Folha Informativa 27-06-2021

XIII Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

A Folha Informativa vai de férias!
Regressa em Setembro. Boas férias!

William Mount, Jesus cura filha de Jairo

Às vezes o sofrimento dalguns jovens é lacerante, não se pode expressar com palavras, fere como um soco.

Estes jovens só podem dizer a Deus que sofrem muito, que lhes custa imenso continuar para diante, que já não acreditam em ninguém.

Mas, neste grito desolador, fazem-se ouvir as palavras de Jesus: «Felizes os que choram, porque serão consolados».

Há jovens que conseguiram abrir caminho na vida, porque lhes chegou esta promessa divina. Junto de um jovem atribulado, possa haver sempre uma comunidade cristã para fazer ressoar aquelas palavras com gestos, abraços e ajuda concreta!

Papa Francisco, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus vivit

Uma prática para as férias: revisitar o Pai Nosso

José Tolentino Mendonça, In Simone Weil – Marginalidade e alternativa

A descoberta que Simone Weil faz do Pai-Nosso ocupa uma das páginas mais intensas da sua autobiografia espiritual. Tudo começa por um desejo, manifestado ao seu conselheiro espiritual, o Padre Perrin.

Ao longo do ano de 1941, ela declara a necessidade de voltar a uma actividade dos Verãos da sua adolescência: contactar directamente com a terra, colaborando no trabalho de produção dos alimentos. Não é um projecto fácil de explicar este de se tornar uma rapariga do campo, quando os amigos mais próximos fazem coro para que ela se concentre nos seus domínios de saber: a filosofia, a poesia, a escrita e a palavra.
Nesses meses ela multiplica-se em cartas e em razões, para justificar que a purificação do esforço agrícola lhe traz instantes de alegria profunda, uma seiva que ela não encontra em mais lado nenhum.

É então por sugestão do Padre Perrin que ela contacta Gustave Thibon, que tanta importância viria a ter na difusão do pensamento da jovem filósofa. Thibon era, já naquela altura, um filósofo camponês que chegava às academias, mas a partir de um improvável baluarte: uma quinta agrícola em Saint-Marcel-d’Ardèche. Simone aportará ali nos começos de Agosto de 1941 onde passa dois meses.

Há ainda um primeiro incidente a resolver: ela rejeita ficar na casa grande da quinta e vai residir num precário barracão solitário e sem grandes condições, deixando contrariados os seus anfitriões. Mas Gustave Thibon conta que num desses primeiros dias, quando não sabia bem o que pensar daquela rapariga, viu Simone, pendurada no tronco de uma árvore, a contemplar em silêncio o vale: «eu vi o seu olhar emergir pouco a pouco da visão; a intensidade e a pureza deste olhar eram tais que sentia que ela contemplava abismos interiores ao mesmo tempo que o esplêndido horizonte se abria a seus pés. A beleza da sua alma correspondia a terna majestade da paisagem».
Foi o selar de uma grande amizade.

Nessa estação Simone encontra-se com o Pai-Nosso, talvez por um inusitado caminho. Ela conta:
«O Verão passado, estudando grego com T…. (Thibon), passei-lhe palavra a palavra o Pater em Grego.
Tínhamo-nos prometido aprendê-lo de cor. Creio que ele não o fez. Eu tão pouco, até essa altura. Mas, algumas semanas mais tarde, folheando o Evangelho, disse-me a mim mesma que, uma vez que mo tinha prometido e que assim estava bem, devia fazê-lo.

Fi-lo. A doçura infinita deste texto grego tomou-me então de tal forma que durante alguns dias não consegui impedir-me de o recitar continuamente. Uma semana depois, comecei a vindima. Recitava o Pater em grego todos os dias antes do trabalho, e repeti-o não poucas vezes na vinha.
Desde então, impus-me como única prática recitá-lo uma vez, cada manhã, com uma atenção absoluta. Se durante a recitação a minha atenção se desvia ou deixa adormecer, mesmo que de modo infinitesimal, recomeço até que tenha obtido, por uma vez, uma atenção absolutamente pura. Acontece-me então, por vezes, recomeçar, uma vez mais, por puro prazer, mas só o faço se o desejo me instiga.

A virtude desta prática é extraordinária e surpreende-me toda e cada uma das vezes, porque apesar de a experimentar todos os dias, ela ultrapassa sempre, de cada vez, o que era a minha expectativa.

Por vezes, logo as primeiras palavras arrancam o meu pensamento ao meu corpo e transportam-no a um lugar fora do espaço onde não há nem perspectiva nem ponto de vista. O espaço abre-se. A infinidade do espaço normal de percepção é substituída por uma infinidade elevada à segunda ou, por vezes, à terceira potência. Ao mesmo tempo, esta infinidade da infinidade preenche-se, de um extremo ao outro, de silêncio, um silêncio que não é uma ausência de som, que é objecto de uma sensação positiva, mais positiva que a de um som. Os ruídos, se os há, não me chegam senão depois de atravessarem este silêncio.

Por vezes também, durante esta recitação ou noutros momentos, Cristo está presente em pessoa, mas a sua presença é infinitamente mais real, mais lancinante, mais clara e mais plena de amor do que a daquela primeira vez em que me tomou».

 

As férias ensinam a olhar, perguntar, pensar

Enzo Binchi, in Monasterio di Bose

Jakob e/ou-Hans Strub, A Visitação

Habitualmente olhamos as pessoas ou as coisas, mas não as vemos. Não temos tempo para deter o olhar, habituado a responder ao estímulo de alguma coisa que o atrai de maneira repentina: um semáforo, um placar publicitário…Ou então olhamos aquilo que nos é dito para olhar: os nossos olhos são atraídos por aquilo que foi pensado para nos seduzir, para chamar a nossa atenção, para acender o nosso desejo.

As férias são um tempo propício para exercitar o olhar.
É assim que se aprende a “ver com o coração”, como aconselhava o Principezinho. Então, ao abrir os olhos do nosso coração, podemos dedicar-nos a contemplar, a ver em grande, e, por isso, a sentir em grande. Assim se começa a ver verdadeiramente aquilo que existe e vive ao nosso lado, ainda que muitas vezes não nos apercebamos; treinamo-nos a admirar e a acolher o inesperado, o que é desconhecido e diferente daquilo que pensamos.

As férias são também um tempo propício para exercitar-se a reflectir sobre a própria vida. Também esta é uma operação não espontânea, árdua, mas é fundamental escutar as perguntas que nos habitam. Perguntas que não podem ser iludidas a não ser removendo-as, ou “distraindo-nos”, inebriando-nos de activismo. Estes dias “vazios” são, antes, a ocasião para nos deixarmos habitar, com calma, pelas perguntas cruciais: como está a minha vida? Aonde cheguei?
O que me falta?…

Schopenhauer anotava que «o homem é um animal metafísico», habilitado a colocar-se perguntas que vão para além do visível. O que quer dizer viver e morrer? O que significa amar verdadeiramente? O amor pode acabar? O ser humano é um animal capaz de colocar-se estas interrogações, porque quer interpretar a sua existência, e dela quer dar-se e dar razões. Não há respostas claras e certas? Não é por isso que tem de se interditar de escutar estas perguntas, pelo contrário!

É preciso, então, encontrar tempo para ficar a sós, no silêncio, e demorar-se nas perguntas que nos habitam. Se nunca fizermos este “trabalho”, arriscamo-nos a viver à superfície, sem estarmos conscientes, sem conseguir ler a nossa vida e a avaliá-la nas suas expectativas e nos seus fracassos. Os latinos diziam que cada ser humano amadurecido deve conseguir habitar consigo, escutar-se. Não é uma operação narcisista, mas um acto de verdade sobre si e sobre a relação com os outros. É uma necessidade para agarrar a própria vida nas mãos com um mínimo de lucidez, e assim aprender a amar-se a si e aos outros com inteligência e criatividade.
Nas férias, dêmos, por isso, tempo à reflexão, ao pensar. E a quem nos pergunta «o que estás a fazer?», respondamos: «Olho e penso». Rara mas extraordinária resposta!

Não uma coisa de ricos, nem um tempo de ausência – como indica a etimologia da palavra em francês, “vacances”, ou italiano, “vacanze” –, mas como explicou o Papa Francisco a 6 de Agosto de 2017, algo de importante para todos, porque todos precisam de um tempo útil para retemperar as forças do corpo e do espírito, aprofundando o caminho espiritual.

A subida dos discípulos ao monte Tabor induz-nos a reflectir na importância de afastar-se das coisas mundanas para realizar um caminho para o alto e contemplar Jesus.
Trata-se de nos dispormos à escuta atenta e orante do Cristo Filho amado do Pai, buscando momentos de oração que permitam o acolhimento dócil e feliz da Palavra de Deus.

Somos chamados a redescobrir o silêncio pacificador e regenerador da meditação do Evangelho, da Bíblia, que conduz a uma vida rica de beleza, de esplendor e de alegria tomados pelo ritmo cada vez mais veloz da vida quotidiana, temos todos necessidade de vez em quando de fazer uma pausa e de nos repousarmos, concedendo-nos um pouco mais de tempo para reflectir e orar.

Apresentando-nos o Senhor que abençoa o dia dedicado por excelência ao repouso, a Bíblia quer fazer notar a necessidade que o ser humano tem de dedicar uma parte do seu tempo à experiência da liberdade das coisas, para reentrar em si mesmo e cultivar o sentido da sua grandeza e dignidade enquanto imagem de Deus.

As férias, portanto, não devem ser vistas como uma simples evasão, que empobrece e desumaniza, mas como momentos qualificantes da própria existência da pessoa.

Interrompendo os ritmos quotidianos, que afadigam e esgotam fisicamente e espiritualmente, a pessoa tem a possibilidade de recuperar os aspectos mais profundos do viver e do agir.

Nos momentos de repouso, e, em particular, durante as férias, o ser humano é convidado a tomar consciência do facto de que o trabalho é um meio, e não a meta da vida, e tem a possibilidade de descobrir a beleza do silêncio como espaço no qual se reencontrar a si mesmo para se abrir ao reconhecimento e à oração.
É-lhe espontâneo, então, considerar com um olhar diferente a sua existência e a dos outros: livre das prementes ocupações diárias, ele tem maneira de redescobrir a sua dimensão contemplativa, reconhecendo os vestígios de Deus na natureza, e sobretudo nos outros seres humanos

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 20-06-2021

XII Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

 

Sorolla, Na praia

Quem é que não conhece o mar das calmarias e das tempestades?

Neste Domingo de Verão muitos cristãos poderão, contemplando o espectáculo do Oceano, repassar no seu coração o Evangelho ouvido na Assembleia dominical.

Oxalá que, fazendo férias, reencontrando a força e a alegria de viver no contacto com a natureza e no recreio do convívio familiar e amigo, não voltem as costas ao Criador da Natureza e Senhor da Vida.

Aqui estamos. Com Jesus, ancorados nEle.

Nuno Westwood, Celebração Litúrgica

Tempo de reajustar a rota da vida

Papa Francisco, 27 de Março de 2020

Rembrandt, Cristo na tempestade

À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento.

E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer», assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos. (…)Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de fé dos discípulos, que se contrapõe à confiança de Jesus?

A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projectos, os nossos hábitos e prioridades; (…) e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.
Avançámos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-te: “Acorda, Senhor!”

”Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (…)Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros.
Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio.

O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e activar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. (…) Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós.

Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora actual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade.

Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar..

 

Preparar as férias

Salvatore Mazza/Avvenire

Beatrix Whistler, Rapariga a descansar no sofá

Não uma coisa de ricos, nem um tempo de ausência – como indica a etimologia da palavra em francês, “vacances”, ou italiano, “vacanze” –, mas como explicou o Papa Francisco a 6 de Agosto de 2017, algo de importante para todos, porque todos precisam de um tempo útil para retemperar as forças do corpo e do espírito, aprofundando o caminho espiritual.

A subida dos discípulos ao monte Tabor induz-nos a reflectir na importância de afastar-se das coisas mundanas para realizar um caminho para o alto e contemplar Jesus.
Trata-se de nos dispormos à escuta atenta e orante do Cristo Filho amado do Pai, buscando momentos de oração que permitam o acolhimento dócil e feliz da Palavra de Deus.

Somos chamados a redescobrir o silêncio pacificador e regenerador da meditação do Evangelho, da Bíblia, que conduz a uma vida rica de beleza, de esplendor e de alegria tomados pelo ritmo cada vez mais veloz da vida quotidiana, temos todos necessidade de vez em quando de fazer uma pausa e de nos repousarmos, concedendo-nos um pouco mais de tempo para reflectir e orar.

Apresentando-nos o Senhor que abençoa o dia dedicado por excelência ao repouso, a Bíblia quer fazer notar a necessidade que o ser humano tem de dedicar uma parte do seu tempo à experiência da liberdade das coisas, para reentrar em si mesmo e cultivar o sentido da sua grandeza e dignidade enquanto imagem de Deus.

As férias, portanto, não devem ser vistas como uma simples evasão, que empobrece e desumaniza, mas como momentos qualificantes da própria existência da pessoa.

Interrompendo os ritmos quotidianos, que afadigam e esgotam fisicamente e espiritualmente, a pessoa tem a possibilidade de recuperar os aspectos mais profundos do viver e do agir.

Nos momentos de repouso, e, em particular, durante as férias, o ser humano é convidado a tomar consciência do facto de que o trabalho é um meio, e não a meta da vida, e tem a possibilidade de descobrir a beleza do silêncio como espaço no qual se reencontrar a si mesmo para se abrir ao reconhecimento e à oração.
É-lhe espontâneo, então, considerar com um olhar diferente a sua existência e a dos outros: livre das prementes ocupações diárias, ele tem maneira de redescobrir a sua dimensão contemplativa, reconhecendo os vestígios de Deus na natureza, e sobretudo nos outros seres humanos

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 13-06-2021

XI Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

 

Rogier van der Weyden, Madalena a ler

 

Na bolsa que acompanhou Etty Hillesum para o campo, estava a Bíblia, mas também estava O Livro de Horas de Rainer Maria Rilke.

“Abro a Bíblia ao acaso e eis o que encontro: O Senhor é o meu alto refúgio. Deus meu, fizeste-me tão rica, deixa-me por favor, partilhar generosamente essa riqueza. A minha vida tornou-se um diálogo ininterrupto Contigo, meu Deus, um grande diálogo”.

Guilherme d’Oliveira Martins, sobre Etty Hillesum

 

 

 

A semente de Deus converte terra árida em chão fecundo

Ermes Ronchi, In Avvenire

Vincent van Gogh, Semeador

De muitas coisas Ele lhes falou com parábolas.
As parábolas saem da voz viva do Mestre. Escutá-las é como escutar o murmúrio da fonte, o momento inicial, fresco, espontâneo do Evangelho.

As parábolas não são um remedeio ou uma excepção, mas o extremo mais alto e genial, o mais refinado da linguagem de Jesus. Ele amava o lago, os campos de trigo, as extensões de espigas e papoilas, os pássaros em voo, a figueira. Observava a vida e nasciam parábolas. Tomava histórias de vida e delas fazia histórias de Deus, desvelava que «em cada coisa está semeada uma sílaba da Palavra de Deus» (“Laudato si’”).

O semeador sai para semear. Jesus imagina a história, a criação, o reino como uma grande sementeira: é tudo um semear, um voo de trigo ao vento, na terra no coração. É todo um germinar, um brotar, um maturar. Cada vida é narrada como um amanhecer contínuo, uma Primavera tenaz.

O semeador sai, e o mundo logo engravida. E eis que o semeador, que pode parecer desprevenido, porque parte das sementes cai sobre pedras, silvas e estrada, é, ao invés, aquele que abraça a imperfeição do campo do mundo, e ninguém é discriminado, ninguém excluído da sementeira divina. Somos todos duros, espinhosos, feridos, opacos, mas a nossa humanidade imperfeita é também um torrão de terra boa, sempre apta a dar vida às sementes de Deus.

Há no campo do mundo, e naquele do meu coração, forças que contrastam a vida e os nascimentos. A parábola não explica porque é que isso acontece. E também não explica como arrancar ervas daminhas, remover pedras, expulsar pássaros. Mas fala-nos de um semeador esperançoso, cuja confiança, no fim, não é traída: no mundo e no meu coração está a crescer trigo, está a amadurecer uma profecia de pão e de fome saciada. Explica-o o verbo mais importante da parábola: deu fruto. Até cem por um. E não é um piedoso exagero. Vai a uma seara e vê que, por vezes, de um só grão podem brotar vários caules, cada um com a sua espiga.

A ética evangélica não procura campos perfeitos, mas fecundos. O olhar do Senhor não pousa sobre os meus defeitos, sobre pedras ou silvas, mas sobre o poder da Palavra que revira os torrões pedregosos, protege os rebentos novos e rebela-se contra toda a esterilidade.

E fará de mim terra boa, terra mãe, berço acolhedor de embriões divinos. Jesus narra a beleza de um Deus que não vem como ceifeiro das nossas poucas searas, mas como o semeador infatigável das nossas charnecas e abrolhais. E aprenderei dele a não precisar de colheitas, mas de grandes campos a semear em conjunto, e de um coração não roubado; preciso do Deus semeador, que as minhas aridezes nunca detêm.

O semeador de parábolas

Pat Marrin , In National Catholic Reporter

Jesus foi um semeador de parábolas, cada qual com uma pequena semente destinada a germinar na imaginação do ouvinte, ao oferecer lições para toda a vida sobre a relação e interacção de Deus com a Criação e connosco, enquanto filhos da Criação.

As recolhas de ditos e histórias devem ter sido a base das primeiras pregações, e podem ser o mais próximo que conseguimos chegar à mente de Jesus, cujos ensinamentos foram mais tarde adaptados para se encaixarem nas narrativas e nos padrões teológicos de cada Evangelho.

As parábolas originais revelam um mestre brilhante, capaz de resumir ideias profundas em imagens simples: um tesouro escondido, uma pérola de grande valor, sal, luz e fermento, negócios, construção, casamentos, ovelhas perdidas, moedas perdidas e filhos perdidos.

Estes pequenos dramas e imagens responderam a uma pergunta central: a que se assemelha o Reino de Deus? E por trás disto, o mistério mais profundo: como é que Deus é realmente? Algumas parábolas adquiriram modelagens artísticas pela mão dos evangelistas, de maneira a aplica-las às necessidades das comunidades cristãs primitivas. O “filho pródigo”, de Lucas, revela um pai amoroso que quer os seus dois filhos à mesa da família, juntando justos e pecadores. Outras parábolas foram adaptadas e alteradas para julgar inimigos da Igreja ou conflitos dentro da Igreja, como as parábolas do “trigo e do joio”, da “vinha” e dos “convidados para o casamento”.

Para nós, hoje, a grande bênção das parábolas não é apenas meditar em cada uma e buscar significado pessoal, mas imitar Jesus ao encontrar parábolas nas nossas próprias vidas. Já o podemos fazer, pois de cada vez que descrevemos a nossa experiência com uma metáfora, recorrendo a “como”, ou comparando-a a determinado processo natural, estamos a revelar significado através da narrativa. Um “nascer do sol após uma noite longa e difícil”, uma “chuva após um longo período de seca”, ajudam-nos a descrever e a explicar as nossas vidas, e, ao fazê-lo, estamos a mergulhar em ideias mais profundas sobre os momentos ensinadores ​​da vida e as verdades transcendentes.

Por isso, se perguntarmos sobre que tipo de terra somos para as sementes da fé, ou apenas a tentar plantar um jardim enquanto lidamos com pássaros e esquilos famintos, muita ou pouca sombra, solo pedregoso ou ervas daninhas, estamos no modo de parábola. Se experimentamos dores de parto ou esperamos em “ponta dos pés” (uma tradução de Romanos 8,22) para que algo de maravilhoso aconteça, estamos a usar a imaginação para entender o anseio da Criação e do coração humano para que as promessas de Deus se tornem realidade.

Pensar e sentir em parábolas é uma maneira de rezar, de transmitir questões espirituais em imagens, a partir das nossas próprias memórias. Encontramos Deus através das nossas experiências humanas de desejo, ansiedade, esperança e frustração. A maneira como sabemos que as histórias inspiradas por esta forma de encontro são de Deus é que as parábolas divinas acabam sempre em Boas Novas. A adversidade conduz à esperança, a perda inspira determinação. Deus inspira-nos para continuar a bater à porta, pedindo e buscando até encontrarmos o nosso caminho.

Ainda que a maioria das sementes plantadas pelo semeador tenha sido perdida, aquelas que encontraram um bom solo multiplicaram-se várias vezes, para produzir uma colheita real. Por isso, escute uma parábola. Aqueles que têm ouvidos para ouvir, escutem, porque as parábolas estão por todo o lado.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 06-06-2021

X Domingo do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

 

Ambrogio Bergognone, Cristo com S. João e Nossa Senhora no Calvário

 

O que significa esta palavra que os padres espirituais na Igreja usaram muito e nos ensinaram: a familiaridade com Deus?

Entrar na casa de Jesus, viver a atmosfera que aí existe.

Viver ali, contemplar, ser livre, ali. Estar com Ele, olhar para Ele, ouvir a sua palavra, procurar praticá-la, falar com Ele.

Um diálogo simples. Mas além do «estar com o Senhor», é importante «permanecer no Senhor»

Papa Francisco, 2017

 

 

 

Igreja Sinodal: Escuta mútua

Vatican News+Ecclesia

Miguel Ângelo, Criação do Mundo

O Papa Francisco lembrou-nos várias vezes que uma Igreja sinodal é uma Igreja caracterizada pela escuta: pela escuta mútua na qual todos – fiéis, bispos e o bispo de Roma – aprendem uns com os outros; e sobretudo por uma escuta, todos juntos, do Espírito Santo.

Nos caminhos sinodais, a voz do Povo de Deus tem um lugar específico e é fundamental encontrar formas de incentivar neles uma participação efectiva de todos os baptizados.

Esta perspectiva tem caracterizado a maneira como o Papa Francisco interpretou o Sínodo ao longo do seu Pontificado. Vimos isso no Sínodo sobre os jovens e depois no Sínodo sobre a Amazónia: a escuta e a participação dos jovens e dos povos indígenas tiveram um impacto crucial na sua preparação e realização.

Um novo itinerário procura promover a «escuta real» das comunidades e a sua participação.
O Vaticano anunciou a realização da 16ª assembleia geral do Sínodo dos Bispos em Outubro de 2023, precedido por um processo inédito de consulta, com assembleias diocesanas e continentais. O percurso para a celebração do Sínodo será dividido em três fases, entre Outubro de 2021 e Outubro de 2023.

A assembleia de 2023, convocada pelo Papa Francisco, tem como tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”.
A Secretária-Geral do Sínodo dos Bispos, Nathalie Becquart, fala numa modalidade inédita de preparação deste encontro mundial, que visa possibilitar a escuta real do Povo de Deus e garantir a participação de todos no processo sinodal. Não é apenas um acontecimento, mas um processo que envolve em sinergia o Povo de Deus, o Colégio Episcopal e o bispo de Roma, cada um segundo a sua função.

Em Setembro de 2018, o Papa publicou a constituição apostólica ‘Episcopalis Communio’ (Comunhão Episcopal) com a qual reforçou o papel do Sínodo dos Bispos, sublinhando a importância de continuar a dinâmica do Concílio Vaticano II (1962-1965).
Em mais de 50 anos, as assembleias sinodais foram sempre consultivas, mas o Papa recorda que, segundo o Direito Canónico, o Sínodo goza de poder deliberativo, quando lhe é concedido pelo pontífice.
A nova constituição apostólica promove uma aproximação das assembleias sinodais ao modelo dos concílios ecuménicos [mundiais], como o que foi realizado entre 1962 e 1965, em quatro sessões.

A abertura do Sínodo de 2023 acontece no Vaticano, sob a presidência do Papa, nos dias 9 e 10 de Outubro deste ano, e em cada diocese católica, a 17 de Outubro, sob a presidência do respectivo bispo. Estas celebrações dão início à “fase consultiva”, a partir de um documento preparatório, um questionário e um vademecum com propostas de consulta em cada diocese.

A consulta ao Povo de Deus em cada diocese terminará com uma reunião presidencial, que será o momento culminante do discernimento diocesano. As conclusões de cada diocese vão ser enviadas à respectiva Conferência Episcopal, para redacção de uma síntese que deve chegar ao Vaticano antes de Abril de 2022.
Os contributos alargam-se aos organismos da Cúria Romana, Universidades, Faculdades de Teologia, Uniões de Superiores e Superioras Gerais de Institutos Religiosos, Federações de Vida Consagrada e movimentos internacionais de leigos.

O Sínodo dos Bispos pode ser definido, em termos gerais, como uma assembleia de representantes dos episcopados católicos de todo o mundo, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa de ajudar o Papa no governo da Igreja.

A economia de Francisco

D. Erio Castellucci, Arcebispo de Modena, Itália, 2020

O futuro da fé cristã está ligado à capacidade das comunidades cristãs darem corpo ao sonho de Jesus, o sonho do Reino de Deus. As intuições e provocações devem tornar-se educação, sob pena de o cristianismo se tornar insignificante.

Hoje, as nossas comunidades jogam a sua força profética na relação com os bens. É indispensável intensificar a acção formativa a partir dos adolescentes e jovens, integrando aquela relação no itinerário normal da iniciação cristã e da catequese. Os percursos sobre a educação afectiva e sobre a educação económica andam de mão dada, porque se tratam de dimensões do mesmo estilo de dom e partilha, reciprocidade e gratuidade.

A catequese cristã não pode ignorar a atitude evangélica que está na base dos dois braços da ética, a individual e a social: distinção que tem de ser superada, porque é “social” também a educação sexual, e é “individual” também a educação económica e ecológica.

O respeito pela vida nascente e morrente deve andar a par com o respeito pela vida marginalizada e indigente; a paz e a não-violência nas relações entre homem e mulher vão de mão dada com a paz nas relações sociais e internacionais; a castidade – isto é, o respeito pelo outro e a recusa da exploração – nas relações sexuais é simultânea à castidade nas relações sociais, étnicas, ambientais e inter-religiosas.

Uma das experiências pastoralmente mais dolorosas é ver as nossas comunidades cristãs divididas naquilo sobre o qual deveriam manter-se unidas, melhor, profundamente enlaçadas. Feria-me, primeiro como pároco e agora como bispo, registar no povo de Deus – inclusive em nós, ministros – uma espécie de fractura vertical entre quem leva por diante os valores da pessoa e da família, e quem empunha o porta-estandarte da sociedade e do ambiente natural. Se somos verdadeiramente católicos, não podemos adoptar a disjunção, mas a conjunção.

Enquanto a vigília pela paz for de esquerda, e rigorosamente frequentada exclusivamente por católicos “progressistas”, e a vigília pela vida for de direita, e reservada de facto aos católicos “tradicionalistas”, a Igreja permanecerá dividida.

A divisão tira força interior à evangelização. Tudo está ligado, tudo está em relação, numa espécie de fraternidade universal, como repete a Laudato si.
No caso específico da formação respeitante à economia, é preciso educar para o dever e para o interdito: os deveres derivam de um uso casto dos bens, que são sempre meios, e nunca fins, e da necessidade da sua partilha, do controlo dos investimentos para que não favoreçam transacções ilícitas e imorais, como as de armas, a proibição da especulação e do jogo, o dever de pagar os impostos, o dever do respeito pela criação, a par de uma visão crítica da denominada meritocracia, do “deus incentivo”, do dogma da eficiência, produtividade, rendimento e competitividade, os quais produzem os “descartados”; para afirmar, em vez disto, a cultura da honestidade, do dom e da misericórdia, que dá espaço também àqueles que não são vencedores e não são capazes de competir.

Competitividade, lucro, competências: estas palavras, que em conjunto formam o conceito de meritocracia, não são, decerto, iníquas, mas tornam-se quando se proferem fora do contexto concreto. Uma certa dose de competitividade é necessária e favorece a qualidade; o lucro, quando é proporcional ao trabalho, representa um elemento da sua dignidade, porque «o trabalhador é digno do seu salário»; a competência, que se apoia nos talentos de cada pessoa, é essencial para uma reta e ordenada distribuição e eficácia do trabalho.

O problema surge quando estas palavras se tornam discriminatórias para aqueles que não estão em condições de competir, não usufruem de lucro algum, e não têm os meios para desenvolver os seus talentos.

E é a fraternidade que faz a ponte entre uma pobreza a combater e uma pobreza a resgatar.

 

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 30-05-2021

Santíssima Trindade (PDF)  TEXTO

 

Rublev, Santíssima Trindade

 

A festa de hoje convida-nos a deixarmo-nos fascinar mais uma vez pela beleza de Deus; beleza, bondade e verdade inesgotável.

Mas também humilde, próxima, que Se fez carne para entrar na nossa vida, na nossa história, para que cada homem e mulher possa encontrá-la e ter a vida eterna. E isto é fé: acolher a Deus-Amor que Se doa em Cristo, deixar-se encontrar por Ele e confiar n’Ele.

Esta é a vida cristã. Amar, encontrar Deus, procurar Deus; e Ele nos procura primeiro, Ele nos encontra primeiro

Papa Francisco, 2020

 

 

 

Trindade: Deus é comunhão, vínculo, abraço

Ermes Ronchi , In Avvenire

Os nomes de Deus sobre o monte são um mais belo do que o outro: o misericordioso e piedoso, o lento para a ira, o rico de graça e de fidelidade. Moisés subiu com esforço, duas tábuas na mão, e Deus desconcerta-o e a todos os moralistas, escrevendo naquela rígida pedra palavras de ternura e de bondade.

Que chegam até Nicodemos, naquela noite de renascimento. Deus amou tanto o mundo, que lhe deu o seu Filho. Estamos no versículo central do Evangelho de João, num espanto que renasce sempre perante palavras boas como o mel, tonificantes como uma caminhada junto ao mar, entre salpicos de mar e ar bom respirado a plenos pulmões: Deus amou tanto o mundo… e a noite de Nicodemos, e as nossas, iluminam-se.

Jesus está a dizer ao fariseu medroso: o nome de Deus não é amor, é “muito amor”, Ele é “o muito-amante”. Deus, pela eternidade, considera o mundo mais importante que Ele próprio. Para me adquirir, perdeu-Se a Si mesmo. Loucura da cruz. Insanidade de Sexta-feira Santa. Mas por nós renasce: cada ser nasce e renasce do coração de quem o ama.

Experimentemos saborear a beleza destes verbos no passado: Deus amou, o Filho foi dado. Dizem, não uma esperança, mas um facto seguro e adquirido: Deus já está aqui, impregnou de Si o mundo e o mundo d’Ele está embebido
Deus já veio, está no mundo, aqui, agora, com muito amor. E repitamo-nos estas palavras a cada despertar, a cada dificuldade, de cada vez que perdemos a confiança e se faz noite.

O Filho não foi enviado para julgar. Que palavra explosiva, a repetir setenta vezes sete à nossa fé amedrontada! Eu não julgo, nem para sentenças de condenação nem para veredictos de absolvição.

Salvar quer dizer alimentar de plenitude e, depois, conservar.
Deus conserva: este mundo e eu, cada pensamento bom, cada generosa fadiga, cada dolorosa paciência; nem um cabelo da vossa cabeça se perderá, nem sequer um fio de erva, nem sequer um fio de beleza desaparecerá no nada.

O mundo é salvo porque amado. Os cristãos não são aqueles que amam Deus, são aqueles que acreditam que Deus os ama, que pronunciou o seu «sim» ao mundo, antes que o mundo diga «sim» a Ele.

Festa da Santíssima Trindade: anúncio que Deus não é em si mesmo solidão, mas comunhão, vínculo, abraço. Que nos alcançou, e liberta, e faz erguer em voo uma pulsão de amor.

Os 7 dons do Espírito Santo

Papa Francisco, Maio 2017

O Catecismo da Igreja Católica diz que: “Os sete dons do Espírito Santo são: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Completam e levam à perfeição as virtudes daqueles que os recebem”. Tornam os fiéis dóceis para obedecerem prontamente às inspirações divinas.

1. Dom de Ciência
Faz que o cristão penetre na realidade deste mundo sob a luz de Deus; vê cada criatura como reflexo da sabedoria do Criador e como caminho a Deus. Leva o homem a compreender o vestígio de Deus que há em cada ser criado. O homem foi feito para Deus e só n’Ele pode descansar, como disse Santo Agostinho. Por este dom o cristão reconhece o sentido do sofrimento e das humilhações no plano de Deus, que liberta e purifica o homem.

2. Dom do Entendimento / Inteligência
Ajuda a penetrar no íntimo das verdades reveladas por Deus e entendê-las. Por ele o cristão contempla os mistérios da fé. É um entendimento diferente daquele que o teólogo obtém pelo estudo, que é penoso e lento. É eficaz mesmo sem estudo; é dado aos pequeninos e ignorantes, desde que tenham grande amor a Deus. Por esse dom conhecemos os nossos pecados e a nossa miséria. Os santos, quanto mais se aproximaram de Deus, mais tiveram consciência do seu pecado ou da sua distância de Deus.

3. Dom da Sabedoria
Dá um conhecimento da verdade revelada por Deus. Abrange todos os conhecimentos do cristão e os põe sob a luz de Deus, mostra a grandeza do plano do Criador e a sua omnipotência. Vem da intimidade com o Senhor.

4. Dom do Conselho
Permite ao cristão tomar as decisões oportunas nas horas difíceis da vida, para que se comporte como verdadeiro filho de Deus. Isso, às vezes, exige coragem. Por ele o Espírito Santo inspira a maneira correcta de agir no momento oportuno. “Todas as coisas têm o seu tempo, e tudo o que existe debaixo dos céus tem a sua hora”; fora desse momento preciso, o que é oportuno pode tornar-se inoportuno; nem sempre é fácil discernir se é oportuno falar ou calar, ficar ou partir, dizer “sim” ou dizer “não”.

5. Dom da Piedade
Orienta todas as relações que temos com Deus e com o próximo. O Espírito Santo, mediante o dom da piedade, nos faz, como filhos adoptivos de Deus, reconhecer Deus como Pai. E, por esse facto, consideramos as criaturas com olhar novo. Este dom leva-nos a considerar o facto de que Deus é sumamente santo e sábio. É o dom que leva os santos a desejar, acima de tudo, a honra e a glória de Deus. É também o que desperta no cristão a inabalável confiança em Deus Pai. Este dom leva o cristão a ver o outro como irmão e a amá-lo como filho de Deus.

6. Dom da Fortaleza
Dá força para a fidelidade à vida cristã, cheia de dificuldades. Jesus disse que “o Reino dos céus sofre violência dos que querem entrar, e violentos se apoderam dele”. Por ele o Espírito Santo nos dá a coragem necessária para a luta diária contra nós mesmos, nossas paixões e problemas, com paciência, perseverança, coragem e silêncio. Dá-nos forças além das naturais. Esta força divina transforma os obstáculos em meios e dá-nos a paz mesmo nas horas mais difíceis.

7. Dom do Temor
Leva-nos a amá-Lo tão profundamente que tenhamos receio de ofendê-Lo. Nada tem a ver com o temor do mercenário ou o temor do castigo (do escravo); mas é o temor do amor do filho. É a rejeição que o cristão experimenta diante da possibilidade de ofender a Deus; brota das entranhas do amor. Não há verdadeiro amor sem este tipo de temor. Medo de ofender o Amado. Pelo dom do temor de Deus a vitória é rápida e perfeita, pois é o Espírito que move o cristão a dizer “não” à tentação. Está ligado à virtude da humildade, que nos faz conhecer a nossa miséria, impede a presunção e a vã glória, e assim, nos torna conscientes de que podemos ofender a Deus; daí surge o santo temor de Deus. Liga-se também à virtude da temperança; combate a concupiscência e os impulsos desordenados do coração, para não ofender e magoar a Deus.

 

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 23-05-2021

Domingo de Pentecostes (PDF)  TEXTO

Maria e a vida no Espírito Santo

Papa Francisco

Jan Hoest van Kalkar, Pentecostes

 

“A Virgem Maria ensina-nos o que significa viver no Espírito Santo e o que significa acolher a novidade de Deus na nossa vida.

Ela concebeu Jesus por obra do Espírito, e cada cristão, cada um de nós, está chamado a acolher a Palavra de Deus, a acolher Jesus dentro de si e depois levá-lo a todos.

Maria invocou o Espírito com os Apóstolos no cenáculo: também nós, todas as vezes que nos reunimos em oração, somos amparados pela presença espiritual da Mãe de Jesus, para receber o dom do Espírito e ter a força de testemunhar Jesus ressuscitado.”

(Papa Francisco, Regina Coeli, 28 de Abril de 2013)

 

 

 

 

A Igreja, Pentecostes contínuo, quer risco, invenção, poesia criativa

Ermes Ronchi, in Avvenite

A Bíblia é um livro repleto de vento e de caminhos. Assim são as narrativas do Pentecostes, repletas de caminhos que partem de Jerusalém e plenos de vento, leve como uma brisa e impetuoso como um furacão. Um vento que sacode a casa, que a enche e segue adiante; que traz pólenes de Primavera e dispersa a poeira; que traz fecundidade e dinamismo para o interior das coisas imóveis.

Enche a casa onde os discípulos estavam juntos.
O Espírito não se deixa sequestrar em certos lugares que dizemos sagrados. Agora sagrada torna-se a casa. A minha, a tua e todas as casas são o céu de Deus. Vem de imprevisto, e são apanhados de surpresa, não estavam preparados, não tinha sido programado.

O Espírito não suporta esquemas, é um vento de liberdade, fonte de vida livre.
Aparecem línguas de fogo que pousavam em cada um. Em cada um, ninguém excluído, nenhuma distinção a fazer. O Espírito toca cada vida, a todas diversifica, faz nascer criadores. As línguas de fogo dividem-se e cada qual ilumina uma pessoa diferente, uma interioridade irredutível. Cada uma deles desposa uma liberdade, afirma uma vocação, renova uma existência única.

Precisamos do Espírito, d’Ele precisa o nosso pequeno mundo estagnado, sem ímpeto. Para uma Igreja que seja guardiã de liberdade e de esperança. O Espírito com os seus dons dá a cada cristão uma genialidade que lhe é própria. E temos extrema necessidade de discípulos de génio. Ou seja, precisamos que cada um acredite no seu próprio dom, na própria unicidade, e que coloque a sua própria criatividade e coragem ao serviço da vida. A Igreja como Pentecostes continuo quer o risco, a invenção, a poesia criativa, a batalha da consciência.

Depois de ter criado cada ser humano, Deus parte o seu molde e lança-o fora. O Espírito faz-te único na tua maneira de amar, na tua maneira de dar esperança. Único na maneira de consolar e encontrar; único na maneira de desfrutar a doçura das coisas e a beleza das pessoas.

Ninguém sabe cuidar como tu sabes; ninguém tem essa alegria de viver que tu tens; e ninguém tem o dom de compreender os factos como tu os compreendes. Esta é precisamente a obra do Espírito: quando o Espírito vier, guiar-vos-á para toda a verdade.
Jesus que não tem a pretensão de dizer tudo, como ao contrário e demasiadas vezes O consideramos, que tem a humildade de afirmar: a verdade está à frente de nós, é um caminho a ser feito, um devir.

Eis, então, a alegria de ouvir que os discípulos do Espírito pertencem a um projecto aberto, não a um sistema fechado, onde já está tudo pré-estabelecido e definido. Que em Deus quanto mais se navega, mais se descobrem novos mares. E que nunca faltará o vento ao meu veleiro.

O segredo do Espírito Santo é o dom

Papa Francisco, Maio 2020

Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; e há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos» (1 Cor 12, 4-6).
Diversidade e o mesmo, diversos e um só: o Apóstolo insiste em juntar duas palavras que parecem opostas. Quer-nos dizer que este um só que junta os diversos é o Espírito Santo. E a Igreja nasceu assim: diversos, unidos pelo Espírito Santo.

Recuemos até aos inícios da Igreja, no dia de Pentecostes, e fixemos os Apóstolos: entre eles, temos pessoas simples, habituadas a viver do trabalho das suas mãos, como os pescadores, e está Mateus, certamente dotado de instrução pois fora cobrador de impostos. Existem origens e contextos sociais diversos, nomes hebraicos e nomes gregos, temperamentos pacatos e outros ardorosos, ideias e sensibilidades diferentes. Eram todos diferentes. Jesus não os mudara, nem os uniformizara, tornando-os modelos em série. Não. Deixara as suas diversidades; e agora une-os, ungindo-os com o Espírito Santo. A união – a união deles que eram diversos – vem com a unção.

No Pentecostes, os Apóstolos compreendem a força unificadora do Espírito. Vêem-na com os próprios olhos, ao constatar que todos, apesar de falar línguas diversas, formam um só povo: o povo de Deus, plasmado pelo Espírito, que tece a unidade com as nossas diferenças, que dá harmonia porque, no Espírito, há harmonia. Ele é a harmonia.

Hoje o que é que nos une, em que se baseia a nossa unidade? Também entre nós existem diversidades, por exemplo de opinião, preferência, sensibilidade.

A tentação, porém, é defender sempre de espada desembainhada as nossas ideias, considerando-as boas para todos e pactuando apenas com quem pensa como nós. E esta é uma tentação ruim, que divide. Mas, esta é uma fé à nossa imagem, não é aquilo que deseja o Espírito. Nesse caso, poder-se-ia pensar que aquilo que nos une fossem as próprias coisas em que acreditamos e os próprios comportamentos que adoptamos. Mas não! Há muito mais: o nosso princípio de unidade é o Espírito Santo. E a primeira coisa que Ele nos lembra é que somos filhos amados de Deus; nisto, todos iguais e, todavia, somos todos diferentes.
O Espírito vem a nós, com todas as nossas diversidades e misérias, para nos dizer que temos um só e mesmo Senhor, Jesus, um só e mesmo Pai; por isso, somos irmãos e irmãs.

Olhemos a Igreja como faz o Espírito, não como faz o mundo. O mundo vê-nos de direita e de esquerda, com esta ideologia, com aquela; o Espírito vê-nos do Pai e de Jesus. O mundo vê conservadores e progressistas; o Espírito vê filhos de Deus. O olhar do mundo vê estruturas, que se devem tornar mais eficientes; o olhar espiritual vê irmãos e irmãs implorando misericórdia. O Espírito ama-nos e conhece o lugar de cada um no todo: para Ele não somos papelinhos coloridos levados pelo vento, mas ladrilhos insubstituíveis do seu mosaico.

A primeira obra da Igreja é o anúncio. Vemos, porém, que os Apóstolos não preparam uma estratégia; quando estavam fechados lá, no Cenáculo, não montavam a estratégia, não; não preparavam um plano pastoral. Teriam podido dividir as pessoas por grupos segundo os vários povos, falar primeiro aos de perto e depois aos que eram de longe, tudo bem ordenado… Teriam podido também temporizar um pouco no anúncio e, entretanto, aprofundar os ensinamentos de Jesus, para evitar riscos… Mas não! O Espírito não quer que a recordação do Mestre seja cultivada em grupos fechados, em cenáculos onde tendemos a «fazer o ninho». E esta é uma doença má que pode vir à Igreja: uma Igreja não comunidade, nem família, nem mãe, mas ninho. O Espírito abre, relança, impele para além do que já foi dito e feito, Ele impele para além dos recintos duma fé tímida e cautelosa.

No mundo, sem uma estrutura compacta e uma estratégia calculada é um fracasso. Na Igreja, ao contrário, o Espírito assegura ao arauto a unidade. Os Apóstolos anima-os um único desejo: dar o que receberam.
O segredo da unidade da Igreja, o segredo do Espírito é o dom.

 

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018