Folha Informativa 24-03-2019

Domingo III da Quaresma (PDF)     TEXTO

Parábola da figueira, na Igreja de St Mary Abott, Londres

O amor de Deus move-se sempre primeiro, é amor de compaixão, de misericórdia: dá o primeiro passo, sempre.

E é verdade que o oposto do amor é o ódio, mas muitas pessoas não têm um ódio consciente.

O oposto mais frequente ao amor de Deus é a indiferença, a que leva a dizer: «estou satisfeito, nada me falta. Tenho tudo,  garanti esta vida, e inclusive a eterna, porque vou à missa todos os domingos, sou um bom cristão.

Papa Francisco, Homilia na Capela de Santa Marta

 

 

De uma economia de exclusão a uma economia de comunhão: que responsabilidade para os cristãos?

Manuela Silva, Professora Honoris Causa do ISEG

Multiplicação dos pães e dos peixes, in Victoria and Albert Museum, Londres

Temos de agradecer ao Papa Francisco o facto de nos ter convocado para enfrentar a realidade de uma economia que escraviza e exclui quando deveria ser colocada ao serviço das pessoas, da liberdade e da inclusão social.
É importante aprender a converter o nosso olhar, ou seja não tomar a realidade com que deparamos como se fosse uma inevitabilidade, uma fatalidade ou como um castigo, designadamente no que respeita às vítimas da situação.

Estamos perante um processo de desumanização em marcha, de que são sinais visíveis: o stress que se vive em certos ambientes de trabalho; a difícil conciliação entre a vida profissional e a vida pessoal e familiar; o desrespeito por direitos adquiridos no trabalho ou na segurança social; a falta de consideração pelos idosos; a violência latente ou declarada; a desatenção do valor da pessoa humana.

Há sinais que podem ser de esperança num futuro melhor: o maior nível de conhecimento por parte de largos estratos da população; a propensão à inovação e ao empreendorismo; as facilidades de acesso a novos recursos potenciais em domínios estratégicos, no âmbito da agricultura, dos recursos marítimos, da energia, dos transportes e comunicações.

De relevar o património de um conjunto de valores fundamentais que devem ser reconhecidos, exaltados e cultivados, nomeadamente, a solidariedade, o cuidado, a entreajuda
A idolatria do dinheiro leva a uma cultura da precariedade, da competitividade agressiva e do descartável. Ou seja: conduz ao trabalho mal pago, ao despedimento fácil e à perda de direitos na empresa.
O hiperconsumismo tornou-se numa doença para alguns e num motivo de frustração e desânimo para muitos. O consumo irresponsável de alguns tornou-se também numa séria causa de degradação ambiental.

A mudança de uma economia de exclusão para uma economia de comunhão depende de uma alteração de paradigma do próprio pensamento económico com consequências no ensino, na investigação e na fundamentação das políticas públicas.
O caminho para uma economia de comunhão passa, antes de tudo, por uma nova consciência individual e colectiva alicerçada em valores éticos, com a correspondente mudança de atitudes e comportamentos, estilos de vida, relações humanas e ambientais.

Na sociedade portuguesa, pese embora a sua crescente laicidade e uma notória diminuição daquilo a que chamamos prática religiosa, são ainda, em largo número, os homens e as mulheres que se dizem cristãos e, inclusive, frequentam as assembleias litúrgicas e, como tal, têm peso significativo em toda a sociedade.

A economia que temos e as cidades em que habitamos são, em boa parte, o resultado das acções e das omissões das mulheres e homens cristãos, do seu modo de pensar e de agir
Cabe-nos fazer a diferença nos locais em que estamos inseridos, através de uma denúncia lúcida e atenta de tudo o que mata e inovando segundo o Evangelho, que o mesmo é dizer, no sentido da construção do reino de Deus.

CAMINHAR NA FÉ

14 ESTAÇÕES, 14 IGREJAS
30 de Março – 8H00

O projecto CAMINHAR NA FÉ desenvolve-se sob a égide das Paróquias de Santa Maria de Belém e de São Francisco Xavier e acolhe todos os paroquianos que gostem de caminhar. Tem como objectivo aliar a componente espiritual à actividade física.

Apresenta como primeira actividade a Caminhada 14 Estações, 14 Igrejas, no dia 30 de Março, com início na Igreja de São Francisco Xavier e final na Sé Patriarcal de Lisboa.

Integra-se no tempo da Quaresma e propõe, ao longo de aproximadamente 14 km, passar por 14 Igrejas, reflectindo em cada uma delas as 14 estações da Via Sacra.

Participe! Inscreva-se através do email:
caminharnafe.belemsfx@gmail.com

 

 

 

 

Folha Informativa 17-03-2019

Domingo II da Quaresma (PDF)     TEXTO

PARTICIPAR NA GLÓRIA DE DEUS

Se o primeiro Domingo da Quaresma nos apresentou Jesus em confronto com a tentação, face a face com Satanás na solidão do deserto, este segundo Domingo mostra-nos Jesus que conhece a transfiguração do seu rosto e de toda a sua pessoa, tornando-se participante da indizível glória do Pai.

No itinerário quaresmal, a transfiguração de Jesus indica o fim a que tende este caminho: a ressurreição, de que a transfiguração é antecipação e profecia.

Enzo Bianchi

 

 

TRANSFIGURAÇÕES

Fr. José Augusto Mourão, Quem vigia o vento não semeia

Jesus só raramente permite este momento de Tabor na nossa vida.
A oração verdadeira deve levar-nos a descer da montanha para retomar a monotonia das planícies espirituais.

«Este é o meu Filho bem-amado: escutai-O». Há dois milénios que este apelo é dirigido aos crentes. O mal não terá a última palavra.

Este Evangelho é um resumo de toda a Revelação. Aí estão Moisés e Elias, que apresentam Cristo aos apóstolos.

Somos nós hoje que somos enviados a anunciar a ressurreição. Os apóstolos tiveram esta revelação no dia da Transfiguração e sobretudo na manhã de Páscoa.

Os discípulos descobrem que a oração de Jesus é transfigurante. Eis aqui uma boa nova para o nosso mundo tão desfigurado pelo ódio, a violência, o rancor, as guerras, a corrida aos interesses pessoais.
O primeiro testemunho que podemos dar-lhe é o da atenção ao que nos afecta. Todos conhecemos momentos de graça e de iluminação na nossa vida. É a partir dessa iluminação que retomamos as forças para nos levantarmos e continuarmos.

Santo Inácio diz-nos que a alegria é um dos frutos do Espírito, enquanto a tristeza e o desencorajamento denunciam a presença de Satã, o adversário.
A acção mais profunda de Deus em nós é aquela em que ele se gera pelo Espírito, através da oração.

Ora, só o desejo reza. Não como tendência, nem pulsão, nem gozo mas como esperança. O desejo visa o real que não conhecemos e que só podemos esperar, como algo que nos é dado. Visa sempre um além do prazer, o que é impossível imaginar, a Vida.

A origem do desejo é o Espírito em nós. Só conhecemos o desejo pelos seus efeitos: a alegria.

«Escutai-O!»; responder à palavra separa-nos do eu, desaloja-nos. Temos de ouvir o Espírito mais do que dizê-lo. Falar com o outro entre duas portas ou de uma sala a outra nunca permitirá que o outro tome o lugar de interlocutor.

O caminho é o tempo da paciência, da espera. Este é o tempo para reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto.
E porque esse é o caminho do amor, que o Espírito para lá nos conduza.

Quando o sofrimento nos bate à porta, cobre-nos como um manto de neve, silenciosa e fria. Esse é o nosso inverno e a nossa desolação. Pedimos então que no nosso corpo se cumpra a metamorfose por que passou o Filho amado.

Porque nós somos também a coroa que Deus ama. Por breves instantes, somos introduzidos na nuvem da glória, à espera que a sua Palavra nos aqueça e mova. Que o Espírito nos revele o sentido de todas as coisas para caminharmos na inteligência da fé, sem medos nem fantasmas, com alguma luz no coração e em boa companhia para a passagem por que todos teremos de passar.

TRANSFIGURADOS NA ESPERANÇA

Papa Bento XVI

A montanha – o Tabor como o Sinai – é o lugar da proximidade com Deus.
É o espaço elevado, em relação à existência quotidiana, onde respirar o ar puro da criação. É o lugar da oração, no qual estar na presença do Senhor, como Moisés e como Elias, que aparecem ao lado de Jesus transfigurado e falam com Ele acerca do “êxodo” que o espera em Jerusalém, isto é, da sua Páscoa.

A Transfiguração é um acontecimento de oração: rezando, Jesus imerge-Se em Deus, une-Se intimamente a Ele, adere com a própria vontade humana à vontade de amor do Pai, e assim a luz invade-O e torna-se visível a verdade do seu ser: Ele é Deus, Luz da Luz.

Também a veste de Jesus se torna branca e resplandecente.
Isto faz pensar no Baptismo, na veste branca que os neófitos traziam. Quem renasce no Baptismo é revestido de luz antecipando a existência celeste, que o Apocalipse representa com o símbolo das vestes brancas.

Encontra-se aqui o ponto central: a transfiguração é antecipação da ressurreição, mas esta pressupõe a morte.
Jesus manifesta aos Apóstolos a sua glória, para que tenham a força de enfrentar o escândalo da cruz e compreendam que é preciso passar através de muitas tribulações para alcançar o Reino de Deus.

A voz do Pai, que ressoa do alto, proclama Jesus seu Filho predilecto como no Baptismo no Jordão, acrescentando: “Ouvi-O”.
Para entrar na vida eterna é preciso ouvir Jesus, segui-l’O pelo caminho da cruz, levando no coração como Ele a esperança da ressurreição.
“Spe salvi”, salvos na esperança. Hoje podemos dizer: “Transfigurados na esperança”.

Dirigindo-nos agora em oração a Maria, reconheçamos n’Ela a criatura humana transfigurada interiormente pela graça de Cristo, e confiemos na sua orientação para percorrer com fé e generosidade o percurso da Quaresma.

 

Folha Informativa 10-03-2019

Domingo I da Quaresma (PDF)     TEXTO

JESUS, CHEIO DO ESPÍRITO SANTO, RETIROU-SE

Moretto da Brescia, Jesus no deserto

Jesus não escolhe partir para o deserto. É conduzido pelo Espírito Santo.

E aí, é afrontado pelo espírito do mal.

Também nós não escolhemos viver neste mundo em que Deus Se tornou desinteressante. Deserto para as nossas vidas de crentes… para a nossa Igreja… com todas as tentações ligadas às nossas faltas: lassidão, desencorajamento, desejo de nos retirarmos de uma Igreja que nos desconcerta e de abandonarmos Deus…

Por causa de Jesus sabemos que a travessia do deserto é possível.

A Quaresma, convite a reavivar a nossa esperança!

Dehonianos

 

QUARESMA, TEMPO PARA REENCONTRAR A ROTA DA VIDA

Papa Francisco, Março de 2019

Diego Velasquez, Jesus na cruz

«Toquem a trombeta em Sião, proclamem um jejum». Com este versículo do livro do Profeta Joel, o Papa Francisco iniciou a sua homilia, sublinhando que a “Quaresma tem início com um som estridente: o som de uma trombeta que não acaricia os ouvidos, mas proclama um jejum”.

Despertador da alma

É um som intenso, que pretende abrandar o ritmo da nossa vida, sempre dominada pela pressa, mas muitas vezes não sabe bem para onde vai. É um apelo a deter-se para ir ao essencial, a jejuar do supérfluo que distrai. É um despertador da alma. Ao som desse despertador, segue-se a mensagem que o Senhor transmite pela boca do profeta, uma mensagem breve e premente: «Voltem para Mim».

Rota da vida

Se devemos voltar, isso significa que a direcção seguida não era justa. A Quaresma é o tempo para reencontrar a rota da vida.

Com efeito, no caminho da vida, como em todos os caminhos, aquilo que verdadeiramente conta é não perder de vista a meta. Quando na viagem, o que interessa é ver a paisagem ou parar para comer, não se vai longe.

No caminho da vida, procuro a rota? Ou contento-me de viver o dia-a-dia, pensando apenas em sentir-me bem, resolver alguns problemas e divertir-me um pouco? Qual é a rota? Talvez a busca da saúde, que hoje muitos dizem vir em primeiro lugar, porém, mais cedo ou mais tarde faltará? Porventura a riqueza e o bem-estar? Mas não é para isso que estamos no mundo.

Voltem para Mim, diz o Senhor. Para Mim: o Senhor é a meta da nossa viagem no mundo. A rota deve ser ajustada na direcção d’Ele. Hoje, para encontrar a rota, é-nos oferecido um sinal: as cinzas na testa. É um sinal que nos faz pensar no que temos na cabeça. Os nossos pensamentos seguem coisas passageiras, coisas que vão e vêm. As cinzas que receberemos dizem-nos, com delicadeza e verdade, que das muitas coisas que temos na cabeça, atrás das quais corremos e nos afadigamos diariamente, não restará nada.

Cultura da aparência

As realidades terrenas dissipam-se como poeira ao vento. Os bens são provisórios, o poder passa, o sucesso declina. A cultura da aparência, hoje dominante e que induz a viver para as coisas que passam, é um grande engano. Pois é como uma fogueira: uma vez apagada, ficam apenas as cinzas.

A Quaresma é o tempo para nos libertarmos da ilusão de viver a correr atrás da poeira.
É redescobrir que somos feitos para o fogo que arde sempre, não para a cinza que imediatamente desaparece; para Deus, não para o mundo; para a eternidade do Céu, não para o engano da terra; para a liberdade dos filhos, não para a escravidão das coisas. Hoje, podemos perguntar-nos: De que parte estou? Vivo para o fogo ou para as cinzas?

Esmola, oração e jejum

Nesta viagem de retorno ao essencial, o Evangelho propõe três etapas que o Senhor pede para percorrer sem hipocrisia nem ficção: a esmola, a oração e o jejum, que nos reconduzem às únicas três realidades que não se dissipam.

A oração une-nos a Deus; a caridade, ao próximo; o jejum, a nós. Deus, os irmãos, a minha vida: eis as realidades que não terminam no nada e sobre as quais é preciso investir.

A Quaresma convida-nos a olhar para o Alto, com a oração, que liberta de uma vida aborrecida onde se encontra tempo para si, mas se esquece de Deus e depois a olhar para o outro, com a caridade, que liberta da nulidade do ter, de pensar que as coisas estão bem se para mim tudo vai bem.

A Quaresma convida-nos a olhar para dentro de nós mesmos, com o jejum, que liberta do apego às coisas, do mundanismo que anestesia o coração.

Oração, caridade, jejum: três investimentos num tesouro que dura. Ao longo do caminho da Quaresma, devemos fixar o olhar no Crucificado.

Jesus na cruz é a bússola da vida que nos orienta para o Céu.

O ESQUECIMENTO DIVINO

Hugo de Azevedo

“José, filho de David, não temas receber em tua casa Maria, tua esposa”.
Pobre José! Que aflição a sua, até que Deus o esclarece! Porque não lhe disse antes? Porque o deixou sofrer tanto? Não se queixa.
“Levanta-te! Toma o Menino e sua Mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise”.
Não hesita.
“Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel”.
Obedece. Para a Judeia? Não convém.
“Avisado por Deus, em sonhos” retira-se para Nazaré.
José: o homem de quem Deus “se esquece” e mantém perplexo até à última hora. O homem em que Deus tem absoluta confiança.

João Baptista, que cumpre a sua missão e que Deus “deixa esquecido” na prisão, à mercê dos caprichos de Herodes.

Maria, à espera incerta de uma espada que lhe trespassará o coração.

Jesus, crucificado: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”, o salmo da confiança no Pai e da vitória final.

Não há maior louvor do que o “esquecimento divino”, a sua confiança na nossa fidelidade, aconteça o que acontecer.

Saber que conta connosco em quaisquer circunstâncias, sejam êxitos ou fracassos pastorais, simpatias ou impopularidade.

 

Folha Informativa 03-03-2019

Domingo VIII do Tempo Comum (PDF)     TEXTO

DO BOM TESOURO DO SEU CORAÇÃO TIRAR O BEM

Bernardo Daddi. Anunciação

O bom tesouro do coração: uma definição tão bela, tão plena de esperança, daquilo que somos no nosso íntimo mistério.

Todos temos um tesouro bom guardado em vasos de argila, ouro fino a distribuir.

Melhor, o primeiro tesouro é o nosso próprio coração.

A nossa vida é viva se cultivámos tesouros de esperança, a paixão pelo bem possível, pelo sorriso possível, a boa política possível, uma casa comum onde seja possível viver melhor para todos.

A nossa vida é viva quando tem coração.

Ermes Ronchi , In Avvenire

 

A PÁSCOA APROXIMA-SE 

Enzo Bianchi, In “Monastero di Bose”

A Igreja convida-nos a meditar no grande sinal da ressurreição de Lázaro, profecia da ressurreição de Jesus. Lázaro, precisamente, irmão de Maria e de Marta, estava doente. Jesus gostava muito destes amigos, que frequentava nos períodos de paragem em Jerusalém. Na casa de Betânia podia usufruir do acolhimento cuidadoso de Maria, da escuta atenta de Maria e do afecto fiel de Lázaro.

As irmãs mandam avisá-l’O da doença de Lázaro, mas Ele está longe. Como pode Jesus permitir que um seu amigo adoeça, sofra e morra? Que sentido tem? São perguntas que emergem dentro da rede de amizade de Jesus, mas que ainda hoje ressoam quando nas nossas relações surgem a doença e a morte; é a hora em que a nossa fé e o nosso sermos amados por Jesus parecem ser desmentidos pelos sofrimentos da vida…

Jesus diz: «Essa doença não levará à morte, mas é para a glória de Deus, a fim de que por meio dela o Filho de Deus seja glorificado».
Jesus comove-se, vibra interiormente. Diante da morte de um amigo, de uma pessoa por Ele amada, a primeira reação é o frémito que nasce do constatar a injustiça da morte: como pode morrer o amor?

Jesus chega com os seus discípulos a Betânia quando «Lázaro já está há quatro dias no sepulcro». Sabendo da sua chegada, Marta vai ao seu encontro e dirige-Lhe palavras que são ao mesmo tempo uma confissão de fé e uma censura: «Senhor, se Tu estivesses estado aqui, o meu irmão não estaria morto». Depois acrescenta: «Mas sei que, mesmo agora, o que queres que peças a Deus, Ele Te a concederá». Marta é uma mulher de fé e confessa que onde está Jesus não pode reinar a morte.

Ela crê em Jesus e confessa a própria fé na ressurreição final da carne. Mas Jesus convida-a a dar um passo posterior: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá; quem vive e acredita em mim, não morrerá eternamente».

Também Maria, chamada pela irmã, corre ao encontro de Jesus. Não dá sinais de uma fé que possa vencer o seu sofrimento: é inteiramente definida pela sua inconsolável dor. As suas lágrimas são contagiosas: choram os judeus presentes e chora o próprio Jesus.

No duelo entre vida e morte, entre amor e morte, vence o amor vivido por Jesus.
Se Jesus ama e tem como amigo quem acredita nele, não permitirá a ninguém, nem sequer à morte, que o rapte da sua mão!
«Muitos dos judeus acreditaram nele».
A fé não consente escapar à morte física: todos os seres humanos têm de passar através dela, mas para quem adere a Jesus, a morte já não é a última e definitiva realidade.

O amor a Jesus vence a morte. Se somos capazes de colocar a nossa fé-confiança n´Ele, esta página revela-nos que não estamos sós e que mesmo na morte Ele estará junto a nós para nos abraçar na hora em que atravessarmos aquele umbral obscuro e para nos chamar definitivamente à vida com o seu amor.

Eis o dom extremo feito por Jesus a quantos se deixam implicar pela sua vida: a morte não tem a última palavra e aquele que adere a Ele, O ama e por Ele se deixa amar, não morrerá eternamente.

COMO VIVEMOS A FÉ E QUE TESTEMUNHO DAMOS?

Dehonianos

Duccio di Buoninsegna. Os apóstolos.

Todos somos chamados a dar testemunho da nossa fé e da proposta de Jesus. Esta reflexão sobre os verdadeiros e falsos “mestres” não é algo que apenas diga respeito à hierarquia da Igreja, mas a todos. Trata-se de uma reflexão sobre a verdade ou a mentira do nosso testemunho.

Como é o nosso testemunho? Identifica-se com a proposta de Cristo?
Pode acontecer que a radicalidade do Evangelho de Jesus seja viciada pela nossa tendência em “suavizar”, “atenuar”, “adaptar”, de forma a que a mensagem seja mais consensual, menos radical, mais contemporizadora… Não estaremos, assim, a retirar à proposta de Jesus a sua capacidade transformadora e a escolher um caminho de facilidade?

Também pode acontecer que anunciemos as nossas teorias e as nossas perspectivas, em lugar de anunciar Jesus e as suas propostas. Isto tem acontecido, com frequência, ao longo da história da Igreja…

É preciso, pois, um permanente confronto do nosso anúncio com o Evangelho e com o sentir da Igreja, a fim de que anunciemos Jesus e não traiamos a verdade da sua proposta libertadora.

Podemos correr o risco de deixar que o sentimento da nossa importância nos suba à cabeça, convencidos de que somos os únicos senhores da verdade. Sempre que isso acontecer, convém interrogarmo-nos acerca da forma como estamos a exercer o nosso serviço à comunidade: estaremos a veicular a proposta de Jesus?

A história da trave e do cisco convida-nos a reflectir sobre a hipocrisia… É fácil reparar nas falhas dos outros e enveredar pela crítica fácil; é difícil utilizar os mesmos critérios de exigência quando estão em causa as nossas pequenas e grandes falhas… Somos tão exigentes connosco como somos com os outros? Temos consciência da nossa necessidade permanente de conversão e de transformação?

 

 

Folha Informativa 24-02-2019

Domingo VII do Tempo Comum (PDF)     TEXTO

AMOR TOTAL, AMOR SEM LIMITES

Andrea Mantegna, Calvário

A lógica de Jesus não significa ter uma atitude passiva e conivente diante das injustiças e das arbitrariedades;

significa estar disposto a dar o primeiro passo para o reencontro e acolher o que falhou; ter gestos de bondade e compreensão, mesmo para com quem nos fez mal.

Também não significa esquecer , mas antes não deixar que as falhas dos outros nos afastem irremediavelmente; significa ter o coração aberto ao nosso próximo.

Dehonianos

 

– DA LUTA ESPIRITUAL: COMBATER A TENTAÇÃO E AMAR OS INIMIGOS

Enzo Bianchi, In Resiste ao inimigo – A luta espiritual

Hoje em dia o Cristianismo tende a rejeitar a dimensão do “combate da fé”, ao qual o ensinamento dos primeiros cristãos dava uma importância preponderante. A luta espiritual é um elemento essencial para edificar uma pessoa madura e sólida.
É tão necessária que nem Jesus pôde ignorá-la, com o tentador no deserto.

Esta luta é interior, opõe-se àquilo que em nós nos leva a cometer o mal. Estas tentações manifestam-se no amar, no ter e no agir. Sendo realidades que não são más em si mesmas, podem perder a sua beleza originária levando-nos a ocupar-nos somente de nós.
Contra tal deformação existe a luta espiritual. Na catequese, os “sete pecados capitais” são um modo pragmático de chamar a atenção para as acções concretas do “inimigo” interior a neutralizar (soberba, inveja, cólera, acédia, avareza, gula, luxúria). Esta luta deve-nos fazer passar do regime de consumo para o de comunhão com Deus e com os outros.

Como levar esta luta para atingir a maturidade pessoal e a liberdade plena?
Primeiro, preparando-nos com a vigilância. Trata-se de curar a doença do entontecimento espiritual que impede a atenção profunda e leva a agir sempre de modo superficial, para chegar ao “estado de vigilância de si e a Deus” que permita por fim discernir as verdadeiras tentações que nos pesam no coração. Vigiar: descobrir as nossas raízes em profundidade e não se deixar levar pelas seduções; aderir às realidades sem se refugiar na imaginação.

A tentação conhece momentos variados. No início apresenta-se a sugestão. Podes discernir o carácter negativo deste pensamento, porque provoca perturbação no coração e tira-te a paz. Ninguém está isento deste primeiro momento. Mas se conversares e dialogares com este pensamento, este torna-se aos poucos irresistível e nunca o dominas.
É ele quem te domina!

A este ponto produz-se o consenso, a tomada de posição pessoal que contradiz a vontade de Deus. Depois de se repetirem os consentimentos pela ausência da luta, tornamo-nos escravos de uma paixão ou de um vício. Este processo elementar pode porém ser interrompido pelo exercício imediato da luta, no instante em que nascem os pensamentos e as sugestões.

Escrevia Arthur Rimbaud: «A luta espiritual é tão brutal como uma batalha entre homens», mas produz frutos: pacificação, liberdade, mansidão…
O Evangelho chama-nos à reconciliação e à fatigante procura da comunhão, e pede algo mais, o amor aos inimigos. Loucura, dirás tu.
Toda a vida de Jesus – do lavar dos pés mesmo a Judas, até à cruz, onde rezou pelos seus algozes enquanto O crucificavam – testemunha um amor incondicional até ao inimigo.

É realmente possível amar o inimigo, precisamente enquanto manifesta a sua hostilidade e inimizade, o seu ódio e a sua adversidade? É humanamente possível tal escandalosa simultaneidade?
A experiência diz-te que este apelo parece fascinante em teoria, mas desfaz-se no esquecimento e não encontra nenhuma consistência perante concretas situações de inimizade. Não te resignes a esta contradição, e não esqueças que o amor chega através de um longo caminho, porque não é espontâneo, mas exige disciplina, ascese, luta contra o instinto da ira e contra a tentação do ódio.

Jesus, quando pede para amar o inimigo, coloca o crente numa tensão, num caminho. Da tentação de vingar o mal recebido, devemos chegar a não opor-nos ao malvado, a contrapor ao mal aquela passividade activíssima que é a não-violência, confiando no Deus único, Senhor e Juiz dos corações e das acções dos homens.
Desta forma, tomarás consciência de que o inimigo é o nosso maior mestre, aquele que pode realmente descobrir o que nos habita no coração e que não emerge quando nos encontramos de boas relações com os outros.

Perceberás espiritualmente que o verdadeiro inimigo está em ti e que a luta a travar não é contra o outro, mas contra a injustiça do teu coração, contra a absolutização do teu “eu” à custa dos outros. A pouco e pouco, tornar-te-ás capaz de obedecer às palavras do Senhor que nos convidam a oferecer a outra face…
Ora, para que tudo isto seja possível, não podes esquecer a oração pelos perseguidores. Se não assumes o outro na oração, aprendendo assim a vê-lo com os olhos de Deus, nunca chegarás a amá-lo!

 

Sieger Koder, Lavagem dos pés

Perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido.

 

 

 

 

 

 

 

 

Folha Informativa 17-02-2019

Domingo VI do Tempo Comum (PDF)     TEXTO

A PORTA DA FELICIDADE ABRE-SE PARA FORA

Sermão da Montanha, Fra Angelico

Para ser feliz, não é solução repetir-se constantemente: “Tenho de ser feliz”.

Tenho, isso sim, de encontrar um motivo que me faça feliz, que me ajude a manter
a serenidade diante das inevitáveis contrariedades.

E esse motivo encontra-se para lá da própria felicidade. Por isso, devemos procurar metas fora de nós mesmos, pondo em movimento uma das maiores capacidades que temos pelo facto de sermos seres espirituais: a capacidade de nos auto-transcendermos.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

 

AS BEM-AVENTURANÇAS, CHAMAMENTO EXISTENCIAL

Pe. Tolentino de Mendonça

Anunciação, Piermatteo d’Amelia

As bem-aventuranças são mais do que uma lei, representando uma configuração da vida, um verdadeiro chamamento existencial.
Elas traçam a arte de ser aqui e agora, ao mesmo tempo que apontam para o horizonte da plenitude escatológica, ou seja, o tempo eterno após a morte, para o qual convergimos.
Por outro lado, as bem-aventuranças são igualmente o auto-retrato de Jesus mais exacto e fascinante, a chave da sua vida, pobre em espírito, manso e misericordioso, sedento e homem de paz, com fome de justiça e com a capacidade de acolher todos.

As bem-aventuranças são a imagem de Si próprio que Ele incessantemente nos revela e imprime nos nossos corações.

Mas são também o seu retrato que nos deve servir de modelo no processo de transformação do nosso próprio rosto, no qual devemos aprofundar a imagem e semelhança espirituais que liga cada dia o nosso destino ao destino de Jesus.

Não a um cristianismo de sobrevivência A sede de Deus é fazer com que a vida das suas criaturas seja uma vida de bem-aventurança. Como? Resgatando as nossas vidas com um amor e uma confiança incondicionais. É este o seu método, é esta a bem-aventurança que nos salva. É este espanto do amor que nos faz começar de novo, esta sede que nos consegue arrancar do exílio a que fizemos aportara nossa vida.

Por isso não nos basta um cristianismo de sobrevivência, nem um catolicismo de manutenção. Um verdadeiro crente, uma comunidade crente, não pode viver só de manutenção: precisa de uma alma jovem e enamorada, que se alimenta da alegria da procura e da descoberta, que arrisca a hospitalidade da Palavra de Deus na vida concreta, que parte ao encontro dos irmãos no presente e no futuro, que vive no diálogo confiante e oculto da oração.

É urgente redescobrir a bem-aventurança da sede: a pior coisa para um crente é estar saciado de Deus. Pelo contrário, felizes aqueles que têm fome e sede de Deus: a experiência da fé, com efeito, não serve para resolver a sede, mas para dilatar o nosso desejo de Deus, para intensificar a nossa procura. Precisamos, talvez, de nos reconciliar mais vezes com a nossa sede, repetindo a nós próprios: A minha sede é a minha bem-aventurança.

A Igreja como Maria. É importante não olhar para a bem-aventurança de Maria em chave abstracta, mas real e concreta. O seu diálogo com Deus, no momento em que o anjo lhe anuncia que Deus lhe propõe ser mãe do seu Filho, é franco, não deixa de fora emoções, surpresas e dúvidas, até à confiança incondicional e ao seu sim.

Deus salva-nos não apesar de nós, mas com tudo aquilo que nós somos, e isso faz-nos enfrentar a vida com renovada confiança. O estilo mariano deve ser o modelo inspirador do viver: Maria acolhedora, que escuta e está aberta à vida; Maria honesta na sua relação com Deus; Maria ao serviço de um projecto maior. Sem Maria, a Igreja arrisca desumanizar-se, tornar-se funcionalista, uma fábrica febril incapaz de parar.

 

AS BEM-AVENTURANÇAS DO PAPA FRANCISCO

Papa Francisco, 1 Novembro de 2015

O caminho para alcançar a verdadeira bem–aventurança, o caminho que conduz ao Céu, é difícil de compreender porque vai contra-corrente, mas o Senhor diz-nos que quem vai por este caminho é feliz.

Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Tendo o coração despojado e livre de tantas coisas mundanas, uma pessoa pobre de coração está à espera do Reino dos Céus.

Felizes aqueles que choram, porque serão consolados. Quem na vida nunca experimentou a tristeza, a angústia, a dor, nunca conhecerá a força da consolação.

Felizes podem ser quantos têm a capacidade de se comoverem, de sentirem no coração a dor que está na sua vida e na dos outros. A terna mão de Deus consolá-los-á e acariciá-los-á.

Felizes os mansos. Quantas vezes somos impacientes, nervosos, sempre prontos a lamentar-nos! Para os outros temos muitas reivindicações, mas quando nos tocam, reagimos levantando a voz, quando na realidade somos todos filhos de Deus. Jesus suportou a perseguição e o exílio; as calúnias, armadilhas, falsas acusações em tribunal; e tudo suportou com mansidão. Até a cruz.

Felizes aqueles que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Aqueles que têm um forte sentido da justiça, para com os outros, e para consigo próprios, serão saciados porque estão prontos a acolher a maior justiça, aquela que só Deus pode dar.

Felizes os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Aqueles que sabem perdoar, que não julgam tudo e todos, mas procuram meter-se na pele dos outros. O perdão é a coisa de que todos temos necessidade.

Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Aqueles que cada dia, com paciência, procuram semear paz, reconciliação, estes sim, são felizes porque são verdadeiros filhos do nosso Pai do Céu, que semeia sempre e só paz, ao ponto de ter enviado o seu Filho ao mundo como semente de paz para a humanidade.