Folha Informativa 24-10-2021

XXX Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Rembrandt, Profetiza Ana

 

Ao abrir o Evangelho, cada um pode dizer para si mesmo: estas palavras de Jesus são um pouco como uma carta muito antiga, que me foi escrita numa língua desconhecida; mas, como foi escrita por alguém que me ama, vou procurar compreender o seu sentido e vou desde logo tentar pôr em prática, na minha vida, o pouco que descobri…

No início, não importam os grandes conhecimentos.

Mas é através do coração, nas profundezas de si mesmo, que o ser humano começa a descobrir o Mistério da Fé.

Os conhecimentos virão a seguir. Não é tudo adquirido de uma só vez. Uma vida interior elabora-se passo a passo.

Hoje, mais do que nunca, penetramos na fé avançando por etapas.

Irmão Roger, de Taizé

A esperança, esta desconhecida

Papa Francisco, 31 de Outubro de 2013

A esperança é a mais humilde das três virtudes teologais, porque se esconde na vida. Contudo, ela transforma-nos em profundidade, assim como «uma mulher grávida não deixa de ser mulher» mas é como se se transformasse porque se torna mãe.
A esperança revelou-se mais forte do que o sofrimento, como escreve São Paulo na carta aos Romanos «os sofrimentos do tempo presente não são comparáveis com a glória futura que será revelada em nós». O apóstolo fala de «fervorosa expectativa», uma tensão rumo à revelação que se refere a toda a criação.

Vemos e sentimos a fé, sabemos o que é; praticamos a caridade, sabemos o que é. Mas o que é a esperança?. Para nos aproximarmos mais podemos dizer em primeiro lugar que é um risco. A esperança é uma virtude perigosa, uma virtude, como diz São Paulo, de uma expectativa fervorosa pela revelação do Filho de Deus. Não é uma ilusão. É aquela que os israelitas tinham, os quais, quando foram libertados da escravidão disseram: «parecia que sonhávamos. Então a nossa boca abriu-se num sorriso e a nossa língua encheu-se de alegria».

Paulo mostra outro ícone da esperança, é o do parto. De facto, sabemos que toda a criação, e também nós com ela, geme e sofre as dores de parto até hoje.
A esperança, põe-se nesta dinâmica do dar a vida.

A esperança é uma graça que deve ser pedida. Uma coisa é viver na esperança, porque na esperança somos salvos, e outra é viver como bons cristãos e nada mais, viver na expectativa da revelação, ou viver bem com os mandamentos; estar ancorados nas margens do mundo futuro ou estacionados na laguna artificial. Como mudou a atitude de Maria, uma jovem, quando soube que seria mãe: Vai, ajuda e canta aquele cântico de louvor. Porque, quando uma mulher está grávida, é mulher, mas é como se se transformasse profundamente porque agora «é mãe». E a esperança é algo semelhante: muda a nossa atitude.

 

Sou ponte ou obstáculo?

P. Dennis Clark, In Catholic Exchange

Nicolas Poussin, Ordenação

Há poucas coisas mais frustrantes do que querermos desesperadamente chegar a algum lugar e encontrar sinais com proibições do tipo “Trânsito proibido”, “Estrada em obras” ou “Desvio”. Sabemos onde precisamos de ir e como chegar lá, mas algo ou alguém impede o nosso caminho, muitas vezes por más razões. Muita da nossa vida é assim.

Este passo do Evangelho é um exemplo inequívoco: um pedinte cego ouviu o rumor da multidão quando Jesus se aproximava. O mendigo sabia que precisava de se encontrar com Jesus, e por isso gritou-Lhe com o máximo das suas forças. No entanto, os discípulos, que dirigiam a comitiva, usaram todo o poder ao seu dispor para o calar e afastar de Jesus. Só que não resultou. Jesus ouviu os apelos do homem e o que aconteceu a seguir é História.

Quantas vezes nos tornamos, consciente ou inconscientemente, obstáculos para que a graça chegue à vida das outras pessoas? Mais do que gostaríamos de admitir. Pode ser o peso dos nossos maus exemplos que sobrecarrega o coração do nosso próximo e o afasta de Deus. Ou talvez seja algo mais consciente, como a necessidade de controlar as pessoas à nossa volta, cortando momentos espontâneos de graça.

Seja como for, nada disto é o que queremos ser para o outro. Decida agora: seja uma ponte para a graça, não um obstáculo!

 

Vida de Fé

Josemaria Escrivá de Balaguer, in Amigos de Deus

Eustache Le Sueur, A cura do cego Bartimeu

Não te dá vontade de gritar, a ti que também estás parado na berma do caminho, desse caminho da vida que é tão curta; a ti, a quem faltam luzes; a ti, que necessitas de mais graça para te decidires a procurar a santidade? Não sentes urgência em clamar: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim?

Muitos repreendiam-no para o fazer calar. Tal como a ti, quando suspeitaste de que Jesus passava a teu lado. Acelerou-se o bater do teu coração e começaste também a clamar, movido por uma íntima inquietação.
E amigos, costumes, comodidade, ambiente, todos te aconselharam: cala-te, não grites! Porque é que hás-de chamar por Jesus? Não O incomodes!

Mas o pobre Bartimeu não os ouvia e continuava ainda com mais força: Filho de David, tem piedade de mim. O Senhor, que o ouviu desde o começo, deixou-o perseverar na sua oração. Contigo, procede da mesma maneira. Jesus apercebe-Se do primeiro apelo da nossa alma, mas espera. Quer que nos convençamos de que precisamos d’Ele; quer que Lhe roguemos, que sejamos teimosos, como aquele cego que estava à beira do caminho, à saída de Jericó. Imitemo-lo. Ainda que Deus não nos conceda imediatamente o que Lhe pedimos e, apesar de muitos procurarem afastar-nos da oração, não cessemos de Lhe implorar.

Jesus, parando, mandou chamá-lo. E alguns dos melhores que o rodeiam, dirigem-se ao cego: Tem confiança; levanta-te; Ele chama-te. É a vocação cristã! Mas, na vida de cada um de nós, não há apenas um chamamento de Deus. O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te – diz-nos – e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus problemazinhos sem importância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural.

Aquele homem, deitando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus.
Não te esqueças de que, para chegar até Cristo, é preciso o sacrifício. Deitar fora tudo o que estorva.
Tens de proceder da mesma maneira nesta luta pela glória de Deus, nesta luta de amor e de paz, com que procuramos difundir o reinado de Cristo.

Para servires a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, deves estar disposto a renunciar a tudo o que sobeja. Lição de fé, lição de amor, porque é assim que se tem de amar Cristo.

Agora é contigo que Cristo fala.
Diz-te: que queres de Mim? Que eu veja, Senhor, que eu veja!
E Jesus: Vai, a tua fé te salvou. Nesse mesmo instante, começou a ver e seguia-O pelo caminho. Segui-lo pelo caminho.
Tu tomaste conhecimento do que o Senhor te propunha e decidiste acompanhá-l’O pelo caminho.
Tu procuras seguir os seus passos, vestir-te com as vestes de Cristo, ser o próprio Cristo: portanto, a tua fé – fé nessa luz que o Senhor te vai dando – deverá ser operativa e sacrificada.

Não te iludas, não penses em descobrir novas formas. É assim a fé que Ele nos pede: temos de andar ao seu ritmo com obras cheias de generosidade, arrancando e abandonando tudo o que seja estorvo.

 

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Folha Informativa 17-10-2021

XXIX Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Ford Madox Brown, Jesus lava os pés a Pedro

 

O cristão tem, absolutamente, de dar testemunho de uma ordem nova no seu espaço familiar, colocando-se numa atitude de serviço e não numa atitude de imposição e de exigência;

o cristão tem de dar testemunho de uma nova ordem no seu espaço laboral, evitando qualquer atitude de injustiça ou de prepotência sobre aqueles que dirige e coordena;

o cristão tem sempre de encarar a autoridade que lhe é confiada como um serviço, cumprido na busca atenta e coerente do bem comum.

Dehonianos

Política é servir, não servir-se

P. Nélio Pita, SNPC, 12.10.2018

A política é antes de tudo serviço; não é serva de ambições individuais, de prepotência de facções ou centros de interesses. Como serviço, também não é patroa, que pretende governar todas as dimensões da vida do povo, inclusive recaindo em formas de autocracia e totalitarismo.

O serviço que Cristo exige dos seus apóstolos e discípulos é analogicamente o tipo de serviço que é pedido aos políticos. É um serviço de sacrifício e entrega, a ponto de às vezes os políticos serem considerados “mártires” de causas para o bem comum das suas nações. As pessoas olham com desconfiança e criticam os políticos e vêem-nos como uma corporação de profissionais que tem os seus próprios interesses e denunciam-os com raiva, às vezes sem as distinções necessárias, como se estivessem tingidos de corrupção.

Em favor do bem comum
A referência fundamental da política, que exige perseverança, determinação e inteligência, é o bem comum, sem o qual os direitos e as aspirações mais nobres de indivíduos, famílias e grupos intermédios em geral não poderiam realizar-se cabalmente porque faltaria o espaço ordenado e civil em que viver e operar.

É claro que não há necessidade de se opor ao serviço ao poder – ninguém quer um poder impotente! – mas o poder deve estar ordenado ao serviço para não se degenerar. Todo o poder que não é ordenado para o serviço degenera. É claro que me refiro à “boa política”, no seu mais nobre sentido do significado, e não às degenerações do que chamamos de “politiquice”.

São necessários líderes políticos que vivam com paixão o seu serviço aos povos, que vibrem com as fibras íntimas de seu “ethos” e cultura, solidários com os seus sofrimentos e esperanças; políticos que colocam o bem comum antes dos seus interesses privados, que não se deixem amedrontar pelos grandes poderes financeiros e mediáticos, que sejam competentes e pacientes diante de problemas complexos, que estejam abertos a ouvir e a aprender em diálogo democrático, que combinem a busca de justiça com a misericórdia e a reconciliação.

Uma política de princípios cristãos e humanistas
Não se pode negligenciar uma educação abrangente, que começa na família e se desenvolve numa escola para todos e com qualidade. Devemos fortalecer o tecido familiar e social.

Uma cultura de encontro – e não de antagonismos permanentes – tem de fortalecer os laços fundamentais da humanidade e da sociabilidade e estabelecer uma base sólida para uma amizade social que deixa para trás os pináculos do individualismo e da massificação, polarização e manipulação.

Aos católicos requer-se coerência
Aos políticos que se confessam católicos, não é permitido julgar as suas consciências, mas sim os seus actos. Muitas vezes revelam uma falta de coerência com as convicções éticas e religiosas do magistério católico. Não sabemos o que acontece na sua consciência, não a podemos julgar, mas vemos os seus actos.
Há outros que vivem de modo tão absorvido os seus compromissos políticos, que a sua fé vai ficando relegada para o fundo, empobrecendo-se, sem a capacidade de ser critério orientador e dar o seu selo a todas as dimensões da vida da pessoa, incluindo a sua prática política.

Falta de apoio da hierarquia e clericalismo
Não falta quem não se sinta reconhecido, encorajado, acompanhado e sustentado na custódia e crescimento da sua fé por parte dos pastores e das comunidades cristãs.

No fim de contas, a contribuição cristã no acontecer político aparece apenas através de declarações dos episcopados, sem que se perceba a missão peculiar dos leigos católicos para ordenar, administrar e transformar a sociedade de acordo com os critérios evangélicos e o património da Doutrina Social da Igreja.

Os pastores são chamados a procurar maneiras de encorajar, acompanhar e estimular as tentativas e esforços que já são feitos hoje para manter a esperança e a fé vivas num mundo de contradições, especialmente para os mais pobres.

Leigos comprometidos não são aqueles que colaboram em “coisas de padres”
Muitas vezes os pastores caem na tentação de pensar que o assim chamado “leigo comprometido” é aquele que trabalha nas obras da Igreja e/ou nas coisas da paróquia ou da diocese, reflectindo-se pouco em como acompanhar um baptizado na sua vida pública e diária; e como se compromete como cristão na vida pública.

Sem nos darmos conta, gerámos uma elite laical acreditando que “leigos comprometidos” são apenas aqueles que trabalham em “coisas de padres” e esquecemos, descuidámos o crente que muitas vezes queima a sua esperança na luta diária para viver a sua fé.
Trata-se de situações que o clericalismo não pode ver, uma vez que está mais preocupado em dominar espaços do que em gerar processos.

Devemos reconhecer que o leigo, pela sua própria realidade, pela sua própria identidade, por estar imerso no coração da vida social, pública e política, por estar no meio de novas formas culturais que se geram continuamente, tem exigências de novas formas de organização e celebração da fé.

O leigo sabe muitas vezes melhor do que a hierarquia o que é necessário a cada momento: Nunca é o pastor quem diz ao leigo o que tem que fazer ou dizer, eles sabem-no melhor que nós… Não é o pastor que tem de determinar o que têm de dizer os fiéis nas diferentes esferas.

Como pastores, unidos ao nosso povo, faz-nos bem perguntarmo-nos como estamos a estimular e promover a caridade e a fraternidade, o desejo do bem, da verdade e da justiça. Como fazemos para que a corrupção não exista nos nossos corações. Inclusive nos nossos corações de pastores. E, ao mesmo tempo, faz-nos bem escutar com muita atenção a experiência, reflexões e inquietações que os leigos que vivem sua fé nas várias esferas da vida social e política podem compartilhar connosco.

 

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Folha Informativa 10-10-2021

XXVIII Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Deserto australiano

Cada um de nós escute esta palavra em silêncio. “Ainda te falta uma coisa”.

Que coisa me falta?

A todos os que Jesus muito ama porque muito dão aos outros, pergunto: deixas que os outros te dêem dessa outra riqueza que não tens?

Tu que vives sempre a dar, e crês que não tens necessidade de nada, sabes que tens muita pobreza e necessitas que te dêem?

Deixa-te evangelizar pelos pobres, pelos doentes, por aqueles que ajudas.

Aprende a receber da humildade daqueles que ajudas.

Papa Francisco, Desafios aos jovens, 18.01.2015

Os obstáculos ao seguimento de Jesus

P. Nélio Pita, SNPC, 12.10.2018

Andrey Mironov, Se queres ser perfeito

Não basta cumprir a lei. Para seguir o Mestre é necessário que o discípulo seja livre.

Porque há bens que escravizam, como há ideias que amarram ou recordações que bloqueiam. Jesus exige que o discípulo esteja disponível. Por isso, «vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres…».

A reacção é de desalento. O homem não é capaz de ir tão longe. O rico não está habituado a ceder. Deseja a vida eterna, mas é incapaz de remover o obstáculo que o impede de alcançar. E a recorrente tentação de querer conciliar a acumulação obsessiva de bens com o seguimento é denunciada pelo Mestre: «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!».

Tantas vezes nos colocamos diante de Jesus e manifestamos-Lhe o desejo de alcançar um Bem Maior, aqui e agora, mas nem sempre estamos disponíveis para acolher as exigências que Ele nos faz. Por vezes, enganamo-nos a nós próprios, convencendo-nos de que fizemos tudo o que esteve ao nosso alcance quando, na verdade, contornamos subtilmente as palavras duras, amolecemos o divino desafio adaptando-o às nossas ambições, tal como aconteceu com a princesa do conto do Tchékhov.

De visita ao mosteiro, ela desejava fazer a experiência da eternidade. Mas nesse lugar sagrado, onde anseia «instalar-se para sempre, onde a vida parece ser serena e despreocupada», a paz é perturbada pelo diálogo inesperado com um antigo funcionário.

O velho médico, por sugestão da nobre senhora, enumera os erros que estão na origem de uma vida infernal: ela despreza os outros, explora os trabalhadores e até promove obras de caridade por vaidade e para se promover socialmente. Fá-lo com a naturalidade de quem julga que esse modo de vida é um direito garantido pelo seu estatuto. Enfim, deseja estar em paz com Deus, mas tem repugnância das pessoas. Subjacente a esta postura rígida, própria de quem não cede nada, está uma perspectiva distorcida da experiência religiosa, entendida, por um lado, como mero cumprimento de rituais e, por outro, como vivência encapsulada de uma paz sem a exigência de olhar e cuidar do outro, o fragilizado, o pobre, o doente, o marginalizado.

Se este tempo tem uma marca, é a da tentação constante de reduzir a experiência de fé à repetição de rituais e de rotinas cunhadas como “sagradas” por um lado e, por outro, pela multiplicação de propostas de cariz espiritual que pretendem garantir uma experiência de eternidade, rápida e satisfatória, a baixo preço, como se a eternidade fosse um produto comercializável, susceptível de ser consumido sem a obrigação de sair de si mesmo para amar e servir o outro.

Estas propostas são enganosas. São falsas. São contrárias ao espírito do Evangelho na medida em que promovem o alheamento da realidade distanciando o homem dos dramas deste mundo. São piedosas fugas que não nos identificam com o Mestre que Se fez pobre e nos desafia a segui-Lo incondicionalmente.

 

O salário de Jesus

Papa Francisco, 26 de Maio de 2015

Não há recompensa em dinheiro nem em poder para quem segue deveras o Senhor, porque o caminho é só de serviço e na gratuidade. Ao contrário, procurando um bom negócio mundano, com a riqueza, a vaidade e o orgulho, cria-se uma cauda de pavão e dá-se inclusive um contra-testemunho na Igreja.

O diálogo entre Pedro e Jesus realiza-se depois do encontro com aquele jovem que queria seguir Jesus: era bom, Jesus amou-o, contudo o Senhor disse-lhe que lhe faltava algo: que vendesse tudo o que possuía, que desse o dinheiro aos pobres: “terás um tesouro no céu”. Mas a estas palavras o jovem ficou abatido e foi embora entristecido.
Assim Jesus retomou o discurso e disse aos discípulos: “Como é difícil para quem possui riquezas entrar no reino de Deus”. E os discípulos ficaram desconcertados com as suas palavras.

E eis o trecho evangélico da liturgia com Pedro que garante a Jesus: «Nós deixamos tudo e seguimos-Te». Como quem diz: «E a nós, o quê? Qual será o nosso salário? Deixámos tudo».
Jesus praticamente responde indicando outra direcção e não promete as mesmas riquezas que tinha o jovem. Precisamente este ter muitos irmãos, irmãs, mães, pais, bens é a herança do reino, mas com a perseguição, com a cruz. E isto muda.
Eis porque, quando um cristão é apegado aos bens, faz a má figura de quem quer duas coisas: o céu e a terra. E o termo de comparação é exactamente o que diz Jesus: a cruz, as perseguições, negar-se a si mesmo, sofrer a cruz todos os dias.
Por sua vez os discípulos sentiam esta tentação: seguir Jesus mas depois qual será o fim deste bom negócio?. Pensemos na mãe de Tiago e João quando pediu um lugar para os seus filhos: “Ah, que este seja primeiro-ministro, e este ministro da economia”. Era o interesse mundano no seguir Jesus: mas depois o coração desses discípulos foi-se purificando até ao Pentecostes, quando entenderam tudo.

A gratuitidade no seguir Jesus é a resposta à gratuitidade do amor e da salvação que nos dá Jesus. Quando se quer seguir Jesus e o mundo, quer com a pobreza quer com a riqueza, verifica-se um cristianismo a metade, que deseja um ganho material: é o espírito da mundanidade.

Assim, a chave para entender este discurso de Jesus é a última palavra: “Muitos dos primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros”. E eis o que diz do serviço: “Quem se considera ou é o maior de entre vós, faça-se servo: o menor”.

Seguir Jesus sob o ponto de vista humano não é um bom negócio: é servir. De resto foi exactamente o que Ele fez: e se o Senhor te der a possibilidade de ser o primeiro, tu deves comportar-te como o último, isto é no serviço. Se o Senhor te der a possibilidade de possuir bens, deves comportar-te no serviço, isto é, para os outros.

São três os aspectos, os degraus que nos afastam de Jesus: as riquezas, a vaidade e o orgulho. Por isto, as riquezas são tão perigosas: levam-te a ser vaidoso e a pensar que és importante; mas quando te consideras importante, crias a cauda de pavão e perdes-te.
É um caminho de despojamento, o mesmo que Ele percorreu.

Esta obra de catequizar os discípulos levou tanto tempo porque não entendiam bem o que Jesus dizia. Assim hoje, também nós devemos pedir-Lhe: que nos ensine este caminho, esta ciência do serviço, a ciência da humildade, a ciência de ser os últimos para servir os irmãos e as irmãs da Igreja..

 

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Folha Informativa 03-10-2021

XXVII Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Jesus e o Apóstolo São João, obra do Séc. XVI

 

Acolher uma criança é acolher uma promessa. Uma criança cresce e desenvolve-se. É assim que o reino de Deus nunca é na terra uma realidade acabada, mas sim uma promessa, uma dinâmica e um crescimento inacabado.

É necessário acolher a presença de Deus quando ela se apresenta, quer seja numa boa quer seja numa má altura.

Uma criança confia sem reflectir.

Não pode viver sem confiar nos que estão à sua volta. A sua confiança não é uma virtude, é uma realidade vital.

Para encontrar Deus, o melhor de que dispomos é o nosso coração de criança,
que está aberto espontaneamente, ousa pedir com simplicidade, quer ser amado.

Carta de Taizé

A beleza do Matrimónio

Papa Francisco, RMOP, Julho 2021

Rafael, Casamento da Virgem

Quem acompanha os temas das intenções do Papa ao longo dos anos, dá-se conta que alguns são muito recorrentes; e o deste mês é um deles: a família. Porém, o Santo Padre, a cada ano, propõe-no a partir de diferentes pontos de vista.
O matrimónio aparece com este desafio: ser olhado como uma vocação a nascer, crescer e ser cuidada dentro da comunidade cristã.

 

Faz falta tomar uma maior consciência que o matrimónio é uma vocação, um chamamento, um apelo de Deus a uma vida plena e feliz.
Reduzir o tema da vocação à questão da consagração religiosa ou sacerdotal teve e continua a ter, no imaginário dos cristãos, uma tendência que leva a considerar o matrimónio como vocação “inferior”, menos “santa”, menos “ao serviço da Igreja”. Esta concepção acaba por ter consequências práticas muito evidentes, a começar pelos planos pastorais de preparação e acompanhamento do matrimónio.

Nas catequeses, o matrimónio é apresentado como vocação em sentido pleno? A preparação para o matrimónio, a vida em família, a educação dos filhos, o acompanhamento das crises das várias etapas da vida dos pais e dos filhos, o envelhecimento do casal… estes são temas presentes na preparação e na oração das comunidades?

Começa logo por ser óbvia a diferença que se vê entre a preparação para o sacramento do Matrimónio e a preparação para o sacramento da Ordem.
É verdade que o sacramento da Ordem tem uma função e ministério mais visível, mas a vocação entendida como caminho pleno e dom da vontade de Deus para a vida dos baptizados é igual.

Por isso, é tão importante que, como comunidades cristãs, especialmente os responsáveis pela formação, cresçam na consciência de preparar bem os seus membros para a beleza do matrimónio, vivido na doação de si, na fecundidade, no amor, com generosidade, fidelidade e paciência.
Desafios
• Valorizar a vocação matrimonial, nas homilias, catequeses, educação cristã, falar da beleza da vocação ao matrimónio como caminho pleno de vida cristã.

• Crescer com paciência no caminho do amor, abrindo-me com verdade ao outro, acolhendo a sua fragilidade e sonhando um projecto de vida centrado em Deus e na sua vontade.

• Ser fiel na dificuldade, sem me precipitar, mas procurando sempre o diálogo e a ajuda de outras pessoas, para que as crises me façam mais forte.

• Viver a alegria de partilhar a vida, encontrando momentos em família para partilhar o que vivo, sinto, desejo, o que me alegra e o que me preocupa, em ambiente de oração.

 

Não temos pensado um catolicismo que acompanhe as dúvidas ao longo da vida

José Tolentino Mendonça

Rembrandt, São Paulo na prisão

Vivemos um tempo de reconfiguração do religioso. Em grande medida, a crise que vivemos não é tanto de fé, do crer, quanto de pertença.

Isto obriga-nos a perguntar se as formas de pertença continuam a ser todas oportunas, eficazes. Penso, por exemplo, na organização territorial que vigorou durante séculos; a base da Igreja eram as paróquias, e estas comunidades estavam inscritas em determinado território.

Hoje, a noção de habitação, de territorialidade, tornou-se fluida, porque a modernidade, como explicou Bauman, é líquida. Já deixámos de estar num só lugar. Tudo é fluxo. Por isso, não podemos imaginar as comunidades com as tinas, com a arquitectura que serviu durante séculos. Isto obriga-nos a uma pergunta: o que é que hoje corporiza a identidade cristã? Como é que o sujeito se reconhece cristão? E como é que é reconhecido pela comunidade eclesial e pela sociedade onde está inscrito?

Hoje fala-se muito dos cristãos culturais, que são, talvez aqueles que não têm uma prática sacramental mas que continuam a manter uma ligação cultural, ou ética, de valores com o cristianismo. É muito importante não os descartar imediatamente, dizendo que não são cristãos, que o que vivem não é cristianismo.

Temos de perceber a complexidade da contemporaneidade e, ao mesmo tempo, valorizar, purificar, adensar, ir ao encontro. A evangelização não pode desconhecer este grande número de pessoas que se dizem crentes mas têm uma frágil pertença ao cristianismo institucional.

E um desafio muito grande, de escuta, de encontro, de criação e adopção de novas linguagens. É necessária uma criatividade pastoral grande para perceber que tipo de evangelização podemos fazer e quais são os seus destinatários.

Durante muitos séculos, como é que se chegava a ser cristão? Por transmissão geracional, familiar, por pertença a determinado território, e por iniciação num tempo determinado da vida, que muitas vezes era a infância.

Todos fomos baptizados quando éramos bebés, recebemos a catequese nos primeiros anos, com a escolaridade obrigatória. Depois… os cristãos são muitas vezes deixados à sua sorte, e não há mais formação, não há catequese de adultos, não há o pensar de um catolicismo que acompanha o questionamento das várias etapas da vida: a juventude, a primeira idade adulta, a segunda, a terceira. Isto são tudo desafios para pensar.

É muito importante ser sensível à complexidade e ter a sabedoria que Jesus fala na parábola: Tu plantaste trigo, mas também cresceu joio; queres que arranquemos tudo? E Ele diz: não, deixa crescer, e depois veremos.

Esta confiança em deixar maturar uma experiência, trabalhando e acompanhando esse amadurecimento – que hoje acontece de maneira muito heterogénea, diversificada, já não é como era – lembra a confiança que Deus deposita no ser humano. Como dizia o teólogo Urs von Balthazar,

Deus sabe esperar por todos.

 

 

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Folha Informativa 26-09-2021

XXVI Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Jacob Jordaens, O Bom Samaritano

 

Na perspectiva de Jesus, quem luta pela justiça e faz obras em favor do homem, está do lado de Jesus e vive na dinâmica do Reino, mesmo que não esteja formalmente dentro da estrutura eclesial.

A comunidade de Jesus não pode ser uma comunidade fechada, exclusivista, monopolizadora, que amua e sente ciúmes quando alguém de fora faz o bem; nem pode sentir-se atingida nos seus privilégios e direitos pelo facto de o Espírito de Deus actuar fora das fronteiras da Igreja…

A comunidade de Jesus deve ser uma comunidade que põe, acima dos seus interesses, a preocupação com o bem do homem; e deve ser uma comunidade que sabe acolher, apoiar e estimular todos aqueles que actuam em favor da libertação dos irmãos.

Dehonianos

Ser de Cristo

Sofia Bandeira Costa, Ponto SJ

Um embaixador é alguém que representa, e que tem como função dar a conhecer e defender a mensagem do seu representado. O poder de um embaixador é, por isso, sempre dependente do poder do seu representado, visto que na verdade é este último que está no centro.

Ser representante de Cristo significa então tê-Lo no centro da nossa vida. É Jesus que nos chama a esta missão, e esta só faz sentido com Ele. É um convite universal, porque a todos é capaz de chegar o amor de Cristo. Não há amor maior!

É também uma proposta exigente, porque implica o nosso “sim” contínuo e comprometido.
Jesus promete-nos a felicidade, não a facilidade.
Convida-nos, pelo contrário, a saber aceitar quem somos com humildade, procurando sempre ser melhores.

Para além disso, ao aceitar esta responsabilidade de transmitir a misericórdia e o amor de Jesus, devemos ter noção de que é um trabalho a tempo inteiro.
Devemos ser embaixadores em todos os momentos da nossa vida: quando janto com os meus pais, quando vou beber um copo com amigos ou estou a falar com o meu chefe no trabalho.
Jesus está a contar connosco, para que sejamos, nas múltiplas situações do nosso dia, sinais da sua alegria e consolação.
Para nos ajudar e fortalecer, Ele promete-nos que nunca nos abandona e nunca estaremos sós.
Ele está sempre connosco, desde que arrisquemos crescer na intimidade da relação com Ele.

Estas são as linhas de fundo para o novo ano que começa. Que em todas as actividades, encontros, e descansos Jesus esteja presente através da nossa disponibilidade, paciência e amor.

 

Procurar Deus no insólito e imprevisível

Papa Francisco, Angelus, 30.9.2018

O Evangelho deste domingo (cf. Marcos 9,38-43.45.47-48) apresenta-nos um daqueles episódios particulares muito instrutivos da vida de Jesus com os seus discípulos. Estes tinham visto que um homem, que não fazia parte do grupo dos seguidores de Jesus, expulsava os demónios no nome de Jesus, e por isso queriam proibi-lo.

João, com o entusiasmo zelador típico dos jovens, refere o facto ao Mestre, procurando o seu apoio; mas Jesus, ao contrário, responde: «Não o impedis, porque não há ninguém que faça um milagre no Meu nome e logo depois possa falar mal de Mim: quem não é contra nós, é por nós».

João e os outros discípulos manifestam uma atitude de fechamento diante de um acontecimento que não entra nos seus esquemas, neste caso a acção, boa, de uma pessoa “externa” à cerca dos seguidores.

Ao contrário, Jesus surge como muito livre, plenamente aberto à liberdade do Espírito de Deus, que na sua acção não é limitado por qualquer fronteira e qualquer perímetro. Jesus quer educar os seus discípulos, também a nós, hoje, para esta liberdade interior.

Faz-nos bem reflectir sobre este episódio e fazer um pouco de exame de consciência.
A atitude dos discípulos de Jesus é muito humana, muito comum, e podemos reencontrá-la nas comunidades cristãs de todos os tempos, provavelmente também em nós próprios.

De boa fé, melhor, com zelo, deseja-se proteger a autenticidade de uma certa experiência, protegendo o fundador ou o líder dos falsos imitadores. Mas ao mesmo tempo há como que o medo da “concorrência” – e isto é mau: o medo da consciência –, medo de que alguém possa subtrair novos seguidores, e então não consegue valorizar o bem que os outros fazem: não está bem porque “não é dos nossos”, diz-se.

É uma forma de auto-referencialidade. Aliás, reside aqui a raiz do proselitismo.
E a Igreja – dizia o papa Bento – não cresce por proselitismo, cresce por atracção, isto é, cresce pelo testemunho dado aos outros com a força do Espírito Santo.

A grande liberdade de Deus no dar-Se a nós constitui um desafio e uma exortação para modificar as nossas atitudes e as nossas relações. É o convite que nos dirige Jesus hoje.

Ele chama-nos a não pensar segundo as categorias de “amigo/inimigo”, “nós/eles”, “quem está dentro/quem está fora”, “meu/teu”, mas a ir além, e abrir o coração para poder reconhecer a sua presença e a acção de Deus também em contextos insólitos e imprevisíveis e em pessoas que não fazem parte da nossa cerca.
Trata-se de estarmos atentos à genuinidade do bem, do belo e do verdadeiro que é realizado, e não ao nome e à proveniência de quem o realiza.

E – como sugere a restante parte do Evangelho de hoje – em vez de julgar os outros, devemos examinarmo-nos e “cortar” sem compromissos tudo aquilo que pode escandalizar as pessoas mais frágeis na fé.

 

 

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Folha Informativa 19-09-2021

XXV Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Jesus não teme as perguntas dos homens; não tem medo da humanidade, nem das várias questões que a mesma coloca.

Pelo contrário, Ele conhece os «recônditos» do coração humano e, como bom pedagogo, está sempre disposto a acompanhar-nos. Fiel ao seu estilo, assume as nossas interrogações, as nossas aspirações, conferindo-lhes um novo horizonte.

Fiel ao seu estilo, consegue dar uma resposta capaz de propor novos desafios, descartando «as respostas esperadas» ou aquilo que aparentemente já estava estabelecido.
Fiel ao seu estilo, Jesus sempre propõe a lógica do amor; uma lógica capaz de ser vivida por todos, porque é para todos.

Papa Francisco, Setembro 2015

Deus quer que sejamos

Pe. António Borges da Silva, Setembro 2021

Deus quer que sejamos. É o Seu maior dom.
Para que sejamos dá-nos o tempo, cria o espaço, interpela ao crescimento, abre horizontes, ensina a mergulhar nas profundezas do sentido, desvela o mistério, desperta a sensibilidade para a beleza e para a arte, incute o anseio pelo mais, convoca à comunhão, junta em Igreja, faz caminhar…

É no modo como caminhamos que mostramos o estado de desenvolvimento do nosso ser…
É na qualidade que pomos na relação com o sagrado do Outro e dos outros que afirmamos a presença de Deus na história.

É no percurso da fé no Ser de Deus que nos predispomos a acolher os Seus sinais e a desvelar o sentido do “porquê” e do “para quê”.

É na atenção que colocamos em relação às pessoas, à criação e aos contextos que habitamos que encontramos a presença desafiadora do Espírito Santo, reflectida no eco interior.

É na intimidade com o Deus encarnado, que se doa em cada Eucaristia como alimento, que encontramos a força para ser e estar muito para além da física, da gravidade terrena, dos interesses imediatos, da finitude biológica, das imperfeições do mundo e de nós próprios…

Caríssima Comunidade,
Obrigado pelo apoio e caminho feito em conjunto…
Obrigado por tantos testemunhos de fé, de vida, de Igreja…
Obrigado pela paciência e perseverança…
Obrigado pelos gestos de comunhão…
Obrigado pelo diálogo e pelo bem servir…
Obrigado pela celebração continuada da fé…
Obrigado por existirem a caminho do Ser de Deus.
Peço a vossa oração.

 

A grandeza vem do serviço

Dehonianos

Jesus recebeu do Pai a missão de propor aos homens um caminho de realização plena, de felicidade sem fim; e Ele vai fazê-lo, mesmo que isso passe pela cruz.
A serenidade de Jesus vem-Lhe da total aceitação e da absoluta conformidade com os projectos do Pai.

Os discípulos mantêm-se num estranho silêncio diante deste anúncio.
Não é claro, para a mentalidade desses discípulos, é que o caminho do Messias tenha de passar pela cruz e pelo dom da vida. A morte, na perspectiva dos discípulos, não pode ser caminho para a vitória. O “não entendimento” é, aqui, o mesmo que discordância: intimamente, eles discordam do caminho que Jesus escolheu seguir, pois acham que o caminho da cruz é um caminho de fracasso.

A pergunta de Jesus: “Que discutíeis pelo caminho?” sugere que Jesus sabe claramente qual tinha sido o tema da discussão. Provavelmente, captou qualquer coisa da conversa e ficou à espera da oportunidade certa – na tranquilidade da “casa” – para esclarecer as coisas e para continuar a instrucção dos discípulos.

Apesar do que Jesus lhes tinha dito pouco antes acerca do seu caminho de cruz, os discípulos recusavam-se a abandonar os seus próprios sonhos materiais e a sua lógica humana.

Jesus ataca o problema de frente e com toda a clareza, pois o que está em jogo afecta a essência da sua proposta. Na comunidade de Jesus não há uma cadeia de grandeza, com uns no cimo e outros na base…
Na comunidade de Jesus, só é grande aquele que é capaz de servir e de oferecer a vida aos seus irmãos.

 

 

Quando abraçar uma criança é abraçar Deus

Ermes Ronchi, In “Avvenire”

Lucas Cranach, o Velho – Jesus abençoa as crianças

O Evangelho, que nos surpreende com palavras raras, entrega-nos três nomes de Jesus que vão contra-corrente – último, servidor, criança -, muito longe da ideia de um Deus omnipotente e omnisciente que herdámos.

O contexto. Jesus está a falar de coisas absolutas, de vida e de morte, está a contar aos seus melhores amigos que em breve será morto, está com o grupo dos mais confiáveis, e eis que eles não O ouvem, desinteressam-se da tragédia que cai sobre o seu mestre e amigo, todos tomados apenas pela sua competição, pequenos homens na sua carreira: quem é o maior entre nós?

Penso na ferida que se deve ter aberto n’Ele, na desilusão de Jesus. É desencorajador. Entre nós, entre amigos, uma indiferença assim seria uma ofensa imperdoável. Em vez disso, o Mestre dos corações, e isto é algo que nos conforta nas nossas fragilidades, não reprova os apóstolos, não os repudia, não Se afasta deles, e também não Se deprime.

Antes, coloca-os sob o juízo deste claríssimo e revolucionário pensamento: quem quer ser o primeiro seja o último e o servo de todos. O primado, a autoridade segundo o Evangelho deriva apenas do serviço.
Toma uma criança, coloca-a no meio, abraça-a e diz: quem acolhe um destes pequeninos, acolhe-Me.
É o modo magistral de Jesus dizer as relações: não se perde em críticas ou juízos, mas procura um primeiro passo possível, procura gestos e palavras que sabem educar. E inventa alguma coisa de inédito: um abraço e uma criança.
Todo o Evangelho num abraço, um gesto que perfuma de amor e que abre toda uma revelação: Deus é assim.
No centro da fé um abraço. Terno, caloroso. Ao ponto de fazer dizer a um grande homem espiritual: Deus é um beijo (Benedetto Calati).

Depois Jesus vai mais além, identifica-Se com os pequenos: quem acolhe uma criança, acolhe-Me. Acolher, verbo que gera o mundo como Deus o sonha.
O nosso mundo terá um futuro bom quando o acolhimento, tema incandescente hoje em todas as fronteiras da Europa, for o nome novo da civilização; quando acolher ou rejeitar os desesperados, quer estejam à fronteira ou à porta da minha casa, será considerado acolher ou rejeitar próprio Deus.; quando o serviço for o nome novo da civilização (o primeiro se faça servo de todos).

Quando dissermos a alguém, a pelo menos um dos pequenos e dos desesperados: abraço-te, tomo-te na minha vida.
Então, apertando-o a ti, sentirás que estás a apertar entre os teus braços o teu Senhor.

 

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