Folha Informativa 28-06-2020

Domingo XIII do Tempo Comum (PDF)     TEXTO

A Folha Informativa vai de férias! Regressa em Setembro.

 

Silva Porto, Recanto de praia

 

Que esta época estival, apesar de todas as medidas de segurança relacionadas com as ameaças de contágio do coronavírus, seja um sereno tempo para repousar, apreciar a beleza da Criação e reforçar os laços com os homens e com Deus.

Papa Francisco, 2020

 

 

 

Linhas e entrelinhas

Pe. Borges, Junho 2020

Claude Monet, Mulher a ler

Habitamos o mistério e o mistério habita-nos.
Conseguimos vislumbrar uma parte e percebemos que há tanto para descobrir, para aprofundar e para admirar.
Já demos tantos passos, muitos deles improváveis noutras etapas da vida.

Aprendemos que só conheceremos o próprio caminho se continuarmos a caminhada.
Desvelar por onde o Amor nos quer levar é tarefa de fé e de esperança.
Sempre a pedalar, sempre a progredir por trilhos que nem imaginávamos existir.

Só temos de acreditar e aspirar às coisas do alto, e não aos emaranhados da terra (Col 3, 1-2).
E porque somos naturais, sabemos que para avançar com mais qualidade importa dar tempo ao repouso, ao descanso, à reflexão.

O caminho interior é tão ou mais importante que a azáfama do servir.
O tempero interior dá um sabor mais apurado ao exterior.
Obrigado, Senhor,
pelas linhas que escreves com as nossas vidas.

Obrigado, Senhor,
pelos conteúdos das entrelinhas
que alimentam o nosso viver.

Obrigado, Senhor,
pelas maravilhas que nos permites contemplar
dos trilhos em que nos lanças.

Obrigado, Senhor,
pelo tempo que também dá para descansar
sem parar.

Obrigado, Senhor,
pela oportunidade de mergulhar
no Teu e nosso mistério.

 

Que rosto da Igreja após a pandemia?

Cardeal José Tolentino Mendonça

 

Se tivéssemos de escolher um dia do Tríduo Pascal para contar o que está a acontecer, diríamos que é Sexta-feira Santa.

Porque nesse dia entramos numa igreja e apanhamos um baque. Não conhecemos nada. O sacrário está vazio, a porta aberta; as cruzes todas tapadas; o altar nu. E é esse tempo de esvaziamento que estamos a viver. Mas não há Domingo da Ressurreição sem passar pela Sexta-feira Santa e por aquilo que ela significa: o silêncio, o abandono, a capacidade de mergulhar fundo, de mergulhar existencialmente até ao fim. E isso, para nós, cristãos, coloca-nos muitas questões.

Muitas vezes, o nosso cristianismo é muito de superfície. E a Sexta-feira Santa fala-nos de um cristianismo que dói, de um cristianismo trágico, de um cristianismo que nos desnuda, que nos cinde, que nos divide, que nos derrota, que nos faz prostrar. E é um pouco essa experiência radical que nós fazemos.

Espiritualmente, é um tempo exigente, mas intensíssimo. É, verdadeiramente, um tempo de Deus, porque a saudade de Deus é um banho, um mergulho no oceano de Deus. E poder viver do desejo de Deus é algo que, possivelmente, muitos cristãos não tinham experimentado. Porquê? Porque era tudo fácil. E, muitas vezes, as práticas rituais tornam-se expressão de um consumo, porque tudo nos é dado.

Num tempo de privação, cresce o desejo, e o desejo é o princípio da Páscoa. Porque, na quinta-feira [última ceia, instituição da Eucaristia, véspera da morte], Jesus disse: desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco. No fundo, é este desejo ardente que, espiritualmente, também estamos a construir.
Penso que estamos a descobrir a comunidade.

Há uma história bonita da antropóloga Margaret Mead, um aluno perguntou-lhe qual era o elemento mais antigo de civilização; e todos pensaram que ela ia falar dos instrumentos de caça ou de pesca, ou então dos artefactos de barro, de cozinha dos povos primeiros. E ela, surpreendendo todos, disse: para mim, o primeiro elemento de civilização é um fémur partido e restaurado; porque, para isso ter acontecido, quer dizer que uma pessoa não foi deixada sozinha para trás, que alguém ficou ao seu lado, que alguém garantiu naquela hora de vulnerabilidade o tempo necessário para ela se curar. Por isso, no princípio, está a comunidade. E a comunidade descobrimo-la não na força, mas na vulnerabilidade.

Esta hora, em que parece que as igrejas só podem existir a meio-gás, com pouca gente, tantas limitações, tanto sofrimento, em que à pergunta sobre o que vai acontecer, qual será o futuro da Igreja, das comunidades, respondemos que a comunidade tem a origem quando fica junta na fragilidade. No princípio é a comunidade, mas uma comunidade capaz de abraçar a sua própria vulnerabilidade.

Que modelo eclesiológico [de Igreja] vai sair daqui? Sem dúvida um modelo capaz de ser mais atento e integrador da fragilidade. Entender melhor a fragilidade e a vulnerabilidade, e aprender a força de uma espiritualidade que se vive na simplicidade, na redução e na kénosis [esvaziamento]. Se um cristão, durante três meses, só pôde comungar espiritualmente, sem dúvida que ele fez um caminho espiritual que depois vai ser muito importante no resto da sua vida.

Não considero que se deva dizer que as igrejas estão [estiveram] fechadas, porque cada família é uma igreja doméstica. Por isso, há uma igreja-templo que está [esteve] fechada, mas milhares de igrejas nas nossas cidades, nos nossos lugares, estão abertas. E isso é um chamamento para redescobrir a força dessa igreja-âncora, dessa igreja primeira, que é a oíkia, que é a casa. Antes de ser templo, a Igreja foi casa. Jesus saiu do templo [judaico] e entrou na casa. E aí começou a experiência cristã.

Eu tenho muitas famílias amigas que me dizem: vamos ter saudades da pandemia. Ora, esse capital de alegria, esse capital de vida comum, esse capital de vida reencontrada – com as suas tensões, as suas incertezas –, essa beleza de se ter redescoberto juntos é uma grande força para a própria Igreja. Por isso, penso que temos de vencer o medo e tornar esta hora uma hora de esperança.

 

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Folha Informativa 21-06-2020

Domingo XII do Tempo Comum (PDF)     TEXTO

A Folha Informativa volta a sair em papel. Está disponível à saída da Igreja.

 

Pieter Brueghel the Younger, S. João Baptista prega à multidão

O projecto de Jesus, vivido com radicalidade e coerência, não é um projecto “simpático”, aclamado e aplaudido
por aqueles que mandam no mundo ou que “fazem” a opinião pública; mas é um projecto radical, questionante, provocante, que exige a vitória sobre o egoísmo, o comodismo, a instalação, a opressão, a injustiça…

A nossa época inventou formas de reduzir ao silêncio os discípulos: ridiculariza-os, desautoriza-os, calunia-os, corrompe-os, massacra-os com publicidade enganosa de valores efémeros…

Como a comunidade de Mateus, também nós andamos assustados, confusos, desorientados, interrogando-nos se vale a pena continuar a remar contra a maré. A todos nós, Jesus diz: “não temais”.

Dehonianos

 

Transmitir a Fé

Papa Francisco, Maio 2020

O Senhor revelou-Se como Salvador, como o único Filho de Deus; a todo Israel, ao povo, de modo mais minucioso especialmente aos apóstolos.
Mas antes de partir, quando apareceu aos Onze, disse-lhes: «Ide por todo o mundo, anunciai o evangelho a toda a criatura». É a missionariedade da fé.
A fé, ou é missionária ou não é fé. A fé não é algo só para mim, para que eu possa crescer na fé: esta é uma heresia gnóstica. A fé leva-nos sempre para fora de nós mesmos. A fé deve ser transmitida, oferecida, especialmente com o testemunho: «Ide, para que as pessoas possam ver como viveis» .

Um sacerdote europeu disse-me: “Há tanta incredulidade, tanto agnosticismo nas nossas cidades, porque os cristãos não têm fé. Se a tivessem, certamente transmiti-la-iam ao povo”.
Porque na origem há uma carência de convicção: “Sim, sou cristão, sou católico…”. Como se se tratasse de uma atitude social. No documento de identidade chamamo-nos assim ou assado… e “sou cristão” é um dado do documento de identidade. Isto não é fé! Trata-se de um aspecto cultural. A fé leva-nos necessariamente a sair, faz-nos doar: essencialmente, a fé deve ser transmitida. Não é quieta.

Uma vez, um estudante universitário perguntou-me: “Na universidade, tenho muitos companheiros ateus. O que devo dizer-lhes para os convencer?” – “Nada, amigo, nada! A última coisa que é preciso fazer é dizer algo. Começa a viver, e quando virem o teu testemunho, perguntar-te-ão: Por que vives assim?”.
A fé tem de ser transmitida: não para convencer, mas para oferecer um tesouro. “Está ali, vedes?”.

Como posso ter a certeza de que, ao sair de mim, serei frutuoso na transmissão da fé? «Anunciai o Evangelho a toda a criatura», fareis maravilhas. E o Senhor estará connosco até ao fim do mundo. Acompanhar-nos-á. Na transmissão da fé, o Senhor está sempre connosco. Na transmissão da ideologia haverá professores, mas quando tenho uma atitude de fé que deve ser transmitida, o Senhor acompanha-me.

 

Átrio dos gentios

Rui Martins, Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Desde a sua inauguração, em Paris, a 24 e 25 de Março de 2011, o Átrio dos Gentios pôde desbravar muitos territórios, onde o debate entre “laicos” e católicos é considerado uma prioridade. Estes temas são os da liberdade, da responsabilidade social e do bem comum, da legalidade e da consciência, das belas-artes, da Criação e da transcendência. O seu terreno é o da verdade, onde se encontram e discutem ciência, filosofia e fé.
Os importantes acontecimentos organizados pelo Átrio desenvolvem-se em torno das colunas da cultura, abordando os grandes temas da existência humana e os principais desafios da sociedade, tendo sempre em conta a especificidade simbólica dos lugares onde decorrem os encontros.

Tal como a Praça de S. Pedro, também o Átrio tem a sua “colunata”, não com santos, mas com grandes pensadores cujas ideias e obras são centrais nos debates que se desenvolvem durante as numerosas iniciativas. Estas representam o caleidoscópio de uma cultura que, desde os tempos da antiga Grécia, nunca cessou de se interrogar sobre a relação entre a razão e a fé, “mythos” e “logos”.
Assim, no encontro de Bucareste falou-se de Cioran, “o místico sem fé”, e de Ionesco, “o agnóstico apaixonado pelos místicos”; em Marselha, de Camus, “o ateu que falava aos cristãos”, e de Ricoeur, “o cristão de expressão filosófica”; em Bolonha de Rosseau, “o cristão sem fé”, e em Buenos Aires de Borges, “o teólogo ateu”.

Também S. Francisco inspirou vários Átrios em Assis: sobre a sua “irmã nossa Mãe Terra”, derivado do Cântico das Criaturas, sobre a “paz” e sobre o “diálogo inter-religioso”, em referência ao seu encontro com o sultão, outro sobre “economia de comunhão”, inspirado na sua pobreza, e finalmente um sobre “humanidade”, evocando a sua capacidade de reconhecer o homem também no leproso.
Santo Agostinho e Pascal foram frequentemente consultados nos Átrios, tal como Erasmo e Dante, Nietzsche e Florenskij, Simone Weil e Maritain, Hannah Harendt e Etty Hillesum. A par de Cacciari, outros mestres vivos, como Marion, Kristeva e Bauman, dialogaram sob a ampla “colunata” do Átrio dos Gentios.
Foram igualmente criados dois Átrios especiais: um para os estudantes e outro para as crianças, cuja realização mais conhecida é a visita ao papa e ao Vaticano de meninas e meninos de regiões desfavorecidas, organizada anualmente, em parceria com escolas e a companhia ferroviária estatal italiana.

Génese e identidade
O Átrio dos Gentios é uma estrutura do Conselho Pontifício da Cultura constituída para favorecer o encontro e o diálogo entre crentes e não crentes.
A denominação tem um valor simbólico, referindo-se ao espaço que no antigo templo de Jerusalém era reservado aos não-judeus (os gentios). Enquanto escutavam os cantos e seguiam a liturgia do culto, podiam interrogar os mestres da Lei sobre o mistério e a transcendência, a religião e o Deus a eles “desconhecido”.
À distância de mais de dois mil anos o papa Bento XVI quis repropor a actualidade e a função daquele “espaço”, para que pessoas com diferentes culturas e experiências possam encontrar o sentido de uma autêntica fraternidade e as respostas às grandes perguntas do nosso tempo.

É significativo que a ideia tenha sido proposta num discurso à Cúria Romana (21 de Dezembro de 2009) após a sua viagem à República Checa, onde, apesar de a maior parte da população se declarar agnóstica, encontrou um vivo interesse em relação aos seus discursos.
«Penso que a Igreja deveria também hoje abrir uma espécie de “átrio dos gentios”, onde os homens pudessem de qualquer modo agarrar-se a Deus, sem o conhecer e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério, a cujo serviço está a vida interna da Igreja. Ao diálogo com as religiões deve acrescentar-se hoje sobretudo o diálogo com aquelas pessoas para quem a religião é uma realidade estranha, para quem Deus é desconhecido, e contudo a sua vontade não é permanecer simplesmente sem Deus, mas aproximar-se d’Ele pelo menos como Desconhecido», afirmou então Bento XVI.

O acto de nascimento do Átrio dos Gentios remonta a 2011, quando em Paris foi organizado o primeiro grande evento na sede da UNESCO, na Sorbonne e na Academia Francesa. Novo estímulo foi acrescentado em Março de 2013, com o pensamento do papa Francisco, que também à luz das suas origens e da sua cultura sublinhou o valor do diálogo, inclusive «com quantos não se reconhecendo parte de alguma tradição religiosa, procuram sinceramente a verdade, a bondade e a beleza que para nós encontram a máxima expressão e a sua fonte em Deus».
Ao longo deste percurso, o Átrio dos Gentios tem sido o desejo profundo da procura «que permite revelar as razões profundas da esperança do crente e da expectativa do agnóstico», como escreveu o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura.

Hoje o Átrio dos Gentios tornou-se uma realidade, uma nova “fronteira” onde adultos, estudantes, crianças e personalidades comprometidas nos âmbitos da cultura e da fé creem que do diálogo possa nascer uma comunidade mais acolhedora e fraterna.

 

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Folha Informativa 14-06-2020

Domingo XII do Tempo Comum (PDF)     TEXTO

A Folha Informativa volta a sair em papel. Está disponível à saída da Igreja.

 

Apresentação no templo, Giotto Bodone

 

A Virgem Maria, Zacarias, Simeão e Ana são os primeiros anunciadores da salvação que Ele veio trazer à Terra.
Ao seus nomes devemos juntar os nossos, porque também nós, com efeito, vimos e ouvimos o que disse e fez por nós o autor da vida.
É um compromisso que deriva do nosso Baptismo.
É um dever de gratidão. É a nossa resposta à gratuidade dos dons recebidos.
É, por fim, o acto mais excelente de caridade fraterna.

Monges Beneditinos Silvestrinos

 

 

 

Dizer Obrigada

Joan Chittister, In O sopro da vida interior, ed. Paulinas

Ecce Uomo, Mark Wallinger

«Se a tua única oração na vida for “obrigado”, isso bastará (Mestre Eckhart)». A gratidão não é apenas uma atitude de louvor, é também o elemento básico de uma verdadeira crença em Deus.
Quando inclinamos as nossas cabeças em sinal de gratidão, reconhecemos que as obras de Deus são boas. Reconhecemos que não podemos salvar-nos por nós próprios. Proclamamos que a nossa existência e todas as coisas boas que ela tem, não vêm do nosso expediente, fazem parte da obra de Deus.
A gratidão é o aleluia à existência, o louvor que ressoa através do Universo, como um tributo à presença de Deus, constante entre nós, incluindo neste momento.

Obrigado por este novo dia.
Obrigado por este trabalho.
Obrigado por esta família.
Obrigado pelo nosso pão de cada dia.
Obrigado por esta tempestade e pela humidade que ela traz à terra seca.
Obrigado pelas correcções que me fazem crescer.
Obrigado pelas flores silvestres que dão cor à ladeira.
Obrigado pelos animais de estimação que nos unem à natureza.
Obrigado pela necessidade que me mantêm vigilante em relação à tua generosidade na minha vida.

Sem dúvida, a gratidão ilimitada salva-nos do sentimento de auto-suficiência, que nos leva a esquecermo-nos de Deus.
O louvor não é uma virtude ociosa na vida. Diz-nos: «Lembra-te de Quem és devedor. Se nunca tiveres conhecido a necessidade, nunca virás a conhecer Quem é Deus nem quem és tu.»
A necessidade testa a nossa confiança. Dá-nos a oportunidade de permitir que os outros nos apoiem nas nossas fraquezas, dando-nos conta que, no fim, só Deus é a medida da nossa plenitude.
Quando conhecemos a necessidade, somos melhores seres humanos. Pela primeira vez, conhecemos a solidariedade para com os mais pobres dos pobres. Fazemos nossa a dor do mundo e devotamo-nos a trabalhar em favor daqueles que sofrem.
Finalmente, é a necessidade que nos mostra que é preciso muito pouco para se ser feliz.
Mal percebemos todas estas coisas, encontramo-nos face a face, tanto com a Criação, como com o Criador. É um momento de aleluia em que descobrimos Deus e a sua bondade para connosco.
Aprendamos a vir à oração com um coração de aleluia, para que ela possa ser sincera.

 

Cultivar a alegria de cada dia

José Tolentino Mendonça, In Nenhum caminho será longo

Um elemento que caracteriza a alegria é o facto dela não nos pertencer. É pessoalíssima, é completamente nossa, identifica-se connosco, mas não nos pertence. A alegria não nos pertence. A alegria atravessa-nos. A alegria é sempre um dom. A alegria nasce do acolhimento. A alegria nasce quando eu aceito construir a minha vida numa cultura de hospitalidade. Se insonorizo o meu espaço vital, se impermeabilizo a minha atenção, a alegria não me visita. A alegria é um dom da amizade acolhida.

A alegria não é programada. Não posso, por exemplo, dizer: daqui a um minuto vou-me rir. Não sei quando é que me vou rir. A alegria é um dom que me visita na surpresa, no não anunciado. E nesse sentido tenho de viver em hospitalidade. O meu coração é uma soleira, uma porta entreaberta. A minha vida vive do acolhimento amigável. Temos de adquirir uma porosidade, deixarmo-nos tocar, deixarmo-nos ligar pelo fluxo reparador da vida.

Há um filme de Ingmar Bergman em que uma personagem é uma rapariga anoréxica – e sabemos como a anorexia é uma forma de desistir da própria vida, de desinvestir afectivamente. A rapariga vai falar com um médico e ele diz-lhe isto, que também vale para nós todos: «Olha, há só um remédio para ti, só vejo um caminho: em cada dia deixa-te tocar por alguém ou por alguma coisa.» A alegria é esta hospitalidade.

Os dias sem alegria são completamente sem memória. Chegamos ao fim não lembramos um único gesto, uma única fase, um único encontro, uma única acção, não temos nada para contar. Tive de ver e de escutar muitas coisas, e de estar entre muita gente, mas não quis nada daquilo nem daqueles; não permiti que existisse um trânsito, um retorno; não abri o meu coração…
Há que transformar a nossa vida no sentido da hospitalidade. A amizade ensina-nos isso.

Não há alegria sem inocência. Mas inocência naquele sentido que apontava a escritora Cristina Campo: «Nós não nascemos inocentes, mas podemos morrer inocentes.» A inocência da infância espiritual é aquela inocência com a qual e pela qual podemos morrer: a inocência de um coração simples; da gratuidade; da confiança.

Se não tenho um coração de criança não sou herdeiro do Reino de Deus. Isto é, não sou herdeiro do reino da vida, não vejo cintilar, não vislumbro. E aqui, as crianças são exemplares porque elas entretêm-se com os pequenos nadas, que no fundo são as coisas mais sérias, as coisas donde colhem a luz. E nós precisamos disso. Precisamos dessa infância. De descobrir infâncias dentro de nós. Não é por acaso que todos os amigos são amigos da infância, mesmo aqueles que fazemos pela vida fora. A principal infância a testemunhar é essa futura.

Em vez de crescermos na severidade, na intransigência, na indiferença, no sarcasmo, na maledicência, no lamento, caminhemos suavemente no sentido contrário. Cresçamos na simplicidade, na gratidão, no despojamento e na confiança. A alegria tem a ver com uma essencialidade que só na pobreza espiritual se pode acolher.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 07-06-2020

Santíssima Trindade (PDF)     TEXTO

De acordo com as orientações da Conferência Episcopal Portuguesa, enquanto durar a situação de pandemia fica suspensa a edição da Folha Informativa em papel.

 

Santíssima Trindade, Masaccio

A Solenidade de hoje não é um convite a decifrar o mistério que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas um convite a contemplar o Deus que é amor, família, comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

No Evangelho, João convida-nos a contemplar um Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao mundo o seu Filho único; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva.

Dehonianos, 2020

 

 

 

Trindade: Deus é comunhão, vínculo, abraço

Ermes Ronchi , In “Avvenire”

Os nomes de Deus sobre o monte são um mais belo do que o outro: o misericordioso e piedoso, o lento para a ira, o rico de graça e de fidelidade. Moisés subiu com esforço, duas tábuas na mão, e Deus desconcerta-o e a todos os moralistas, escrevendo naquela rígida pedra palavras de ternura e de bondade.

Que chegam até Nicodemos, naquela noite de renascimento. Deus amou tanto o mundo, que lhe deu o seu Filho. Estamos no versículo central do Evangelho de João, num espanto que renasce sempre perante palavras boas como o mel, tonificantes como uma caminhada junto ao mar, entre salpicos de mar e ar bom respirado a plenos pulmões: Deus amou tanto o mundo… e a noite de Nicodemos, e as nossas, iluminam-se.

Jesus está a dizer ao fariseu medroso: o nome de Deus não é amor, é “muito amor”, Ele é “o muito-amante”. Deus, pela eternidade, considera o mundo, cada carne, mais importante que Ele próprio. Para me adquirir, perdeu-Se a Si mesmo. Loucura da cruz. Insanidade de Sexta-feira Santa. Mas por nós renasce: cada ser nasce e renasce do coração de quem o ama.

Experimentemos saborear a beleza destes verbos no passado: Deus amou, o Filho foi dado. Dizem não uma esperança (Deus amar-te-á se tu…), mas um facto seguro e adquirido: Deus já está aqui, impregnou de Si o mundo, e o mundo d’Ele está embebido.
Deixemos que os pensamentos absorvam esta verdade belíssima: Deus já veio, está no mundo, aqui, agora, com muito amor. E repitamo-nos estas palavras a cada despertar, a cada dificuldade, de cada vez que perdemos a confiança e se faz noite.

O Filho não foi enviado para julgar. «Eu não julgo!» . Que palavra explosiva, a repetir setenta vezes sete à nossa fé amedrontada! Eu não julgo, nem para sentenças de condenação nem para veredictos de absolvição.
Posso pesar os montes com a balança e o mar com a palma das mãos, mas o ser humano não o peso nem o meço. Salvar quer dizer alimentar de plenitude e, depois, conservar.

Deus conserva: este mundo e eu, cada pensamento bom, cada generosa fadiga, cada dolorosa paciência; nem um cabelo da vossa cabeça se perderá (Lucas 21,38), nem sequer um fio de erva, nem sequer um fio de beleza desaparecerá no nada.

O mundo é salvo porque amado. Os cristãos não são aqueles que amam Deus, são aqueles que acreditam que Deus os ama, que pronunciou o seu «sim» ao mundo, antes que o mundo diga «sim» a Ele.

Festa da Santíssima Trindade: anúncio que Deus não é em Si mesmo solidão, mas comunhão, vínculo, abraço. Que nos alcançou, e liberta, e faz erguer em voo uma pulsão de amor.

 

O relacionamento com Deus é gratuito, é uma relação de amizade

Papa Francisco, Maio 2020

Espírito Santo, Gustavo Doré

Na Igreja, no início, houve tempos de paz, como o diz tantas vezes: a Igreja crescia em paz e o Espírito do Senhor difundia-se; tempos de paz! Houve também tempos de perseguição, começando com a perseguição de Estêvão; depois Paulo, perseguidor, convertido e em seguida também perseguido… Tempos de paz, tempos de perseguição, e houve também tempos de perturbação.

A ressurreição de Cristo não dissolveu a lei antiga, levando-a a uma plenitude ainda maior?”
Dos doutores da Lei, Jesus dizia: «Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, pois percorreis mares e terras para fazer um só prosélito; e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior do que vós mesmos». Jesus diz mais ou menos isto no capítulo 23 de Mateus.

Essas pessoas, que eram “ideológicas” mais do que “dogmáticas”, “ideológicas”, reduziam a Lei, o dogma, a uma ideologia: “Deve-se fazer isto, isso e aquilo”… Uma religião de prescrições, e com isto tiravam a liberdade do Espírito. E as pessoas que os seguiam eram rígidas, pessoas que não se sentiam à-vontade, que não conheciam a alegria do Evangelho.
A perfeição do caminho para seguir Jesus era a rigidez: “Há que fazer isto, isso, aquilo…”. Essas pessoas, esses doutores “manipulavam” as consciências dos fiéis, e ou tornavam-se rígidos… ou iam embora.

Por esta razão, repito muitas vezes, a rigidez não é do Espírito bom, porque questiona a gratuidade da redenção, a gratuidade da ressurreição de Cristo.
E isto é algo antigo: isto repete-se durante a história da Igreja. Pensemos nos pelagianos, nestes… nesses rígidos famosos. E também no nosso tempo vimos algumas organizações apostólicas que pareciam realmente bem constituídas, que funcionavam bem… mas todas rígidas, todas iguais umas às outras, e depois ficamos a saber da corrupção que havia dentro, até nos fundadores.

Onde há rigidez, não há Espírito de Deus, porque o Espírito de Deus é liberdade. E essas pessoas queriam dar passos, tirando a liberdade do Espírito de Deus e a gratuidade da redenção: “Para seres justificado, deves fazer isto, isso e aquilo…”. A justificação é gratuita. A morte e a ressurreição de Cristo são gratuitas. Não se pagam, não se compram: são um dom!

O caminho [o modo de proceder] é bom: os apóstolos reúnem-se em concílio e no final escrevem uma carta que começa assim: «Na verdade, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais incumbência alguma», e conferem estas obrigações mais morais, de bom senso: não confundir o cristianismo com o paganismo, com a abstenção da carne oferecida aos ídolos, etc. E no final, os cristãos que estavam perturbados, reunidos em assembleia, receberam a carta e «quando a leram, alegraram-se pela exortação que ela infundia». Da perturbação à alegria.

O espírito de rigidez leva-nos sempre à perturbação: “Mas será que fiz bem isto? Não o fiz bem?”. O escrúpulo. O espírito de liberdade evangélica leva-vos à alegria, porque foi precisamente isto que Jesus fez com a sua ressurreição: Ele trouxe alegria! O relacionamento com Deus, a relação com Jesus não é assim, de “fazer coisas”: “Eu faço isto e tu dás-me aquilo”. Uma relação, digo eu – perdoai-me Senhor – comercial: não! É gratuito, tal como é gratuita a relação de Jesus com os discípulos.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a discernir entre os frutos da gratuidade evangélica e os frutos da rigidez não evangélica, e que nos liberte de toda a perturbação daqueles que colocam a fé, a vida de fé sob as prescrições da casuística, as prescrições que não têm sentido. Refiro-me às prescrições que não têm sentido, não aos Mandamentos.
Que nos liberte deste espírito de rigidez, o qual nos tira a liberdade.

 

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Folha Informativa 31-05-2020

Domingo de Pentecostes (PDF)     TEXTO

De acordo com as orientações da Conferência Episcopal Portuguesa, enquanto durar a situação de pandemia fica suspensa a edição da Folha Informativa em papel.

 

Nossa Senhora e os Apóstolos no Cenáculo, autor desconhecido

Sem o Espírito Santo nós somos só o pó,
nós somos só a terra, nós somos só o barro,
nós somos só isto que se vê daqui,
e isto que morre aqui, todos os dias, a todas as horas.

É o Espírito que nos torna maiores, é o Espírito que nos projecta.

O Espírito Santo é a alavanca da Igreja
e é a alavanca da história.

O Espírito Santo é o mestre, é o mapa, é o oceano,
é a viagem.

Cardeal D. Tolentino de Mendonça, 2015

 

Sopro de Deus para a vida do mundo

Ermes Ronchi , In “Avvenire”

Pentecostes, Gustavo Doré

Quando estavam fechadas as portas do lugar onde os apóstolos se encontravam, por medo dos judeus, eis que acontece algo que vira do avesso a sua vida, que inverte aquele grupinho bloqueado atrás de portas cerradas.

Alguma coisa transformou homens titubeantes pela angústia em pessoas dançantes de alegria, inebriadas de coragem: é o Espírito, chamada que reacende as vidas, vento que alastra, terramoto que faz cair as construções frágeis, desacertadas, e deixa de pé só aquilo que é verdadeiramente sólido.
Aconteceu o Pentecostes e desbloqueou-se a vida.

Na tarde da Páscoa, quando estavam fechadas as portas, veio Jesus, pôs-Se no meio dos seus e disse: paz! O abandonado regressa àqueles que O tinham abandonado.

Não acusa ninguém, desencadeia processos de vida; gere a fragilidade dos seus com um método humaníssimo e criativo: assegura-lhes que o seu amor por eles está intacto (mostra-lhes as mãos chagadas e o lado aberto, feridas de amor); sublinha a sua confiança obstinada, ilógica e total neles (como o Pai Me enviou, Eu vos envio). Vós como Eu. Vós e não outros. Ainda que Me tenham deixado só, Eu continuo a acreditar em vós, e não desisto de vós.

E por fim oferece ainda mais: sopra sobre eles e diz: recebei o Espírito Santo. O Espírito é a respiração de Deus.
Naquela sala fechada, naquela situação asfixiante, entre a respiração ampla e profunda de Deus, o oxigénio do Céu.

E como no princípio o Criador soprou o seu hálito de vida sobre Adão, assim Jesus sopra agora vida, transmite aos seus aquilo que O faz viver, esse princípio vital e luminoso, essa intensidade que fazia diferente, que fazia único a sua maneira de amar e escancarava horizontes.

 

Espírito Santo inspira diálogo com Deus e a humanidade

Papa Francisco, 2014

Pentecostes, Tommaso Andrea Lorenzone

O Espírito Santo ensina-nos: é o Mestre interior.
Guia-nos pelo caminho certo, através das situações da vida. Ele ensina-nos a estrada, a via. Nos primeiros tempos da Igreja, o cristianismo era chamado «o caminho», e o próprio Jesus é o Caminho.
O Espírito Santo ensina-nos a segui-Lo, a caminhar seguindo os seus passos. Mais do que um mestre de doutrina, o Espírito Santo é um mestre de vida. E da vida faz parte, certamente, também o saber, o conhecer, mas dentro de horizonte mais amplo e harmonioso da existência cristã.

O Espírito Santo recorda-nos, recorda-nos tudo o que Jesus disse. É a memória viva da Igreja. E ao mesmo tempo que nos recorda, faz-nos compreender as palavras do Senhor.
Este recordar no Espírito e graças ao Espírito não se reduz a um facto mnemónico, mas é um aspecto essencial da presença de Cristo em nós e na sua Igreja. O Espírito de verdade e de caridade recorda-nos tudo aquilo que Cristo disse, faz-nos entrar cada vez mais plenamente no sentido das suas palavras.
Todos nós temos esta experiência: num determinado momento, em qualquer situação, surge uma ideia e depois outra liga-se a um trecho da Escritura… É o Espírito que nos faz fazer esta estrada: a estrada da memória viva da Igreja.
E isto pede de nós uma resposta: quanto mais a nossa resposta é generosa, mais as palavras de Jesus se tornam vida em nós, tornam-se atitudes, escolhas, gestos, testemunho. O Espírito recorda-nos, substancialmente, o mandamento do amor, e chama-nos a vivê-lo.

Um cristão sem memória não é um verdadeiro cristão: é um cristão a meio caminho, é um homem ou uma mulher prisioneiro do momento, que não sabe fazer tesouro da sua história, não sabe lê-la e vivê-la como história de salvação.
Pelo contrário, com a ajuda do Espírito Santo, podemos interpretar as inspirações interiores e os acontecimento da vida à luz das palavras de Jesus. E assim cresce em nós a sabedoria da memória, a sabedoria do coração, que é um dom do Espírito Santo. Que o Espírito Santo reavive em todos nós a memória cristã.

E naquele dia, com os apóstolos estava a Senhora da memória, aquela que desde o início meditava todas aquelas coisas no seu coração. Estava Maria, nossa mãe. Que ela nos ajude nesta estrada da memória.

O Espírito Santo ensina-nos, recorda-nos e, outra característica, faz-nos falar, com Deus e com os homens. Não há cristãos mudos, mudos de alma; não, não há lugar para isto.
Faz-nos falar com Deus na oração. A oração é um dom que recebemos gratuitamente; é diálogo com Ele no Espírito Santo, que reza em nós e nos permite dirigirmo-nos a Deus chamando-o Pai, Papá, “Abbà”; e este não é só uma “maneira de dizer”, mas é a realidade, nós somos realmente filhos de Deus. «De facto, todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus» (Romanos 8, 14).

«Faz-nos falar no acto de fé. Nenhum de nós pode dizer «Jesus é o Senhor», ouvimo-lo hoje, sem o Espírito Santo. E o Espírito faz-nos falar com os homens no diálogo fraterno. Ajuda-nos a falar com os outros, reconhecendo-os como irmãos e irmãs; a falar com amizade, com ternura, com suavidade, compreendendo as angústias e as esperanças, as tristezas e as alegrias dos outros.

Mas há mais: o Espírito Santo faz-nos falar também aos homens na profecia, isto é, fazendo-nos canais humildes e dóceis da Palavra de Deus. A profecia é feita com franqueza, para mostrar abertamente as contradições e as injustiças, mas sempre com suavidade e intenção construtiva.
Penetrados pelo Espírito de amor, possamos ser sinais e instrumentos de Deus, que ama, que serve, que dá a vida.

 

Arquivo de Folhas Informativas anteriores a 25.11.2018

 

Folha Informativa 24-05-2020

Domingo VII da Páscoa (PDF)     TEXTO

Enquanto durar a situação de pandemia, fica suspensa a edição da Folha Informativa em papel.

 

Ascensão, Giacomo Cavedone

 

Também eu posso contagiar de céu e de natividades quem me é confiado.
Mas será tudo isto realmente possível?

É-o, a acreditar no versículo conclusivo: eles partiram e pregaram em todo o lado, enquanto que o Senhor agia juntamente com eles.
Verbo extraordinário, que chega também até mim, aqui e agora: o Senhor agia em sinergia com eles, inseparáveis a sua energia e a do Senhor, uma só força, uma só linfa, uma só vida. Nunca sós.

Jesus: energia que opera contigo para a vida.
Ermes Ronchi, in Avvenire

 

A vida futura

S. José Maria Escrivá

Ascension and Pentecost | Koninklijke Bibliotheek

A tarefa apostólica que Cristo atribuiu a todos os seus discípulos produz resultados concretos no âmbito social. Não é admissível pensar que, para se ser cristão, seja preciso voltar as costas ao mundo, ser um derrotista da natureza humana. Tudo, até o mais pequeno dos acontecimentos honestos, encerra um sentido humano e divino.
Cristo, perfeito homem, não veio destruir o que é humano, mas enobrecê-lo, assumindo a nossa natureza humana, excepto o pecado. Veio compartilhar todos os anseios do homem, menos a triste aventura do mal.
O cristão deve encontrar-se sempre disposto a santificar a sociedade a partir de dentro, estando plenamente no mundo. (…)

A festa da Ascensão do Senhor sugere-nos outra realidade: o Cristo que nos anima a esta tarefa no mundo espera-nos no Céu. Por outras palavras: a vida na terra, que amamos, não é a definitiva: porque não temos aqui cidade permanente, mas andamos em busca da futura cidade imutável.

Procuremos, no entanto, não interpretar a Palavra de Deus nos limites de horizontes estreitos. O Senhor não nos impele a sermos infelizes enquanto caminhamos, esperando só a consolação no além. Deus quer-nos felizes também aqui, embora anelando o cumprimento definitivo dessa outra felicidade, que só Ele pode preencher completa e abundantemente.

Nesta terra, a contemplação das realidades sobrenaturais, a acção da graça nas nossas almas, o amor ao próximo como fruto saboroso do amor a Deus, supõem já uma antecipação do Céu, um começo destinado a crescer dia a dia.
Nós, cristãos, não suportamos uma vida dupla: mantemos uma unidade de vida, simples e forte, na qual se fundamentam e compenetram todas as nossas acções.

Cristo espera-nos. Vivemos já como cidadãos do céu sendo plenamente cidadãos da Terra, no meio de dificuldades, de injustiças, de incompreensões, mas também no meio da alegria e da serenidade que dá saber-se filho amado de Deus.
Perseveremos no serviço do nosso Deus e veremos como aumenta em número e em santidade este exército cristão de paz, este povo de co-redenção. Sejamos almas contemplativas, com um diálogo constante, convivendo com o Senhor a toda a hora: desde o primeiro pensamento do dia ao último da noite, pondo continuamente o nosso coração em Jesus Cristo Senhor Nosso, chegando até junto d’Ele por intermédio da Nossa Mãe Santa Maria e, por Ele, ao Pai e ao Espírito Santo.

Se, apesar de tudo, a subida de Jesus aos Céus nos deixa na alma um amargo rasto de tristeza, acudamos a sua Mãe como fizeram os apóstolos: então, voltaram a Jerusalém… e oravam unanimemente… com Maria, a Mãe de Jesus.

 

O difícil silêncio de Deus

D. José Tolentino Mendonça, 2016

Na festa da Ascensão celebramos algo que também é misterioso: o facto de Jesus ser nosso companheiro de viagem, como acompanhou aqueles dois discípulos de Emaús, e ao mesmo tempo os nossos olhos não O verem, os nossos sentidos não O captarem.

Hoje celebramos esta coisa misteriosa que é arder-nos o coração e ao mesmo tempo sentirmos o vazio, sentirmos a ausência, sentirmos o silêncio de Deus e aceitarmos esse silêncio como necessário. Aceitarmos a ausência de Jesus como o desejo Dele, como a normalidade da história da própria salvação.

Aceitar significa não tentar truques de manga, não tentar iludir essa dificuldade. Porque é difícil, porque nós próprios gostaríamos de mostrar Deus, nós próprios gostaríamos de dizer: “Este é o meu Deus.”

Nós próprios gostaríamos de tocar, de sentir, de ver, de cheirar, de palpar o próprio Deus. Contudo, é no silêncio que nós acreditamos, é no vazio das imagens que nós prosseguimos. E às vezes a nossa tentação é de encontrar subterfúgios, consolos, oblívios que nos ajudem a suportar o difícil silêncio de Deus na vida dos crentes.

Para nós Deus não é fácil, não é claro, não é uma evidência, não é domesticado, não cabe nos nossos discursos, nas nossas imagens.
É importante que o caminho da fé seja um caminho desconfortável também, seja um caminho de luta, um caminho de combate. Acreditar não é ter resolvido tudo, acreditar é sentir-se em estado de pergunta, é sentir-se em nascimento, sentir-se no interior de um parto incessante, de uma sucessão de começos. Isso é a história da nossa fé.

Então, esta é a hora do Espirito Santo em nós, que vem até nós e dentro de nós nos conduz, progressivamente, à verdade plena. (…)
É interessante como isto constituiu um grande desafio para a primeira geração de cristãos. Eles esperavam que Jesus fosse e viesse. E os primeiros cristãos viviam na expectativa do regresso de Cristo. Por isso, viviam numa espécie de suspensão em relação à história, não se envolviam, não sujavam as mãos no combate, não faziam demasiados investimentos porque esperavam uma vinda iminente de Jesus.

Até que depois foram compreendendo, sem dúvida ajudados pelo Espírito Santo, que o mistério da fé é um mistério para viver no tempo e na espera. E esse é o lugar onde cada um de nós está, no tempo e na espera. Aceitando essa nuvem, aceitando essa espécie de cortina que não nos deixa ver tudo, aceitando que a nossa visão é incompleta, aceitando o vazio, aceitando a dificuldade da própria fé.

Entre um crente e um ateu, em muitos pontos, não há diferença nenhuma. Porque nenhum de nós vê, nenhum de nós tem o caminho facilitado, nenhum de nós tem uma via de acesso particular. É a nudez, o vazio, são as mãos vazias aquilo que nos liga.

Uma fé feita de consolos é uma fé muito infantil. É uma fé que é preciso amadurecer e que a própria vida vai pôr em causa de muitas maneiras, é uma fé que tem de ser purificada. Porque a dada altura nós estamos agarrados ao consolo, estamos agarrados ao rebuçado e não estamos a viver a verdadeira espera de Deus. Não estamos a viver a vida no mistério da sua dureza, a vida como paradoxo, a vida como aporia. O lugar dos crentes não é um lugar que falsifica a história – nós não estamos numa ilusão, não procuramos um estádio que não existe, não queremos falsas consolações. Não, não vemos.

Partimos daí, abraçamos, não temos medo de abraçar esse nada, esse silêncio.
Contudo, nós sabemos que o silêncio é lugar de plenitude do sentido.
E se com os olhos da carne nós não O vemos, somos chamados a compreender a vida com os olhos do coração, a aceitar que hoje o lugar que o Espírito Santo nos indica como o lugar para encontrar Deus é na vida, é na história, é antes de tudo na pessoa humana, antes de tudo na vulnerabilidade da pessoa humana.

É aí que encontramos Deus.

 

 

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