artificiais, é uma tentação quase compreensível. A nossa tarefa, ao contrário, é a mais árdua: começar a escavar, como bombeiros, para reencontrar os germes vitais.

A maioria da sociedade não se preocupa em extrair bolbos de valor dos escombros. Isso, então, deveria ser a tarefa das religiões autênticas e da cultura: ser minoria que estimula. Uma minoria “ofensiva”. E dado que uma minoria nunca pode sê-lo com as armas, porque seria sempre perdedora, deve tornar-se uma espécie de pedra no sapato.
O sentido de responsabilidade é uma tarefa de minoria.

É preciso criar consciência. Digo-o também em relação à Igreja, hoje. De onde venho, ao domingo de manhã, muita gente confluía à igreja para a missa. Agora, quando volto ao lugar onde nasci, na igreja não encontro ninguém que não tenha um cabelo grisalho! Todavia, esta minoria pode tornar-se mais eficaz que a grande e imponente maioria.

O papa Francisco compreendeu que para a sociedade a linguagem é fundamental. Se falo uma linguagem obsoleta, a surdez é certa – de “surdo” deriva “absurdo”. Hoje é considerado absurdo aquilo que as pessoas não conseguem aceitar no interior da concha da sua orelha, isto é, adaptada ao seu interesse.

Francisco compreendeu que agora é necessária a frase essencial, sem muitas subordinadas.
É indispensável adoptar, inclusive nos valores, o recurso à essencialidade para uma maior incisão.

O papa compreendeu depois que a cultura contemporânea está tendencialmente ligada às imagens. E usa-as: as “periferias”, o “cheiro das ovelhas”, a “Igreja hospital de campanha”, o “sudário não tem bolsos”…

Há, por fim , o terceiro elemento: a maneira como usa o corpo, a corporeidade. Nas audiências gerais fala durante uma vintena de minutos, depois está uma hora com a gente. Que assim encontra uma pessoa concreta, não envolvida numa auréola de luz e de distância.

Voltando aos bolbos de esperança.
Partirei da palavra diálogo. No sentido etimológico, é o cruzamento de dois “logoi”, dois discursos. O discurso não deve ser entendido só como um raciocínio, mas como uma experiência fundada, uma visão que dá um sentido. O debate com o outro pode ajudar a descobrir melhor o sentido último do ser e do existir. Na palavra “diálogo”, “dià”, em grego, quer dizer também em profundidade, “diabasi” significa descer.
E se se querem extrair os bolbos que estão sob o diálogo, é preciso ser sério, cansar-se.
Todos fazem o elogio da lentidão.
Eu quero fazer o do cansaço.

A segunda palavra é o “amor” autêntico, não o epidérmico, mas o profundo, capaz de unir sexo, eros e amor.
Se se está verdadeiramente enamorado, deve começar-se a compreender genuinamente o que significa dar-se ao outro.
É isto que temos de ensinar aos jovens, que reduzem a experiência ao sexo, enquanto que é também ternura, beleza, paixão, sentimento.

Um outro “bolbo” poderia ser precisamente o da busca, em todos os sentidos, inclusive científico. Nunca se contentar com aquilo que nos é dado.

 

TEMPO COMUM

Rembrandt, São Mateus e o anjo

Na maior parte do Ano Litúrgico, a Igreja vive o que se designa por Tempo Comum, não por ser um período menos importante na vida e na liturgia da Igreja, mas por decorrer fora dos dois pontos centrais: Advento-Natal e Quaresma-Páscoa.

O Tempo Comum, em que entrámos no dia 10 de Janeiro, é considerado um tempo de vigilância, de espera, de esperança, pelo que a cor litúrgica é o verde, patente nos paramentos envergados pelo sacerdote na celebração da Missa.

Sendo um período longo, de 33 ou 34 semanas, o Tempo Comum é subdividido em duas partes: A primeira parte começou no dia seguinte à festa do Baptismo de Jesus (neste ano de 2023 a 10 de Janeiro) e vai até 21 de Fevereiro, a terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas, quando tem início a Quaresma. A segunda parte do Tempo Comum deste Ano A recomeça na segunda-feira depois de Pentecostes (29 de Maio deste ano) e estende-se até 02 de Dezembro, o sábado que antecede o primeiro domingo do Advento, quando tem início um novo Ano Litúrgico, o Ano B.

Seremos auxiliados neste período pela leitura de um dos evangelhos sinópticos (São Mateus neste Ano A). Uma característica importante do Evangelho segundo Mateus reside na importância dada pelo evangelista aos “ditos” de Jesus.

Ao longo do Evangelho segundo Mateus aparecem cinco longos discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25), nos quais Mateus junta “ditos” e ensinamentos provavelmente proferidos por Jesus em várias ocasiões e contextos.
É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada ao Povo por meio de Moisés e escrita nos cinco livros do Pentateuco.

É o primeiro que foi escrito, em Israel, e em aramaico, por volta do ano 50. Serviu de modelo para os Evangelhos de São Marcos e São Lucas. O texto original de Mateus, que se perdeu, foi traduzido para o grego, tendo em vista que o mundo romano da época falava o grego.

Mateus escreveu para os judeus da sua terra, convertidos ao cristianismo. Era o único dos Apóstolos habituado à arte de escrever, a calcular e a narrar os fatos. Compreende-se que os próprios Apóstolos o tenham escolhido para essa tarefa.
O objectivo da narração foi mostrar aos judeus que Jesus era o Messias anunciado pelos profetas, por isso, cita, muitas vezes, o Antigo Testamento e as profecias sobre o Messias. Como disse Renan, o evangelho de Mateus tornou-se “o livro mais importante da história universal”.

O Evangelho de S. Mateus tem seis grandes partes: 1. A Infância de Jesus (caps. 1 e 2); 2. Começo da missão de Jesus (3-4); 3. o Sermão da Montanha; 4. Ministério de Jesus na Galileia (8 a 18), no cap. 13, Mateus narra sete Parábolas do Reino de Deus; 5. Ministério de Jesus na Judeia (19 a 25); 6. Paixão e Ressurreição de Jesus (26 a 28). É o Evangelho mais longo de todos, bem escrito e detalhado.

O 34º Domingo do Tempo Comum, que assinala o fim deste período, é substituído pela Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, entrando-se no Tempo do Advento, iniciando-se a 3 de Dezembro 2023 um novo Ano Litúrgico, o Ano B, em que seguiremos o Evangelho de S. Marcos.

São João Baptista

Giotto, Baptismo de Jesus

Reconheçamos na voz de João Baptista a recusa de todas as actuais formas de ambição, desigualdade social e de violência.

Reconheçamos a necessidade de derrubar todas as hierarquias para que toda a criatura veja a Salvação.

Luís Miguel Cintra 2021

 

 

 

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Folha Informativa 08-01-2023

Epifania do Senhor (PDF) TEXTO

Epifania

Como se lê no Evangelho, «entrando em casa, [os Magos] viram o Menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-No» (Mt 2, 11).

A adoração era o acto de homenagem reservado aos soberanos, aos grandes dignitários, os Magos adoraram Aquele que sabiam ser o Rei dos judeus (cf. Mt 2, 2).

Mas, na realidade, que viram eles? Viram um menino pobre com a sua mãe. E contudo estes sábios, vindos de países distantes, souberam transcender aquela cena tão humilde e quase deprimente, reconhecendo naquele Menino a presença dum soberano. Por outras palavras, foram capazes de «ver» para além das aparências.

Prostrando-se diante do Menino nascido em Belém, exprimiram uma adoração era primariamente interior: a abertura dos escrinhos trazidos de prenda foi sinal da oferta dos seus corações.

Papa Francisco, Homilia da Missa de 06 de Janeiro de 2021

 

Obrigado, Bento XVI (1925-2022)

Octávio Carmo, Agência Ecclesia (adaptado)

O Papa emérito Bento XVI, falecido no dia 31 de Dezembro de 2022, tinha sido eleito em Abril de 2005 para suceder a João Paulo II, mas tinha renunciado ao pontificado em Fevereiro de 2013, mantendo uma vida reservada no Mosteiro ‘Mater Eclesiae’, do Vaticano.

Juntamente com o seu irmão Georg, foi ordenado padre a 29 de Junho de 1951; dois anos depois, doutorou-se em teologia com a tese ‘Povo e Casa de Deus na doutrina da Igreja de Santo Agostinho’.

De 1962 a 1965, participou no Concílio Vaticano II como ‘perito’, após ter chegado a Roma como consultor teológico do cardeal Joseph Frings, arcebispo de Colónia.

Em 25 de marco de 1977, o Papa Paulo VI nomeou-o arcebispo de Munique e Frisinga; a 28 de Maio seguinte, recebeu a sagração episcopal e escolheu como lema episcopal ‘Colaborador da verdade’.

O mesmo Paulo VI criou-o cardeal, no consistório de 27 de Junho de 1977.

Em 1978, participou no Conclave, celebrado de 25 a 26 de Agosto, que elegeu João Paulo I; este nomeou-o seu enviado especial ao III Congresso Mariológico Internacional que teve lugar em Guaiaquil (Equador) de 16 a 24 de Setembro; mo mês de Outubro desse mesmo ano, participou também no Conclave que elegeu João Paulo II.

O Papa polaco nomeou o cardeal Ratzinger como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional, em 25 de Novembro de 1981.

ELEIÇÃO
No dia 19 de Abril de 2005, o cardeal Joseph Ratzinger foi eleito como o 265.º Papa, sucedendo a João Paulo II; a 11 de Fevereiro de 2013, Dia Mundial do Doente e memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, anunciaria a renúncia ao pontificado, com efeitos a partir do dia 28 do mesmo mês, uma decisão inédita em quase 600 anos de história na Igreja Católica.

“Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino”.

Bento XVI realizou 24 viagens ao estrangeiro, incluindo uma visita a Portugal, entre 11 e 14 de Maio de 2010, com passagens por Lisboa, Fátima e Porto.

No total, as visitas apostólicas tiveram como destino prioritário a Europa (16), seguindo-se a América (3), o Médio Oriente (2), a África (2) e a Oceânia (1); a estas somam-se 30 deslocações em solo italiano.

ENCÍCLICAS
O falecido papa assinou três encíclicas e presidiu a três Jornadas Mundiais da Juventude (Colónia, Sydney e Madrid), para além de ter convocado cinco Sínodos dos Bispos, um Ano Paulino, um Ano Sacerdotal e um Ano da Fé.

As encíclicas, textos mais importantes do pontificado, começaram a ser publicadas em 2006, com a ‘Deus caritas est’ (Deus é amor), um texto breve que apresenta uma “fórmula sintética da existência cristã”: Deus é amor e os cristãos acreditam nesse amor, fazendo dele a “opção fundamental” da sua vida.

‘Spe salvi’ (Salvos na esperança) é o título da segunda encíclica de Bento XVI, de 2007, dedicada ao tema da esperança cristã, num mundo dominado pela descrença e a desconfiança.

A terceira encíclica, ‘Caritas in Veritate’ (A caridade na verdade), publicada em 2009, propõe uma nova ordem internacional, para governar a globalização e superar as sucessivas crises, apontando como prioridade a “reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional”.

Em 2012, Joseph Ratzinger encerrou a sua trilogia sobre ‘Jesus de Nazaré’ com um livro sobre a infância de Cristo.

PONTIFICADO

A 18 de Abril, Bento XVI tornou-se o terceiro Papa a discursar na sede da ONU, depois de Paulo VI, em 1965, e João Paulo II, em 1979 e 1995.
A promoção dos direitos humanos continua a ser a estratégia mais eficaz para eliminar a desigualdade entre os países e os grupos sociais, como também para construir um maior sentimento de segurança”, afirmou, numa intervenção longamente aplaudida, em Nova Iorque.

Entre os temas centrais do pontificado estiveram as críticas ao relativismo e ao secularismo da sociedade ocidental, a preocupação com as questões bioéticas – aborto, eutanásia, investigação em embriões – e da família, para além da crise financeira e das questões ecológicas.

Face à crise provocada pelos casos abusos sexuais cometidos por membros do clero ou em instituições católicas de vários países, Bento XVI encontrou-se com vítimas em várias viagens, demitiu bispos e reformou a legislação da Igreja, neste campo.

A 8 de Fevereiro de 2022, o Papa emérito divulgou uma carta, após acusações de má gestão de casos de abusos sexuais, enquanto arcebispo de Munique, pedindo perdão a todas as vítimas destas situações.

Neste pontificado foram canonizados 44 santos em 10 cerimónias, incluindo o português Nuno de Santa Maria, D. Nuno Álvares Pereira, a 26 de Abril de 2009; Portugal passou a contar também com duas novas beatas: Rita Amada de Jesus (beatificada a 28 de Maio de 2006, em Viseu) e a Madre Maria Clara (21 de Maio de 2011, Lisboa).

Nos 2872 dias do seu pontificado, Bento XVI escreveu 17 cartas apostólicas sob forma de motu proprio,116 constituições apostólicas e 144 cartas apostólicas, além de outras cartas e mensagens, discursos e homilias.

A 28 de Junho de 2016 fez-se história no Vaticano com o regresso do Papa emérito Bento XVI ao palácio apostólico, para uma homenagem por ocasião do seu 65.º aniversário de ordenação sacerdotal.

OBRIGADO
O Papa Francisco, que visitou regularmente o seu antecessor, afirmou num texto de homenagem ao seu predecessor que a Igreja Católica tem uma “grande dívida” para com Bento XVI.

A 29 de Junho de 2021, Francisco assinalou o 70.º aniversário de sacerdócio de Bento XVI, agradecendo pelo seu testemunho de vida e de oração pela Igreja.

“Obrigado, Bento, querido pai e irmão, obrigado pelo teu testemunho credível, obrigado pelo teu olhar continuamente dirigido para o horizonte de Deus. Obrigado”, disse, no Vaticano.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 01-01-2023

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (PDF) TEXTO

Mestra de Fé, de Esperança e de Caridade

Fra Angelico, Apresentação de Jesus no Templo

Maria cooperou com a sua caridade para que nascessem na Igreja os fiéis membros da Cabeça de que é efectivamente mãe segundo o corpo.

Como Mãe, ensina; e, também como Mãe, as suas lições não são ruidosas.

Mestra de fé! Bem-aventurada és tu, porque acreditaste! Assim a saúda Isabel, sua prima, quando Nossa Senhora sobe à montanha para a visitar.

Tinha sido maravilhoso aquele acto de fé de Santa Maria: eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.

No nascimento de seu Filho contempla as grandezas de Deus na terra; há um coro de Anjos e tanto os pastores como os poderosos da terra vêm adorar o Menino.

Mas depois a Sagrada Família tem de fugir para o Egipto, para escapar às intenções criminosas de Herodes.

Depois, o silêncio; trinta longos anos de vida simples, vulgar, como a de qualquer lar, numa pequena povoação da Galileia.

Josémaria Escrivá de Balaguer, Amigos de Deus

 

Dia Mundial da Paz 2023

Papa Francisco, Agência Ecclesia (adaptado)

Autor medieval desconhecido, O jardim de Maroa

O Papa Francisco elogia na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz (01 de Janeiro de 2023) os esforços, por vezes heróicos, que permitiram enfrentar a pandemia, mas sublinha que “o vírus da guerra é mais difícil de derrotar”.

Convida o mundo a “mudar o coração”, no pós-pandemia, destacando que o impacto da Covid-19 tem de reforçar o “sentido comunitário” e de fraternidade, na humanidade.

“Deixarmos mudar o coração pela emergência que estivemos a viver, ou seja, permitir que, através deste momento histórico, Deus transforme os nossos critérios habituais de interpretação do mundo e da realidade”.

A mensagem para a celebração de 01 de Janeiro de 2023 tem como tema ‘Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir da Covid-19 para traçar sendas de paz’, estabelecendo uma ligação entre a pandemia e a guerra na Ucrânia.
Francisco elogia a resposta do mundo da saúde e das autoridades políticas à crise provocada pela Covid-19, “empenho, nalguns casos verdadeiramente heróico, de muitas pessoas que se deram para que todos conseguissem superar do melhor modo possível o drama da emergência”.

A mensagem alude à falta de segurança laboral, solidão e um “um mal-estar geral, que se concentrou no coração de tantas pessoas e famílias”, com a pandemia, que pôs a descoberto “contradições e desigualdades” da humanidade actual.

“Hoje somos chamados a questionar-nos: o que é que aprendemos com esta situação de pandemia?”, apela o Papa.

O texto considera que a confiança posta no progresso, na tecnologia e nos efeitos da globalização gerou uma “intoxicação individualista e idólatra”.

“Não podemos ter em vista apenas a nossa própria protecção, mas é hora de nos comprometermos todos em prol da cura de nossa sociedade e do nosso planeta, criando as bases para um mundo mais justo e pacífico, seriamente empenhado na busca dum bem que seja verdadeiramente comum”, sustenta Francisco.

Referindo-se à actual situação na Ucrânia, o Papa diz que se trata de uma “derrota” para toda a humanidade.

“Esta guerra, juntamente com todos os outros conflitos espalhados pelo globo, representa uma derrota não só para as partes directamente envolvidas mas também para a humanidade inteira”, refere Francisco.

Numa reflexão dedicada ao mundo pós-pandemia, o Papa lamenta que o mundo enfrente agora “uma nova e terrível desgraça”.

“Assistimos ao aparecimento doutro flagelo – uma nova guerra – comparável em parte à Covid-19, mas pilotado por opções humanas culpáveis”, indica.

Francisco destaca que a guerra na Ucrânia “ceifa vítimas inocentes e espalha a incerteza, não só para quantos são directamente afectados por ela, mas de forma generalizada e indiscriminada para todos, mesmo para aqueles que, a milhares de quilómetros de distância, sofrem os seus efeitos colaterais”.

“Basta pensar nos problemas do trigo e nos preços dos combustíveis”, acrescenta.

“Fere-nos o escândalo dos povos famintos. Precisamos de desenvolver, com políticas adequadas, o acolhimento e a integração, especialmente em favor dos migrantes e daqueles que vivem como descartados nas nossas sociedades”, indica o Papa.

O Papa defende que “só a paz que nasce do amor fraterno e desinteressado” pode ajudar a “superar as crises pessoais, sociais e mundiais”.

“É juntos, na fraternidade e solidariedade, que construímos a paz, garantimos a justiça, superamos os acontecimentos mais dolorosos”, escreve.

A mensagem conclui com votos de que todos possam aprender, no novo ano, a “caminhar juntos, valorizando tudo o que a história pode ensinar”.

“Formulo votos de todo o bem aos Chefes de Estado e de Governo, aos Responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes das várias religiões. Desejo a todos os homens e mulheres de boa vontade que possam, como artesãos de paz, construir dia após dia um ano feliz”, refere o Papa.

O Dia Mundial da Paz foi instituído em 1968 por São Paulo VI (1897-1978) e é celebrado no primeiro dia do novo ano com uma mensagem papal.

Vida interior e solidariedade

Irmão Alois, Taizé

Onde podemos encontrar a fonte para uma fraternidade universal, no seio da nossa família humana e com toda a criação? As várias tradições espirituais dos povos da terra amadureceram diferentes respostas.

Para os cristãos, é tempo de aprofundar a compreensão da fé. Não para nos pormos à frente ou dizer que temos a resposta para tudo, mas para nos juntarmos com mais eficácia numa procura comum com os que não querem simplesmente submeter-se ao seu destino, mas escolhem empenhar-se nas grandes questões de hoje.

«Rezar e fazer o que é justo». Esta foi, nos terríveis anos da Segunda Guerra Mundial, a intuição do pastor Dietrich Bonhoeffer. Quando esteve preso, reflectiu sobre o essencial da vida cristã. No meio da tragédia da guerra, ele ergueu-se. Na escuridão do seu tempo, viu com clareza: “A nossa existência cristã consistirá hoje apenas em duas coisas: em orar e praticar o que é justo entre as pessoas.
Qualquer pensar, falar e organizar as coisas do cristianismo tem de renascer desse orar e praticar.

Como traduzir hoje esta intuição? Cada um poderia dar a sua própria resposta. Em Taizé diríamos: aprofundando a nossa vida interior e a solidariedade ou, com outras palavras, alimentando a nossa vida de oração e alargando as nossas amizades…

Para descobrir nas nossas vidas os sinais da presença de Deus, o testemunho de Dietrich Bonhoeffer pode ajudar-nos. Ele estava muito consciente do mal absoluto que operava no seu tempo, mas um impulso interior permitiu-lhe escolher, como tantos outros até hoje, em situações de extrema violência, a esperança e a confiança em Deus, sem perder a esperança na humanidade.

Nas circunstâncias actuais, também nós podemos escolher a confiança. Somos livres para discernir, no nosso mundo, uma luz com origem noutro lugar. Mesmo quando estamos a passar por uma provação, mesmo quando Deus parece não responder ao nosso clamor, essa luz já está a nascer como a estrela da manhã nos nossos corações.

 

J. Kirk. Richards, Glória ao Deus Menino

 

Chama-se dia do Natal do Senhor
a data em que a Sabedoria de Deus
se manifestou como criança
e a Palavra de Deus, sem palavras, imitou a voz da carne.
A divindade oculta foi anunciada
aos pastores pela voz dos anjos
e indicada aos magos
pelo testemunho do firmamento.
Com esta festividade anual
celebramos, pois, o dia
em que se realizou a profecia:
A verdade brotou da terra
e a justiça desceu do céu.

S. Agostinho

 

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