Folha Informativa 18-10-2020

Domingo XXIX do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Miguel Ângelo, Detalhe da Criação do Homem

O homem não pode nem deve alhear-se das suas obrigações para com a comunidade em que está integrado.

Em qualquer circunstância, ele deve ser um cidadão exemplar e contribuir para o bem comum.

A isso, chama-se “dar a César o que é de César”.

No entanto, o que é mais importante é que o homem reconheça a Deus como o seu único senhor. As moedas romanas têm a imagem de César: que sejam dadas a César.

O homem, no entanto, não tem inscrita em si próprio a imagem de César, mas sim a imagem de Deus (cf. Gn 1,26-27: “Deus disse: ‘façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança’… Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus”).

DEHONIANOS

Quando Jesus é surpreendido

Ermes Ronchi, 8.2020

Les Très Riches Heures du Duc de Berry

A mulher das migalhas, a cananeia pagã, surpreende e converte Jesus: fá-lo passar de mestre de Israel a pastor de todas as dores do mundo (Mateus 15,21-28). A primeira das suas três palavras é uma oração, a mais evangélica, um grito: “Kyrie eleyson”, piedade, Senhor, de mim e da minha criança. E Jesus não lhe dirige nem sequer uma palavra.

Mas a mãe não se rende, cola-se ao grupo, diz e rediz a sua dor. Até que provoca uma resposta, mas distante e brusca: vim para os de Israel, e não para vós.
Frágil mas indómita, não larga; como toda a verdadeira mãe pensa na sua criança, e relança. Lança-se por terra, corta o passo a Jesus, e do coração irrompe-lhe a segunda oração: ajuda-me!

E Jesus, áspero: não se tira o pão aos filhos para o lançar aos cães.

E eis a inteligência das mães, a fantasia do seu amor: é verdade, Senhor, mas os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos. Faz uma migalha de milagre, para nós, os cachorrinhos do mundo!

É a reviravolta da narrativa. Docemente, a mulher confessa que está ali só para buscar migalhas, só restos, pão perdido. Poderosamente, a mãe acredita com todo o seu ser que para o Deus de Jesus não há filhos e não-filhos, seres humanos e cachorrinhos. Mas só fome e criaturas a saciar; que o Deus de Jesus está mais atento à dor dos filhos que ao seu credo, que prefere a sua felicidade à fidelidade.

Jesus está fulgurado, comove-se: mulher, grande é a tua fé! Ela que não vai ao templo, que não lê as Escrituras, que reza aos ídolos cananeus, é proclamada mulher de grande fé. Não conhece o catecismo, todavia mostra que conhece Deus por dentro, sente-O pulsar na profundidade das suas feridas do seu coração de mãe. Sabe que «faz chaga no coração de Deus a soma da dor do mundo» (G. Ungaretti).

A dor é sagrada, há ouro nas lágrimas, há toda a compaixão de Deus. Pode parecer uma migalha, pode parecer pouca coisa a ternura de Deus, mas as migalhas de Deus são tão grandes como o próprio Deus. Grande é a tua fé!

E hoje continua a ser assim, há muita fé na Terra, dentro e fora das igrejas, sob o céu do Líbano como sob o céu de Nazaré, porque grande é o número das mães do mundo que não sabem o Credo, mas sabem que Deus tem um coração de mãe, e que misteriosamente lhe prenderam e guardaram um fragmento.

Sabem que para Ele a pessoa vem primeiro que a sua fé. Seja como desejas. Jesus realça o pedido da mãe, restitui-lhe: és tu e o teu desejo que mandam. A tua fé e o teu desejo de mãe, uma fracção de Deus, ardente (cf. Cântico 8,6), são verdadeiramente um ventre que dá à luz milagres.

 

Dia Mundial das Missões

Agência Ecclesia

O Papa afirma na sua Mensagem para o 94.º Dia Mundial das Missões que a pandemia de Covid-19 deve ser um “desafio também para a missão da Igreja”.

“Desafia-nos a doença, a tribulação, o medo, o isolamento. Interpela-nos a pobreza de quem morre sozinho, de quem está abandonado a si mesmo, de quem perde o emprego e o salário, de quem não tem abrigo e comida”, sublinha o Papa Francisco..

Num tempo de distanciamento físico e confinamento, refere o pontífice, todos são convidados a redescobrir as “relações sociais e também da relação comunitária com Deus”.

A mensagem sublinha ainda o impacto da suspensão das celebrações comunitárias, que levou a pensar nas “muitas comunidades cristãs que não podem celebrar a Missa todos os domingos”.

Num texto com o título ‘Eis-me aqui, envia-me’, passagem do livro bíblico do profeta Isaías (Is 6, 8), Francisco evoca as “tribulações e desafios causados pela pandemia de Covid-19,

Francisco repete o desejo de ver uma “Igreja em saída”, em que cada católico viva a vida como um “dom de si mesmo”.
A Igreja, sacramento universal do amor de Deus pelo mundo, prolonga na história a missão de Jesus e envia-nos por toda a parte para que, através do nosso testemunho da fé e do anúncio do Evangelho, Deus continue a manifestar o seu amor e possa tocar e transformar corações, mentes, corpos, sociedades e culturas em todo o tempo e lugar”, aponta.

A celebração do Dia Mundial das Missões acontece anualmente no terceiro domingo de Outubro (18 de Outubro, em 2020); os donativos recolhidos nas Missas destinam-se a apoiar o trabalho das Obras Missionárias Pontifícias.

 

Maria, mulher, esposa e mãe

Otavio Carmo, Agência Ecclesia

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) defendeu em Fátima, na homilia da Missa internacional aniversária do 13 de Outubro, um novo “paradigma” de liderança na Igreja Católica, com valorização das mulheres nos lugares de decisão, como pede o Papa Francisco.

“Acentuar o feminino e o materno não é apenas buscar um equilíbrio de poderes ou de influências na organização funcional da Igreja. Trata-se é de mudar de paradigma, de mudar o modo de pensar: o mundo não é de quem mais manda, é de quem mais constrói a vida. A liderança eclesial não está fundada sobre a ideia de poder, mas na vida, no cuidado e no serviço”, disse D. José Ornelas.

A valorização do papel da mulher “contribui decisivamente para a valorização dos ministérios na Igreja, homens e mulheres, hoje demasiado concentrados nos ministérios ordenados”.

“A primazia da vida, do serviço, do cuidado do mundo e da humanidade exige a presença de homens e mulheres, na diversidade dos dons de cada um para o serviço dos irmãos e para a missão de construir um mundo mais justo, mais fraterno, mais inclusivo, também nos lugares onde se tomam decisões para todos, como o Papa tem acentuado”, acrescentou.

O presidente da CEP, especialista em estudos bíblicos, afirmou que “junto com o ministério dos apóstolos” – que, segundo a tradição católica, têm como sucessores os bispos -, é necessário valorizar os “sinais femininos, da maternidade, de Maria.

Esta presença feminina e materna de Maria, a que se junta, desde a missão de Jesus e desde o início da Igreja, um grupo de outras mulheres, lança uma luz de entendimento sobre a identidade e a missão da Igreja, não como “um facto secundário”, de “decoração”, perante “o protagonismo masculino”, mas como “um importante e determinante elemento na construção da Igreja”.

O responsável católico convidou os peregrinos a inspirar-se na figura da Virgem Maria, procurando “ousar, para não fazer da fé uma exposição de peças de museu”, e participar na missão da Igreja, “para um mundo melhor”.

 

 

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Folha Informativa 11-10-2020

Domingo XXVIII do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Anthonisz Cornelis, Banquete dos membros da Guarda Cívica de archeiros de Amsterdão

A liturgia do 28º Domingo do Tempo Comum utiliza a imagem do “banquete” para descrever esse mundo de felicidade, de amor e de alegria sem fim que Deus quer oferecer a todos os seus filhos.

Na primeira leitura, Isaías anuncia o “banquete” que um dia Deus vai oferecer a todos os Povos. Acolher o convite de Deus e participar nesse “banquete” é aceitar viver em comunhão com Ele. Dessa comunhão resultará, para o homem, a felicidade total, a vida em abundância.

O Evangelho sugere que é preciso “agarrar” o convite de Deus. Os interesses e as conquistas deste mundo não podem distrair-nos dos desafios de Deus.

A opção que fizemos no dia do nosso baptismo não é “conversa fiada”; mas é um compromisso sério, que deve ser vivido de forma coerente.

DEHONIANOS

 

Fratelli Tutti

Otávio Carmo, Agência Ecclesia

Altdorfer Albrecht, Cristo na cruz entre Maria e São João

Francisco de Roma deixou-se inspirar por Francisco de Assis e colocou-se na esteira do futuro propondo um caminho de fraternidade. O Papa assinou em Assis neste sábado, dia 3 de Outubro, a Encíclica “Fratelli Tutti”, “Todos Irmãos”. Um documento sobre “a fraternidade e a amizade social”.

O desafio da fraternidade

Desde o primeiro dia do seu pontificado, que o Papa Francisco se apresentou ao mundo com a palavra “irmãos”. Logo ali na noite da sua eleição, em Roma, a 13 de Março de 2013 disse: “Irmãos e irmãs, boa noite!”. E lançou um desafio: “Comecemos este caminho, bispo e povo, um caminho de fraternidade e de confiança entre nós.”

Depois da Encíclica “Lumen Fidei”, em 2013 e da “Laudato Si”, em 2015, Francisco dirige-nos um grande desafio. O desafio da fraternidade proposta por Jesus: amar o próximo como a mim mesmo.

“De Lampedusa a Assis, passando por Paris e Abu Dhabi. ‘Fratelli Tutti’ deve ser a encíclica menos romana de que tenho memória, em quase 20 anos de profissão e outros mais de estudo, nesta área.
Tal como a Laudato Si’, em 2015, procurou responder com o conceito de ecologia integral aos desafios das alterações climáticas, em pleno debate que levaria ao Acordo de Paris, a encíclica sobre a fraternidade e a amizade social quer propor valores fundamentais num mundo marcado pela pandemia.
E oferecer uma resposta à questão inicial de todo o edifício ético ocidental, vinda do próprio Deus: Onde está o teu irmão?

Como vimos com a trágica crise dos últimos meses, acima da dignidade humana têm estado valores económicos, jogos políticos e interesses partidários. Mas a vida nunca é relativa.
A este respeito, recordo as perguntas que surgem no primeiro livro da Bíblia, o Génesis, que me parecem fundadoras da ética ocidental: “Onde está o teu irmão?” e “Que [lhe] fizeste?”.
O “interrogatório” de Deus a Caim, após a morte do seu irmão Abel, condensa o apelo fundamental que viria a ser sintetizado no ensinamento de Jesus Cristo: amar o próximo como a si mesmo.

Outro momento central do pontificado parece evidente na escolha do tema da nova encíclica: a fraternidade humana.
Na histórica viagem a Abu Dhabi, a 4 de Fevereiro de 2019, onde assinou com o imã de Al-Azhar uma declaração que condena a violência em nome da religião, o Papa deixou uma frase que define a sua visão do diálogo entre religiões e destas com a sociedade: “Hoje também nós, em nome de Deus, para salvaguardar a paz, precisamos de entrar juntos, como uma única família, numa arca que possa sulcar os mares tempestuosos do mundo: a arca da fraternidade”.
A pandemia devolveu-nos a percepção de limite. Não estávamos prontos para isso, no frenesim de 2020. Temos diante de nós o desafio de retirar consequências éticas e antropológicas da passagem por esta situação: o que somos, quando chega o fim?

A transformação dos mais vulneráveis em sujeitos dispensáveis é uma das marcas mais negativas (e temo que seja permanente) deste tempo. Caímos na globalização da indiferença, que o Papa denunciava na sua primeira viagem, carregada de simbolismo, em 2013, à ilha de Lampedusa.

Habituamo-nos ao sofrimento do outro. Uma crítica terrível, de Francisco, que nos convida agora a redescobrir a amizade social, um conceito que une sujeitos e instituições na construção de uma nova sociedade, marcada pela fraternidade.
Fratelli Tutti, como pedia São Francisco de Assis, irmão de todos.”

Temperança (para além da escassez)

Luigino Bruni

Piero del Pollaiolo, Virtude da Temperança

Temperança é palavra que está a sair do nosso vocabulário quotidiano. Do económico já saiu há muito tempo, para deixar espaço ao seu contrário.
Com a temperança está todo o léxico da ética das virtudes que tende a desaparecer da gramática da vida em comum.
Quando não se consegue ver o positivo do limite é impossível compreender e apreciar as virtudes, de modo especial a temperança, que consiste precisamente em dar valor ao limite que, ao mesmo tempo que restringe o horizonte de visão (como a “sebe da colina do Infinito” de Leopardi), abre «intermináveis espaços que estão para além dela».

Sem temperança não há partilha de bens, não existe a alegria da comunhão. Se não nos educarmos continuamente a delimitar as fronteiras do eu, partilharemos com os outros apenas as migalhas de refeições exageradas; assim não experimentaremos a verdadeira fraternidade, que é fruto de escolhas difíceis de quem sabe limitar razões e âmbitos do “eu”, para edificar as do “nosso”, e as de todos.​

Enquanto ontem existia uma relação clara entre a minha temperança e o meu bem-estar pessoal e o nosso bem comum, hoje na era da complexidade este nexo ofuscou-se. Já não é imediato associar o uso do ar condicionado na minha casa ao aumento da temperatura nas cidades.
A racionalidade económica por si só não ajuda a esta tomada de consciência (pelo contrário); seria necessário o registo lógico da virtude que nos leva a praticar uma acção por termos interiorizado o seu valor intrínseco.
Por isso, se não desmercantilizarmos a sociedade, isto é, se não libertarmos importantes áreas da vida civil, hoje ocupadas e colonizadas pela lógica do preço e do incentivo, cada vez menos entenderemos o valor da sobriedade, da abstinência, do controlo de si mesmo, e cada vez menos o entenderão as crianças.

 

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Folha Informativa 04-10-2020

Domingo XXVII do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Hans Leonard Schäufelein, Parábola dos vinhateiros

A urgência de responder com bons frutos à chamada do Senhor, que nos convida a tornar-nos sua vinha, ajuda-nos a compreender o que há de novo e de original na fé cristã.

Ela não é tanto a soma de preceitos e normas morais mas, antes de tudo, uma proposta de amor que Deus, através de Jesus fez e continua a fazer à Humanidade.

É um convite a entrar nesta história de amor, tornando-nos uma vinha vivaz e aberta, rica de frutos e de esperança para todos.

Somos chamados a sair da vinha para nos pormos ao serviço dos irmãos que não estão connosco, para nos despertarmos reciprocamente e nos encorajarmos, para nos recordarmos que devemos ser vinha do Senhor em todos os ambientes, mesmo naqueles mais longínquos e difíceis.

Papa Francisco

 

O meu compromisso com o Reino de Deus

Dehonianos

Parábola dos vinhateiros, Codex aureus Epternacensis

A “vinha” de que Jesus fala é Israel – o Povo de Deus.
O dono da “vinha” é Deus.
Os “vinhateiros” são os líderes religiosos judaicos – os encarregados de trabalhar a “vinha” e de fazer com que ela produzisse frutos.
Os “servos” enviados pelo “senhor” são, evidentemente, os profetas que os líderes da nação, tantas vezes, perseguiram, apedrejaram e mataram.
O “filho” morto “fora da vinha” é Jesus, assassinado fora dos muros de Jerusalém.

É um quadro de uma gravidade extrema. Os “vinhateiros” não só não entregaram ao “senhor” os frutos que lhe deviam, mas fecharam todos os caminhos de diálogo e recusaram todas as possibilidades de encontro e de entendimento com o “senhor”: maltrataram e apedrejaram os servos enviados pelo “senhor” e assassinaram-lhe o filho.
Diante deste quadro, Jesus interpela directamente os seus ouvintes: “quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?”

A comunidade cristã primitiva encontrou facilmente resposta para esta questão.
Na perspectiva dos primeiros catequistas cristãos, a resposta de Deus à recusa de Israel foi dada em dois movimentos.
Em primeiro lugar, Deus ressuscitou o “filho” que os “vinhateiros” mataram, glorificou-O e constituiu-O “pedra angular” de uma nova construção; em segundo lugar, Deus decidiu retirar a “vinha” das mãos desses “vinhateiros” maus e ingratos e confiá-la a outros “vinhateiros” – a um povo que fizesse a “vinha” produzir bons frutos e que entregasse ao “senhor” os frutos a que ele tem direito.

Entretanto, a Mateus não interessa tanto a questão do filho – ressuscitado, exaltado e colocado como pedra angular da nova construção – quanto a questão da entrega da “vinha” a um outro povo.
Ao sublinhar este aspecto, Mateus tem em vista uma dupla finalidade…

Em primeiro lugar, ele explica dessa forma porque é que, na maioria das comunidades cristãs, os judeus – os primeiros trabalhadores da “vinha” de Deus – eram uma minoria: eles recusaram-se a oferecer frutos bons ao “senhor” da “vinha” e recusaram sempre as tentativas do “senhor” no sentido de uma aproximação e de um compromisso.
Logicamente, o “senhor” escolheu outros “vinhateiros”. O que é decisivo, para a escolha de Deus, não é que os novos trabalhadores da “vinha” sejam judeus ou não judeus; o que é decisivo é que eles estejam dispostos a oferecer ao “senhor” os frutos que lhe são devidos e a acolher o “filho” que o “senhor” enviou ao seu encontro.

Em segundo lugar, Mateus exorta a sua comunidade a produzir frutos verdadeiros que agradem ao “senhor” da “vinha”. Estamos no final do séc. I; passou já o entusiasmo inicial e os crentes da comunidade de Mateus instalaram-se num cristianismo fácil, sem exigência, descomprometido, instalado.

O catequista Mateus aproveita a oportunidade para exortar os irmãos da comunidade a que despertem, a que saiam do comodismo, a que se empenhem, a que dêem frutos próprios do Reino, a que vivam com radicalidade as propostas de Jesus.

O problema fundamental posto por este texto é o da coerência com que vivemos o nosso compromisso com Deus e com o Reino.
Deus não obriga ninguém a aceitar a sua proposta de salvação e a envolver-se com o Reino; mas uma vez que aceitamos trabalhar na sua “vinha”, temos de produzir frutos de amor, de serviço, de doação, de justiça, de paz, de tolerância, de partilha…

O nosso Deus não está disposto a pactuar com situações dúbias, descaracterizadas, amorfas, incoerentes, mentirosas; mas exige coerência, verdade e compromisso.
A parábola convida-nos, antes de mais, a não nos deixarmos cair em esquemas de comodismo, de instalação, de facilidade, de “deixa andar”, mas a levarmos a sério o nosso compromisso com Deus e com o Reino e a darmos frutos consequentes.

O meu compromisso com o Reino é sincero e empenhado? Quais são os frutos que eu produzo?
Quando se trata de fazer opções, ganha o meu comodismo e instalação, ou a minha vontade de servir a construção do Reino?

Fazer frutificar a vinha

Ermes Ronchi, in Avennire

Parábola dos vinhateiros, Codex aureus Epternacensis (pormenor)

A parábola é transparente: a vinha é Israel, os vinhateiros ávidos são as autoridades religiosas, que matarão Jesus como blasfemo. A motivação é a mesma: interesse, poder e dinheiro, ficar com a colheita e a herança. É a voz obscura que grita em cada um de nós: sê o mais forte, o mais astuto, não te importes com a honestidade e serás tu o chefe, o rico, o primeiro. Esta embriaguez por poder e dinheiro é a origem de todas as vindimas de sangue da terra.

O que fará o proprietário? A resposta das autoridades é uma vingança exemplar, novos vinhateiros, novos tributos. A sua ideia de justiça funda-se na eliminação de quem comete erros. Jesus não está de acordo. Ele não fala de fazer morrer, nunca. O seu propósito é fazer frutificar a vinha: será dada a um povo que produza frutos.
A história perene de amor e traição entre Deus e o homem não terminará nem com um fracasso nem com uma vingança, mas com a oferta de uma nova possibilidade: dará a vinha a outros.

Entre Deus e o homem as derrotas servem apenas para realçar melhor o amor de Deus. O sonho de Deus não é nem o tributo finalmente pago nem a condenação a uma pena exemplar para quem errou, mas uma vinha, um mundo que não amadureça mais cachos vermelhos de sangue e amargos de lágrimas, que não seja uma guerra perene pelo poder e pelo dinheiro, mas que amadureça uma vindima de justiça e de paz, a revolução da ternura, a tríplice cura de si, dos outros e da criação.

 

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Folha Informativa 27-09-2020

Domingo XXVI do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

George Pnecz, Parábola dos dois filhos

Lida no contexto do ministério de Jesus, a parábola de hoje dava uma resposta àqueles que O acusavam de acolher os pecadores e os marginais – isto é, aqueles que, de acordo com as “convenções”, disseram não a Deus.

Jesus deixa claro que, na perspectiva de Deus, não interessam as convenções externas, mas a atitude interior.

O que honra a Deus não é o que cumpre ritos externos e que dá “boa impressão” às massas; mas é o que cumpre a vontade de Deus..

DEHONIANOS

 

O caminho da salvação

Mons. José Maria Pereira

Vincent Van Gogh, Trabalhadores na vinha

Jesus, no trecho evangélico, insiste sobre um aspecto importante: sobre a concretude da resposta.
A adesão do homem a Deus é livre, mas deve ser concreta e eficiente.

Não é quem diz “Senhor, Senhor” que entra no Reino dos Céus, mas quem faz a vontade de Deus.
Não quem se contenta com pios sentimentos e veleidades, mas quem arregaça as mangas e traduz em gestos e factos de vida quotidiana a vontade de Deus.
Dos dois filhos da parábola, Jesus diz que prefere aquele que recusa por palavras, mas depois se arrepende e faz aquilo que o pai lhe pediu; prefere a este porque o outro diz sim ao pai, mas depois não faz nada e não vai para a lavoura trabalhar.

Se descuidarmos de procurar com mais diligência consolidar a nossa vocação e eleição (2Pd 1,10), mediante uma contínua conversão do coração, é contra nós que se dirige a Palavra de Jesus: Os publicanos e as meretrizes precedem-vos no Reino de Deus.
A salvação é coisa pessoal e decide-se na atitude que cada um assume diante de Deus e do seu anúncio. Cada um tem a possibilidade de se salvar, mas somente se o quiser; sinal disso é o perdão que Deus dá sempre e generosamente a quem decide deixar a vida do mal para converter–se a Ele de todo o coração.

Diz Santo Agostinho: “Aquele que te criou sem a tua vontade não te salva se tu não queres”.
Sinal dessa liberdade do homem é sua capacidade de se converter do mal para o bem, de mau tornar –se bom e, por outro lado, a capacidade de se perverter, passando de bom para réprobo.

Ninguém, portanto, está condicionado irremediavelmente na vida pelo seu passado.

Sempre em vias de se converter

A. Louf, Ao ritmo do Absoluto

Caravaggio, A conversão de São Paulo a caminho de Damasco

Em que sentido temos nós, ainda hoje, necessidade de conversão? Não a recebemos nós no Baptismo, de uma vez por todas? A conversão seria coisa já feita e nós, agora, encontrar-nos-íamos a caminho, com altos e baixos certamente, caindo e levantando-nos, rumo à perfeição e à santidade. É esta, de facto, a imagem que temos do caminho por onde avançam todos os cristãos.

Substancialmente, tal caminho estaria dividido em três etapas. Primeiro, a ausência de fé e o pecado; depois, o passo decisivo da conversão; por fim, a procura da perfeição. Nós situamo-nos, então, espontaneamente – e não sem uma certa ingenuidade – em qualquer momento da terceira etapa, num estado mais ou menos avançado.

A realidade nem é assim tão simples nem tão complicada, porque a graça é a própria simplicidade. A dificuldade reside antes no facto de que a vida no Espírito Santo não é fácil de discernir. Cruzam-se constantemente diferentes linhas de força, se bem que a confusão – e também a ilusão – sejam possíveis: nem sempre é fácil distinguir essas linhas umas das outras.
De facto, o pecado, a conversão e a graça não são simplesmente três etapas sucessivas. Na vida quotidiana, são por vezes inextricáveis. Crescem juntas, em interdependência: nunca estou totalmente numa ou noutra; estou constantemente nas três ao mesmo tempo.

O pecado, a conversão e a graça são o meu pão e a minha herança de cada dia. Mesmo no Reino dos Céus, na medida em que o vivemos neste mundo, não acontece de outra maneira, é o próprio Jesus quem o diz. Também nele não estão ausentes os pecadores. Pelo contrário: publicanos e prostitutas são os primeiros a entrar, precedendo nele todos os outros (Mt 21, 28-32).

Estas três etapas não representam três graus de uma escala de valores. Não vamos passando de um ao outro, como se subíssemos os degraus duma escada. Não são três galões que possamos coser na manga, um após outro. Não. Antes de morrermos, não podemos dizer nunca um adeus definitivo a qualquer dos três.
Continuamos sempre a ser pecadores, estamos sempre em processo de conversão e, nesta conversão, somos continuamente santificados pelo Espírito de Deus. Porque não podemos, nunca, pertencer a essa categoria de pessoas de quem Jesus afirma «que não têm necessidade de conversão» (Lc 15, 2) porque se crêem justas. Nesse caso, não precisaríamos de Jesus. Talvez nos mantivéssemos ainda a caminho rumo a Deus, mas sozinhos, no sentido mais solitário da palavra, irremediavelmente sós, recaindo constantemente sobre nós próprios, sob a aparência duma santidade que em vão tentaríamos realizar. Cada vez nos sentiríamos mais profundamente frustrados, porque nunca encontraríamos o verdadeiro amor.

É sempre uma ilusão julgar-se convertido uma vez por todas. Não, nós não passamos nunca de pecadores, mas pecadores perdoados, pecadores-em-perdão, pecadores-em-conversão. Neste mundo, não pode haver outra santidade, porque a graça não pode actuar de outra maneira, Converter-se é sempre recomeçar essa mudança interior pela qual a nossa pobreza humana – o que Paulo chama a carne – se volta para a graça de Deus. Da lei da letra, passa à lei do Espírito e da liberdade; da ira à graça. Esta mudança nunca está terminada, está sempre a começar. Antão, o Grande, Patriarca e Pai de todos os monges, dizia-o de uma maneira lapidar: «Todas as manhãs digo a mim mesmo: hoje começo». E Abba Poimen, o segundo entre os Padres do deserto, o mais ilustre depois de Antão, a quem felicitavam, no leito de morte, de ter vivido uma vida feliz e virtuosa, e de poder confiadamente apresentar-se perante Deus, respondeu: «Tenho ainda de começar, apenas comecei a converter-me». E chorava com pena.

De facto, a conversão é sempre uma coisa que leva tempo. O homem precisa de tempo, e Deus também quer precisar de tempo connosco. Partiríamos de uma imagem de homem absolutamente errada se pensássemos que as coisas importantes da vida humana podem realizar-se imediatamente e de uma vez para sempre. O homem está feito de tal maneira que precisa de tempo para crescer, amadurecer e pôr em acção todas as suas capacidades. Deus sabe-o melhor do que nós. E, por isso, espera, não desiste. É indulgente, longânime. Espera-nos como um pescador paciente, como escrevia um poeta. To chrêston tou Theou eis metanoian se agei (Rm 2, 4), escreve Paulo: «A bondade de Deus convida-te à conversão». Não a ira, mas antes to chrêston, o seu afecto, bondade, paciência.

No prólogo da sua Regra, S. Bento comenta-o de modo impressionante: Deus vai todos os dias à procura do seu operário, diz ele, e o tempo que nos dá é ad inducias, uma trégua, um dom, um tempo de graça que nos é concedido gratuitamente. Um tempo de que podemos servir-nos para encontrar Deus uma vez mais, e encontrá-l’O sempre mais na sua admirável misericórdia. Não é senão mais tarde, após a morte, que vamos poder viver fora do tempo e para sempre. Hoje, o tempo é-nos dado para conhecer a Deus cada vez melhor.
É sempre tempo de conversão e de graça, dom da sua misericórdia.

 

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Folha Informativa 20-09-2020

Domingo XXV do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Salomon Koninck, Parábola dos trabalhadores na vinha

Para Deus, não é decisiva a hora a que se respondeu ao seu apelo; o que é decisivo é que se tenha respondido ao seu convite para trabalhar na vinha
do Reino.

Para Deus, não há tratamento “especial” por antiguidade; para Deus, todos os seus filhos são iguais e merecem o seu amor.

Para Jesus, Deus não é um contabilista, sempre de lápis na mão a fazer as contas dos homens para lhes pagar conforme os seus merecimentos; mas é um pai, cheio de bondade, que ama todos os seus filhos por igual e que derrama sobre todos, sem excepção, o seu amor.

DEHONIANOS

A Caminho: Catequese 2020-2021

Pe. António Borges

Giorgio Bondone, a fuga para o Egipto

Como foi divulgado, a Paróquia de São Francisco Xavier abriu as inscrições para a Catequese 2020-2021 no passado dia 08 de Setembro, dia da Natividade de Nossa Senhora.

No dia 13 de Outubro, dia da última aparição de Nossa Senhora, em Fátima, aos três pastorinhos, iniciaremos as sessões de Catequese.

Quer isto dizer que Maria será nossa Guia e Mestra ao encontro de Jesus:
• Ela inspira os trabalhos de preparação dos novos espaços de catequese;
• Como Mãe atenta, ela está na equipa de acolhimento, que vai recomendar todas as regras de saúde, para que as sessões de Catequese tenham toda a segurança de saúde;
• Como pedagoga, Ela faz parte da formação dos Catequistas;
• Como Sede de Sabedoria, Ela sugere o planeamento e acompanha as diligências organizativas;
• Como Causa da nossa Alegria, Ela, connosco, irá prepara todas as Celebrações da nossa Fé.

Somos todos convidados a ser bons filhos, pondo cada um a render os dons que recebeu.
A Coordenação da Catequese 2020-2021 será feita pela Elsa França, pela Leonor Ferreira e pelo Pe. António Borges.

«Se és indiferente [a Deus], aceita arriscar: não ficarás desiludido»

Papa Francisco, Março de 2013

Ascensão, Giotto di Bondone

O Papa Francisco dirigiu um apelo aos não crentes e às pessoas que se afastaram de Cristo por pensarem que não conseguem ser fiéis, para que se voltem a aproximar de Deus, na confiança de que Ele as espera com um abraço.

«Aceita (…) que Jesus Ressuscitado entre na tua vida, acolhe-O como amigo, com confiança: Ele é a vida! Se até agora estiveste longe d’Ele, basta que faças um pequeno passo e Ele te acolherá de braços abertos. Se és indiferente, aceita arriscar: não ficarás desiludido», afirmou Francisco na homilia da sua primeira Vigília Pascal como papa, no Vaticano. «Se te parece difícil segui-l’O, não tenhas medo, entrega-te a Ele, podes estar seguro de que Ele está perto de ti, está contigo e dar-te-á a paz que procuras e a força para viver como Ele quer», declarou na celebração que assinala a ressurreição de Jesus e que é considerada o centro do ano litúrgico da Igreja Católica.

Deus é sempre o novo que muda a vida e as convicções de que dele se aproxima, mas a perspectiva de mudança não deve constituir um obstáculo, apontou: «Frequentemente mete-nos medo a novidade, incluindo a novidade que Deus nos traz, a novidade que Deus nos pede. (…) Tememos as surpresas de Deus; temos medo das surpresas de Deus! Ele não cessa de nos surpreender!».

A importância de recordar os gestos de Cristo foi também sublinhada pelo papa: «Fazer memória daquilo que Deus fez e continua a fazer por mim, por nós, fazer memória do caminho percorrido; e isto abre de par em par o coração à esperança para o futuro. Aprendamos a fazer memória daquilo que Deus fez na nossa vida».

A evocação de Cristo não tem como finalidade a mera lembrança de acontecimentos históricos porque Ele, vincou o papa, continua vivo e actuante: «Quantas vezes precisamos que o amor nos diga: Porque buscais o Vivente entre os mortos? Os problemas, as preocupações de todos os dias tendem a fechar-nos em nós mesmos, na tristeza, na amargura… e aí está a morte. Não procuremos aí o Vivente».
«Jesus já não está no passado, mas vive no presente e lança-Se para o futuro: é o “hoje” eterno de Deus. Assim se apresenta a novidade de Deus diante dos olhos das mulheres, dos discípulos, de todos nós: a vitória sobre o pecado, sobre o mal, sobre a morte, sobre tudo o que oprime a vida e lhe dá um rosto menos humano. E isto é uma mensagem dirigida a mim, a ti, amada irmã e amado irmão», acrescentou.

 

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Folha Informativa 13-09-2020

Domingo XXIV do Tempo Comum (PDF)  TEXTO

Andrey Yanev, Perdão

Senhor, quanto vieres na tua glória, não Te lembres somente dos homens de boa vontade; lembra-Te também dos homens de má vontade.

E, no dia do Julgamento, não Te lembres apenas das crueldades e violências que eles praticaram: lembra-Te também dos frutos que produzimos por causa daquilo que eles nos fizeram.

Lembra-Te da paciência, da coragem, da confraternização, da humildade, da grandeza de alma e da fidelidade que os nossos carrascos acabaram por despertar em cada um de nós.

Permite, então, Senhor, que os frutos em nós despertados possam servir também para salvar esses homens

Oração encontrada entre os escassos pertences de um judeu, morto num campo de concentração

Caminhar com Cristo em comunidade

Pe. António Borges

 

Ferdinand Georg Waldmüller, Encontro com a samaritana

O Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, com base na Constituição Sinodal de Lisboa (CSL), propõe para o novo ano pastoral 2020-2021 dois grandes motes:
1. “sair com Cristo ao encontro de todas as periferias” (CSL, 53) e
2. “fazer da Igreja uma rede de relações fraternas” (CSL, 60).

• Todos somos necessários na vida eclesial.
Todos somos convidados a crescer em co-responsabilidade e em solidariedade.
Não basta querer bem aos outros; importa que os outros sintam que são considerados e que são relevantes.
Nas circunstâncias históricas que atravessamos são-nos pedidos esforços acrescidos para o bem comum.

• Criar condições para o encontro com Cristo e para a construção de relações fraternas requer o cuidado da “casa comum”.
A preocupação ecológica integral interpela-nos à conversão:
1. para a gratidão;
2. para a comunhão universal;
3. para o desenvolvimento do melhor que cada um tem para dar, de modo a ajudar a construir soluções para os dramas da vida e do mundo.

A equação do Perdão

Papa Francisco, 01 de Março de 2016

Hans von Tubigen, O bom ladrão

Dirijo-me a Deus, recordando-lhe a sua misericórdia e peço-Lhe perdão, mas o perdão como Deus o concede.

Há uma característica deste perdão de Deus, cuja perfeição é incompreensível a nós homens, pois Ele chega a “esquecer-se” dos nossos pecados. Quando Deus perdoa, o seu perdão é tão grande que é como se “Se esquecesse”.
Assim, uma vez que estamos em paz com Deus pela sua misericórdia, se perguntássemos ao Senhor: «Mas recordas-Te daquela má acção que pratiquei?», a resposta poderia ser: «Qual? Não recordo…».
Acontece o oposto daquilo nós fazemos e que emerge com frequências das nossas conversas: “Mas este fez isto e aquilo…”. Nós não nos esquecemos e de muitas pessoas conservamos a história antiga, média, medieval e moderna. E isto porque não temos um coração misericordioso.

No trecho litúrgico do Evangelho de Mateus o protagonista é Pedro, o qual tinha ouvido o Senhor falar muitas vezes sobre perdão e misericórdia.
O apóstolo, evidentemente, na sua simplicidade — «não tinha estudado, não era formado, era um pescador» — não tinha compreendido plenamente o significado daquelas palavras. Portanto aproximou-se de Jesus e disse-Lhe: “Senhor, se meu irmão comete culpas contra mim, quantas vezes devo perdoar-lhe? Até sete vezes?”». Sete vezes: talvez lhe parecesse até «generoso». Mas Jesus responde-lhe: “Não te digo até sete, mas setenta vezes sete”.

Para o explicar melhor, Jesus narra a parábola do rei que deseja fazer as contas com os seus servos. A ele, lê-se nas Escrituras, é apresentado «um que lhe devia dez mil talentos», uma quantia enorme para a qual, segundo a lei daquele tempo, teria sido obrigado a vender tudo até a esposa, os filhos e os campos. A este ponto, disse o Papa, retomando a narração evangélica, o devedor começou a chorar, a pedir misericórdia, perdão, até que o dono sentiu “compaixão”.
«Compaixão» é outra palavra que se aproxima facilmente do conceito de misericórdia. Com efeito, quando nos Evangelhos se fala de Jesus e se descreve o seu encontro com um doente lê-se que Ele teve “compaixão” por ele.

A parábola então continua com o dono que deixou ir o servo e perdoou a dívida. Tratava-se de uma grande dívida. Por seu lado, o servo, encontrando-se com um companheiro que tinha uma dívida com ele de pouco valor, queria mandá-lo para a prisão.
Aquele homem, não compreendeu o que o seu rei fez com ele e assim comportou-se de maneira egoísta. Na conclusão da narração o rei chama o servo ao qual tinha perdoado a dívida e manda-o prender porque não foi «generoso». Isto é, não fez ao seu companheiro o que Deus fez a ele.
Para obter um ensinamento válido para todos evoquemos a frase do Pai-Nosso na qual dizemos: «Perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido».

Trata-se de uma equação, ou seja: Se tu não fores capaz de perdoar, como te poderá perdoar Deus? O Senhor quer perdoar-te, mas não poderá se tu tens o coração fechado, e a misericórdia não pode entrar. Alguém poderia objectar: «Padre, eu perdoo mas não posso esquecer o que me fizeram…».
A resposta é: «Pede ao Senhor que te ajude a esquecer». Contudo, se é verdade que se pode perdoar, mas esquecer nem sempre se consegue, certamente não se pode aceitar a atitude do ”perdoar” e “vais pagar”.
É preciso perdoar como Deus perdoa, o qual perdoa ao máximo».
Não é fácil perdoar, não é fácil, em muitas famílias há irmãos que discutem pela herança dos pais e não se falam; muitos casais que discutem e cresce o ódio e a família acaba destruída. Estas pessoas não são capazes de perdoar. Este é o mal.

Que a Quaresma nos prepare o coração para receber o perdão de Deus. Mas recebê-lo e depois fazer o mesmo com os outros: perdoar de coração. Isto é, ter uma atitude que nos leve a dizer talvez nunca me cumprimentas mas no meu coração perdoei-te.
Esta é a melhor maneira para nos aproximarmos deste aspecto tão grande de Deus que é a misericórdia. Com efeito, perdoando, abrimos o nosso coração para que a misericórdia de Deus entre e nos perdoe. E todos temos motivos para pedir o perdão de Deus: Perdoemos e seremos perdoados

 

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