Folha Informativa 26-05-2019

Domingo VI da Páscoa (PDF)     TEXTO

Virgem Maria e Jesus, Master of Blinking Eye

Neste mês de Maria, peço a Jesus que me deixe sentar no outro braço da sua e nossa Mãe do Céu.

E, a Nossa Senhora, supliquei que me concedesse  a graça do seu colo, para que,
junto ao seu Coração Imaculado, aprenda a amar Jesus e, em Cristo, todos os meus irmãos..

Gonçalo de Portocarrera, Ao colo da melhor mãe do mundo

 

 

A morada de Deus em nós

Armindo dos Santos Vaz

O filho pródigo (pormenor), Rembrandt

Santa Teresa é mestra na experiência de Deus, partilhada com os leitores, convidados a darem sentido à vida.

Num mundo cada vez mais focado em ambições de poder e em omnipotências de ter e de prazer – que, ao fim e ao cabo, nos deixam talvez de coração vazio mas certamente reduzidos às imprevisíveis irrupções e aos inevitáveis embates da radical fragilidade humana –, o alerta de Teresa soa assim: não estamos ocos; somos habitados por Aquele que quer dar sentido último à nossa existência.

O ser humano de hoje tem dificuldade em encontrar Deus, talvez porque tem dificuldade em encontrar-se a si mesmo. Anda perdido ou distraído com o barulho mediático e informático à sua volta.

Santa Teresa propõe que entremos na zona mais nobre da nossa intimidade para aí reconhecermos o Deus que está à nossa espera. Enquanto Ele for «um estranho na nossa morada» ou nela for considerado uma presença irrelevante, estamos a ignorar algo determinante na vida: desperdiçamos a intimidade da morada de Deus em nós.

Para Santa Teresa, o ser humano é no seu interior “outro céu, onde só Sua Majestade mora”. É um ser «capaz de Deus», capaz de amar como Deus o ama: quando orienta a sua vida para Deus, seguindo o Jesus do evangelho, é mais fiel à sua verdade de humano.

Santa Teresa partilhou com os perdidos num mundo distraído o que ela, tão atenta, encontrou: um caminho e uma morada, precisamente os títulos de seus dois grandes livros. São as duas perspectivas fundamentais que qualquer vida precisa de ter para singrar orientada e com um objectivo que lhe dê felicidade autêntica. Ela percebeu que o que orienta e ilumina o “caminho” é o ardente desejo de habitar a rica e esplêndida “morada” definitiva. Percebeu o evangelho. Viu-se a si própria como morada do amor de Deus: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o “amará” e viremos a ele e estabeleceremos “morada” nele». Mas também viu Deus como morada para ela: Na casa de meu Pai há muitas moradas».
Quanto mais densa vida interior na oração, mais real será a entrega às causas humanas.

A experiência do Espírito remete sempre para o amor concreto. E a espiritualização autêntica redunda sempre em humanização. “E quando as obras activas saem desta raiz que é o interior, são admiráveis e muito cheirosas flores. Procedem desta árvore do amor de Deus; e só por ele, sem nenhum interesse próprio, espalha-se o odor destas flores para proveito de muitos; e é perfume que dura”.

Abertos às surpresas

Papa Francisco, 28.04.2015

Deus é o Deus das novidades: “Renovo todas as coisas”, disse-nos»; não compreendiam que o Espírito Santo veio precisamente para nos renovar e age continuamente para isso. Aliás, isto é assustador.

Na história da Igreja podemos ver desde então até hoje quantos temores suscitaram as surpresas do Espírito Santo. E a quem quisesse objectar: «Mas, padre, há novidades e novidades! Algumas, vê-se que são de Deus, outras não», respondo com as palavras de Pedro aos irmãos de Jerusalém, quando foi repreendido por ter entrado na casa de Cornélio: «Quando vi que a eles foi dado o que tínhamos recebido, quem era eu para negar o baptismo?».

Esta ideia está também presente no trecho da liturgia do dia sobre Barnabé, definido «homem virtuoso» e «cheio do Espírito Santo». Nos dois há o Espírito Santo, que faz ver a verdade.
O que, ao contrário, sozinhos não podemos fazer. Com a nossa inteligência não podemos, Podemos estudar toda a história da salvação, a teologia inteira, mas sem o Espírito nada podemos entender.

É precisamente Ele que nos faz compreender a verdade ou – utilizando as palavras de Jesus – é o Espírito que nos faz conhecer a voz de Jesus: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, conheço-as, e elas seguem-me”».
A Igreja vai em frente graças à obra do Espírito Santo. É ele que age. O próprio Jesus disse aos apóstolos: “Enviar-vos-ei o dom do Pai, que vos fará recordar e vos ensinará”. Como?

Por isso, nos primeiros discursos, inclusive no de Estêvão, há uma releitura de todas as profecias. É obra do Espírito Santo, que faz recordar a história na óptica de Jesus ressuscitado: “e ele ensinar-vos-á o caminho”.

Como fazer para ter a certeza de que a voz que ouvimos é a de Jesus e o que temos vontade de fazer é obra do Espírito Santo? É preciso rezar. Sem oração, não há espaço para o Espírito; é necessário pedir a Deus que nos envie este dom: “Senhor, dá-nos o Espírito Santo para que possamos discernir em cada tempo o que devemos fazer”. Isto não significa repetir sempre a mesma coisa. A mensagem é a mesma: mas a Igreja vai em frente com estas surpresas, com estas novidades do Espírito Santo.

Estou ciente das objecções que poderiam ser feitas a este raciocínio: «Mas, padre, por que levantar tantos problemas? Façamos tudo como sempre fizemos, assim estamos certos». Esta hipótese poderia ser uma alternativa mas seria estéril; de “morte”. Mas é muito melhor arriscar, com a oração, a humildade, aceitar o que o Espírito nos pede para mudar de acordo com o tempo no qual vivemos: este é o caminho.

 

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Folha Informativa 19-05-2019

Domingo V da Páscoa (PDF)     TEXTO

Madre Teresa cuidando dos pobres

A convicção de que, quanto mais pobres são,  mais os pobres representam Cristo levava Madre Teresa e a sua ordem a uma essencialidade radical.

No interior dessa dimensão essencial, as suas almas,  em contraste com a vida austera, eram ricas.

Não seria essa a causa do seu optimismo contínuo e extremo?

Morihiro Oki, Madre Teresa: amor sem limites

 

 

A concretude do amor cristão

Papa Francisco, Meditações matutinas, 7 Janeiro 2019

Giotto di Bondone, Lava-pés

Precisamos da concreta loucura apostólica dos santos de todas as épocas — capazes de queimar a própria vida socorrendo os migrantes ou permanecendo entre os leprosos — para sermos realmente cristãos.

O apóstolo João na primeira carta aos cristãos apresenta-nos um bonito desafio: que recebamos de Deus tudo o que pedimos, contanto que observemos os seus mandamentos e façamos o que for do seu agrado. E isto significa que o acesso a Deus é aberto, a porta está aberta e a chave é esta: observar os seus mandamentos e fazer o que lhe agrada.

E o seu mandamento, o primeiro, o fundamento da nossa fé é que acreditemos no nome do seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros. Por isso, se crermos em Jesus Cristo e nos amarmos uns aos outros, abre-se a porta a Deus.(…)

Para crer em Jesus Cristo não é suficiente dizer: «Sim, padre, creio em Jesus Cristo, fito o crucifixo e nele vejo o Filho de Deus».
Na realidade, João vai além e diz: significa «crer que Deus, o Filho de Deus veio na carne e se fez um de nós».

Precisamente esta é a fé em Jesus Cristo: um Jesus Cristo, um Deus concreto, que foi concebido no seio de Maria, nasceu em Belém, cresceu como criança, fugiu para o Egipto, voltou para Nazaré e com o seu pai aprendeu a ler, a trabalhar, a ir em frente e depois a pregar.
Concreto, um homem concreto, um homem que é Deus mas homem. Não é Deus disfarçado de homem, não. Homem, Deus que se fez homem. A carne de Cristo. Tal é a realidade do primeiro mandamento.

Também o segundo mandamento é concreto: amar, amar-nos uns aos outros, amor concreto, não amor de fantasia, que talvez me leve a dizer: «Amo-te, quanto te amo!» mas depois, com a minha língua, destruo-te com as bisbilhotices: não, isto não!.
O amor é concreto. E os mandamentos de Deus são concretos, porque o critério do Cristianismo é a concretude, não as ideias nem as palavras boas. (…)

João é um apaixonado pela encarnação de Deus que entendeu o mistério de Jesus.
E foi precisamente a sua amizade com Jesus que o fez entender isto.
Na sua primeira carta, João escreve: «Não deis fé a todos os espíritos mas ponde-os à prova». E isto significa que quando te surgir uma ideia sobre Jesus, sobre as pessoas, sobre o que fazer, sobre o pensamento de que a redenção vai por aquele caminho, põe à prova tal inspiração.

De resto, a vida do cristão é concretude na fé em Jesus Cristo e na caridade, mas é também vigilância espiritual, porque te surgem sempre ideias ou falsos profetas que te propõem um Cristo “soft”, sem muita carne, e o amor ao próximo é um pouco relativo.
Assim, acabamos por dizer: «Sim, estes estão do meu lado, mas aqueles não».

Contudo quando estas derivas começam a insinuar-se, afastemo-nos.
E é por isso que a atitude do cristão deve pôr em primeiro lugar a fé: Cristo veio na carne e a fé está no grande mandamento, no amor concreto.
Em segundo lugar, é preciso prestar atenção e discernir o que acontece. E assim é oportuno discernir se me veio à mente fazer algo.
E discerni-lo com esta grande verdade: a encarnação do Verbo e o amor concreto.

Por isso, a vigilância espiritual é importante.
No final do dia o cristão deve reflectir dois, três, cinco minutos e dizer: “Mas o que aconteceu no meu coração hoje?”». Deve averiguar consigo mesmo não tanto se cometeu um pecado ou outro, pois isto diz respeito ao sacramento da reconciliação, mas o que aconteceu no seu coração, que inspiração teve, que vontade de fazer algo.
As perguntas a fazer a si mesmo são: «Isto significa permanecer no Senhor? É segundo o espírito do Senhor?».
Sem dúvida, às vezes alguém pode dizer: “Mas o que me veio à mente é uma loucura”; contudo, talvez seja uma “loucura” do Senhor.

Nesta perspectiva não devemos ter medo, mas discernir: o que acontece comigo. E quem ajuda a discernir é o povo de Deus, a Igreja, a unanimidade da Igreja, o irmão, a irmã, que têm o carisma de nos ajudar a ver com clareza.

Por isso, para o cristão é importante o diálogo espiritual com pessoas que têm autoridade espiritual: não é necessário ir ter com o Papa nem com o bispo para ver se o que sinto é bom: há muita gente, sacerdotes, religiosas e leigos que têm a capacidade de nos ajudar a ver o que acontece no nosso espírito, para não errar.

 

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Folha Informativa 12-05-2019

Domingo IV da Páscoa (PDF)     TEXTO

Seguir Jesus Cristo

Frei Carlos, O Bom Pastor (detalhe)

Seguir Jesus Cristo é, para toda a Igreja, consequência da vocação à santidade nascida do Baptismo,  mas principalmente os bispos e os presbíteros sejam, em primeiro lugar, as testemunhas da santidade no ministério recebido em dom.

Com a vida e o ensinamento mostrem a alegria  de seguir Jesus, Bom Pastor, e a eficácia renovadora do ministério da sua Páscoa de redenção.

D. José Manuel Cordeiro, In “O Padre – Do mistério ao ministério”

 

 

Jesus, porta para a liberdade

Enzo Bianchi, In “Monastero di Bose”

O Bom Pastor, ícone bizantino

«Ámen, ámen, Eu vos digo: quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas por outra parte, é um ladrão e um bandido». As solenes palavras de Jesus evidenciam uma oposição: há aqueles que entram no redil do rebanho não através da porta, que é vigiada, mas passando por cima da cerca.

Estes são os ladrões e os bandidos: as ovelhas não lhes pertencem, mas eles querem apoderar-se delas (…); na realidade são lobos, falsos pastores que não cuidam das necessidades das ovelhas mas só pensam em si próprios.

Ao invés, «o pastor das ovelhas entra através da porta» e o guarda colocado à entrada reconhece-o e abre-a; então «as ovelhas escutam a sua voz: Ele chama as suas ovelhas, cada uma pelo nome, e condu-las para fora». Jesus é este pastor e o Pai é o guardião que abre a porta. Foi o Pai que Lhe deu as ovelhas, que O enviou, que tudo colocou nas suas mãos. Por isso o Pai reconhece Jesus como único pastor do rebanho, e assim fazem também as ovelhas: reconhecem a sua voz, escutam-na e exultam, cada qual por Ele chamada com o próprio nome.

Jesus tem uma tarefa precisa: chamando as ovelhas pelo nome, fá-las “sair”, faz-lhes realizar um êxodo do redil para os pastos abertos, para a liberdade.
Esta acção é mais do que o fazer sair Moisés do Egipto para a terra prometida, porque é um fazer sair da escravidão para a liberdade, da morte para a vida para sempre. Nestas poucas palavras delineia-se todo o caminho do discípulo, ovelha do rebanho de Jesus: deve escutar a voz do pastor, deve reconhecê-la como palavra para si, deve por isso conhecer o pastor e, portanto, segui-l’O para os pastos da liberdade, em vista de uma «vida em abundância».

O pastor define-se depois como «porta». (…)Jesus não diz que é a porta do redil, mas a porta das ovelhas! Ele não é uma porta que faz aceder a um redil, a uma instituição, mas uma porta ao serviço das ovelhas.

No Antigo Testamento a imagem da porta é reveladora de uma passagem para o céu, de uma passagem para aceder à presença do Senhor; mas aqui é Jesus que Se torna porta pequena e estreita, único caminho de entrada e de saída para Deus, o Pai.

Chegada a plenitude dos tempos, quando «se adora em Espírito e Verdade», Jesus é agora o único acesso a Deus, a única via para fazer parte do rebanho do Senhor: é uma porta aberta para um espaço sem limites. Nos últimos discursos aos seus discípulos, dirá: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida», palavras que explicitam a afirmação: «Eu sou a porta», que exprimem e são o caminho que conduz ao conhecimento de Deus e, portanto, à vida para sempre.

 

Nós somos seus

Papa João Paulo II, 27 Abril 1980

Cristo, Bom Pastor, conhece cada um de nós de modo diversificado. No Evangelho de hoje diz a tal propósito estas palavras insólitas.
Olhemos para o Calvário, no qual foi elevada a Cruz. Naquela cruz morreu Cristo, e foi em seguida deposto no túmulo. Olhemos para a cruz, na qual se realizou o mistério do divino “legado” e da divina “herança”. Deus, que tinha criado o homem, restituiu esse homem, depois do pecado – cada homem e todos os homens – de modo particularizado a seu Filho.

Quando o Filho subiu à cruz, quando na cruz ofereceu o seu sacrifício, aceitou simultaneamente o homem que Lhe fora confiado por Deus, Criador e Pai. Aceitou e abraçou, com o seu sacrifício e o seu amor, o homem: cada homem e todos os homens. Na unidade da Divindade, na união com o seu Pai, este Filho tornado, Ele mesmo, homem – e ei-Lo agora na cruz tornado “nossa Páscoa” – restituiu cada um e todos nós ao Pai, como a Quem nos criou à sua imagem e semelhança e, à imagem e semelhança deste próprio eterno Filho, predestinou-nos “para sermos Seus filhos adoptivos por obra de Jesus Cristo”.

E por esta adopção mediante a graça, por esta herança da vida divina, por este penhor da vida eterna, lutou até ao fim Cristo “nossa Páscoa”, no mistério da Sua Paixão, do seu Sacrifício e da sua Morte. A Ressurreição tornou-se a confirmação da sua vitória: vitória do amor do Bom Pastor que diz: “elas seguem-Me. Dou-lhes a vida eterna, nunca hão-de perecer, e ninguém as há-de arrebatar da minha mão”.
Nós somos seus.

Cristo é o Bom Pastor pois conhece o homem: cada um e todos. Conhece-o com este único conhecimento pascal. Conhece-nos porque nos remiu e porque “pagou por nós”: estamos resgatados por alto preço.

Conhece-nos com o conhecimento e com a ciência mais “interior”, com o mesmo conhecimento com que Ele, Filho, conhece e abraça o Pai e, no Pai, abraça a Verdade infinita e o Amor. E, mediante a participação nesta Verdade e neste Amor, Ele de novo faz de nós, em Si mesmo, os filhos do seu Eterno Pai; obtém, de uma vez para sempre, a salvação do homem: de cada homem e de todos, daqueles que ninguém arrebatará da sua mão… Quem, na verdade, poderia arrebatá-los?

Quem pode aniquilar a obra do próprio Deus, que o Filho realizou em união com o Pai? Quem pode mudar o facto de estarmos remidos? Facto tão poderoso e tão fundamental como a criação mesma?

Não obstante toda a instabilidade do destino humano e a fraqueza da vontade e do coração, a Igreja ordena-nos hoje que olhemos para o poder e para a força irreversível da redenção, que vive no coração e nas mãos e nos pés do Bom Pastor.
Daquele que nos conhece…

Tornámo-nos de novo a propriedade do Pai por obra deste Amor, que não recuou diante da ignomínia da Cruz, para poder assegurar a todos os homens: “Ninguém vos arrebatará da minha mão”.

 

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Folha Informativa 05-05-2019

Domingo III da Páscoa (PDF)     TEXTO

Nossa Senhora com Menino Jesus. Trabalho em madeira séc. XVIII

É meio-dia. Vejo a igreja aberta. Tenho de entrar.

Mãe de Jesus, hoje não vos venho pedir nada.

Nada tenho para oferecer nem para pedir.

Venho somente para vos poder ver.

Olhar-vos, chorar de felicidade por saber que sou vosso filho  e que vós sois minha Mãe.

Paul Claudel

 

 

Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem

São Gregório Magno

O mar simboliza o mundo actual, batido pelas ondas tumultuosas das nossas ocupações e pelos turbilhões de uma vida caduca.

E a terra firme da margem representa a perpetuidade do descanso eterno.

Os discípulos afadigam-se no lago porque ainda estão presos nas ondas da vida mortal, mas o nosso Redentor, depois da sua ressurreição, permanece na margem, uma vez que já ultrapassou a condição da fragilidade da carne.

É como se Ele tivesse querido servir-Se dessas coisas para falar aos seus discípulos do mistério da sua ressurreição, dizendo-lhes: «Já não vos apareço no mar, porque já não estou entre vós, no meio da agitação das ondas».

 

A última audiência geral de Bento XVI: espiritualidade e missão

Neste momento há em mim uma grande confiança porque sei, sabemos todos, que a Palavra da verdade do Evangelho é a força da Igreja, é a sua vida.

O Evangelho purifica e renova, dá fruto onde a comunidade de crentes o escuta e acolhe a graça de Deus na verdade e na caridade. Esta é a minha confiança, esta é a minha alegria.

Quando, a 19 de Abril de há quase oito anos, aceitei assumir o ministério petrino, tive a firme convicção que sempre me acompanhou: esta certeza da vida da Igreja a partir da Palavra de Deus. Naquele momento, como já expressei várias vezes, as palavras que ressoaram no meu coração foram: Senhor, por que me pedes isto e o que me pedes? É um grande peso aquele que pões sobre os ombros, mas se Tu mo pedes, sobre a tua palavra lançarei as redes, certo que Tu me guiarás, mesmo com todas as minhas fraquezas.

E oito anos depois posso dizer que o Senhor me guiou, foi-me próximo, pude sentir a sua presença todos os dias. Foi uma parte do caminho da Igreja, que teve momentos de alegria e luz, mas também momentos difíceis; senti-me como São Pedro com os Apóstolos na barca sobre o Mar da Galileia: o Senhor deu-nos muitos dias de sol e brisa leve, dias em que a pesca foi abundante; houve também momentos em que as águas eram agitadas e o vento contrário, como em toda a história da Igreja, e o Senhor parecia dormir.

Mas eu sempre soube que o Senhor está naquele barca, e sempre soube que a barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas d´Ele. E o Senhor não a deixa afundar; é Ele que a conduz, certamente através dos homens que escolheu, porque assim o quis.

Esta foi e é uma certeza, que nada pode obscurecer. E é por isso que hoje o meu coração está cheio de gratidão a Deus porque nunca fez faltar a toda a Igreja, e também a mim, a sua consolação, a sua luz, o seu amor.

Estamos no “Ano da Fé”, que eu quis para reforçar a nossa fé em Deus, num contexto que parece colocá-la sempre mais em segundo plano.
Gostaria de convidar todos a renovar a firme confiança no Senhor, a confiar-nos como crianças nos braços de Deus, certos que esses braços nos apoiam sempre e são o que nos permite caminhar todos os dias, mesmo na fadiga.

Gostaria que cada um se sentisse amado por aquele Deus que deu o seu Filho por nós e nos mostrou o seu amor sem limites.
Gostaria que cada um sentisse a alegria de ser cristão.

Numa bela oração que se recita todas as manhãs, diz-se: «Adoro-te, meu Deus, e amo-te com todo o coração. Agradeço-te por me teres criado, feito cristão…».

Sim, estamos felizes pelo dom da fé; é o bem mais precioso, que ninguém nos pode tirar! Agradeçamos ao Senhor por todos os dias, com a oração e com uma vida cristã coerente. Deus ama-nos, mas espera que também nós o amemos!

 

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Folha Informativa 28-04-2019

Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia (PDF)     TEXTO

Sandro Botticelli. Descida do Espírito Santo

A misericórdia abre a porta da mente para compreender melhor o mistério de Deus e da nossa existência pessoal.

É a misericórdia que abre a porta do coração e permite exprimir a proximidade com quantos estão sós e marginalizados, porque os faz sentir irmãos e filhos de um só Pai.

Ela favorece o reconhecimento de quantos precisam de consolação
e faz encontrar palavras adequadas para dar conforto.

A primeira tarefa que Jesus, depois de ressuscitado, transmitiu à Igreja foi a sua própria missão de levar a todos o anúncio concreto do perdão. Esse sinal visível da sua misericórdia leva consigo a paz do coração e a alegria do encontro renovado com o Senhor.

Papa Francisco. 2017

 

 

O Espírito Santo é a respiração de Deus

Ermes Ronchi, In Avvenire

Giotto di Bondone. Descida do Espírito Santo

Estando fechadas as portas da casa por causa do medo dos judeus…

Acontece sempre assim quando se age segundo o medo: a vida fecha-se. O medo paralisa a vida. Os discípulos têm medo até de si próprios, de como O renegaram. E todavia, Jesus vem. É uma comunidade de portas e janelas enclausuradas, onde falta o ar e se respira a dor, uma comunidade que está a adoecer.

E todavia, Jesus vem.
O papa Francisco continua a repetir que uma Igreja fechada, dobrada sobre si mesma, que não se abre, é uma Igreja doente.

E no entanto, Jesus vem. Vem para o meio dos seus, toca os seus medos, os seus limites, sem os temer. Sabe gerir a nossa imperfeição.
Mostrou-lhes as mãos e o lado. E os discípulos rejubilaram ao ver o Senhor.

Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós.»
O abandonado regressa e escolhe precisamente aqueles que O tinham abandonado e envia-os. Administra a fragilidade e o cansaço dos seus com um método humaníssimo: o do primeiro passo.

O cardeal Martini dizia aos seus padres: em qualquer situação, mesmo na mais perdida, apontai um passo, um primeiro passo é sempre possível, para todos, um passo na direcção certa.
Não é por não termos atingido o ideal que seremos julgados, mas se tivermos caminhado na boa direcção, sem desistirmos, com quedas e infinitos recomeços, com os olhos fixos numa estrela polar.

Administrar a imperfeição significa isto: iniciar processos de vida e procurar obter o melhor resultado possível a cada dia. Muitos atirar-te-ão à cara a sua ideia de perfeição.
São, além disso, os mais convencidos de que exprimem a verdadeira sabedoria, mas com eles as coisas nunca mudam, na maior parte das vezes os perfeitos são imóveis.

Disto isto, soprou e disse-lhes: recebei o Espírito Santo.
Soprou… O Espírito é a respiração de Deus. Naquela sala fechada, naquela situação sem respiração, asfixiante, agora respira a respiração de Cristo, aquele princípio vital e luminoso, aquela intensidade que o fazia diferente, que fazia único o seu modo de amar e ampliava horizontes.

Àqueles a quem perdoardes o pecados, serão perdoados, àqueles a quem não perdoardes, não serão perdoados.
O perdão dos pecados não é uma missão reservada aos padres, é um compromisso confiado a todos os crentes que receberam o Espírito, homens e mulheres, pequenos e grandes.
O perdão não é um sentimento, mas uma decisão: «Plantai à vossa volta oásis de reconciliação, abri portas, reacendei o entusiasmo, reatai a confiança nas pessoas, criai sistemas de paz.
E quando os oásis se multiplicarem, conquistarão o deserto.

 

O meu Deus é um Deus ferido

Tomáš Halík

Ludovico Mazzolino. A incredulidade de S. Tomé

A fé cristã consiste em estabelecer uma relação constante entre o Evangelho e a nossa vida; consiste na coragem de «entrar nesta história».

Trata-se de tentar redescobrir, de forma sempre nova e mais profunda, o sentido das narrativas bíblicas, com base nas próprias experiências de vida, deixar actuar as possantes e fortes imagens do Evangelho para que elas, gradualmente, iluminem, interpretem e transformem o fluxo da nossa vida pessoal.

Muitos acontecimentos, vivências, ideias e intuições do instante precisam do seu tempo para em nós amadurecerem e darem fruto. (…)

Ninguém pode arrebatar-me a esperança de que «o Deus dos outros» seja, em última instância, também o «meu Deus»; porque o Deus em que acredito é igualmente o Deus daqueles que não conhecem o Nome, com que eu o invoco.

Todavia, de um só fôlego, acrescento e confesso: “para mim”, não há outro caminho, não há outra porta para Ele, excepto aquela que é aberta por uma mão chagada e um coração trespassado. Não posso clamar «“meu”Senhor e “meu” Deus», se não vir a ferida que chega ao coração.

Se «credere» (crer) deriva de «cor dare» (dar o coração), então, devo confessar que o meu coração e a minha fé pertencem apenas ao Deus que pode mostrar as suas chagas. (…)

Tomé era um homem disposto a seguir o seu Mestre até ao fim mais acerbo e difícil. Tomou a sério a cruz, e a notícia sobre a ressurreição afigurou-se-lhe talvez como um «happy-end» demasiado fácil para a história da paixão de Jesus. Talvez por isso se tenha recusado a aderir à alegria dos outros Apóstolos; e quis, por conseguinte, ver as chagas de Jesus.

Quis ver se «a ressurreição» não esvaziava a cruz– só então pôde pronunciar o seu «creio».
Terá, porventura, o «incrédulo Tomé» captado, no fim de contas, o sentido do evento pascal mais profundamente do que os outros?

 

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Folha Informativa 21-04-2019

Domingo da Páscoa da Ressurreição do Senhor (PDF)     TEXTO

Fra Angelico, Túmulo vazio

“O Senhor ressuscitou”, um anúncio que andava  de boca em boca, como um cumprimento,  no início do Cristianismo.

A reacção ao anúncio da ressurreição de Jesus foi  de pressa, as mulheres correm para anunciar aos outros  o que encontraram.

As surpresas de Deus colocam-nos a caminho, imediatamente.
As boas notícias dão-se sempre assim, a correr.

No entanto, entre os apóstolos, há um que toma o seu tempo, não quer arriscar, São Tomé. Mas o Senhor tem paciência para os que não vão tão depressa.
E eu, o que faço?

Papa Francisco. Páscoa 2018

 

 

Jesus, modelo na forma de abraçar a cruz

Papa Francisco, Domingo de Ramos, 2019

Ugolino di Nerio, Deposição da cruz

Jesus mostra-nos como enfrentar os momentos difíceis e as tentações mais insidiosas, guardando no coração uma paz que não é isolamento, não é ficar impassível nem fazer de super-homem, mas confiante abandono ao Pai e à sua vontade de salvação, de vida, de misericórdia.

As atitudes e comportamentos de Jesus nos momentos mais dramáticos da sua vida são modelo para todos aqueles sujeitos à angústia perante a iminência da morte ou de dificuldades aparentemente inultrapassáveis.

A Paixão de Jesus ajuda os cristãos a ter sempre presente o grande ensinamento da sua Paixão como modelo de vida e de vitória contra o espírito do mal.

Tal como muitas pessoas tentadas a agir contra a vontade de Deus, quer por ignorância, quer deliberadamente, também a Jesus foi sugerido que fizesse a sua obra, escolhendo Ele o modo e desligando-se da obediência ao Pai, cilada que rejeita.

Com efeito, Jesus ensina o ser humano que para dar espaço a Deus, só há um modo: o despojamento, o esvaziamento de si mesmo, o que em termos práticos significa calar, rezar, humilhar-se, porque com a cruz, não se pode negociar: abraça-se ou recusa-se.

A humilhação de Jesus mostra o caminho do seu coração, que vai da condição divina à condição de servo, a obediência à vontade de Deus até à morte e morte de cruz, um itinerário absolutamente oposto ao do triunfalismo que tem como maior perigo a mundanidade espiritual, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja. Outra lição que se extrai da prisão e condenação de Jesus: Prestes a ser levado à morte, resiste à tentação de responder, de ser mediático, porque nos momentos de escuridão e grande tribulação, é preciso ficar calado, ter a coragem de calar, contanto que seja um calar manso e não rancoroso.

Não se trata, como pensou um dos seus discípulos, de recorrer à violência, de empunhar a espada, mas de permanecer calmo, firme na fé, mantendo na cruz, em todas as cruzes da vida, a esperança da ressurreição.

 

Aqui começa a nova Humanidade

Giovanni Bellini, A Ressurreição

A lógica humana vai na linha da figura representada por Pedro: o amor partilhado até à morte, o serviço simples e sem pretensões, a entrega da vida só conduzem ao fracasso e não são um caminho sólido e consistente para chegar ao êxito, ao triunfo, à glória; da cruz, do amor radical, da doação de si, não pode resultar vida plena. É verdade que é esta a perspectiva da cultura dominante.
Como me situo face a isto?

A ressurreição de Jesus prova precisamente que a vida plena, a vida total, a libertação plena, a transfiguração total da nossa realidade e das nossas capacidades passam pelo amor que se dá, com radicalidade, até às últimas consequências.
Tenho consciência disso? É nessa direcção que conduzo a caminhada da minha vida?

Pela fé, pela esperança, pelo seguimento de Cristo e pelos sacramentos, a semente da ressurreição (o próprio Jesus) é depositado na realidade do homem/corpo. Revestidos de Cristo, somos nova criatura: estamos, portanto, a ressuscitar, até atingirmos a plenitude, a maturação plena, a vida total (quando ultrapassarmos a barreira da morte física).
Aqui começa, pois, a nova humanidade.

Dehonianos

 

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