Folha Informativa 11-04-2021

Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia (PDF)  TEXTO

Rubens, Incredulidade de São Tomé

 

Todas as narrativas de aparições nos Evangelhos são mais do que comprovação de factos; são encontros que mudam a vida com um mistério que transcende tempo e espaço.

O apóstolo Tomé ajuda-nos a compreender que a nossa fé é um relacionamento vivo com Jesus, e não um problema a ser resolvido.

A vida cristã não é um programa a ser dominado, mas um mistério sem fim que nos guiará através desta vida para uma eternidade de descoberta e alegria.

Pat Marrin, National Catholic Reporter

 

 

 

Ir para a Galileia

Papa Francisco, Páscoa 2021

Rembrandt, Cristo na Tempestade no Mar da Galileia

As mulheres foram chorar um morto; em vez disso, escutaram um anúncio de vida. Por isso, como diz o Evangelho, aquelas mulheres estavam cheias de medo e maravilha, uma mistura de medo e alegria que se apodera dos seus corações.
É maravilha pelas palavras escutadas: «Ele precede-vos a caminho da Galileia; lá O vereis».
Acolhamos este convite de Páscoa: vamos para a Galileia, onde nos precede o Senhor Ressuscitado.

Que significa «ir para a Galileia»?
Antes de mais, recomeçar. Para os discípulos, é voltar ao lugar onde inicialmente o Senhor os procurou e chamou para O seguirem. É o lugar do primeiro encontro e do primeiro amor. Desde então, deixadas as redes, seguiram Jesus, escutando a sua pregação e assistindo aos prodígios que realizava. E todavia, apesar de estar sempre com Ele, não O compreendiam totalmente, muitas vezes entenderam mal as suas palavras e, à vista da cruz, fugiram, deixando-O sozinho.

Não obstante este falimento, o Senhor Ressuscitado apresenta-Se como Aquele que os precede uma vez mais na Galileia; isto é, está diante deles. Chamara-os para O seguirem, e volta a chamá-los sem nunca Se cansar. O Ressuscitado está a dizer-lhes: Partamos donde iniciamos. Recomecemos. Nesta Galileia, aprendemos a maravilhar-nos com o amor infinito do Senhor, que traça novas sendas nos caminhos das nossas derrotas.

Aqui está o primeiro anúncio de Páscoa que gostava de vos deixar: é possível recomeçar sempre, porque há uma vida nova que Deus é capaz, independentemente de todos os nossos falimentos, de fazer reiniciar em nós. Deus pode construir uma obra de arte até a partir dos escombros do nosso coração; a partir mesmo dos pedaços arruinados da nossa humanidade, Deus prepara uma história nova. Ele sempre nos precede: na cruz do sofrimento, da desolação e da morte, bem como na glória duma vida que ressurge, duma história que muda, duma esperança que renasce. E, nestes meses sombrios de pandemia, ouçamos o Senhor ressuscitado que nos convida a recomeçar, a nunca perder a esperança.

Ir para a Galileia significa, em segundo lugar, percorrer caminhos novos. É mover-se na direcção oposta ao túmulo. As mulheres procuram Jesus no túmulo, isto é, vão recordar o que viveram com Ele e que, agora, se perdeu para sempre. Vão repassar a sua tristeza. É a imagem duma fé que se tornou comemoração duma coisa linda mas que acabou, apenas para se recordar. Muitos vivem a «fé das recordações», como se Jesus fosse um personagem do passado, um amigo da juventude já distante. Uma fé feita de hábitos, coisas do passado, belas recordações da infância, uma fé que já não me toca nem interpela.

Ao contrário, ir para a Galileia significa aprender que a fé, para estar viva, deve continuar a caminhar. Deve reavivar cada dia o princípio do caminho, a maravilha do primeiro encontro. E depois confiar, sem a presunção de já saber tudo, mas com a humildade de quem se deixa surpreender pelos caminhos de Deus.

Aqui está o segundo anúncio de Páscoa: a fé não é um repertório do passado, Jesus não é um personagem ultrapassado. Ele está vivo, aqui e agora. Caminha contigo todos os dias, na situação que estás a viver, na provação que estás a atravessar, nos sonhos que trazes dentro de ti. Abre novos caminhos onde te parece que não existem, impele-te a ir contra-corrente relativamente a nostalgias e ao «já visto».

Ir para a Galileia significa, além disso, ir aos confins. Porque a Galileia é o lugar mais distante: naquela região composta e diversificada, moram aqueles que estão mais longe da pureza ritual de Jerusalém. E todavia Jesus começou de lá a sua missão, dirigindo o anúncio a quem carrega fadigosamente a vida diária, aos excluídos, aos frágeis, aos pobres, para ser rosto e presença de Deus que incansavelmente vai à procura de quem está desanimado ou perdido, que Se move até aos confins da existência porque, a seus olhos, ninguém é último, ninguém está excluído.

E hoje também é lá que o Ressuscitado pede aos seus para irem. É o lugar da vida diária, são os caminhos que percorremos todos os dias, são os recantos das nossas cidades onde o Senhor nos precede e Se torna presente, precisamente na vida de quem se encontra ao nosso lado e partilha connosco o tempo, a casa, o trabalho, as fadigas e as esperanças.

Na Galileia, aprendemos que é possível encontrar o Ressuscitado no rosto dos irmãos, no entusiasmo de quem sonha e na resignação de quem está desanimado, nos sorrisos de quem exulta e nas lágrimas de quem sofre, sobretudo nos pobres e em quem é marginalizado. Ficaremos maravilhados ao ver como a grandeza de Deus se revela na pequenez, como a sua beleza resplandece nos simples e nos pobres.

E assim temos o terceiro anúncio de Páscoa: Jesus, o Ressuscitado, ama-nos sem fronteiras e visita todas as situações da nossa vida. Ele plantou a sua presença no coração do mundo e convida-nos também a nós a superar as barreiras, vencer os preconceitos, aproximar-nos de quem está ao nosso lado dia a dia, para redescobrir a graça da quotidianidade.
Com Ele, a vida mudará. Porque, para além de todas as derrotas, do mal e da violência, para além de todo sofrimento e para além da morte, o Ressuscitado vive e guia a história.

 

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Folha Informativa 04-04-2021

Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor (PDF)  TEXTO

Sir Edward Coley Burne-Jones, Na manhã da Ressurreição

O Ressuscitado é o Crucificado; e não outra pessoa.
Indeléveis no seu corpo glorioso, traz as chagas:
feridas que se tornaram frestas de esperança.

A ressurreição de Cristo é a vitória do amor sobre a raiz do mal,
uma vitória que não «salta» por cima do sofrimento e da morte,
mas atravessa-os abrindo uma estrada no abismo, transformando
o mal em bem: marca exclusiva do poder de Deus.

PAPA FRANCISCO, Páscoa 2020

 

Porque deixámos de saber espantar-nos diante de Jesus?

Papa Francisco, Páscoa 2020

Lambert Sustris, Noli mi tangere

Muitos admiram Jesus: falou bem, amou e perdoou, o seu exemplo mudou a História… e assim por diante. Admiram-n’O, mas a sua vida não muda: a paralisia espiritual, a resistência à conversão, as expectativas inabaláveis, a incapacidade do espanto, que marcaram o acolhimento do Messias nas ruas de Jerusalém poucos dias antes da sua crucificação, subsistem hoje, inclusive entre os crentes, tornando-os impermeáveis à surpresa, à inovação, à desordem que Ele continua a trazer ao mundo.

À entrada da “Cidade Santa”, Jesus parece ser recebido por uma multidão de cegos: olham-n’O, mas não o vêem, divisam o seu rosto mas desconhecem o seu coração. A sua gente espera para a Páscoa o libertador poderoso, mas Jesus vem para realizar a Páscoa com o seu sacrifício. A sua gente espera celebrar a vitória sobre os romanos com a espada, mas Jesus vem celebrar a vitória de Deus com a cruz.

O que inquieta não é só este engano, que não obstante terem passado dois mil anos, continua a desdobrar-se em ilusórias expectativas dos cristãos sobre quem é Jesus, mas também a brusca mudança de opinião: Que acontece àquela gente, que em poucos dias passou de dar hossanas a Jesus a gritar “crucifica-O”? O que aconteceu?
Aquelas pessoas seguiam mais uma imagem de Messias, que não o Messias. Admiravam Jesus, mas não estavam prontas a deixar-se espantar por Ele.
O espanto é diferente da admiração.
A admiração pode ser mundana, porque busca os próprios gostos e as próprias expectativas; o espanto, pelo contrário, permanece aberto ao outro, à sua novidade.

Para que neste ano de 2021 a atitude dos cristãos seja outra, é preciso um coração novo. Porque admirar Jesus não basta. É preciso segui-l’O no seu caminho, deixar-se colocar em discussão por Ele: passar da admiração ao espanto.
Como é difícil que o assombro de Jesus expulse o entorpecimento e o marasmo, na vida pessoal e na vida da Igreja; e como ele é tão urgente.
A vida cristã, sem espanto, torna-se cinzenta.
Como se pode testemunhar a alegria de se ter encontrado Jesus se não nos deixamos espantar a cada dia pelo seu amor surpreendente, que nos perdoa e faz recomeçar?

Se a fé perde o espanto, torna-se surda: deixa de sentir a maravilha da Graça, deixa de sentir o gosto do Pão da vida e da Palavra, deixa de perceber a beleza dos irmãos e o dom da criação. E não há outro caminho a não ser o de refugiar-se nos legalismos, nos clericalismos e em todas estas coisas que Jesus condena no capítulo 23 de Mateus.
Será esta mais uma Semana Santa incapaz de sacudir a vida? Ou conseguiremos ainda deixar-nos comover pelo amor de Deus? Porque deixámos de saber espantar-nos diante d’Ele? Porquê?
Talvez porque a nossa fé tenha sido desgastada pela habituação. Talvez porque permaneçamos fechados nas nossas lamentações e nos deixemos paralisar pelas nossas insatisfações. Talvez porque tenhamos perdido a confiança em tudo e nos creiamos até errados. Mas por trás destes “talvez” há o facto de não estarmos abertos ao dom do Espírito, que é aquele que nos dá a graça do espanto.

O que mais espanta no Senhor e na sua Páscoa?
O facto de Ele chegar à glória pela via da humilhação. Ele triunfa ao acolher a dor e a morte, que nós, escravos da admiração e do sucesso, evitamos.
Em que consistiu a humilhação que continua a desconfigurar o que muitos esperam de Deus?
Ver o Todo-poderoso reduzido a nada.

Vê-l’O, a Palavra que sabe tudo, ensinar-nos em silêncio na cátedra da cruz. Ver o rei dos reis que tem por trono um patíbulo. Ver o Deus do universo despojado de tudo. Vê-l’O coroado de espinhos em vez de glória. Vê-l’O, a bondade em pessoa, insultado e pisado.
A interpelação é inevitável, então como hoje, e seguramente para sempre: Porquê toda esta humilhação? Porquê, Senhor, deixaste que te fizessem tudo isto?

Fê-lo por nós, para tocar até ao fundo a nossa realidade humana, para atravessar toda a nossa existência, todo o nosso mal. Para aproximar-Se de nós e não nos deixar sós na dor e na morte. Para recuperar-nos, para salvar-nos.

Jesus sobe à cruz para descer ao nosso sofrimento. Prova os nossos piores estados de alma: o fracasso, a rejeição de todos, a traição de quem lhe quer bem e até o abandono de Deus. Experimenta na sua carne as nossas contradições mais lacerantes, e assim redime-as, transforma-os. O seu amor aproxima-se das nossas fragilidades, chega aonde nos mais envergonhamos.
Por isso, quem acredita em Deus sabe que nunca está só: Deus está connosco, em cada ferida, em cada medo; nenhum mal, nenhum pecado tem a última palavra. Deus vence, mas a palma da vitória passa pelo madeira da cruz. Porque as palmas e a cruz estão juntas.

É também a graça do espanto que permite compreender que amar Jesus passa por acolher quem é descartado, aproximar-se de quem é humilhado pela vida, porque Ele está nos últimos, nos rejeitados, naqueles que a nossa cultura farisaica condena – e entre estes não se pode deixar de pensar nas pessoas atingidas pelas muitas “condenações” proclamadas pela Igreja, desde a sua origem aos nossos dias.

A ideia de um Deus a adorar e a temer enquanto poderoso e terrível não tem cabimento no cristianismo e é imune aos mal-entendidos, porque Ele desvelou-Se e reina apenas com a força desarmada e desarmante do amor.

 

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Folha Informativa 28-03-2021

Domingo de Ramos (PDF)  TEXTO

Hippolyte Flandrin, Entrada de Jesus em Jerusalém

Montado num jumentinho, o filho de um carpinteiro e de uma mulher praticamente desconhecida, um galileu, apresenta-se como Aquele que concretiza a antiga profecia.

Ele é a proximidade do reino que todos anseiam, um reino de justiça e de paz, em oposição ao império dominante que se alimenta de injustiça e de violência.

Ele surge inequivocamente como o Messias.

No entanto, neste mundo, o seu reinado assemelha-se às folhas das palmeiras em dia de ramos..

P. Nélio Pita, CM

 

Traição e abandono

Papa Francisco, 5 Abril 2020

Desmond Ford, Jesus no Jardim das Oliveiras

O Senhor serviu-nos até ao ponto de experimentar as situações mais dolorosas para quem ama: a traição e o abandono.

A traição. Jesus sofreu a traição do discípulo que O vendeu e do discípulo que O renegou. Foi traído pela multidão que primeiro clamava hossana, e depois «seja crucificado!» (Mt 27, 22). Foi traído pela instituição religiosa que O condenou injustamente, e pela instituição política que lavou as mãos.

Pensemos nas traições, pequenas ou grandes, que sofremos na vida. É terrível quando se descobre que a confiança deposta foi burlada. No fundo do coração, nasce uma tal decepção que a vida parece deixar de ter sentido.

É assim, porque nascemos para ser amados e para amar, e o mais doloroso é ser traído por quem nos prometera ser leal e solidário. Não podemos sequer imaginar como terá sido doloroso para Deus, que é amor.

Olhemos dentro nós mesmos; se formos sinceros para connosco, veremos as nossas infidelidades. Tanta falsidade, hipocrisia e fingimento! Tantas boas intenções traídas! Tantas promessas quebradas! Tantos propósitos esmorecidos! O Senhor conhece melhor do que nós o nosso coração; sabe como somos fracos e inconstantes, quantas vezes caímos, quanto nos custa levantar e como é difícil sanar certas feridas.

E que fez Ele para nos ajudar, para nos servir? Aquilo que dissera através do profeta: «Curarei a sua infidelidade, amá-los-ei de todo o coração» (Os 14, 5). Curou-nos, tomando sobre Si as nossas infidelidades, removendo as nossas traições.

Assim nós, em vez de desanimarmos com medo de não ser capazes, podemos levantar o olhar para o Crucificado, receber o seu abraço e dizer: «Olha! A minha infidelidade está ali. Fostes Vós, Jesus, que pegastes nela. Abris-me os braços, servis-me com o vosso amor, continuais a amparar-me… Assim poderei seguir em frente!»

O abandono. Segundo o Evangelho de hoje, na cruz, Jesus diz uma frase, uma apenas: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mt 27, 46). É uma frase impressionante. Jesus sofrera o abandono dos seus, que fugiram. Restava-Lhe, porém, o Pai. Agora, no abismo da solidão, pela primeira vez designa-O pelo nome genérico de «Deus». E clama, «com voz forte», «porquê», o «porquê» mais dilacerante: «Porque Me abandonaste também Tu?»

Na realidade, trata-se das palavras de um Salmo (cf. 22, 2), que nos dizem como Jesus levou à oração inclusive a extrema desolação. Mas, a verdade é que Ele a experimentou: experimentou o maior abandono, que os Evangelhos atestam reproduzindo as suas palavras originais.

 

Deus responde quando peço ajuda?


Lembra-te,
na cruz Jesus perguntou ao Pai porque O abandonava,
e depois disse-Lhe:
«Entre as tuas mãos, deponho o meu espírito».
Ao terceiro dia, Deus ressuscitou-O.

Nunca se acredita em Deus de uma vez por todas.
A fé é uma busca, um caminho pelo qual avançamos com outros crentes.

Sebastien Antoni, In Le Pèlerin

 

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Folha Informativa 21-03-2021

Domingo V da Quaresma (PDF)  TEXTO

Tomáš Halík, Via Crucis

Nas nossas vidas e na nossa história, sempre e de novo, encontramos Jesus que carrega a cruz.

Muitas vezes passamos junto d’Ele e muitas vezes não O reconhecemos.

Ele vem ao nosso encontro como fez com os seus discípulos após a sua Ressurreição. Mudou. Porém, mostra-nos as suas feridas.

Encontramo-l’O naqueles que carregam as cruzes pesadas da perseguição, dos vários géneros de pobreza.

Encontramo-l’O nas feridas da queles que nós próprios ferimos, encontramo-l’O também nas nossas feridas.

Tomáš Halík, Via Crucis

 

Apelo à conversão é promessa de vida feliz

Papa Francisco, Audiência geral, Vaticano, 6.3.2018

Fra Angelico, Anunciação

Quando rezamos o Pai-nosso, a segunda invocação com que nos dirigimos a Deus é venha a nós o vosso Reino. Depois de ter rezado para que o seu nome seja santificado, o crente exprime o desejo que se apresse a vinda do seu Reino.

Este desejo brota do próprio coração de Cristo, que começou a sua pregação na Galileia a proclamar:
O tempo cumpriu-se e o Reino de Deus está próximo: convertei-vos e acreditai no Evangelho.

Estas palavras não são, de maneira nenhuma, uma ameaça; Jesus não quer impelir as pessoas a converter-se semeando o medo do juízo iminente de Deus ou o sentido de culpa pelo mal cometido. Ao contrário, o que Ele traz é a Boa Notícia da salvação, e a partir dela chama à conversão.

Jesus inicia o seu ministério cuidando dos doentes, daqueles que vivem uma exclusão social, dos pecadores vistos com desprezo por todos, inclusive por aqueles que eram mais pecadores, mas fingiam que eram justos.

Venha a nós o vosso Reino!
Jesus veio; mas o mundo está ainda marcado pelo pecado, repleto de muita gente que sofre, de pessoas que não se reconciliam e não perdoam, de guerras e de muitas formas de exploração.

Todos estes factos são a prova de que a vitória de Cristo ainda não se cumpriu completamente: muitos homens e mulheres vivem ainda com o coração fechado. É sobretudo nestas situações que nos lábios do cristão aflora a segunda invocação do Pai-nosso: Venha a nós o teu Reino!. Que é como dizer: Precisamos de Ti, Jesus; precisamos que em todo o lado e para sempre Tu sejas Senhor no meio de nós!

Por vezes questionamo-nos: como é que este Reino se realiza tão lentamente? Jesus gosta de falar da sua vitória com a linguagem das parábolas. Por exemplo, diz que o Reino de Deus é semelhante a um campo onde crescem juntos a boa semente e o joio: o pior erro seria querer intervir de imediato, extirpando do mundo aquelas que parecem ser ervas daninhas. Deus não é como nós, Deus tem paciência. Não é com a violência que se instaura o Reino no mundo: o seu estilo de propagação é a ternura.

O Reino de Deus é uma grande força, a maior que existe, mas não segundo os critérios do mundo; por isso parece que nunca tem a maioria absoluta.
É como o fermento que se mistura na farinha: aparentemente desaparece, no entanto, é precisamente ele que faz crescer a massa. Ou como um grão de mostarda, quase invisível, que, todavia, tem em si a explosiva força da natureza, e uma vez crescido torna-se a maior de todas as árvores do horto.

Neste “destino” do Reino de Deus pode intuir-se a trama da vida de Jesus: também Ele foi para os seus contemporâneos um sinal minúsculo, um acontecimento quase desconhecido aos historiadores oficiais do tempo. Um grão de trigo, definiu-se Ele próprio, que morre na terra, mas só assim consegue dar muito
fruto.

O símbolo da semente é eloquente: um dia o agricultor enterra-o na terra (um gesto que parece uma sepultura), e depois, «esteja a dormir ou acordado, de noite ou de dia, a semente germina e cresce. Como, ele próprio não o sabe.
Uma semente que germina é mais obra de Deus do que do homem que a semeou. Deus precede-nos sempre, surpreende-nos sempre.

Venha a nós o vosso Reino! Semeemos esta palavra no meio dos nossos pecados e falhas.
Ofereçamo-la às pessoas derrotadas e prostradas da vida, a quem experimentou mais ódio que amor, a quem viveu dias inúteis sem nunca compreender o porquê.

Demo-la àqueles que lutaram pela justiça, a todos os mártires da história, a quem concluiu que lutou por nada, e que neste mundo domina o mal.
Escutaremos então a oração do Pai-nosso responder. Repetirá, pela enésima vez, aquelas palavras de esperança, as mesmas que o Espírito colocou como selo de todas as Sagradas Escrituras: Sim, vou já!

Desejo a cada um de vós que viva este tempo de Quaresma num autêntico espírito penitencial e de conversão, como um regresso ao Pai, que a todos espera de braços abertos para nos admitir à comunhão mais íntima com Ele.

 

Ano da Família

Sexta-feira, 19 de Março, solenidade de S.José, é aberto o Ano da Família Amoris Laetitia: um ano especial para crescer no amor familiar.

Convido a um renovado e criativo impulso pastoral para colocar a família no centro das atenções da Igreja e da sociedade.

Rezo para que cada família possa sentir em sua própria casa a presença viva da Sagrada Família de Nazaré, para que ela possa preencher as nossas pequenas comunidades domésticas com amor sincero e generoso, uma fonte de alegria mesmo em provações e dificuldades”

Papa Francisco

 

 

 

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Folha Informativa 14-03-2021

Domingo IV da Quaresma (PDF)  TEXTO

Hans Memling, Jesus

Deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus é a luz que nos ajuda a carregar o fardo de todos os dias.

E a santidade não é uma obra nossa, muito difícil, mas é precisamente esta «abertura»: abrir as janelas da nossa alma, para que a luz de Deus possa entrar, não esquecer Deus, porque é precisamente na abertura à sua luz que se encontra a força, a alegria dos remidos.

Matteo Liuti

 

Quando estamos em pecado, somos como “morcegos humanos”, que só se sabem mover à noite.

Para nós é mais cómodo viver nas trevas, porque a luz mostra-nos o que não queremos. Mas, assim, os olhos acostumam-se às trevas e deixam de saber o que é a luz.

Papa Francisco

 

 

Alguns desafios

Nuno Tovar de Lemos, sj, in Mensageiro

Angelika Kaufmann, Jesus e a Samaritana

Os desafios são tantos que podemos ficar parados à espera que passe a tormenta, abrigados nalguma gruta, olhando o horizonte até que apareça algum navio que nos traga a messiânica vacina.

Mas parece-me que, à Igreja, nos é pedido precisamente o contrário: que saibamos arregaçar as mangas, tirar partido desta situação e desbravar caminhos novos.
Ao longo de 2000 anos de História a Igreja adaptou-se a tantas e tão variadas situações! Não seria agora um vírus que nos faria encostar na berma.
E não se trata só de resistir, mas de tirar proveito pois, como tão bem escreveu S. Paulo: «Tudo concorre em bem para aqueles que amam a Deus». Se Deus permite que vivamos o que estamos a viver é porque tem graças especiais para nos dar.

1. O desafio de não parar. Assegurar somente os «serviços mínimos» pode ser uma enorme tentação. Missas e funerais. Às vezes já tive a sensação de que a pandemia servia de pretexto para não se trabalhar. Como não é possível fazer o que dantes se fazia do modo como se fazia, então não fazemos (quase) nada. Cruzar os braços e sentar-se à espera que passe: que belo testemunho da esperança cristã! Por detrás desta tentação de cruzar os braços está, evidentemente, o desânimo, que é o fermento preferido do diabo.

2. O desafio da criatividade. A criatividade não é uma característica dos artistas, é uma nota da esperança cristã. Onde está o Espírito Santo há esperança e onde há esperança há criatividade, que é sempre sinal de vitalidade. A criatividade é a capacidade de encontrar novas formas para exprimir e concretizar o Essencial. O Papa Francisco tem dito repetidas vezes que «sempre se fez assim» não serve como critério pastoral. Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objectivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades».

3. O desafio dos pequenos números A impossibilidade da realização de grandes eventos pode ser uma oportunidade para a realização de pequenos eventos com pequenos grupos. Podem ser espaços fecundos de espiritualidade, de oração, de partilha fraterna. Não dão nas vistas, não aparecem nas notícias, mas podem ser espaços de muito crescimento.

4. O desafio das questões de fundo No pré-covid, por vezes, nem tínhamos tempo para pensar. Só conseguíamos ter tempo para preparar a actividade que vinha a seguir no calendário e – mal ela acabava – já tínhamos de começar a preparar a próxima. Agora, em muitos casos, sentimos ter recebido um presente muito valioso: algum tempo!

O tempo que nos sobra pode proporcionar-nos uma oportunidade de ouro para pensar a fundo no que fazemos e como o fazemos. Esta situação de covid não nos proporciona só mais tempo, mas também – graças à suspensão de algumas actividades – mais distância interior. Porque, frequentemente, o nosso grande envolvimento com o que fazemos não nos deixa liberdade sequer para pensarmos se o que fazemos tem sentido, se vale a pena e se não haveria outras formas melhores de o fazer. Este desafio das reflexões de fundo é, antes de mais, um chamamento a regressarmos e ficarmos mais agarrados ao Essencial.
A quem nos envia Deus? O que é evangelizar? Como o fazia Jesus? O que temos para dar?

5. O desafio das relações pessoais O trabalho pastoral não é só feito de celebrações e encontros de grupo; é também feito de relações pessoais um-a-um. Veja-se Jesus e os seus tantos encontros a sós com uma pessoa (a samaritana, o décimo leproso, Zaqueu, a mulher siro-fenícia, etc.). No nosso caso, sabemos que isto das relações pessoais é muito importante, mas há sempre tanta coisa a fazer!
Não sobra por vezes muito tempo. Nós, padres, frequentemente, nem temos tempo para a orientação espiritual quanto mais para as conversas gratuitas fora do calendário…Esta fase covídica, que abre mais tempo na agenda e eventualmente mais espaço no coração, pode ser um tempo muito bom para encontros descomprometidos e conversas sem objectivos produtivos.
Creio que grandes coisas podem surgir de pequenos encontros generosos: o fortalecer dos laços de comunhão, as ideias novas, a abertura de possibilidades pastorais.
Parece-me até que estas reflexões se poderão aplicar, com as devidas adaptações, à vida de cada um de nós. Tiremos partido deste tempo com a Graça de Deus e peçamos-Lhe a Graça de não confundirmos esperança com espera.

 

O amor dá vida

São João da Cruz

Sem arrimo e com arrimo
sem luz e às escuras vivendo,
todo me vou consumindo.

Minha alma está desprendida
de toda a coisa criada,
e sobre si levantada
numa saborosa vida
só em seu Deus arrimada.
Por isso já se dirá
a coisa que mais estimo;
que minha alma se vê já
sem arrimo e com arrimo.

E se trevas eu padeço
em minha vida mortal,
não é tão grande o meu mal,
porque, se de luz careço,
tenho vida celestial;
porque o amor dá tal vida
quando mais cego vai sendo,
que tem a alma rendida,
sem luz e às escuras vivendo.

Tal obra faz o amor
depois que eu o conheci,
que, se há bem ou mal em mim,
tudo o torna de um sabor
e transforma a alma em si;
e em sua chama bem temp’rada,
a qual em mim estou sentindo,
veloz e sem deixar nada,
todo me vou consumindo

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 07-03-2021

Domingo III da Quaresma (PDF)  TEXTO

Rembrandt, Jesus expulsa vendilhões do Templo

 

A atitude de Jesus exorta-nos a levar a nossa vida não à procura das nossas vantagens e interesses, mas pela glória de Deus, que é o amor.

Somos chamados a ter sempre presentes aquelas palavras incisivas de Jesus: «Não façais da casa do meu Pai uma casa de negociantes!».

Estas palavras ajudam-nos a afastar o perigo de fazer também da nossa alma, que é a morada de Deus, um lugar de mercado, vivendo continuamente em busca da nossa vantagem, e não no amor generoso e solidário.

Papa Francisco

 

 

Que saiam os vendedores, entrem os pobres

Ermes Ronchi, in Avvenire

Enoch Wood Perry, Oração matinal

Em todo o mundo os católicos celebram a 09 de Novembro a dedicação da catedral de Roma, S. João de Latrão, como se fosse a sua igreja, raiz de comunhão de um canto ao outro da Terra. Não celebramos, portanto, um templo de pedras, mas a grande casa de um Deus que para sua morada escolheu o vento livre, e fez do homem a sua casa, e da Terra inteira a sua igreja.

No Evangelho, Jesus com um chicote na mão. O Jesus que não esperas, o corajoso cujo falar é sim, sim, não, não. O mestre apaixonado que usa gestos e palavras com combativa ternura. Jesus nunca passivo, nunca desafecto, não se resigna às coisas como estão: Ele quer mudar a fé, e com a fé mudar o mundo. E fá-lo com gestos proféticos, não com uma boa vontade genérica.

Uma hora depois, provavelmente, os vendedores, recuperadas as pombas e as moedas, teriam reocupado os seus lugares. Tudo como antes, então? Não, o gesto de Jesus chegou até nós, profecia que sacode os vigilantes dos templos, e também a mim, do risco de tornar a fé num mercado.

Jesus persegue os vendedores porque a fé tornou-se dinheiro, Deus tornou-se objecto de compra e venda. Os astutos usam-no para ganharem, os piedosos e devotos para se perdoarem: eu dou-Te oração, Tu, em troca, dás-me graças; eu dou-Te sacrifícios, Tu dás-me salvação.

Persegue os animais das ofertas antecipando a revolução de fundo que trará com a cruz: Deus não nos pede mais sacrifícios, mas sacrifica-Se a Si próprio por nós. Não pretende nada, dá tudo.

Fora com os mercadores, então. A Igreja tornar-se-á bela e santa não ao acrescentar património e meios económicos, mas se cumprir as duas acções de Jesus no átrio do templo: expulsar os vendedores, deixar entrar os pobres.

Ele falava do templo do seu corpo. O templo do corpo… templo de Deus somos nós, é a carne do homem. Tudo o resto é decorativo. Templo santo de Deus é o povo, diante do qual «devemos descalçar os sapatos», como Moisés diante da sarça ardente, «porque é terra santa», morada de Deus.

Dos nossos templos magnificentes não restará pedra sobre pedra, mas nós permaneceremos, casa de Deus para sempre. Há graça, presença de Deus em cada ser. Passamos, então, da graça dos muros à graça dos rostos, à santidade dos rostos.

Se pudéssemos começar a caminhar na vida, nas ruas da nossa cidade, dentro da nossa casa e, delicadamente, na vida dos outros, com veneração pela vida de Deus que neles habita, tirando os sapatos como Moisés diante da sarça, então entenderíamos que estamos a caminhar dentro de uma única, imensa catedral. Que todo o mundo é céu, céu de um só Deus.

 

Penitência forçada, confinamento pascal

Pe. José Frazão Correia, sj, excertos

A vida é bela. (…)Mas a vida também é tão difícil. (…)
Os limites que nos fazem insinuam desconfianças, despertam ciúmes, incitam a agressões e transgressões.

Aí, quando o custo encobre a bênção que a vida é, tendemos a afundar-nos, como se não houvesse mais nada, ou a evadirmo-nos, fazendo de conta, ou a agredir como forma de protecção.

Reaprender a professar a confiança elementar na vida, bendizendo a sua graça e atravessando com esperança o seu custo, sem rendição nem alienação, torna-se um dever de humanidade. E um dever de crentes. A profissão de fé em Deus está muito próxima da declaração de amor à vida. Tudo isto no quotidiano e no simples.

O extraordinário tem sido o nosso ordinário.
Não interromperemos nada. A “quaresma religiosa” chega, pois, quando já estamos saturados de uma longa e rigorosa “quarentena civil”. Há muito que nos estamos a privar de encontros à mesa. Cancelamos festas e celebrações. Não nos abraçamos nem beijamos. Passámos a vestir roupa de trazer por casa. Passeamos por tempo limitado. Andamos de luto, por pessoas próximas e por tantíssimas outras que não conhecemos.
De que modo poderá esta quaresma-em-quarentena ser caminho percorrido com os pés na terra e tornar-se exercício litúrgico e espiritual com sentido e com fruto? Que desejos cultivar?

A que práticas sensatas nos poderemos dispor, quando a penitência já está garantida?
Observo três exercícios de reparação. Reparação, de olhar com atenção. Reparação, de restauro. Reparar no quotidiano e no simples da vida, será um acto de resistência verdadeiramente espiritual.

Reparar nos/os sentidos
Olhar com mais atenção para entrever. Mesmo em casa, haverá sempre uma janela que dá para fora. Quanta vida acontece diante dos nossos olhos.
Escutar com mais vagar, a começar por aqueles com quem falamos diariamente, para pressentir o sentido no dito e do não dito de tantas palavras e de outros tantos silêncios. E da música, claro.

Tocar com mais cuidado, para reconhecer texturas, rugosidades, contornos, temperaturas. E quanto precisamos da inteligência do tacto, para não ficarmos distantes e insensíveis, em tempos em que os contactos físicos são arriscados e, por isso, inibidos e mortificados.

Saborear, para saber a graça da vida e cultivar as suas promessas. As coisas e os momentos simples do quotidiano são suficientemente saborosos e perfumados para saberem bem. Será uma questão de atenção. E de tempo. Porque as coisas e os momentos pedem tempo para dizer o que têm a dizer. E nós precisamos de tempo para as perscrutar e, reconhecidos, acolher e saborear.

Reparar no/o bem possível
Precisamos também de sonhos largos, de grandes desejos. É bom que nos movamos e impliquemos na procura do bem maior. O tempo que vivemos pode ser particularmente favorável para procurar reconhecer com benevolência e alegrar-se genuinamente com o bem possível. Com gratidão pelo que existe, mesmo que fosse pouco ou diferente do desejável. Com a humildade da aceitação e a paciência da espera.

Reparar no/o processo que somos
Somos processo lento de reelaboração do que somos. A vida e a fé são processo. Não são lugares parados que se ocupam e se repetem, acabados. São itinerários abertos que se percorrem. Por isso, têm sempre algo de imprevisível. Implicam o corpo, a mente, o espírito. E, mais uma vez, pedem tempo.

 

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